Se nos ativermos ao que nos
foi transmitido pelo ensino de MOSES MAIMONIDES, um célebre filósofo cordobês,
iremos forçosamente destacar que: "o amor ao saber coloca o sujeito (humano) acima
do fascínio exercido pelos vícios morais". Tal declaração além de ser, obviamente,
compatível com os ditos freudiano e lacaneano sobre SUBLIMAÇÃO, que têm Leonardo da
Vinci como ícone, nos lembra, também, que nestes vícios sempre se irão destacar a
inveja (quando não histérico-rivalizante e conjugada sob o signo do ódio) e,
sobretudo, o oportunismo e o "uso" de terceiros que são manifestações contumazes do
perversismo.
Mas será óbvio que a
moralidade (e porque não o moralismo?) no seu afã de se passar pela Ética,
inclusive a da psicanálise, principalmente quando age através de expedientes
burocráticos, irá, até imageticamente, descaracterizá-la, como uma forma de
destituí-la. Porém, ao ensino do cordobês poderia advir o acréscimo da notável
contribuição de PHILIPPE SOLLERS em seu admirável: "O Paraíso de Cézanne". Ali
aprenderemos que: "uma imagem e/ou (uma) reprodução falsificam a pintura, tanto
quanto a moral falsifica a Ética".
Todavia, embora tal
assertiva também se aplique à observação de equívocos existentes e produzidos na
transmissão do ensino de Lacan, nunca será demais enfatizar, se não quisermos
igualmente falsificá-lo (diluí-lo como uma psicologia geral), que, preliminarmente,
seja observada a diferença conceitual existente e proposta entre textos como: "A
Terceira", "O Discurso de Roma" de um lado e "O Avesso da Psicanálise", "L'Etourdit"
e "Lituraterre" de outro (este último inicialmente publicado em 1971).
Trata-se, pois, de observar,
com rigor, que não há em seu pensamento a mera "ultrapassagem" matêmica (conceitual)
do sujeito ao gozo, e sim a substituição da suposição de um sujeito intervalar e
binário ($) (que era efeito de a lógica do objeto a ser a própria
lógica do significante, sendo, como tal, representado por um para outros
significantes), por ser este a expressão da temática classicista da linguagem
quando tomada enquanto pré-condição do Ics simbólico; pelo sujeito-real (
referente ao) que se articula à autoria e à nomeação do ponto de vista,
respectivamente, dos discursos do Mestre e do Analista. Ali, enquanto efeito do
campo do gozo, faz da "linguageria" (daí as formas "linguageiras") a sua morada, e
do cinismo do gozo, que nada condescende ao desejo, irá inferir o amor para poder
suprir a inexistência da relação sexual. E assim sendo para lá dirige a repulsa do
feminino ao universal e o "fora-do-corpo" do gozo fálico. É, pois, efeito do gozo,
vale dizer do Real.
Mas o Lacan dos "Escritos"
nos ensinou que o Ics simbólico decorre da pura logicidade do significante, e,
face ao Ics-Real, referente ao gozo, isto se mantém, só que devido ao fato de o
significante ser real e não o contrário. Portanto, se o objeto a, no
primeiro caso aludido, isto é, quando, vestindo-se de semblante, é relativo ao
campo freudiano da linguagem, era, por ser um significante simbólico, mero "
resto lógico" (no campo do Outro, isto por representar o $ para outros significantes),
agora no campo do gozo, irá, sem dúvida, percorrer o entrelaçamento do Real/
Simbólico/ Imaginário. Dar-se-á, tal trajeto, por referência (no sentido
psicanalítico do termo) e irá operar enquanto letra (suporte material de
gozo (Real) que referencia o significante simbólico). E nesta trajetória para além
de apenas indicar o i(a)/ objeto imaginário quando compatível com o binômio:
ego/ "moi"; ou, então, para além de qualificar-se como objeto causa de Desejo
sustentado por uma fantasia fundamental ($ à a), será, mais do que isto, enquanto
letra, índice da referência ao destacamento de um objeto que (seja para o
sujeito) compatível com seu gozo particularizado. E este objeto será (para o
sujeito) por um ato de nomeação emanado do Desejo do Psicanalista e terá como
objetivo o "resgate" do que "houve de Real no objeto pulsional". Enfim, passará, já
como letra-referência, a semblantizar o gozo particularizado de um sujeito, cujo
ato nomeante, será, por sua vez, compatível com a produção de um significante,
instalado por Bejahung, e referente ao Nome-do-Pai.
Logo, não deveremos abrir
mão de observar, rigorosamente, a substituição conceitual, como referência prévia
do Ics, então simbólico, da linguagem metaforonímica pelo gozo; ou seja, foi para
além do Ics simbólico (de Freud), que se postulou, em Lacan, o Ics-Real. E nesta "
superação" e/ou "ultrapassagem" a questão do sujeito ($), enquanto efeito
significante e representativo da pré-condição da linguagem face ao Ics (Simbólico),
dará lugar, nos anos 70 do século 20, à teoria do gozo: o dito Campo lacaneano. E
na observância genealógica desta trajetória conceitual será de fundamental
importância não só o reconhecimento do valor conceitual singular do objeto a
(enquanto letra e/ou semblante do Falo), mas também, dever-se-
ia destacar que, mesmo neste lugar e função, o dito objeto a já
expressará as relações entre o real e o significante. Portanto, se no Lacan do
classicismo a lógica do significante era análoga à lógica do processo primário
freudiano, por ser também a lógica metonímica deste objeto a, este,
quando na posição de semblante simbólico do real, diria da mediatização possível da
impossibilidade daquele (real). Entretanto, se no "Discurso de Roma" (1953)
assistimos ao aprofundamento conceitual das relações epistemológicas existentes
entre o Pensamento de Lacan e o de Claude Lévi-Strauss, que eram bastante
divergentes, principalmente, como bem observou, em "Chaves para o Imaginário",
Octave Mannoni, quanto às relações entre linguagem e Ics (ponto de vista,
posteriormente, consolidado em "Télévision"), vimos também ocorrer a inversão do
algoritmo saussureano, via Jakobson, a recorrência ao Martin Heidegger de "O Ser e
o Tempo" (em nome do que postulou-se o "confinamento" do sentido formal ao Saber
lingüístico), no entretanto, sobretudo, deparamo-nos com o posicionamento de Lacan,
via Kojève, para além da sublime histeria do "jovem" Hegel de Jena ("A
Fenomenologia do Espírito"), o que foi decisivamente destacado por Slavoj Zizek. E,
sem dúvida, já na visada de "Lituraterre", se irá decisivamente substituir a pré-
condição classicizante de linguagem (face ao Ics Simbólico) em favor do primado de
um campo a que Lacan emprestou o seu próprio nome. E se antes desta contribuição,
que é textual, o objeto a, do ponto de vista de suas articulações
significantes e simbólicas, apresentava-se como uma espécie de "resto" (sobra
lógica), ele agora passaria a indicar a evidência do que é ali chamado de "lixo",
isto por ser letra do gozo. E tal procedimento, literalmente dito, cominará ao mal-
estar civilizatório o papel de "cloaca" romana. E este papel é obviamente
denunciado pelos efeitos de incisão da semblantização significante que é própria do
objeto a e que se diferencia radicalmente do binômio classicista: $/
sentido. E num ensino de Lacan, que a esta altura já nos é transmitido por Jacques
Alain-Miller, se irá enfatizar, com acerto, a "exclusão do sentido no âmbito
do real", mas não da estrutura, ou então, "a exclusão do real no sentido" pura e
simplesmente, sorte que êste é fruto da articulação entre o Imaginário e o
Simbólico. No entanto, voltando-se à "Lituraterre" (esta "nuvem cigana" que destaca
o gozo como um literal litoral do real, ou seja, como sua "terra"), ali, como de
resto em todo o ensino de Lacan pertinente ao campo do gozo, se irá destacar, no
lugar e função do objeto a, o que lá se indica para além da
semblantização do Falo, para além do objeto causa do desejo, ou seja, o seu caráter
de letra referencializante do real. Mas, precipitadamente, esta articulação intra-
significante, sem este último efeito apontado, poderia até vir a abonar que se
dissesse, conclusivamente que: "o objeto a não é real", quando se
deveria simplesmente querer afirmar que, por ser um significante, o objeto a
não é o real. Mas ele, enquanto significante, é real, porque dizê-lo
não sendo "o real" não significa que a este registro ele não se referencie. Pois,
como tal, o objeto a é um significante, e, enquanto tal, por
referência, é real; "ele não é o real", este (o real) é que não é o
significante. Por esta razão, jamais dever-se-ia dizer que o objeto a
não guarda qualquer relação de referência para com o Real, desde que aquele termo
seja tomado na acepção de Allouch e não de Jakobson.
Em suma, se "o real não é o
significante", o objeto a é um significante, mas também é letra do
sintoma simbólico, então, paradoxalmente, por referência, o significante,
forçosamente será real, ou seja, será o que há de real, semblantizado como letra (
objeto a), neste gozo particularizado de um sujeito e de quem a "
semblantização do Falo" produz uma "faísca metonímica" (daí dizer-se, em L'Etourdit"
, que "o real se faz dia na linguagem") cuja perspectiva, em "ponto de fuga", foi
insinuada e particularizada pictoricamente, no nível da reprodução da pulsão
escópica (imageticamente tomada), até porque não a "falsificava", no Maneirismo de "
As Meninas" de Velasquez, o que foi destacado na leitura de Lacan.
Assim esse autor, em seu
derradeiro esforço de ensino (o campo do gozo), nos remeteu às articulações entre: "
o lixo do mal-estar", o real e o gozo, distinguindo-os do registro do sentido, e,
sobretudo, do que este guardava de consistência imaginária, bem como e também do
caráter simbólico do sujeito em suas relações de representação com o significante
simbólico.
Talvez, tenha sido
precisamente por esta causa, provocada, possivelmente, pela advertência de Jacques
Derrida descrita em "A Carta Postal", que a visada de Lacan em "Lituraterre" vá
divergir de seu próprio ponto de vista face à recepção e a sua hiperdeterminação à "
mensagem invertida" exposto em sua leitura de "A Carta Roubada" de Poe nos
Escritos (1966). Não há como determinar, via destinatário, o "destino" e/ou a
direção de uma "carta", de um escrito e/ou de "uma mensagem invertida". Pois, se no
primado do sentido e do Ics simbólico o destino de uma carta é evidenciado pela
genealogia (percurso) da "mensagem invertida", de sorte que estará no local +
visível, se esta carta for letra (e o vocábulo francês se presta a tal leitura) irá
referenciar-se ao campo de real (gozo), e neste âmbito e da "cloaca" por ele
provocada no mal-estar, não haverá como determinar a direção de uma mensagem
invertida. Assim sendo Alouch já nos advertiu que "... o que se espera (aguarda)
não é o que se recolhe".
Em suma, o que se pretendeu
destacar aqui com esta nota conceitual aponta apenas para a necessidade de se
destacar que um pensamento "desconstrutor" (como Jean Claude-Milner entende ser o
de Lacan) apresentará substituição e rupturas que visem a resolução de seus
impasses conceituais. Logo, será necessário que se compare, contracene, contraponha,
por exemplo, o dito em: O Discurso de Roma (1953) com o reconfigurado em "O Avesso
da Psicanálise" (1970) e "Lituraterre" (1971), para que possamo-nos dar conta de
que o objeto a é letra do cinismo do gozo como bem estabeleceu
Allouch ao lê-lo enquanto letra face à metonímia fóbica. E sendo letra, referência
ao que há de gozo no sintoma, para além da mera semblantização significante do Falo,
será suporte material do que o sintoma vier a representar como axioma, causa modal
do desejo, por inversão do gozo.
Referências Bibliográficas:
1) LACAN, Jacques. Outros Escritos, RJ, Jorge Zahar, 2004