02/08/2003
Número - 326



Opinião Acadêmica

VOCABULÁRIO DE TERMOS PSICANALÍTICOS

A GENEALOGIA DO CONCEITO DE PSICOSE NO PENSAMENTO DE LACAN

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


       A) Anos 30:

       Naquele momento o ego, no duplo sentido que está em Freud (visto ora como o ego-ideal inconsciente, ora como a fonte da identificação imaginária de caráter narcísico) era tomado como causa do conhecimento paranóico, ou seja, como um núcleo, imagético e/ou semântico, da fundação paranóica do conhecimento, cujo ícone é, para Lacan, Prometeu. E tal procedimento já diferia da consideração deste mesmo ego em relação à identificação narcísica, pois lá teríamos a inclusão do ego-ideal (inconsciente) hiperdeterminada à, também, inclusão do ego narcísico. Isto tipificava a identificação ao semelhante e conduzia, via condensação, à neurose. Enquanto isto, na psicose, teríamos a neutralidade e/ou a indiferença para com o semelhante quando imageticamente tomado; isto é, lá ter-se-ia a obrigatória ausência da egoicidade narcísica. São, neste momento, fontes textuais, em Lacan as referências isoladas ao tema da psicose em Os Complexos Familiares ("conversão do narcisismo [egóico e objetal] em objeto [das Ding]") e, sobretudo, a sua tese de doutoramento: A Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade. Na psicose, a identificação imagética será homeomórfica, conforme o Estádio do Espelho, já na identificação egóica, de caráter imaginário, ela será heteromórfica, também no sentido que este termo possui em o Estádio do Espelho;

B) Anos 50:

       Trata-se, agora, do Lacan do Classicismo que se ocupa do tema da modernidade e investiga o lugar conceitual da "loucura" em suas relações com a linguagem, com o inconsciente e com o campo da palavra. Aposta na distinção entre psicose e delírio, vendo-a ora com este procedimento explícito, ora sem ele de forma explícita, e conclui pela existência irrefutável de uma "psicose com delírio", mas se preocupa com a "passagem" entre ambos os estados, por isso supõe, provisoriamente, ali, uma pré-psicose. Distingue a alucinação verbal, a suposição de uma psicose "ainda sem delírio" explícito, da "psicose com delírio" (explícito), manifestado de forma discursiva ("salsicheiro") ou em ato. Vê esta passagem, posteriormente, a partir de questões como a relação entre a fenda não suturável e a impossibilidade de a psicose produzir o Real-do-Pai. Porém, a partir de 1953 e efetivado em 1955 e 1956 e publicado em 1966, teremos o texto que o leva ao abandono das imprecisas suposições relativas à pré-psicose, que os incautos até hoje chamam de "borderline" e, inclusive, atribuem tal feito a Lacan, que jamais utilizou este termo. Em tempo: Lacan nem sempre supera integralmente a sua hipótese e/ou concepção anterior sobre psicose, como exemplo disto vemos a questão da distinção entre homossexualismo e psicose, que ele jamais revogou. Pois, ao contrário de Freud, não via a paranóia como uma forma de explicitação do delírio homossexual provocado pela eclosão da Verwerfung. Para Lacan, nesta época, a Verwerfung passa a significar foraclusão do Nome-do-Pai e a paranóia, fundada desta forma, apresentaria como efeito, e não como causa, o delírio homossexual, seja por Beatitude (Schreber), seja por erotomania ("Homem dos Lobos"). Só que, ao adotar a foraclusão do Nome-do-Pai como versão conceitual da Verwerfung freudiana, abandona de vez, a nosso juízo, a hipótese relativa ao estatuto da "loucura" e vê, daí em diante, basta consultar-se, no RSI, a tipificação da identificação narcísica, a eclosão da citada foraclusão como fruto da oposição Bejahung X Verwerfung e, por conseguinte, vai modalizar a psicose através de suas manifestações paranóicas e esquizofrênicas, abandonando de vez o tema da personalidade. Seus textos de referência, nesta época, são As Psicoses e Os Escritos;

C) Anos 70:

       A partir das reflexões a este respeito desenvolvidas em O Sintoma (O Saber do Psicanalista) de 1973, Lacan apresenta uma nova conceituação de psicose, que não exclui, mas se vem acoplar, como efeito, à foraclusão do Nome-do-Pai, que se amplia em relação à questão do Symptôme, quando se produz por "colagem" de R, S e I. Trata-se da categoria de Symptôme (homofonia que, em língua francesa, permite dizê-lo de Joyce: o "Santo-Homem") e que em língua portuguesa é corretamente vertida, quando em relação a Joyce, como "santificação do sintoma" e de um modo geral, quando obtido por artifício, ou seja, por "naturalização" e/ou "savoir-faire", como sintoma. Supõe ali "Symptôme" no lugar, outrora, do delírio, assim sendo, neste jogo de palavras Lacan pretende distinguir a função do 4º elemento (4º elo e/ou 4º nó) da junção do R, S, I nas psicoses. Ali, já se substituía a junção R/I por uma nova concepção de junção, por "colagem", de R, S, I operada por um Symptôme natural com valor de integralidade da verdade, o que transformava esta "palavra-plena" em certeza paranóica.

       Já em Joyce, por distinção matêmica para com Schreber, o 4º nó produz-se em "trevo", realizando, no nível da autoria, uma mediação parcialmente simbólica ausente na psicose, feita através da sublimação ("obra-em-progresso") cujo efeito foi a santidade, ou seja, o Symptôme com valor de reinvenção autoral do nome. Mas, na psicose, este suposto 4º elemento, produz-se por identificação mimética, homeomórfica, e não mediatiza o real, sendo assim será o índice de um não entrelaçamento, ou seja, da "colagem" entre R, S, I. Assim, este suposto 4º elemento, por ser "colado" à junção de R, S, I produzirá dois efeitos: a) a suposição de "ser um Symptôme" (incluir-se, por "dom natural", na origem desta junção); b) portar-se um Symptôme, "ter um Symptôme" (ser o duplo especular deste suposto 4º elemento, que tem valor de A, "colante" de R, S, I também por desígnio imanente).

       A partir daí se estabelece conceitualmente a distinção, do ponto de vista da metáfora paterna (adotada e/ou perversificada) entre o Édipo (o Nome-do-Pai Simbólico), a foraclusão do Nome-do-Pai (psicoses) e o Pai-do-Nome (homofonia produzida por jogo de palavras análogo ao que instituiu os Nãos-do-Pai e tendente a ter valor conceitual) que é próprio das neuroses. Neste mister tem-se a subtroca, do ponto de vista do sujeito, entre os lugares de sintoma fundamental (Sinthome) e da Castração do Pai, razão de ser do - j. Concluindo, ver-se-á que, deste ponto de vista, para além do texto de Freud, a opção freudiana pela Verwerfung é reapresentada por Lacan pela suposição de "ser um Symptôme", ou seja, de, por mimetismo natural, ser um suposto 4º elemento "colado" à junção R, S, I. E se na neurose, graças ao recalque, temos o Pai-do-Nome, que é fruto da conjugação, por engano de Sentido, da metáfora paterna, onde se inverte a relação entre a Castração do pai e o sintoma fundamental (Sinthome) do Sujeito, que se articula ao Real-do-Pai; no Édipo iremos ter, como sinônimo de acerto de gozo fálico, o Nome-do-Pai Simbólico que, idealizado na Castração, torna-se o Pai-Ideal, o Falo imaginário. Mas, na psicose, a foraclusão do Nome-do-Pai modula o Campo da Verwerfung em direção à naturalização do Symptôme como índice de Bem-Supremo, analogia com das Ding (das Gute). E desta forma, também, para além do texto de Freud, teremos a opção pela Verworfen, "colada" ao S(A), para isto aposto no lugar de objeto a, que "sofrerá" (por suposição de identificação mimética e homeomórfica a um suposto 4o elo, no caso o A, quando incluído e "colado" na junção R, S, I) os efeitos delirantes da "palavra-plena", e sabe-se que, se vigente fosse o Nome-do-Pai simbólico, na produção do saber no lugar do gozo, cogitaríamos, como no século XVI, em Leonardo da Vinci, da sublimação quando própria da arte e da ciência. Mas aqui cogitamos de uma verdade natural e integral com valor de certeza. E isto distingue, no nível da autoria da própria palavra, a "santidade" de Joyce da Verworfen. No Édipo entrelaça-se RSI, por ∑, por metáfora; em Joyce se o faz, parcialmente, em "trevo", pela sublimação; e nas psicoses R, S e I entram em junção por "colagem" da "palavra-plena".

       Em suma, faz-se necessário, para que se observe o rigor do pensamento clínico de Lacan, distinguir-se sempre neurose (Pai-do-Nome, tido como efeito sintomático da Potência e/ou Servidão do Pai Imaginário), perversão (desmentido do Nome + desejo anônimo) e psicoses (foraclusão do Nome-do-Pai + Sujeito sem nome). Para tal, teremos também que separar: a) a identificação ao sintoma que é própria, na indicação do lugar de produção, do Discurso do Analista, ali significando o "amar o próprio sintoma, como a si mesmo" e relativa às questões do "fim-de-análise"; b) da subtroca entre a Castração do Pai e o Sinthome do sujeito, razão de ser do - j na Castração; c) da suposição de ser um Symptôme, sem mediação simbólica alguma, mas usando a "colagem" como uma "criação" literal e/ou um "dom" natural, e a fazendo incidir sobre R, S, I, ou seja, é o: "amar o próprio delírio". Ali este elo "colante" toma o outrora lugar, se vigente fosse a suplência simbólica do Real, de entrelaçamento conceitual e intromistura do Sujeito. Tal procedimento é próprio das psicoses quando ali se articula à foraclusão do Nome-do-Pai simbólico e neste lugar, nos termos da Verwerfung, a severidade de um Pai-Real instala o A como fonte da verdade/certeza; d) da suposição de portar (ter um Symptôme), suposição de que o S(A) irá incluir-se no lugar de duplo especular do A, por desígnio e/ou "dom natural", por efeito de "cola" de R, S, I. Tal procedimento é próprio das psicoses e resgata a íntima relação entre a Verworfen e o S(A) como duplo especular do A. É preciso, contudo, esclarecer-se que não se trata, aí, de um Sinthome, sequer do Symptôme (santificado) de Joyce, mas de um Symptôme que incorporou o lugar e função do delírio. Até porque Sinthome é a suposição de que o sexo é a classe lógica a que não se pertence, índice de reconhecimento da diferença sexual no sentido em que uma mulher é sintoma para o Homem. E é também efeito de o Sujeito nomeado ser portador de marca e/ou traço fálico (sintoma e fantasia) do Nome-do-Pai simbólico, o que o faz representar estes procedimentos no Campo do Outro como a ali existente reciprocidade entre S1 e S2. Na psicose, trata-se de um Symptôme específico que funciona como uma suposição natural própria e que é tida como um "dom imanente", só que de origem e efeito delirantes. Expande-se pela "palavra-plena", "cola e cola-se" na junção R, S, I, sem mediação simbólica alguma, e não se pode negar que, via sublimação e/ou autoria, a verdade Joyceana, santa e herética, é e tem estrutura de ficção, por ser acossada pelo Saber, originado de seu princípio gótico de legado tomasiano. Ali, como na transferência (luto do luto), faz-se um luto não fálico requerido, de forma contingente, pela melancolia. Pois, se a sublimação conjuga o Gozo-do-Outro como acerto, a melancolia o fará como engano. Logo, se trata do artifício autoral e sublimatório de um Symptôme.


Bibliografia

1 - LACAN, Jacques. De la psychose paranöiaque dans ses relations avec la personalité, Paris, Seuil, 1965 (ver, também, a 1a edição brasileira, 1987, Rio de Janeiro, Forense (Universitária)).
2 - LACAN, Jacques. Os Complexos Familiares, RJ, Jorge Zahar, 1987.
3 - LACAN, Jacques. Os Escritos, RJ, Jorge Zahar, 1998.
4 - LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre III - Les Psychoses (1955/1956), Paris, Seuil, 1981.
5 - LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre XXIII - Le Sinthome (Le Savoir du Pschychanalyste), inédit, 1976.
6 - MENDONÇA, A.S. As Psicoses. In. A Clínica em Lacan (et alii). A Transmissão, ano 9, nº 10, 2002, tomo II, Porto Alegre, Edições do CEL.


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Prof. Titular UFF, Doutor em Letras UFRJ, Docente-Livre pela UERJ, Diretor de Ensino do CEL/RS.
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