I – Prólogo
Sabe-se que, costumeiramente, são atribuídas ao Objeto a, isto no
pensamento de Lacan de onde conceitualmente se originou, pelo menos três
modulações que efetivam o seu percurso estrutural. Inicialmente, enquanto
significante/letra, é visto tanto na instância que irá efetivar os efeitos da
linguagem e do discurso, através do Inconsciente, para o Sujeito; isto por
representá-lo como significante para outros significantes, quanto quando, no
âmbito da fantasia fundamental, este objeto se mostra como o que, por não ser
literalmente um significante simbólico, já que é o seu suporte material,
remeteria apenas à dimensão do gozo, por colocar o Desejo como efeito de seu
rechaço. E, para tal, se alocaria na hiância, própria do lugar de falta de
objeto, existente entre demanda (Eros) e necessidade (Ananké). De lá advindo
irá, por ação do falo imaginário, incidir, já no âmbito da castração, sobre a
falta simbólica, o que o leva a configurar-se conforme a cogitação egóica do
objeto imaginário, uma vez que se irá deparar com o furo de mesmo nome. Então
o Objeto a se conjugará ora com o objeto causa de desejo, ocasião em
que se articula universalmente, via fantasia, com o “estar fora do corpo” do
gozo fálico; e ora com o equivalente egóico ao objeto imaginário, dito: i(a).
Neste momento declinará, no sentido latino do termo, através do Ego, os
efeitos imaginários, sexuais e corporais do gozo e se articulará, nos casos
anteriormente descritos, já que é instância da letra, à semblantização do Falo
enquanto “verdadeiro objeto do Desejo”. Todavia, irá restar ainda ser
destacada a sua função precípua de letra/referência e esta o relacionará à
semblantização do objeto pulsional, modo segundo o qual o ensino de Lacan
pertinente ao campo do gozo, o apresenta. Tratá-se, pois, de uma letra que irá
referenciar (não no sentido linguístico, mas no sentido psicanalítico do
termo) o que “havia de Real no objeto pulsional”, vale dizer, o que de gozo há
no Sintoma. Como conseqüência, tentaremos, em seguida, descrever os efeitos
conceituais de tal procedimento.
II - O CONCEITO DE LETRA NO PENSAMENTO DE
JACQUES LACAN
Preliminarmente este autor, no Seminário: O Objeto da Psicanálise
(anos 60), ao comentar o quadro de Velasquez intitulado “As Meninas” destaca ali
(que se tratava não apenas da “representação da representação”, como supôs Michel
Foucault, lá presente) a função pictória do Objeto a como sendo própria da
pulsão escópica. E dizia mais, ao articulá-la, via sublimação artística, ao
maneirismo de Velasquez, onde, por inverter a relação perspectiva/anamorfose,
teria indiciado, pictoricamente, o Objeto a enquanto letra. Mas
será ainda nos anos 60, mais precisamente nos Escritos, e ali no texto “A
Instância da Letra” que Lacan colocará as bases de sua concepção. Deste ponto de
vista, próprio do chamado Lacan do Classicismo, a letra se estabelecia como uma
instância do Inconsciente, onde se presentificariam seus traços pétreos: a letra,
expressada pelo Objeto a, é sempre semblante do Real por ser semblante do
gozo. E, para tal, seria suporte material do significante. A não mutabilidade
desta concepção, do ponto de vista formal da semântica do discurso, criará,
inicialmente, dificuldade para os leitores de Lacan que não se derem conta de um
duplo fato: 1) será a letra o recurso, dito desvio, que presidirá o processo
abdutivo (cf. Allouch) da geração de conceitos no pensamento de Lacan; 2) a
própria categoria de letra sofrerá os efeitos deste mesmo desvio, o que é
apontado no texto de Jean-Claude Milner intitulado A Obra Clara. Assim
sendo, em 1966 teremos a concepção do Objeto a como sendo um significante
enquanto letra, o que foi magistralmente estabelecido, quando da apresentação do
tema da fobia em Hans no Letra a Letra de Jean Allouch. Portanto, em 1966,
o Objeto a, objeto causa de desejo inscrito na fantasia fundamental, é
letra e como tal é o suporte material que atualiza a representação do sujeito,
enquanto tal, sob a forma de significante, para outros significantes, na
fantasia. Mas, para isto, será semblante do Falo, dito gozo Real, e
materializará, ou seja, atualizará no sentido lingüístico do termo, também para
o sujeito, como instância, os efeitos pré-condicionais da linguagem face ao
Inconsciente Simbólico. E isto efetivará a universalização material do gozo
fálico pela fantasia Inconsciente escrita de forma pulsional. Isto é, a cadeia
do significante e o discurso do Inconsciente se materializam, se atualizam face
ao sujeito do mesmo modo que a letra suporta sua representatibilidade na cadeia
significante. Tem-se ainda como efeito de tal procedimento a referência enquanto
contexto do sentido, dado que Lacan importou da teoria de Roman Jakobson.
Portanto, em síntese, este significante enquanto letra vai-se hiperdeterminar à
relação: sujeito, linguagem e sentido. Todavia, o Lacan do Campo do Gozo, em
1971, ao publicar Lituraterre, que foi republicada em seus Outros
Escritos (2001), vai manter em cena o Objeto a enquanto letra, a
letra como semblante do Real, por ser semblante do gozo. Só que, não se tratará
mais do mero significante enquanto letra, mas da letra como um Índice, no
sentido de Peirce, o que corresponderá à referência na acepção de Allouch.
Referência, para este autor, é o que diz respeito ao Real e Índice será o que
indicará os efeitos metonímicos do Real enquanto letra. Mas, para tal, ser
semblante do Real é agora sê-lo do objeto pulsional, e ser semblante do gozo é
remeter o procedimento anterior à memória pré-pulsional e mortal de das Ding, ou
seja, é referir-se, por ausência, ao Real do Gozo. Entretanto, enquanto letra, o
Objeto a persiste como suporte material do significante, mas ser suporte
material significa que a materialização não é mais sinônimo de atualização (
lingüística) e sim de referência (Allouch). Isto é, é Índice do que há de Real
no objeto pulsional e comparece, como tal, no Sintoma. Ou dizendo de outra forma,
é o que há de Real no Sintoma. Logo, rompeu-se com o trinômio: Sujeito/Linguagem/
Sentido, próprio da transcrição (Allouch) e lançou-se a interpretação que visa o
Real nos braços da transliteração. Neste momento, o Objeto a será apenas
letra, uma letra que indiciará a referência, via Sintoma, ao gozo que no Real há
Referências Bibliográficas:
1- MILNER,
Jean Claude – Os Nomes Indistintos, Paris, Seuil, 1985.
2- MILNER,
Jean Claude. A Obra Clara, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.
3- ALLOUCH,
Jean – Letra a Letra, Rio de Janeiro, Cia. De Freud, 1995.
4- MENDONÇA,
Antônio Sérgio. O Desvio da Letra, o Real e a Verdade. In: O Pensamento em
Lacan, Porto Alegre, edições do CEL, 2000.
5- MENDONÇA,
Antônio Sérgio. Lacan: da magia à psicanálise. Porto Alegre, Edições do
CEL, 2001-2002.
6- LACAN,
Jacques. Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.
7- LACAN,
Jacques. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1984.