28/04/2004
Número - 370

ARQUIVO
Opinião Acadêmica


DO MESMO AUTOR

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- Vocabulário de termos psicanalíticos
Lacan e o(s) nome(s) do pai


- Vocabulário de termos psicanalíticos
Genealogia do conceito de psicose no pensamento de Lacan


- Vocabulário de termos psicanalíticos
Sublimação


- Vocabulário de termos psicanalíticos
a psicanálise, o mal-estar e a religião


- D'outros escritos: de Roma ao real

Opinião Acadêmica

O Objeto a e a instância da letra

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


I – Prólogo 

       Sabe-se que, costumeiramente, são atribuídas ao Objeto a, isto no pensamento de Lacan de onde conceitualmente se originou, pelo menos três modulações que efetivam o seu percurso estrutural. Inicialmente, enquanto significante/letra, é visto tanto na instância que irá efetivar os efeitos da linguagem e do discurso, através do Inconsciente, para o Sujeito; isto por representá-lo como significante para outros significantes, quanto quando, no âmbito da fantasia fundamental, este objeto se mostra como o que, por não ser literalmente um significante simbólico, já que é o seu suporte material, remeteria apenas à dimensão do gozo, por colocar o Desejo como efeito de seu rechaço. E, para tal, se alocaria na hiância, própria do lugar de falta de objeto, existente entre demanda (Eros) e necessidade (Ananké). De lá advindo irá, por ação do falo imaginário, incidir, já no âmbito da castração, sobre a falta simbólica, o que o leva a configurar-se conforme a cogitação egóica do objeto imaginário, uma vez que se irá deparar com o furo de mesmo nome. Então o Objeto a se conjugará ora com o objeto causa de desejo, ocasião em que se articula universalmente, via fantasia, com o “estar fora do corpo” do gozo fálico; e ora com o equivalente egóico ao objeto imaginário, dito: i(a). Neste momento declinará, no sentido latino do termo, através do Ego, os efeitos imaginários, sexuais e corporais do gozo e se articulará, nos casos anteriormente descritos, já que é instância da letra, à semblantização do Falo enquanto “verdadeiro objeto do Desejo”. Todavia, irá restar ainda ser destacada a sua função precípua de letra/referência e esta o relacionará à semblantização do objeto pulsional, modo segundo o qual o ensino de Lacan pertinente ao campo do gozo, o apresenta. Tratá-se, pois, de uma letra que irá referenciar (não no sentido linguístico, mas no sentido psicanalítico do termo) o que “havia de Real no objeto pulsional”, vale dizer, o que de gozo há no Sintoma. Como conseqüência, tentaremos, em seguida, descrever os efeitos conceituais de tal procedimento.

II - O CONCEITO DE LETRA NO PENSAMENTO DE JACQUES LACAN

Preliminarmente este autor, no Seminário: O Objeto da Psicanálise (anos 60), ao comentar o quadro de Velasquez intitulado “As Meninas” destaca ali (que se tratava não apenas da “representação da representação”, como supôs Michel Foucault, lá presente) a função pictória do Objeto a como sendo própria da pulsão escópica. E dizia mais, ao articulá-la, via sublimação artística, ao maneirismo de Velasquez, onde, por inverter a relação perspectiva/anamorfose, teria indiciado, pictoricamente, o Objeto a enquanto letra. Mas será ainda nos anos 60, mais precisamente nos Escritos, e ali no texto “A Instância da Letra” que Lacan colocará as bases de sua concepção. Deste ponto de vista, próprio do chamado Lacan do Classicismo, a letra se estabelecia como uma instância do Inconsciente, onde se presentificariam seus traços pétreos: a letra, expressada pelo Objeto a, é sempre semblante do Real por ser semblante do gozo. E, para tal, seria suporte material do significante. A não mutabilidade desta concepção, do ponto de vista formal da semântica do discurso, criará, inicialmente, dificuldade para os leitores de Lacan que não se derem conta de um duplo fato: 1) será a letra o recurso, dito desvio, que presidirá o processo abdutivo (cf. Allouch) da geração de conceitos no pensamento de Lacan; 2) a própria categoria de letra sofrerá os efeitos deste mesmo desvio, o que é apontado no texto de Jean-Claude Milner intitulado A Obra Clara. Assim sendo, em 1966 teremos a concepção do Objeto a como sendo um significante enquanto letra, o que foi magistralmente estabelecido, quando da apresentação do tema da fobia em Hans no Letra a Letra de Jean Allouch. Portanto, em 1966, o Objeto a, objeto causa de desejo inscrito na fantasia fundamental, é letra e como tal é o suporte material que atualiza a representação do sujeito, enquanto tal, sob a forma de significante, para outros significantes, na fantasia. Mas, para isto, será semblante do Falo, dito gozo Real, e materializará, ou seja, atualizará no sentido lingüístico do termo, também para o sujeito, como instância, os efeitos pré-condicionais da linguagem face ao Inconsciente Simbólico. E isto efetivará a universalização material do gozo fálico pela fantasia Inconsciente escrita de forma pulsional. Isto é, a cadeia do significante e o discurso do Inconsciente se materializam, se atualizam face ao sujeito do mesmo modo que a letra suporta sua representatibilidade na cadeia significante. Tem-se ainda como efeito de tal procedimento a referência enquanto contexto do sentido, dado que Lacan importou da teoria de Roman Jakobson. Portanto, em síntese, este significante enquanto letra vai-se hiperdeterminar à relação: sujeito, linguagem e sentido. Todavia, o Lacan do Campo do Gozo, em 1971, ao publicar Lituraterre, que foi republicada em seus Outros Escritos (2001), vai manter em cena o Objeto a enquanto letra, a letra como semblante do Real, por ser semblante do gozo. Só que, não se tratará mais do mero significante enquanto letra, mas da letra como um Índice, no sentido de Peirce, o que corresponderá à referência na acepção de Allouch. Referência, para este autor, é o que diz respeito ao Real e Índice será o que indicará os efeitos metonímicos do Real enquanto letra. Mas, para tal, ser semblante do Real é agora sê-lo do objeto pulsional, e ser semblante do gozo é remeter o procedimento anterior à memória pré-pulsional e mortal de das Ding, ou seja, é referir-se, por ausência, ao Real do Gozo. Entretanto, enquanto letra, o Objeto a persiste como suporte material do significante, mas ser suporte material significa que a materialização não é mais sinônimo de atualização ( lingüística) e sim de referência (Allouch). Isto é, é Índice do que há de Real no objeto pulsional e comparece, como tal, no Sintoma. Ou dizendo de outra forma, é o que há de Real no Sintoma. Logo, rompeu-se com o trinômio: Sujeito/Linguagem/ Sentido, próprio da transcrição (Allouch) e lançou-se a interpretação que visa o Real nos braços da transliteração. Neste momento, o Objeto a será apenas letra, uma letra que indiciará a referência, via Sintoma, ao gozo que no Real há


Referências Bibliográficas:

1-     MILNER, Jean Claude – Os Nomes Indistintos, Paris, Seuil, 1985.

2-     MILNER, Jean Claude. A Obra Clara, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.

3-     ALLOUCH, Jean – Letra a Letra, Rio de Janeiro, Cia. De Freud, 1995.

4-     MENDONÇA, Antônio Sérgio. O Desvio da Letra, o Real e a Verdade. In: O Pensamento em Lacan, Porto Alegre, edições do CEL, 2000.

5-     MENDONÇA, Antônio Sérgio. Lacan: da magia à psicanálise. Porto Alegre, Edições do CEL, 2001-2002.

6-     LACAN, Jacques. Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.

7-     LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1984.


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos/ Instituição Psicanalítica/ RS. Titular da UFF, Dr. pela UFRJ e Livre-Docente pela UERJ.
Site do CEL www.celacan.com.br