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Opinião Acadêmica
VOCABULÁRIO DE TERMOS PSICANALÍTICOS
SUBLIMAÇÃO
Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça
Na obra freudiana sua conceituação, em progresso, será encontrada básica e, principalmente, em dois textos, a saber: Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância(1) (1910), e Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade (2) (1905), mas, secundariamente, ainda teremos: Inibição, Sintoma e Angústia (3) (1926) tratando parcialmente do mesmo tema. Freud a descreverá levando-se em conta, então, a existência de suas três possibilidades:
Assim, o seu 1o tipo denominar-se-á de comparecimento compulsivo (na obsessão). Será, então, equivalente à Inibição, ou seja, ter-se-á a interrupção do circuito pulsional, dessexualizando-o, por ali se ter idealizado, de forma não fálica, a figura humana, que como imagem, tornar-se-ía sexualmente inatingível. Assim, como se disse, comparece, então, na esfera sintomática da neurose obsessiva enquanto equivalente ao "mito do Amor". Por esta razão Lacan a irá articular, juntamente com a anamorfose, ao "amor cortês" provençal. Ali se estabelece o culto à pessoa da dama como um marco inatingível e assexuado da idealização da Mulher, dito corte À Mulher. É este o lugar da obsessão, que, em seu "mito individual", o confere ao Desejo de Mãe, por hiperdeterminá-lo, sintomaticamente, à verdade (não toda).
Já o seu 2o tipo denominar-se-á de inibição própria do pensamento. Nela comparece a interrupção, já em seqüência, em andamento, do circuito pulsional e sua substituição pela Idéia, imagem e/ou "dignidade de Coisa". Este movimento se caracteriza propriamente como uma Sublimação da pulsão (é o seu movimento estrutural mais geral).
Contudo, o seu 3o tipo será mais raro, ele existirá como alternativa à Castração. E se no 1o tipo a Sublimação complementava a Castração em sua lide de recalque, neste ela está no próprio lugar do recalque. E se a Castração nos remete, via recalque, ao Ics e ao sintoma fálico, a Sublimação, neste lugar, nos remeterá ao sintoma não-fálico, isto é, a juízo de Lacan, ao Sintoma quando santificado (Symptôme). Ou seja, para se gerar um Sintoma ou faliciza-se ou se invoca o Gozo do Outro, sublima-se e/ou recalca-se. Liga-se, então, ao que Freud denominou, impropriamente, de "a poderosa pulsão de pesquisa". Lá se irá, previamente, sublimar o circuito pulsional por inteiro. Lá não se relega ao Ics nenhum componente pulsional do Desejo, pois se irá constituir a Idéia (Beleza, Saber) no lugar de um circuito pulsional precocemente interrompido. Em Freud, tal evento, se articula à figura de Leonardo da Vinci, e em Lacan, implicitamente, também. É, a juízo de Freud, responsável integral pela gênese tanto da arte como da ciência, e tem, tanto para Freud quanto para Lacan, em Leonardo da Vinci sua máxima representação.
Todavia, na obra lacaneana, tal tema é lançado alternativamente à questão das "duas mães", num segmento comparativo que incluía Hans e Don Juan em A Relação de Objeto(4) (anos 50), e terá prosseguimento no Seminário intitulado de: A Ética da Psicanálise (5), bem como no texto : L'Etourdit (6), e também nos Seminários : A Transferência (7), e Le Non-dupes errant (8). Este pensamento continuará por considerar Leonardo da Vinci a expressão exemplar do 3o tipo de Sublimação e vai vê-lo, conforme Alexandre Koyré (9) o fez, como a indicação de um século, neste mister, sublimatório por excelência. Pois o quinhentismo nos legou tanto a Utopia de Morus e Camões, quanto a similitude, indicada na obra de Galileu, entre Arte e Ciência, como bem destacou Erwin Panofski (10). E foi sublimatório, por excelência, nas duas vias apontadas por Freud: a da Arte e da Ciência. Nela, na forma sublimatória, coloca-se a representação eidética (A Beleza e/ou Logos) no lugar do gozo. Porém, Lacan também irá vê-la como uma manifestação singular de Amor. E, como as demais, virá, não só alternativamente à Transferência (o que nos é indicado em dois Seminários: A Transferência e Os Nomes do Pai), mas também para suprir a suposição da existência, ou seja, a "inexistência da relação sexual". Trata-se da forma Imaginária de idealização do simbolismo do Amor, onde não se ama o delírio como na psicose, não se ama o sintoma como na transferência quando hiperdeterminada ao Discurso do Analista, ama-se o próprio Amor: Não se trata do Amor pela verdade, como na transferência, mas do "verdadeiro Amor". É o lugar dado à pessoa da dama inatingível na letra medieval, é o lugar dado ao analista e ao objeto a como expressão da pulsão escópica no Barroco/Maneirismo velasqueano (11), é o lugar dado no homoerotismo da pederastia Ática à beleza como pré-condição da perversão sexual (e por isto Lacan a aproximou do "amor-cortês" medieval), e enfim, é o lugar do amor na helenista "Arte de Amar" de Ovídio.
Não poderá jamais comparecer em três tipos de ocorrências:
a) na Perversão: Lá não se interrompe e/ou suspende o circuito pulsional, pois a obrigação fálica própria da suposição da "lei do gozo", que é, por via fantasmática, perversa, sádica ou de Sade, torna o Desejo supostamente equivalente ao Princípio do Prazer, apondo o último no lugar do Gozo;
b) na Psicose: Lá não vige a Idéia como herdeira sintomática, por via não-fálica do caráter parcial da pulsão substituível. Lá vigora a suposição delirante de dizê-la por inteiro na "palavra-plena", que é, por isto, dotada da certeza cartesiana; ali equivale ao "ser um Symptôme";
c) na Melancolia: Alí vige, também, a interrupção, só que momentânea, do circuito pulsional, mas convoca, para repará-lo, o luto fálico e o engano e não o acerto de Gozo do Outro.
Em suma, a Sublimação (12) não é uma "parte interna" de outras estruturas clínicas, é um evento clínico singular. E se a "Verwerfung" opõe-se à "Bejahung", a Sublimação é uma alternativa sintomática ao recalque. Admitirá, como em Joyce, um sintoma não-fálico e não será desmentida, como a Castração, pela Perversão. Por isto poderemos "entender" que ali, tanto quanto na transferência (o luto do luto) fez-se, em Joyce, pela autoria, (pois a Sublimação na arte hiperdetermina-se, via autoria, à mestria) o luto não-fálico da Psicose. Tratava-se de um artifício autoral ("savoir-faire") próprio de um Symptôme, que produziu o nome próprio como se fora o luto da Psicose.
Referências Bibliográficas:
1) FREUD, Sigmund. (1910). Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância. In.:Obras
Completas. RJ, Imago, 1969, volume 11.
2) FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a sexualidade. In.: Obras Completas. RJ, Imago, 1969, volume 7.
3) FREUD, Sigmund. (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. In.: Obras Completas. RJ, Imago, 1969, volume 20.
4) LACAN, Jacques. ( 1956/1957 ). O Seminário, Livro 4, A Relação de Objeto. RJ, Jorge
Zahar, 1995.
5) LACAN, Jacques. (1959/1960 ). O Seminário, Livro 7, A Ética da Psicanálise ( L' Etique de la Psychanalyse ). Paris, Seuil, 1986.
6) LACAN, Jacques. L' Etourdit. In.: Scilicet, n° 4. Paris, Seuil, 1973.
7) LACAN, Jacques. (1960/1961). O Seminário, Livro 8, A Transferência ( Le Transfert). Paris, Seuil, 1991.
8) LACAN, Jacques. (1973/1974) O Seminário, Livro 21, Le Non-dupes-errant. Paris,
Inédit (cópia particular).
9) KOYRÉ, Alexandre. Estudos da História do Pensamento Científico. Brasília, Forense/
UNB, 1982.
10) PANOFSKY,Erwin. Galileu como crítico das Artes, In.: Critique (set/out 1955), Paris,
(cf. Galileo as a critic of Arts, Haia, Martinus Nijoff, 1954).
11) MENDONÇA, Antônio.Sérgio. O "Espelho de Boehme, da Vinci, Velasques e Lacan".
In.: ...Lacan: da Magia à Psicanálise, Transmissão, Ano 10, nº11, 2001/2002,
Edições do CEL, Porto Alegre.
12)MENDONÇA, Antônio.Sérgio. "O Inconsciente por testemunha". In.:...Bovarismo $ Paixão, RJ, Antares, 1992.
Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Prof. Titular UFF, Doutor em Letras UFRJ, Docente-Livre pela UERJ, Diretor de Ensino do CEL/RS.
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