20/08/2004
Número - 382

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

 

Opinião Acadêmica

Cinco artistas e um problema:*
Foraclusão e/ou sublimação.**

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


         Temos a aproximá-las, em princípio, apenas a remissão ao Gozo do Outro. E, este, quando produzido em acerto na Sublimação, destacadamente no que Freud nos disse ser o seu terceiro tipo (a sublimação do artista), gera a interrupção precoce (e parcial) do circuito pulsional. E, assim, investe-se a Idéia, por elevação emblemática do objeto à dignidade de Coisa (das Ding), no outrora lugar deste mesmo objeto; vale dizer que a Idéia estará posta no lugar do gozo, até porque o objeto a, enquanto letra, isto é como suporte material do significante, não seria, para o campo do gozo, senão o semblante deste dito objeto pulsional. Já, por sua vez, a Foraclusão, por distinção do engano desfalicizante, na melancolia, de Gozo do Outro, vê-se dirigida à Verwerfung, o que já se definiu (nos termos da Verworfen) enquanto obrigação de saber, que é análoga, a juízo de Lacan, ao estatuto paranóico fundante do conhecimento humano, cujo signo é Prometeu, e que tem a obrigação e não a possibilidade do Feminino enquanto causa, por esta ser sinonímia da Verwerfung freudiana.

         Entretanto, em seguida, também poderemos observar que se há de distinguir o campo da Verwerfung (foraclusivo) da Foraclusão no Nome do Pai, que é a Verwerfung a sua “mais real tradução” o que, no dizer de Lacan, especificamente na sua concepção dos anos 60 (cf. Escritos)1, seria responsável pela gênese e tratamento possível da psicose, entendendo-se aí a Verwerfung enquanto Foraclusão do Nome do Pai. Logo, parece confirmar-se o juízo conceitual de Celso Pereira de Almeida***, psicanalista da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro, por nós apoiado2, de que o dito campo da Verwerfung, por ser mais abrangente, incluiria não só a Foraclusão do Nome do Pai, mas também a Austossung, que aí seria vista como uma preclusão a produzir uma expulsão prévia da simbolização. E esta expulsão incidiria previamente sobre o Sentido e não seria sinônimo de sua dissolução na psicose (Foraclusão de Sentido). A não constituição especular do duplo e de qualquer alteridade excluiria, por expulsão prévia, a linguagem e a imagem consistente do corpo como referência(s) e iria constituir não o sujeito do delírio e sim o sujeito inconstituído. Por esta razão, embora isto não venha ao caso agora, tal argumentação se articularia, também, para aquele autor, à gênese do autismo. Todavia, estas assertivas preliminares, longe de esgotarem essa questão, apenas a têm encaminhado na direção de seus problemas centrais, pois a questão em pauta nos parece encaminhar-se propriamente para dois tipos de envolvimento teórico-conceitual. De um lado destaca-se a relação conceitual entre o “insucesso do Insconsciente” e o advento do Amor; e de outro a relação entre Foraclusão e Sublimação. Então, de saída, veríamos, conforme a lição do Lacan de “Le Nom-dupes errent”, a Sublimação como um modo imaginário de idealização do Amor que, no nível da linguagem, da obra-coisa (confrontar Mukarovsky), de seu efeito, dar-se-ia por uma via simbólica. Lá, sem dúvida, se amaria o “verdadeiro amor”. Ela, inclusive, seria capaz de provocar um efeito sintomático para além do óbvio e esperado falicismo desejante. Este já estaria indicado em Freud, no seu dito primeiro tipo de Sublimação, onde, por interrupção não precoce e parcial do circuito pulsional, se complementaria o recalque e se produziria a Inibição enquanto uma sintomática neurótica. Inibição que, na lide literária, sobretudo no medievalismo cortês da cantiga provençal palaciana, iria, de acordo com Michel Silvestre, equivaler ao “mito do amor”. Lacan ve aí e na anamorfose gótica exemplos de Sublimação3. Por isto, a Sublimação provocará não o fálico sintoma fundamental (Sinthome) freudiano, mas dará lugar a um sintoma não fálico, variante que é, na via tomasiana, da santificação sintomática por Lacan reconhecida em James Joyce. Trata-se de um Symptôme. E aí já se tornam necessárias as indicações de tais eventos conceituais na obra de Lacan, pois, em relação à Sublimação do artista, ele a resgata, mantendo, contudo, em vigor a contribuição freudiana e tomando a Leonardo da Vinci, como Freud também fez, enquanto seu ícone (cf. Relação de Objeto)4. Porém, quanto a sua articulação com a santificação do sintoma (Symptôme), por dizê-la causa de uma “obra em progresso”, produto de um “sintoma herético”, Lacan a indicará em seu seminário intitulado: O Sintoma5. Lá este procedimento é reconhecido em Joyce onde, por efeito sublimatório, gênese de sua heresia sintomática, fêz-se, não só o luto precoce de uma questão foraclusiva, mas também se recompôs a referência à paternidade a partir da imortalidade autoral, isto é: o santo-homem fêz-se autor do próprio nome ao imortalizá-lo e com isso resgatou a tentativa de apagamento, por rasura, do Nome do Pai (o que foi proposto através de suas duas mães, não de  Sant’Ana e Nossa Senhora, como no quadro de da Vinci, mas de sua mãe e da Irlanda), por isto pôde-se dizê-lo o santo nome que não foi em vão.

         Em seguida, deveremos poder reconhecer que, embora o “insucesso do inconsciente” faça esgotar o álibi fálico que tende a dissimular o rechaço do gozo, produz-se, para suprir tal dilema, o Amor no lugar da inexistência da relação sexual, e isto desde que implique, à exceção do passional e histérico imaginário bovárico do amor, na renúncia ao Desejo6. No entretanto, malgrado ser uma modalidade de Amor, a Sublimação não parece nada eficaz se pretender evitar a emergência da Foraclusão, já que não é vacina... Daí falar-se, um tanto imaginariamente, no delírio do artista como se delirar fosse pré-requisito de escrita. Uma coisa é o reconhecimento de que autores, que experimentaram o simbolismo da escrita em determinado momento, possam ter sucumbido ao delírio, outra bem diferente é considerar o escrito, que é a descrição do delírio de Schreber, como o fez Octave Mannoni em “Chaves para Imaginário7, como uma obra ficcional, não no sentido histórico, o que seria admissível, mas no sentido estético. O mais correto, por esta razão, talvez fosse falar-se do delírio no artista, presente na interrupção da vigência representativa de sua linguagem, principalmente quando esta dá lugar a sua desagregação. E esta desagregação é facilmente reconhecível tanto no “delírio confissional” e auto-biográfico que exemplificou a Beatitude de Schreber (a articulação entre o lugar delirante de A Mulher de Deus e a suposição de “assassinato da alma”), mas, sobretudo nos ditos “poemas da loucura” de Hölderlin8. Portanto, esta (última) questão necessitará, de fato, ser melhor proposta. E aí perguntar-se-á: “como diante de possível ocorrência anterior à obra de arte (enquanto efeito), em termos de sua gênese, da Sublimação, poder-se-á suspender esses mesmos efeitos e dar lugar a procedimentos foraclusivos, desagregadores da vida e da linguagem, que irão gerar verdadeiros impactos delirantes? Assim sendo, é preciso lembrar que, do ponto de vista de Lacan, de sua “Lituraterre”, as ditas artes literárias fazem retornar a vigência do real na linguagem, porém em Hölderlin isso não foi suficiente para impedir a eclosão do processo desagregador de sua linguagem. Ou então,  como relacionar “Diotima”, sua gênese sublimatória, a vigência e a morte da musa e a ocorrência, posterior, de seus ditos “poemas da loucura”? Mas, neste sentido, tanto a inspiração de um Martin Heidegger, quanto a leitura poética de Beda Allemann 9 serão mais úteis que o “interpretativismo” próprio do psicanalisar característico da leitura de Laplanche. Isto porque, se nos reportarmos ao texto de Schreber, ou seja, ao célebre: “Memórias de um Doente dos Nervos”10, bem como aos inéditos de Daniel Devreese11 e, sobretudo, ao texto freudiano, encontraremos explícita a evidência de que a morte do ser beatificante, que era para ele a sua mãe, parece ter agravado e provocado a eclosão, quase que definitiva, de seu irreversível e psicótico delírio persecutório. E, embora possamos, neste momento, deixar de lado o papel conceitual dado por Freud ao delírio homossexual, que nele é hiperdeterminado à Verwerfung, não deveremos, nem poderemos fazê-lo quando a consolidação deste estado delirante, desagregador e disjuntivo, vier a ocorrer, pois, nele haverá a remissão ao fato de A Mulher já ter ocupado definitivamente o lugar da foraclusão do Nome do Pai (o que possivelmente ocorreu nos dois casos suscitados). No entanto, o exemplo das artes cênicas, especificamente o da dramaturgia teatral, nos parece ser mais gritante e nos jogará nos braços do ocorrido nas artes plásticas de caráter escultural. Lacan destacará explicitamente tal envolvimento fraterno em seu seminário: “A Transferência”12. Isto quando ali qualificou conceitualmente a tragédia de Paul Claudel como cristã, por diferença da tragédia ática (presente na trilogia de Sófocles) e da tragédia do desejo (cujo ícone lhe pareceu ser o Hamlet Shakesperiano). Nela dar-se-á, obrigatoriamente, o imperioso reconhecimento da reconciliação (efeito temático da misericórdia), o que, por tentar suprir, por via imaginária, a psicótica questão do “pai humilhado”, joga o tempo todo com a contradição irredutível entre a denúncia moral e o perdão. Já o herói trágico, por ser predestinado, não abre mão do seu desejo, seja o Édipo (o que por não saber, em nome do destino [fortuna], agiu), seja Antígona a que afirmava, acima da tirania, a dignidade humana, por compatibilizá-la com a lei do Pai, trazendo à tona, neste ato, a singularidade ética da Psicanálise. Porém, na maquiavélica Tragédia do Desejo hamletiana, onde o “livre arbítrio”, próprio da alegoria política benjaminiana, sobredeterminava-se ao “que, por saber, (momentaneamente) não agia” e se fundiam as questões do Estado e do Amor (como na tragédia “A Castro”, também renascentista). O herói deste drama trágico, por abrir mão do seu Desejo, age para “pagar”, na forma de “desgarramento ôntico”, pelo seu “crime de existir”. Por causa disto, Lacan no seminário: “O Desejo e sua Interpretação”13 divergirá de Ernest Jones que considerava Hamlet como um prolongamento do complexo de Édipo. Só que, agora, do ponto de vista da Tragédia Cristã de Paul Claudel, dar-se-á ênfase, não a um retrato fidedigno, por via ficcional, da dimensão trágica da vida de sua irmã, e sim à “reparação” (no sentido que Ernest Jones empresta a este termo) de sua culpabilização. Ali é expressado o ponto de vista de sua culpa por não ter, a contento, conseguido impedir o infortúnio de sua irmã. Lá está o remorso sentido pela síntese do fracasso, do medo e da ambição (materna). O sentido de justiça foi só tardiamente evocado (“post mortem”). Isto porque, em dado momento, pouco foi feito por ele, inclusive por pressão de sua esposa e de sua mãe, para que fossem evitadas as agruras, bem como o desenlace de sua irmã. Sabe-se, inclusive, que Camille Claudel morreu, do mesmo modo que vários outros internos nos hospícios franceses, de inanição. Consequentemente, como se dizia, “em nome da reparação da injustiça” (motivo alegado) e da “absolvição de seus pecados e omissões” (razão de fato) Camille Claudel é descrita por seu irmão como se fora um fruto tardio do “Pai Humilhado”, e, ao ter confirmada, hipoteticamente, a “humilhação,” por esta ser lida, equivocadamente, como efeito da rejeição de Camille por Rodin, ali se produziria algo como uma Verworfen, ou como diria o Lacan do campo do gozo: ter um symptôme pela suposição de ter havido, da parte de Camille como um suposto sujeito do delírio, o reconhecimento mimético e delirante de si mesma no lugar de excluída. Contudo, essa não foi necessariamente a história e/ou lugar significante e autoral de Camille Claudel e sim a direção do remorso, no olhar de seu irmão. Ela necessariamente não repetiu, pós-rejeição de Rodin, a saga do “Pai Humilhado”, ela apenas foi homenageada deste modo, ficcionalmente, pelo seu irmão que necessitava, em nome da culpa, vê-la como “vítima” de Rodin. Todavia, se atentarmos ao que dela se registrou historicamente, visto não pela ótica de Paul Claudel, mas pela relação entre sublimação, gozo e autoria, talvez estejamos diante de um agudo processo de melancolização que se teria desdobrado na constituição acéfala do masoquismo propriamente dito. Quem sabe estejamos diante da conjugação de Eros como penúria, da alocução da penúria no lugar do gozo, e isto por provocação de decepção fálica gerada pelo fracasso do Desejo de Potência que irá provocar, por sua vez, efeitos melancólicos gradativamente mortais (deixar-se morrer por algo análogo ao suicídio lento) que são próprios das origens bováricas e histéricas do discurso da paixão. E, se em dado momento Camille não conseguiu mais produzir, talvez isto se deva à eclosão de uma acefalia melancolizante que converteu o acerto sublimatório em engano mortal de Gozo do Outro. E não nos esqueçamos que tem feito parte da tradição histórica da clínica psiquiátrica uma eterna confusão entre o falicismo desejante quando inerente ao medieval “estar fora de si” na paixão histérica, razão de sua etimologia e a repressiva suposição de “loucura”. E este “erro de diagnóstico”, que não passa de um travestimento do preconceito, é histórico e só foi, de fato, momentânea e universitariamente, interrompido em Salpétrière (Charcot). E de pouco adiantou, senão para aplacar o seu remorso, que Paul Claudel, qual uma feminista de plantão, ficasse unilateralmente culpando Rodin. Ele parece repetir nisso o mal-entendido da “Dama das Camélias”. Contudo, não nos podemos esquecer que entre nós, na própria dramaturgia brasileira, iremos encontrar nas referências a Joaquim de Sousa Leão, dito Qorpo Santo, a mesma suposição que nos tem levado ao dilema: arte ou “loucura”? Ou dizendo melhor: arte ou “delírio”? Entretanto, o mais gritante exemplo deste mal-entendido parece ter sido o pintor Van Gogh, isto porque, ao contrário de Hölderlin, sua historiografia não parece autorizar, nas suas linhas gerais, que se repitam os efeitos da saga e do infortúnio, tendentes à foraclusão, de uma paternidade pietista quando associada à superproteção de uma mãe que era porta voz da “palavra plena”, onde, em nome de ambos, pode-se suscitar a conversão da herança mítica em mística. E neste processo destacou-se o misticismo estético do saber (Gozo do Outro) que incluía o geist alemão na herança grega por conjugá-lo como expressão de sua physis, processo que só  foi interrompido cronologicamente pela morte da musa, o que acarretou o advento dos “poemas da loucura”.

         Concluindo, constata-se que se abre todo um campo reflexivo que nos permite dar conta do fato de que em certos casos, como em Joyce, a escrita e o processo de sublimação que lhe dá origem fizeram cessar, por luto precoce, uma herança foraclusiva; porém em outros casos, não menos importantes, tal não ocorreu. Pelo contrário, dali adveio o delírio, efeito atualizador de foraclusão, de um modo geral ocorrido após a morte quer da musa, quer do ícone de um delírio erotômano, dito sensual. E uma vez vigente o delírio, quer em sua língua fundamental, quer em sua alíngua de salsicheiro, este irá revogar e interromper a vigência do binômio: sublimação/ escrita. Estas são as questões que ainda permanecem sem resposta; procuramos, neste trabalho, apenas limpar o campo conceitual em lugar acrescê-lo com temas não pertinentes.

         Então, para concluir, gostaríamos de desenvolver um ponto de vista que acreditamos possa vir a contribuir decisivamente para o esclarecimento destas questões pendentes, oriundas da relação entre SUBLIMAÇÃO E FORACLUSÃO, senão vejamos:

1.     É do conhecimento dos leitores da obra de Jacques Lacan que:

1.1.  Ela resgata integralmente a concepção conceitual apresentada por Freud a respeito da sublimação do artista, já que é, igualmente, inspirada em Leonardo da Vinci;

1.2.  Se na sublimação, de um modo geral, tem-se, como efeito da interrupção não-precoce do circuito pulsional, a geração de um sinthome (sintoma fundamental) que vem suplementar, sem dúvida, o recalque; na dita sublimação do artista, de incisão precoce que acarreta a interrupção do circuito pulsional, produz-se um symptôme, uma nomeação não-fálica do sujeito pela autoria;

1.3.  Portanto, quando a obra de Lacan vai-se referir a Joyce iremos observar que ali articular-se-á a evidência da SUBLIMAÇÂO (na causa originária, na genealogia da “obra em progresso”) a um efeito autoral, herético, sintomático, não-fálico denominado symptôme (santificação do sintoma);

1.4.  Por esta razão, alicerçando-se na leitura de Anner Tardis, Lacan se posiciona, face à suposição de “loucura” por Jacques Aubert imputada a Joyce, preferindo ver lá a produção pela autoria do luto precoce de uma questão foraclusiva, isto porque ali se coloca, para que o sujeito possa conjugar o nome próprio, como tal, a questão da autoria da própria palavra e do nome próprio;

1.5.  Mas, se em Leonardo da Vinci, por interrupção precoce do circuito pulsional, Lacan deduz ter havido SUBLIMAÇÃO, vê-se que ali é produzido um symptôme autoral e não o fálico sintoma fundamental (sinthome), e isto se dá por estar ali a Idéia aposta no lugar do gozo, e, tanto lá como em Joyce, encontraremos um symptôme, uma nomeação de autoria singular que se torna, para o sujeito e para a universalidade, o índice excepcional (invulgar e de exceção), do lugar de nome próprio;

1.6.  Logo, pode-se, inclusive, concluir que do mesmo modo que a sublimação do artista precocemente, por interrupção, pode substituir o circuito pulsional, gerando um symptôme como em da Vinci, ela, por hipótese, em Joyce, parece ter precocemente interrompido um ciclo libidinal de caráter erotômano que era hiperdeterminado à Nora enquanto musa erotizada;

1.7.  Se, de fato ocorrente, esta nova forma de incisão sublimatória irá gerar, a saber, duas consequências, que são:

1.7.1.   A nítida demonstração em Joyce do Symptôme herético de verve tomasiana;

1.7.2.   A possibilidade, se levarmos em conta a histografia de Vincent Van Gogh, muito bem apresentada, por testemunho parental e de época, no livro: VAN GOGH-BONGER, Johanna (Jo). Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada14, em versão para a língua portuguesa de William Lagos, que nos conduz ao entendimento de que ali o processo sublimatório (diferenciado, em efeitos, nos momentos singulares de sua obra) parece ter precocemente incidido sobre um ciclo libidinal que se hiperdeterminava, por via erógena, a uma forma de atualização do masoquismo propriamente dito (álibi melancólico, explicitado em suas telas finais, para a penúria extrema, cuja resolução o conduziu para a auto-mutilação de aparência esquizofrenizante) por inversão do havido com Aimée de Lacan. Lá se buscava como palavra-plena a celebridade, aqui sua recusa conduziu o artista a retratar-se, também, bovaricamente. Seu auto-retrato pôs no lugar da recusa à celebridade a suposição bovárica de ser um Outro (não-castrado) que não se é, expurgando-se o apelido paterno, e vendo o 1º nome despido da referência semântica à paternidade, como um lugar de sem-nome (do Pai). Se a sublimação interrompeu um ciclo de auto-anulação erótica, ela foi, pelo recidivar melancolizante (que o supria), obrigada a conviver com a Foraclusão: Será? Ou ela terá tido novamente suspenso o seu efeito autoral de symptôme?


Referências Bibliográficas

1.  LACAN, Jacques. Escritos. RJ, Jorge Zahar, 1985.

2.  MENDONÇA, A. S. et alii. O Autismo. In... A Clínica em Lacan, Porto Alegre, Edições do C. E. L., 2002.

3. MENDONÇA, A. S. A Sublimação. In... www.riototal.com.br/coojornal nº 328, RJ.

4.  LACAN, Jacques. Le Seminaire, livre 4. Relation D’objet, Paris, Seuil, 1981, (1955/ 56).

5.  LACAN, Jacques. Le Seminaire, livre 18. Le Sinthome, Paris, inédit, 1976.

6.  MENDONÇA, A. S. Nota Final: Mais ainda sobre o Amor.
 In... www.riototal.com.br/coorjornal nº 380, RJ.

7.  MANNONI, Octave. Chaves para o Imaginário. Petrópolis, Vozes, 1973.

8.  MENDONÇA, A. S. et alii. Hölderlin é a questão do Pai? In... A Transmissão, nº 5, ano  4, Porto Alegre, Gryphus (Forense)/ Edições do C. E. L., 1996.

9. ALLEMAN, Beda. Heidegger e Hölderlin, Petrópolis, Vozes, 1972.

10. SCHREBER, Daniel. Memórias de um “doente dos nervos, Lisboa, Portugália, s/d.

11.  DEVREESE, Daniel. Os inéditos de Schreber, Paris, Seuil, 1986.

12.  LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre 8, Le Transfert. Paris, Seuil, 1991, (1960-61).

13.  LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre 6, Le Désir et son interpretacion. Paris, inédit, 1959.

14.  VAN GOGH-BONGER, Johanna (Jo), Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada. Porto Alegre, LPM, 2004.


* O título homenageia o magnífico livro de Antônio Hoüaiss: Seis Poetas e um problema que tivemos ocasião de comentar no livro de Civilização Brasileira intitulado: Antônio Hoüaiss: Uma Vida, onde apresentamos o capítulo: Antônio Hoüaiss: O Teórico da Literatura. 

** Trabalho a ser apresentado na 2ª Ciranda de Psicanálise & Arte a ser realizada no Museu Nacional de Belas Artes de 27 a 29 de Agosto de 2004, Rio de Janeiro, sob os auspícios da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro e do Ministério da Cultura.

*** Este trabalho lhe é dedicado “in memoriam”.


Prof. Dr. LD. Antônio Sérgio Mendonça: Titular/U.F.F.; Doutor em poética pela U.F.R.J.; Livre docente em Letras pela U.E.R.J.; Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacanianos/RS. www.celacan.com.br