31/08/2003
Número - 329

ARQUIVO
Opinião Acadêmica


Opinião Acadêmica

VOCABULÁRIO DE TERMOS PSICANALÍTICOS

SUBLIMAÇÃO

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


       Na obra freudiana sua conceituação, em progresso, será encontrada básica e, principalmente, em dois textos, a saber: Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância(1) (1910), e Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade (2) (1905), mas, secundariamente, ainda teremos: Inibição, Sintoma e Angústia (3) (1926) tratando parcialmente do mesmo tema. Freud a descreverá levando-se em conta, então, a existência de suas três possibilidades:

       Assim, o seu 1o tipo denominar-se-á de comparecimento compulsivo (na obsessão). Será, então, equivalente à Inibição, ou seja, ter-se-á a interrupção do circuito pulsional, dessexualizando-o, por ali se ter idealizado, de forma não fálica, a figura humana, que como imagem, tornar-se-ía sexualmente inatingível. Assim, como se disse, comparece, então, na esfera sintomática da neurose obsessiva enquanto equivalente ao "mito do Amor". Por esta razão Lacan a irá articular, juntamente com a anamorfose, ao "amor cortês" provençal. Ali se estabelece o culto à pessoa da dama como um marco inatingível e assexuado da idealização da Mulher, dito corte À Mulher. É este o lugar da obsessão, que, em seu "mito individual", o confere ao Desejo de Mãe, por hiperdeterminá-lo, sintomaticamente, à verdade (não toda).

       Já o seu 2o tipo denominar-se-á de inibição própria do pensamento. Nela comparece a interrupção, já em seqüência, em andamento, do circuito pulsional e sua substituição pela Idéia, imagem e/ou "dignidade de Coisa". Este movimento se caracteriza propriamente como uma Sublimação da pulsão (é o seu movimento estrutural mais geral).

       Contudo, o seu 3o tipo será mais raro, ele existirá como alternativa à Castração. E se no 1o tipo a Sublimação complementava a Castração em sua lide de recalque, neste ela está no próprio lugar do recalque. E se a Castração nos remete, via recalque, ao Ics e ao sintoma fálico, a Sublimação, neste lugar, nos remeterá ao sintoma não-fálico, isto é, a juízo de Lacan, ao Sintoma quando santificado (Symptôme). Ou seja, para se gerar um Sintoma ou faliciza-se ou se invoca o Gozo do Outro, sublima-se e/ou recalca-se. Liga-se, então, ao que Freud denominou, impropriamente, de "a poderosa pulsão de pesquisa". Lá se irá, previamente, sublimar o circuito pulsional por inteiro. Lá não se relega ao Ics nenhum componente pulsional do Desejo, pois se irá constituir a Idéia (Beleza, Saber) no lugar de um circuito pulsional precocemente interrompido. Em Freud, tal evento, se articula à figura de Leonardo da Vinci, e em Lacan, implicitamente, também. É, a juízo de Freud, responsável integral pela gênese tanto da arte como da ciência, e tem, tanto para Freud quanto para Lacan, em Leonardo da Vinci sua máxima representação.

       Todavia, na obra lacaneana, tal tema é lançado alternativamente à questão das "duas mães", num segmento comparativo que incluía Hans e Don Juan em A Relação de Objeto(4) (anos 50), e terá prosseguimento no Seminário intitulado de: A Ética da Psicanálise (5), bem como no texto : L'Etourdit (6), e também nos Seminários : A Transferência (7), e Le Non-dupes errant (8). Este pensamento continuará por considerar Leonardo da Vinci a expressão exemplar do 3o tipo de Sublimação e vai vê-lo, conforme Alexandre Koyré (9) o fez, como a indicação de um século, neste mister, sublimatório por excelência. Pois o quinhentismo nos legou tanto a Utopia de Morus e Camões, quanto a similitude, indicada na obra de Galileu, entre Arte e Ciência, como bem destacou Erwin Panofski (10). E foi sublimatório, por excelência, nas duas vias apontadas por Freud: a da Arte e da Ciência. Nela, na forma sublimatória, coloca-se a representação eidética (A Beleza e/ou Logos) no lugar do gozo. Porém, Lacan também irá vê-la como uma manifestação singular de Amor. E, como as demais, virá, não só alternativamente à Transferência (o que nos é indicado em dois Seminários: A Transferência e Os Nomes do Pai), mas também para suprir a suposição da existência, ou seja, a "inexistência da relação sexual". Trata-se da forma Imaginária de idealização do simbolismo do Amor, onde não se ama o delírio como na psicose, não se ama o sintoma como na transferência quando hiperdeterminada ao Discurso do Analista, ama-se o próprio Amor: Não se trata do Amor pela verdade, como na transferência, mas do "verdadeiro Amor". É o lugar dado à pessoa da dama inatingível na letra medieval, é o lugar dado ao analista e ao objeto a como expressão da pulsão escópica no Barroco/Maneirismo velasqueano (11), é o lugar dado no homoerotismo da pederastia Ática à beleza como pré-condição da perversão sexual (e por isto Lacan a aproximou do "amor-cortês" medieval), e enfim, é o lugar do amor na helenista "Arte de Amar" de Ovídio.

       Não poderá jamais comparecer em três tipos de ocorrências:

a) na Perversão: Lá não se interrompe e/ou suspende o circuito pulsional, pois a obrigação fálica própria da suposição da "lei do gozo", que é, por via fantasmática, perversa, sádica ou de Sade, torna o Desejo supostamente equivalente ao Princípio do Prazer, apondo o último no lugar do Gozo;

b) na Psicose: Lá não vige a Idéia como herdeira sintomática, por via não-fálica do caráter parcial da pulsão substituível. Lá vigora a suposição delirante de dizê-la por inteiro na "palavra-plena", que é, por isto, dotada da certeza cartesiana; ali equivale ao "ser um Symptôme";

c) na Melancolia: Alí vige, também, a interrupção, só que momentânea, do circuito pulsional, mas convoca, para repará-lo, o luto fálico e o engano e não o acerto de Gozo do Outro.

       Em suma, a Sublimação (12) não é uma "parte interna" de outras estruturas clínicas, é um evento clínico singular. E se a "Verwerfung" opõe-se à "Bejahung", a Sublimação é uma alternativa sintomática ao recalque. Admitirá, como em Joyce, um sintoma não-fálico e não será desmentida, como a Castração, pela Perversão. Por isto poderemos "entender" que ali, tanto quanto na transferência (o luto do luto) fez-se, em Joyce, pela autoria, (pois a Sublimação na arte hiperdetermina-se, via autoria, à mestria) o luto não-fálico da Psicose. Tratava-se de um artifício autoral ("savoir-faire") próprio de um Symptôme, que produziu o nome próprio como se fora o luto da Psicose.


Referências Bibliográficas:

1) FREUD, Sigmund. (1910). Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância. In.:Obras Completas. RJ, Imago, 1969, volume 11.
2) FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a sexualidade. In.: Obras Completas. RJ, Imago, 1969, volume 7.
3) FREUD, Sigmund. (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. In.: Obras Completas. RJ, Imago, 1969, volume 20.
4) LACAN, Jacques. ( 1956/1957 ). O Seminário, Livro 4, A Relação de Objeto. RJ, Jorge Zahar, 1995.
5) LACAN, Jacques. (1959/1960 ). O Seminário, Livro 7, A Ética da Psicanálise ( L' Etique de la Psychanalyse ). Paris, Seuil, 1986.
6) LACAN, Jacques. L' Etourdit. In.: Scilicet, n° 4. Paris, Seuil, 1973.
7) LACAN, Jacques. (1960/1961). O Seminário, Livro 8, A Transferência ( Le Transfert). Paris, Seuil, 1991.
8) LACAN, Jacques. (1973/1974) O Seminário, Livro 21, Le Non-dupes-errant. Paris, Inédit (cópia particular).
9) KOYRÉ, Alexandre. Estudos da História do Pensamento Científico. Brasília, Forense/ UNB, 1982.
10) PANOFSKY,Erwin. Galileu como crítico das Artes, In.: Critique (set/out 1955), Paris, (cf. Galileo as a critic of Arts, Haia, Martinus Nijoff, 1954).
11) MENDONÇA, Antônio.Sérgio. O "Espelho de Boehme, da Vinci, Velasques e Lacan". In.: ...Lacan: da Magia à Psicanálise, Transmissão, Ano 10, nº11, 2001/2002, Edições do CEL, Porto Alegre.
12)MENDONÇA, Antônio.Sérgio. "O Inconsciente por testemunha". In.:...Bovarismo $ Paixão, RJ, Antares, 1992.


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Prof. Titular UFF, Doutor em Letras UFRJ, Docente-Livre pela UERJ, Diretor de Ensino do CEL/RS.
coojornal@coojornal.com.br