22/09/2003
Número - 332

ARQUIVO
Opinião Acadêmica





Opinião Acadêmica

VOCABULÁRIO DE TERMOS PSICANALÍTICOS

A PSICANÁLISE, O MAL-ESTAR E A RELIGIÃO

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


"Se a religião triunfar, será o sinal de que a Psicanálise fracassou"
(LACAN, Jacques, cf. Entrevista com Lacan, de 29/10/74, in... Revista Dizer, nº 12, Escola Lacaniana de Psicanálise, Ed. Campo Matêmico).

       O governar e o educar (cf. Freud, 1931) são impossibilidades, porque formas explícitas de megalomania, sendo, portanto, manifestações da paranóia. E se a Psicanálise não triunfa é porque ela só avança e sobrevive, conforme Freud nos advertiu, se a paranóia fracassar. Neste sentido estrito, a Psicanálise parece ser, a juízo de Freud, uma anti-paranóia. A juízo de Lacan, o governar e o educar são coisas antigas, embora sempre requisitadas, por haver sempre candidatos para tais funções. E são impossibilidades porque vão sempre propor um modelo suposto de alguma coisa, seja de sociedade (governar), seja de Homem (educar), seja do psiquismo comportamentalizado (psicanalisar), seja do universo biofísico (cientificizar). Para Freud, à exceção da última, estas são algumas das verdadeiras causas do mal-estar. Mal-estar que é por ele também reconhecido pelo fato de não haver um objeto (fálico ou não) que satisfaça o desejo humano. Mas, sobretudo, este mal-estar persiste causado pela insistência destas impossibilidades em suturar o impossível do Real. Porém, ainda a juízo de Lacan, Freud poderia ter se omitido, inconscientemente, ao não ver a impossibilidade também no discurso da ciência, isto porque ele tinha que dar conta da questão imaginária para com este saber, já que pretendia legitimar a Psicanálise como tal. E a ciência também irá propor, como se disse, um modelo de universo, cujo cosmos abriga uma concepção suposta e universal das leis do mundo biofísico. Então, ou se pretende propor um modelo de universo, um modelo de Homem, um modelo de sociedade, um modelo de normalidade psíquica, mas, de fato, se estará propondo, na adição disto tudo, um modelo de mundo e isto, literalmente, não existe para Lacan, senão como ilusão. Se tomarmos a interpretação filosófica deste mundo como "uma visão de mundo", encontraremos Freud, também, nos advertindo sobre o caráter ilusório desta concepção. E para Lacan, tal não existe porque a idéia de mundo irá pressupor, para funcionar, de forma consistente, a idéia "do que anda" (se movimenta), o problema é que tal suposição só se quantifica na geração de um tempo cronológico e linear, próprio da evolução e da superação, e por isto trata-se de uma posição simbolicamente insustentável, do mesmo modo que a posição do analista é realmente insustentável, só que por razões diversas. O analista situa-se como suplência sintomática à intrusão do Real, reconhecendo, pois, se não aderir às impossibilidades a seu nível, ou seja, ao psicanalisar, que há o impossível e que o educar, por exemplo, o pretende suturar. E do lado do reconhecimento de que há um impossível saber sobre o gozo, avesso do delírio prometaico, há a castração, ausente no mesmo, mas a tentativa permanente de se suturar as impossibilidades nos leva, sem dúvida, cotidianamente, ao encontro da perversificação da mestria, quando operada pelo Discurso Universitário. Ainda em relação à posição de movimento e tempo, Lacan vai dizer que "o mundo anda", logo, quer se tenha uma concepção biunívoca de Homem e de universo de origem qualquer, quer a lastreemos conforme certa tradição hegeliano-marxista na ciência universal que incluiria as dialéticas da natureza e da história, estas impossibilidades não se sustentam diante do duplo crivo da realidade e do Real, o que não impede que insistam em se fazer presentes. Aí, desse ponto de vista, a ciência parece ser uma variação do educar, não do ponto de vista de sua gênese, mas do ponto de vista de sua supremacia, seria uma variação tardia que apenas tem provocado angústia toda vez que aponta para o risco da catástrofe global da espécie humana.

       Todavia, a Psicanálise, em princípio, vai para a posição insustentável porque remete à função do analista e do lugar de suplência sintomática se coloca, permanentemente, em confronto com o mal-estar, isto pelo fato de sua simples existência denunciá-lo. Então, o que teria a oferecer à humanidade? Em princípio, não repetir o jogo ilusório, delirante e por vezes perverso das impossibilidades, e disto nos adverte Freud. Contudo, se a Psicanálise fosse se meter a "psicanalisar o mundo", ela seria apenas um sócio mais novo e sem a mesma tradição do "clube" das impossibilidades, já que "psicanalisar" é, sem dúvida, requisitar a prática megalômana do "delírio interpretativo". E se a Psicanálise formulá-lo, estará formulando, também, de forma psicológica a requisitar uma prática terapêutica, um modelo suposto e comportamental de psiquismo, e esta terapia psicológica que se tornaria, não passaria do sócio mais novo dos discursos, cujos modelos só fazem produzir coisas inexistentes. E, paradoxalmente, a "inexistência" destas coisas apenas propõe, continuamente, um "mundo que anda". E qual a razão? É porque, para se ter a idéia de progresso como medida de superação contínua do tempo cronológico e linear, tem-se que conjugá-los como adição entre o tempo cronológico e o movimento contínuo, heranças da percepção peripatética a que os medievais reduziram o aristotelismo. E esta ilusão, que sutura a impossibilidade jamais abrigará a atemporalidade, por exemplo, ali tem-se que dizer que o "hoje" estará para aquém ou para além do "ontem", já que a idéia de progresso depende da idéia de evolução contínua e/ou descontínua, e esta só se "materializa" comparando-se o "atual" com o "antes" e pressupondo-se, por teleologia, o "depois". Porém, do ponto de vista da Psicanálise, lida-se com a posteridade sintomática, com a atemporalidade inconsciente, com a eternidade do sonho e, sobretudo, com a não-duração do Real. Por esta razão, Lacan irá constatar que o Real de que a Psicanálise deve dar conta é, paradoxalmente, "o que não anda", e, por isto, fora ela, todos os outros discursos anteriormente citados, apostam na reversão das impossibilidades, menos a religião, ela é a impossibilidade tida como possível, por oferecer um sentido a tudo, secretando e secretariando o sentido para além da duração da vida humana, e, recentemente, ao mudar sua posição face à ciência, ela não a condena mais à inexistência, como pretendia fazê-lo nos tempos da Inquisição, por negação repressiva da evidência científica, negação do direito ao juízo de existência, ela passou a se colocar no preciso lugar do único discurso capaz de acomodar a angústia que afeta e/ou é provocada pela ciência. Então, o seu lugar é o de acomodação da angústia e, para tal, segrega o sentido, secreta o sentido, secretaria o sentido, enfim, produz sentido para tudo, inclusive para a vida humana, mesmo "post-mortem", não sendo surpresa que a sua ilusão hiperdetermine-se ao triunfo, o triunfo sobre tudo. Desse modo, a Psicanálise jamais irá triunfar face à religião, terá muita sorte se conseguir apenas sobreviver, já que ela aponta para um lugar insustentável, difícil de se conviver, enquanto a religião converte as impossibilidades no mais confortável dos sentidos, que é o da vida eterna. Portanto, a religião tem um discurso que não só torna a origem do sentido secreto, sendo o mistério, ou não relevável, ou, por vezes, um segredo revelado apenas para os iniciados, mas também que segrega o sentido que lhe soa como herético, sob a alegação de que não está contido no sentido original de suas escrituras, e isto, sem dúvida, aponta para o racismo mental, responsável pela condenação das heresias em nome de secretariar, fazer-se porta-voz, no mundo dos homens, de Deus, assim sendo, seu mistério, pelo menos na religião do papado, de Roma, para Lacan a verdadeira religião, remete-nos, por ser mediatizado, à santidade, com sua lógica iniciática de tabus, segredos, pecados e revelações. Assim sendo, não nos causa surpresa o fato da religião como um todo e, especificamente, da verdadeira religião, a do papado de Roma, ter(em) sobrevivido a tudo. Contudo, a Psicanálise não deveria ser, para Lacan, uma religião, porque ela é o sintoma de, já que "dubla" o Real, porque situa a função do analista precisamente em suplência a este ponto de intrusão do Real. Mas a Psicanálise, sendo um sintoma, é um sintoma de quê? É um sintoma da existência do mal-estar, porque sua simples existência o denuncia, quando, ao "dublar" o Real, reconhece-lhe a impossibilidade sem suturá-lo, avançando onde a paranóia fracassa. Logo, a Psicanálise, quando avança, é um Sinthome de que há, para além do Real dublado, a exigência no nível do sentido, do reconhecimento das impossibilidades como verdades, e se contrapõe, literalmente, ao que Lacan, em 1972/73, ao se referir ao saber do psicanalista e à psicose, chamou de "ser um Symptôme".

       Portanto, para Lacan, a Psicanálise realiza-se, atualiza-se, como o próprio Discurso do Analista, que contém a indicação, por linguagem matêmica, da função do analista, de sua função última, que é ser sintoma. Por isto, pode ser tomada como uma causa modal, e, como tal, será uma razão de direito que incidirá sobre sua razão de fato, que é o inconsciente. A Psicanálise deve dar conta do inconsciente e de seus efeitos, e este, como uma razão de fato, será o avesso da Psicanálise, e, o psicanalista, como destinatário do que atualiza (d)o inconsciente, ou seja, da transferência, deve partir dela, no cumprimento desta função, e acossar o sujeito para levá-lo a se deparar com a identificação sintomática possível. Mas se o inconsciente é, por sua vez, análogo ao Discurso do Mestre, é porque nele se manifesta o sujeito acéfalo, Je, o sujeito do inconsciente, que tem o estatuto pulsional de gozo, enquanto no Discurso do Mestre será o saber, via semblante (objeto a), que terá este estatuto, por ser produzido, qual a sublimatória e kantiana faculdade de julgar, como uma finalidade sem fim, na origem própria do julgamento estético e de sua crítica, ou seja, como a própria inutilidade do saber enquanto gozo. Portanto, o inconsciente será o avesso da Psicanálise porque análogo ao Discurso do Mestre, que expõe uma disjunção básica de que não abre mão e que remete à Spaltung do sujeito, trata-se da disjunção entre S1 e S2. Contudo, no Discurso do Analista, esta Spaltung é suturada porque, ao contrário do Mestre, em sua lide de autoria, que hiperdetermina saber e verdade, para que a última seja incorporada ao primeiro, remete o saber à verdade, para que se possa sintomatizá-la e, assim, se ambos nos conduzem à pré-condição da suposição de saber, esta, para o Mestre, resulta na produção de um gozo inessencial e acéfalo, e para o analista é condição de provocação de um sintoma identificatório. Por isto, diz-se que na Direção da Cura deve ser oferecido ao analisando, na condição de sujeito, um lugar de sintoma, originalmente próprio do analista que o ocupou na maior parte de uma análise, para que o analisando possa com ele identificar-se e abrir mão, fazendo luto do Pai Ideal, dos equívocos do Pai-do-Nome, ou seja, abrir mão da subserviência à castração do pai, podendo reconhecê-la como a única que há, por ver nela a indicação do lugar de desejo da versão do pai. Assim, o analista se valeu da transferência para dar conta, na escuta do inconsciente, do delírio ou do fetiche, de um gozo particularizado do sujeito, e isto pôde ocorrer por razões próprias do discurso científico. Neste sentido, a Psicanálise surgiu num momento histórico preciso, momento em que não mais se tratava, como na Antiguidade Clássica, de se associar o agalma à suposição de saber (transferência). Na adoção da lição platônica, do Banquete, a Psicanálise retirou de cena o agalma e manteve em cena a suposição de saber. Em seguida, já no quinhentismo, momento do saber experimental onde tudo era ao mesmo tempo teórico-prático, cujo modelo era Galileu e a sublimação em Leonardo da Vinci, tivemos o legado que a Psicanálise transformou em teórico-clínico, já que a clínica era a sua práxis. Dali a Psicanálise herdou o sentido de seu classicismo, da relação entre ciência e verdade, e incorporou o objetivo quinhentista da ciência experimental. Retomando este viés histórico, veremos ainda que no momento do barroco, na mentalidade francesa e cartesiana, o sujeito da ciência foi o do cogito, por ser acéfalo, mas vinha acompanhado da certeza, que conduzia o infinito à razão divina. A Psicanálise, por sua vez, se já tinha abortado o agalma, fez o mesmo com a certeza e, corrigindo sua declinação pela adoção do princípio ático da transferência, que incorporou ao saber experimental do séc. XVI, formulou-se como um saber teórico-clínico que nos remetia ao sujeito da ciência e o via como sendo, na visada de Freud, o próprio sujeito do inconsciente. Assim sendo, este sujeito do inconsciente, herdeiro do sujeito da ciência, acéfalo, produzia um saber, por representação, só acessível através da transferência. Por isto é que se disse que a Psicanálise surgiu neste momento preciso e não em nenhum outro. Deste modo, o inconsciente tornou-se o avesso da Psicanálise, esta a antítese da paranóia e ambos o anátema da religião. A Psicanálise, portanto, é uma não-religião e o inconsciente não é um sintoma, o analista é que o é, e seu diálogo é com a ciência e com a arte. E se a Psicanálise é produto da transferência, o inconsciente, por sua vez, é o Discurso do Outro, sendo ela, portanto, a antítese da megalomania, por ser uma anti-pedagogia e uma não-religião, e se o inconsciente é o avesso da Psicanálise, mas a ela se conecta pela exigência da transferência, o Discurso do Mestre será sempre a memória de que o saber é gozo porque para o Mestre Castrado a castração evidencia-se como o reconhecimento de que não há nenhum saber possível sobre o gozo. Voltando-se a Freud, a ele devemos a articulação entre o inconsciente, a transferência, a pulsão (repetição) e o sujeito da ciência, tido por ele como o sujeito do inconsciente. Todavia, a transferência não era nele, ainda, uma suposição de saber, mas já era vista para além da sedução histérica, isto é, sem o agalma, sem a fascinação que, desde seu pensamento, nos conduziriam à contra-transferência. Legou-nos, também, a interpretação como manifestação do Desejo do Psicanalista, obtida, no âmbito da transferência, pelo seu estilo, ou seja, pela associação livre, que nada mais era do que a incidência da interpretação sobre a escuta do sintoma e jamais a prática do delírio interpretativo. Logo, a interpretação dava conta da significação, fosse dos sonhos ou de outras formações do inconsciente. Concluindo, para Lacan, trata-se de simplesmente reconhecer que, para a Psicanálise, sobreviver é preciso; já, segundo Freud, para nós falantes, o importante seria não abrir mão (não ceder) de nossos desejos e/ou "dos pequenos prazeres da vida".


Referências Bibliográficas:

1) FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. In...Obras Completas (vol. 21), RJ, Imago, 1969.
2) FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. In...Obras Completas (vol. 21), RJ, Imago, 1969.
3) LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre 23 (1976) Le Sinthome (Le Savoir du Psychanalyste), Paris, inédito (cópia do autor).
4) LACAN, Jacques. Entrevista à imprensa italiana. In.: Dizer n° 12, RJ, Escola Lacaniana de Psicanálise, Rio de Janeiro, s/d, (tradução José Mário Cordeiro).


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Prof. Titular UFF, Doutor em Letras UFRJ, Docente-Livre pela UERJ, Diretor de Ensino do CEL/RS.
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