09/07/2004
Número - 376

ARQUIVO
Opinião Acadêmica


DO MESMO AUTOR

- A lição de Orpheu

- A lousa, a magia, o significado e o real

- O centenário e a atualidade de Lacan

- Identificação imaginaria e razão cínica

- Portugal, Camões e o Brasil

- Imunidade / Impunidade: eis o lema do "Frankstein" pós-moderno

- A universitarização da psicanálise em questão

- Tributo a Álvaro de Sá e/ou foi preciso espantar pela radicalidade

- A psicanálise e suas novas vicissitudes

- Por que ainda se deve falar da agressividade egóica?

- Sob o signo da "Reencarnação" da Penúria

- As identificações em Jacques Lacan: uma abordagem histórico-conceitual

- Vocabulário de termos psicanalíticos
Lacan e o(s) nome(s) do pai


- Vocabulário de termos psicanalíticos
Genealogia do conceito de psicose no pensamento de Lacan


- Vocabulário de termos psicanalíticos
Sublimação


- Vocabulário de termos psicanalíticos
a psicanálise, o mal-estar e a religião


- D'outros escritos: de Roma ao real

- O Objeto a e a instância da letra

Opinião Acadêmica

NOTA FINAL: Mais ainda sobre o Amor!

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


       Na obra de Jacques Lacan (o que de saída, nos remeterá ao seu Seminário sobre o tema da Transferência) encontra-se que: "No Amor nada se quer saber". E, sem dúvida alguma, este: "não querer saber" parece lá hiperdeterminar-se, via pederastia Ática, a pré-condição transferencial do Discurso do Analista, que é, por sua vez, ali indicada como sinonímia da "suposição de saber". Além do que, tal assertiva nos indicará a participação deste texto, de forma explícita, na indicação, destaque e resgate da função de renegação do analista, compatível que é com o cinismo do gozo, et pour cause (...) derivada de um lugar semblantizado de não-saber, semblantizado, como se disse, pelo objeto a, tido como versão da impossibilidade do Falo, malgrado este ser, por via metonímica: o "verdadeiro objeto do Desejo", dito gozo-Real. E, aí, esta dita função destacada só poderá incidir sobre o termo-significante (S2), designativo que é da "suposição de Saber". Já esta "holografia metonímica" do Falo irá resvalar para o lado do Desejo e do Sentido quando for capturada pelo seu suporte estrutural, que seja: pela fantasia fundamental. Entretanto, vejamos: se a fantasia de fato realmente mascara a divisão do sujeito, caberá ao analista referenciar-se ao objeto a, enquanto letra-suporte, por este ser semblante do Falo e não ao Simbólico Ideal-de-Ego. Isto porque este índice da "clivagem" do Ego e da divisão do sujeito segundo Freud, malgrado e/ou por causa de seu simbolismo conforme Lacan, terminará conduzindo-o (ao analista), quando da direção de uma análise com vistas à "direção da cura", à Idealização do Amor, ou então: "à forma consistente quando tomada como modalidade (de idealização) do Amor" (cf. "Le Nom-dupes errent"), vale dizer, ao Imaginário como forma de idealização do Amor, o que seria da ordem do "mito do Amor", isto é: da Sublimação. Alí, como se sabe: "ama-se o próprio amor", por dizê-lo "amor pelo verdadeiro amor". Todavia, o Amor, que é, antes de tudo, "signo (representação simbólica) [do fato] de que trocamos de discurso", irá, dessa forma, indicar a existência da "ultrapassagem" da renúncia ao Desejo (em cujo nome se rechaçaria o gozo), em direção ao discurso que vem, propriamente, suprir a sua impossibilidade. Isto, sem dúvida, dar-se-á, para além do "estar fora" do corpo consistente, o que / é próprio, via fantasia, à universalidade do Gozo Fálico (Jf) e, também, se vislumbraria o infinito Feminino, sendo o JA o seu signo e não do Amor, por não haver: "Outro do Outro". Entretanto, como construção simbólica, o Amor, embora referido ao "insucesso do Ics" como bem assinalou o trabalho de Abílio Ribeiro Alves intitulado: Do Luto e da Transmissão (cf. p.6 da cópia que nos foi cedida pelo autor), não poderá ser, pelo menos literalmente, tomado como sinonímia analógica deste dito "Insucesso", malgrado este ser, em expansão extensiva, (quando socialmente idealizado), unificante. Preferiria, evidentemente, dizê-lo fruto, efeito, do "Insucesso do Ics", ou mais precisamente como um recurso que vem dar conta para o sujeito dos "equívocos" e "insucessos" do Ics que são produzidos no nível de suas "formações". O Amor, evocando-se, novamente, a necessária referência, ainda no âmbito do mesmo Seminário sobre A Transferência, ao duo: Sócrates/ Agaton, não é ali análogo ao agalma e sim ao que o desconstitui. E, para tal, não poderá ser apenas considerado o ponto de vista do amado (eromenon), momento em que é obstáculo, empecilho, no nível da "direção de uma análise", à Psicanálise (isto por remeter discursivamente e de fato o analista a um ponto sublimatório de idealização no lugar do amor de transferência). Mas, se for levada, inclusive, em consideração a "reciprocidade do Amor", ou seja, a inclusão, também, alí do amador (erastes, no sentido camoniano do termo), teremos a emergência de duas possibilidades. Primeiro, de um lado, se for considerada a emergência catóptrica de ordem narcísica, onde há a deflexão do Outro, haverá a fusão: "Erastes/Eromenon" de caráter imagético-especular, a mesma que irá fundar uma erótica quando conjugar o duo: Eros/Psiquê, mas, em segundo lugar, por outra via, se o amador não puder, na vigência da via helenista (latina) da "Arte de Amar" (Ovídio), a mesma que foi redenominada, na cultura gótica, pela lição provençal do "amor-cortês" palaciano, falar de si, mas sim da impossibilidade desejante do amor no que este se referir ao ser amado, estaremos, pois, diante do sublimatório (assim qualificado por Michel Silvestre) "mito do amor". Ora, também, estaremos diante da interrupção (precoce ou não), com valor sintomático de nomeação, do circuito pulsional: trata-se da SUBLIMAÇÃO. O Amor, quando for um dispositivo formal, uma construção discursiva de direito, virá, de fato, suprir a impossibilidade do gozo, que, por sua vez, assumirá a forma da inexistência da relação sexual. Já o Inconsciente, quando Simbólico, não é o que, como o amor, cria obstáculo a qualquer "programação da relação sexual", é, antes, pelo contrário, "fadado ao insucesso", "fadado" ao Desejo e, por consequência da presença do Falo Imaginário, ao Sentido: isto porque é "uma formação do Ics" que tem a linguagem "metaforonímica" como sua pré-condição. E, desde Freud, desde sua significação onírica, qualifica-se a fantasia Ics com notação pulsional e disto Lacan irá inferir o Ics como sendo fruto histérico do "Desejo do Homem <=> ao Desejo do Outro", por ser o "Discurso do Outro", tornando-o compatível com o que representaria o preconceito implícito na visão medieval que aproximava as histéricas, via alienistas, da "loucura" e da "ex-comunhão" quando relativas ao "estar fora de si", onde o gozo fálico (Jf) condescendia ao desejo na via da paixão, configurando o "imaginário do Amor". Já as outras modalizações do Amor, por sua vez, não condescendem ao Desejo, antes o substituem, isso por surgirem como efeitos do "insucesso do Ics". E irão fazê-lo, por simbologia metafórica, a indicar a suplência, por suprimento, da impossibilidade do gozo. E tal ocorrerá porque a citada impossibilidade do gozo, vai ser suprida, substituída, "dublada", ora pela verdade, ora pelo legado heterossexual do "pai morto", ora pela idealização de pensamento. E é sabido por todos que o Amor pela verdade, desde Freud, chamou-se: Amor de transferência, cuja função pré-condicional, por via histórica e histérica (científicas), foi a emergência da Psicanálise, bem como o legado citado do "pai morto" revelava o Édipo em sua normatividade, assim como, desde Leonardo da Vinci, a idealização referida chamava-se sublimação. E, shakespereanamente, "last, but not least", se, ao contrário das balzaquianas "ilusões perdidas" produzidas pelas alegações desejantes das "formações do Inconsciente", ligar-se o Desejo a sua renúncia, teremos, então, que assistir a produção, ao sobrevir (advir) da Ética do gozo enquanto memória da "Coisa". Uma ética trágica da "causa perdida" que, via Paul Claudel, foi cristã, mas que, na via de Sófocles, singularizou a Ética da Psicanálise. Portanto, se deve apenas admitir a suposição do amor ser evidência de obstáculo, de impedimento ao Discurso do Analista (quando no transcurso de uma análise). Assim mesmo, só se ele destacar apenas o ponto de vista que é, alí, próprio da função do analista, ou seja, do que, como semblante, vier, em suplência, ao ponto de intrusão do Real. Mas, tal impedimento não se dirige à Psicanálise "como um todo". Até porque, esta, embora o principalize, e articule os quatro discursos a partir de sua mobilidade transferêncial, não se reduz ao discurso do Analista. Seria, pois, lícito afastar-se do conceitual psicanalítico que, como se sabe, tem valor transferencial: o Amor trágico pelas mulheres por ser, enquanto Édipo, legado heterossexual do Nome do Pai; ou o Amor, mais ainda trágico, ático, a opor a dignidade humana à tirania, conforme a leitura da dramatrugia existencialista francesa de um Jean Anouil, onde, no exemplo de Antígona, mais ainda, a Psicanálise formul ou a sua ética? Ou o ainda sublimatório e também porque não joyceano: amor pelo nome próprio; e, sobretudo, a Transferência? Ou não foi o "santo nome" de Joyce, via sublimação, um caminho de luto análogo à Transferência?

       Por isso já dizíamos: "se o amor é o que vem em suplência à inexistência da relação sexual, esta é, por sua vez, suprida ora pela Idéia (verdade/sublimação), ora pela suposição de saber (Transferência), ora pela representação do objeto impossível enquanto morto (alegoria barroca), ora pelo "não abrir mão do próprio desejo" (tragédia ática), ... ora pelo amor pelas mulheres (heterossexualidade)" (In: MENDONÇA, A.S. O Pensamento e(m) Lacan: O Moderno e a Desconstrução. Porto Alegre, Edições do CEL - 2000, p.100)

       Em suma: no "Insucesso do Inconsciente" (por este vir ceder o seu lugar ao Amor, já que esse não condescende ao Desejo), uma vez que, para que o sujeito possa levar o Amor a tomar o seu lugar, permitindo que se viabilize (para ele) a possibilidade da heterossexualidade, da sublimação, da ética / e, sobretudo, de um infinito que irá estatuir o saber (JA) e com ele, o luto e o estético, que são, respectivamente, a superação e a gênese da melancolia e da alegoria, o amor teria que vir suprir o destino desejante do fracasso destas "formações do Ics". O que de fato se dá porque, fadadas ao "insucesso", as ditas "formações do Ics" irão estatuir o Desejo e rechaçar o gozo e poderão tender ao Sentido através da Castração. Logo, estatuir o rechaço do gozo e não a renúncia ao Desejo é que criaria a possibilidade do Amor, e não o faria ser literalmente sinônimo, mas sim vir suprir o "fracasso das formações do Ics".

       Não se pode vir a confundir a emergência do amor com o "insucesso do Ics", e sim verificar que quando este, por equívoco, está fadado ao Desejo e ao rechaço do gozo, à exceção do "imaginário da paixão", caberá ao Amor, por vir suprir a inexistência da relação sexual, tomar o seu lugar, que foi deixado vago pela pulsionalidade e pelo sentido, e referir o sujeito à impossibilidade do gozo. O Amor é, pois, efeito do "fracasso, do insucesso" do Desejo, via Ics, e cabe ao sujeito recorrer ao Feminino para expressar a impossibilidade do gozo. Ou como nos indica Lacan, ao explicitar esta "função princeps" do Amor e a articular ao "insucesso do Ics", na contracapa que é aposta à versão brasileira de: "Outros Escritos" (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004) "(...) o gozo, cínico como tal, não condescende ao desejo, senão pela via do Amor; [Amor] que cria obstáculo a qualquer 'programação' da relação sexual, que, feminino, tem repulsa pelo universal e se afina com o infinito [sublimação]; [gozo] que, fálico, é 'fora do corpo'".

NOTA EXPLICATIVA:

       O gozo, quando é cínico, remete a sua própria posição, da ordem da letra, sua referência à perversão estrutural, / jamais à renegação (desmentido). Assim sendo, como JA, se propaga em direção ao infinito sublimatório e feminino onde jamais condescende ao Desejo, ou então, via Gozo Fálico (Jf), enquanto "imaginário do Amor", condescende a este pela hiperdeterminação entre o fato de o Gozo Fálico (Jf), ser metáfora do gozo e da fantasia inconsciente universalizar o seu "fora do corpo", e isto implicar no estatuir do Desejo no lugar do rechaço do gozo. Mas, quando o Amor vier suprir a inexistência da relação sexual, ele implicará na renúncia ao Desejo e substituirá o "insucesso do Ics". Então o gozo, por luto, realizado pelo amor, não condescende ao Desejo, a não ser histericizando o que, como já se disse, é próprio do "imaginário do Amor". Logo, o Amor tem lugar quando o Ics fracassa e se renuncia ao Desejo, a não ser que este seja do Outro. Mas, a questão de ser um obstáculo à Psicanálise, nos remete às relações entre o objeto a, Transferência, função do analista e Ideal-de-Ego. Pois, o gozo, em última análise requer, para o deciframento dos efeitos de sua impossibilidade, que a Psicanálise produza, conceitualmente, uma ESTÉTICO-ERÓTICA DO LUTO; caminho que atualmente, nos parece ser o indicado por Allouch


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos/ Instituição Psicanalítica/ RS. Titular da UFF, Dr. pela UFRJ e Livre-Docente pela UERJ.
Site do CEL www.celacan.com.br