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Opinião Acadêmica
Cinco artistas e um problema:
Foraclusão e/ou sublimação.
Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça
Temos a aproximá-las, em
princípio, apenas a remissão ao Gozo do Outro. E, este, quando produzido em
acerto na Sublimação, destacadamente no que Freud nos disse ser o seu terceiro
tipo (a sublimação do artista), gera a interrupção precoce (e parcial) do
circuito pulsional. E, assim, investe-se a Idéia, por elevação emblemática do
objeto à dignidade de Coisa (das Ding), no outrora lugar deste mesmo objeto;
vale dizer que a Idéia estará posta no lugar do gozo, até porque o objeto a,
enquanto letra, isto é como suporte material do significante, não seria, para
o campo do gozo, senão o semblante deste dito objeto pulsional. Já, por sua
vez, a Foraclusão, por distinção do engano desfalicizante, na melancolia, de
Gozo do Outro, vê-se dirigida à Verwerfung, o que já se definiu (nos termos da
Verworfen) enquanto obrigação de saber, que é análoga, a juízo de Lacan, ao
estatuto paranóico fundante do conhecimento humano, cujo signo é Prometeu, e
que tem a obrigação e não a possibilidade do Feminino enquanto causa, por esta
ser sinonímia da Verwerfung freudiana.
Entretanto, em seguida,
também poderemos observar que se há de distinguir o campo da Verwerfung (foraclusivo)
da Foraclusão no Nome do Pai, que é a Verwerfung a sua “mais real tradução” o
que, no dizer de Lacan, especificamente na sua concepção dos anos 60 (cf.
Escritos)1, seria responsável pela gênese e tratamento possível
da psicose, entendendo-se aí a Verwerfung enquanto Foraclusão do Nome do Pai.
Logo, parece confirmar-se o juízo conceitual de Celso Pereira de Almeida,
psicanalista da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro, por nós
apoiado2, de que o dito campo da Verwerfung, por ser mais
abrangente, incluiria não só a Foraclusão do Nome do Pai, mas também a
Austossung, que aí seria vista como uma preclusão a produzir uma expulsão
prévia da simbolização. E esta expulsão incidiria previamente sobre o Sentido
e não seria sinônimo de sua dissolução na psicose (Foraclusão de Sentido). A
não constituição especular do duplo e de qualquer alteridade excluiria, por
expulsão prévia, a linguagem e a imagem consistente do corpo como
referência(s) e iria constituir não o sujeito do delírio e sim o sujeito
inconstituído. Por esta razão, embora isto não venha ao caso agora, tal
argumentação se articularia, também, para aquele autor, à gênese do autismo.
Todavia, estas assertivas preliminares, longe de esgotarem essa questão,
apenas a têm encaminhado na direção de seus problemas centrais, pois a questão
em pauta nos parece encaminhar-se propriamente para dois tipos de envolvimento
teórico-conceitual. De um lado destaca-se a relação conceitual entre o
“insucesso do Insconsciente” e o advento do Amor; e de outro a relação entre
Foraclusão e Sublimação. Então, de saída, veríamos, conforme a lição do Lacan
de “Le Nom-dupes errent”, a Sublimação como um modo imaginário de idealização
do Amor que, no nível da linguagem, da obra-coisa (confrontar Mukarovsky), de
seu efeito, dar-se-ia por uma via simbólica. Lá, sem dúvida, se amaria o
“verdadeiro amor”. Ela, inclusive, seria capaz de provocar um efeito
sintomático para além do óbvio e esperado falicismo desejante. Este já estaria
indicado em Freud, no seu dito primeiro tipo de Sublimação, onde, por
interrupção não precoce e parcial do circuito pulsional, se complementaria o
recalque e se produziria a Inibição enquanto uma sintomática neurótica.
Inibição que, na lide literária, sobretudo no medievalismo cortês da cantiga
provençal palaciana, iria, de acordo com Michel Silvestre, equivaler ao “mito
do amor”. Lacan ve aí e na anamorfose gótica exemplos de Sublimação3.
Por isto, a Sublimação provocará não o fálico sintoma fundamental (Sinthome)
freudiano, mas dará lugar a um sintoma não fálico, variante que é, na via
tomasiana, da santificação sintomática por Lacan reconhecida em James Joyce.
Trata-se de um Symptôme. E aí já se tornam necessárias as indicações de tais
eventos conceituais na obra de Lacan, pois, em relação à Sublimação do
artista, ele a resgata, mantendo, contudo, em vigor a contribuição freudiana e
tomando a Leonardo da Vinci, como Freud também fez, enquanto seu ícone (cf.
Relação de Objeto)4. Porém, quanto a sua articulação com a
santificação do sintoma (Symptôme), por dizê-la causa de uma “obra em
progresso”, produto de um “sintoma herético”, Lacan a indicará em seu
seminário intitulado: O Sintoma5. Lá este procedimento é
reconhecido em Joyce onde, por efeito sublimatório, gênese de sua heresia
sintomática, fêz-se, não só o luto precoce de uma questão foraclusiva, mas
também se recompôs a referência à paternidade a partir da imortalidade
autoral, isto é: o santo-homem fêz-se autor do próprio nome ao imortalizá-lo e
com isso resgatou a tentativa de apagamento, por rasura, do Nome do Pai (o que
foi proposto através de suas duas mães, não de Sant’Ana e Nossa Senhora, como
no quadro de da Vinci, mas de sua mãe e da Irlanda), por isto pôde-se dizê-lo
o santo nome que não foi em vão.
Em seguida, deveremos
poder reconhecer que, embora o “insucesso do inconsciente” faça esgotar o
álibi fálico que tende a dissimular o rechaço do gozo, produz-se, para suprir
tal dilema, o Amor no lugar da inexistência da relação sexual, e isto desde
que implique, à exceção do passional e histérico imaginário bovárico do amor,
na renúncia ao Desejo6. No entretanto, malgrado ser uma modalidade
de Amor, a Sublimação não parece nada eficaz se pretender evitar a emergência
da Foraclusão, já que não é vacina... Daí falar-se, um tanto imaginariamente,
no delírio do artista como se delirar fosse pré-requisito de escrita.
Uma coisa é o reconhecimento de que autores, que experimentaram o simbolismo
da escrita em determinado momento, possam ter sucumbido ao delírio, outra bem
diferente é considerar o escrito, que é a descrição do delírio de Schreber,
como o fez Octave Mannoni em “Chaves para Imaginário”7, como
uma obra ficcional, não no sentido histórico, o que seria admissível, mas no
sentido estético. O mais correto, por esta razão, talvez fosse falar-se do
delírio no artista, presente na interrupção da vigência representativa de
sua linguagem, principalmente quando esta dá lugar a sua desagregação. E esta
desagregação é facilmente reconhecível tanto no “delírio confissional” e
auto-biográfico que exemplificou a Beatitude de Schreber (a articulação entre
o lugar delirante de A Mulher de Deus e a suposição de “assassinato da alma”),
mas, sobretudo nos ditos “poemas da loucura” de Hölderlin8.
Portanto, esta (última) questão necessitará, de fato, ser melhor proposta. E
aí perguntar-se-á: “como diante de possível ocorrência anterior à obra de arte
(enquanto efeito), em termos de sua gênese, da Sublimação, poder-se-á
suspender esses mesmos efeitos e dar lugar a procedimentos foraclusivos,
desagregadores da vida e da linguagem, que irão gerar verdadeiros impactos
delirantes? Assim sendo, é preciso lembrar que, do ponto de vista de Lacan, de
sua “Lituraterre”, as ditas artes literárias fazem retornar a vigência do real
na linguagem, porém em Hölderlin isso não foi suficiente para impedir a
eclosão do processo desagregador de sua linguagem. Ou então, como relacionar
“Diotima”, sua gênese sublimatória, a vigência e a morte da musa e a
ocorrência, posterior, de seus ditos “poemas da loucura”? Mas, neste sentido,
tanto a inspiração de um Martin Heidegger, quanto a leitura poética de Beda
Allemann 9 serão mais úteis que o “interpretativismo” próprio do
psicanalisar característico da leitura de Laplanche. Isto porque, se nos
reportarmos ao texto de Schreber, ou seja, ao célebre: “Memórias de um Doente
dos Nervos”10, bem como aos inéditos de Daniel Devreese11
e, sobretudo, ao texto freudiano, encontraremos explícita a evidência de que a
morte do ser beatificante, que era para ele a sua mãe, parece ter agravado e
provocado a eclosão, quase que definitiva, de seu irreversível e psicótico
delírio persecutório. E, embora possamos, neste momento, deixar de lado o
papel conceitual dado por Freud ao delírio homossexual, que nele é
hiperdeterminado à Verwerfung, não deveremos, nem poderemos fazê-lo quando a
consolidação deste estado delirante, desagregador e disjuntivo, vier a
ocorrer, pois, nele haverá a remissão ao fato de A Mulher já ter ocupado
definitivamente o lugar da foraclusão do Nome do Pai (o que possivelmente
ocorreu nos dois casos suscitados). No entanto, o exemplo das artes cênicas,
especificamente o da dramaturgia teatral, nos parece ser mais gritante e nos
jogará nos braços do ocorrido nas artes plásticas de caráter escultural. Lacan
destacará explicitamente tal envolvimento fraterno em seu seminário: “A
Transferência”12. Isto quando ali qualificou conceitualmente a
tragédia de Paul Claudel como cristã, por diferença da tragédia ática
(presente na trilogia de Sófocles) e da tragédia do desejo (cujo ícone lhe
pareceu ser o Hamlet Shakesperiano). Nela dar-se-á, obrigatoriamente, o
imperioso reconhecimento da reconciliação (efeito temático da misericórdia), o
que, por tentar suprir, por via imaginária, a psicótica questão do “pai
humilhado”, joga o tempo todo com a contradição irredutível entre a denúncia
moral e o perdão. Já o herói trágico, por ser predestinado, não abre mão do
seu desejo, seja o Édipo (o que por não saber, em nome do destino [fortuna],
agiu), seja Antígona a que afirmava, acima da tirania, a dignidade humana, por
compatibilizá-la com a lei do Pai, trazendo à tona, neste ato, a singularidade
ética da Psicanálise. Porém, na maquiavélica Tragédia do Desejo hamletiana,
onde o “livre arbítrio”, próprio da alegoria política benjaminiana,
sobredeterminava-se ao “que, por saber, (momentaneamente) não agia” e se
fundiam as questões do Estado e do Amor (como na tragédia “A Castro”, também
renascentista). O herói deste drama trágico, por abrir mão do seu Desejo, age
para “pagar”, na forma de “desgarramento ôntico”, pelo seu “crime de existir”.
Por causa disto, Lacan no seminário: “O Desejo e sua Interpretação”13
divergirá de Ernest Jones que considerava Hamlet como um prolongamento do
complexo de Édipo. Só que, agora, do ponto de vista da Tragédia Cristã de Paul
Claudel, dar-se-á ênfase, não a um retrato fidedigno, por via ficcional, da
dimensão trágica da vida de sua irmã, e sim à “reparação” (no sentido que
Ernest Jones empresta a este termo) de sua culpabilização. Ali é expressado o
ponto de vista de sua culpa por não ter, a contento, conseguido impedir o
infortúnio de sua irmã. Lá está o remorso sentido pela síntese do fracasso, do
medo e da ambição (materna). O sentido de justiça foi só tardiamente evocado
(“post mortem”). Isto porque, em dado momento, pouco foi feito por ele,
inclusive por pressão de sua esposa e de sua mãe, para que fossem evitadas as
agruras, bem como o desenlace de sua irmã. Sabe-se, inclusive, que Camille
Claudel morreu, do mesmo modo que vários outros internos nos hospícios
franceses, de inanição. Consequentemente, como se dizia, “em nome da reparação
da injustiça” (motivo alegado) e da “absolvição de seus pecados e omissões”
(razão de fato) Camille Claudel é descrita por seu irmão como se fora um fruto
tardio do “Pai Humilhado”, e, ao ter confirmada, hipoteticamente, a
“humilhação,” por esta ser lida, equivocadamente, como efeito da rejeição de
Camille por Rodin, ali se produziria algo como uma Verworfen, ou como diria o
Lacan do campo do gozo: ter um symptôme pela suposição de ter havido, da parte
de Camille como um suposto sujeito do delírio, o reconhecimento mimético e
delirante de si mesma no lugar de excluída. Contudo, essa não foi
necessariamente a história e/ou lugar significante e autoral de Camille
Claudel e sim a direção do remorso, no olhar de seu irmão. Ela necessariamente
não repetiu, pós-rejeição de Rodin, a saga do “Pai Humilhado”, ela apenas foi
homenageada deste modo, ficcionalmente, pelo seu irmão que necessitava, em
nome da culpa, vê-la como “vítima” de Rodin. Todavia, se atentarmos ao que
dela se registrou historicamente, visto não pela ótica de Paul Claudel, mas
pela relação entre sublimação, gozo e autoria, talvez estejamos diante de um
agudo processo de melancolização que se teria desdobrado na constituição
acéfala do masoquismo propriamente dito. Quem sabe estejamos diante da
conjugação de Eros como penúria, da alocução da penúria no lugar do gozo, e
isto por provocação de decepção fálica gerada pelo fracasso do Desejo de
Potência que irá provocar, por sua vez, efeitos melancólicos gradativamente
mortais (deixar-se morrer por algo análogo ao suicídio lento) que são próprios
das origens bováricas e histéricas do discurso da paixão. E, se em dado
momento Camille não conseguiu mais produzir, talvez isto se deva à eclosão de
uma acefalia melancolizante que converteu o acerto sublimatório em engano
mortal de Gozo do Outro. E não nos esqueçamos que tem feito parte da tradição
histórica da clínica psiquiátrica uma eterna confusão entre o falicismo
desejante quando inerente ao medieval “estar fora de si” na paixão histérica,
razão de sua etimologia e a repressiva suposição de “loucura”. E este “erro de
diagnóstico”, que não passa de um travestimento do preconceito, é histórico e
só foi, de fato, momentânea e universitariamente, interrompido em Salpétrière
(Charcot). E de pouco adiantou, senão para aplacar o seu remorso, que Paul
Claudel, qual uma feminista de plantão, ficasse unilateralmente culpando Rodin.
Ele parece repetir nisso o mal-entendido da “Dama das Camélias”. Contudo, não
nos podemos esquecer que entre nós, na própria dramaturgia brasileira, iremos
encontrar nas referências a Joaquim de Sousa Leão, dito Qorpo Santo, a
mesma suposição que nos tem levado ao dilema: arte ou “loucura”? Ou dizendo
melhor: arte ou “delírio”? Entretanto, o mais gritante exemplo deste
mal-entendido parece ter sido o pintor Van Gogh, isto porque, ao
contrário de Hölderlin, sua historiografia não parece autorizar, nas suas
linhas gerais, que se repitam os efeitos da saga e do infortúnio, tendentes à
foraclusão, de uma paternidade pietista quando associada à superproteção de
uma mãe que era porta voz da “palavra plena”, onde, em nome de ambos, pode-se
suscitar a conversão da herança mítica em mística. E neste processo
destacou-se o misticismo estético do saber (Gozo do Outro) que incluía o geist
alemão na herança grega por conjugá-lo como expressão de sua physis, processo
que só foi interrompido cronologicamente pela morte da musa, o que acarretou
o advento dos “poemas da loucura”.
Concluindo, constata-se
que se abre todo um campo reflexivo que nos permite dar conta do fato de que
em certos casos, como em Joyce, a escrita e o processo de sublimação que lhe
dá origem fizeram cessar, por luto precoce, uma herança foraclusiva; porém em
outros casos, não menos importantes, tal não ocorreu. Pelo contrário, dali
adveio o delírio, efeito atualizador de foraclusão, de um modo geral ocorrido
após a morte quer da musa, quer do ícone de um delírio erotômano, dito
sensual. E uma vez vigente o delírio, quer em sua língua fundamental, quer em
sua alíngua de salsicheiro, este irá revogar e interromper a vigência do
binômio: sublimação/ escrita. Estas são as questões que ainda permanecem sem
resposta; procuramos, neste trabalho, apenas limpar o campo conceitual em
lugar acrescê-lo com temas não pertinentes.
Então, para concluir,
gostaríamos de desenvolver um ponto de vista que acreditamos possa vir a
contribuir decisivamente para o esclarecimento destas questões pendentes,
oriundas da relação entre SUBLIMAÇÃO E FORACLUSÃO, senão vejamos:
1.
É do conhecimento
dos leitores da obra de Jacques Lacan que:
1.1.
Ela resgata
integralmente a concepção conceitual apresentada por Freud a respeito da
sublimação do artista, já que é, igualmente, inspirada em Leonardo da Vinci;
1.2.
Se na sublimação,
de um modo geral, tem-se, como efeito da interrupção não-precoce do circuito
pulsional, a geração de um sinthome (sintoma fundamental) que vem suplementar,
sem dúvida, o recalque; na dita sublimação do artista, de incisão precoce que
acarreta a interrupção do circuito pulsional, produz-se um symptôme, uma
nomeação não-fálica do sujeito pela autoria;
1.3.
Portanto, quando a
obra de Lacan vai-se referir a Joyce iremos observar que ali articular-se-á a
evidência da SUBLIMAÇÂO (na causa originária, na genealogia da “obra em
progresso”) a um efeito autoral, herético, sintomático, não-fálico denominado
symptôme (santificação do sintoma);
1.4.
Por esta razão,
alicerçando-se na leitura de Anner Tardis, Lacan se posiciona, face à
suposição de “loucura” por Jacques Aubert imputada a Joyce, preferindo ver lá
a produção pela autoria do luto precoce de uma questão foraclusiva, isto
porque ali se coloca, para que o sujeito possa conjugar o nome próprio, como
tal, a questão da autoria da própria palavra e do nome próprio;
1.5.
Mas, se em Leonardo
da Vinci, por interrupção precoce do circuito pulsional, Lacan deduz ter
havido SUBLIMAÇÃO, vê-se que ali é produzido um symptôme autoral e não o
fálico sintoma fundamental (sinthome), e isto se dá por estar ali a Idéia
aposta no lugar do gozo, e, tanto lá como em Joyce, encontraremos um symptôme,
uma nomeação de autoria singular que se torna, para o sujeito e para a
universalidade, o índice excepcional (invulgar e de exceção), do lugar de nome
próprio;
1.6.
Logo, pode-se,
inclusive, concluir que do mesmo modo que a sublimação do artista
precocemente, por interrupção, pode substituir o circuito pulsional, gerando
um symptôme como em da Vinci, ela, por hipótese, em Joyce, parece ter
precocemente interrompido um ciclo libidinal de caráter erotômano que era
hiperdeterminado à Nora enquanto musa erotizada;
1.7.
Se, de fato
ocorrente, esta nova forma de incisão sublimatória irá gerar, a saber, duas
consequências, que são:
1.7.1.
A nítida
demonstração em Joyce do Symptôme herético de verve tomasiana;
1.7.2.
A possibilidade, se
levarmos em conta a histografia de Vincent Van Gogh, muito bem apresentada,
por testemunho parental e de época, no livro: VAN GOGH-BONGER, Johanna (Jo).
Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada14, em
versão para a língua portuguesa de William Lagos, que nos conduz ao
entendimento de que ali o processo sublimatório (diferenciado, em efeitos, nos
momentos singulares de sua obra) parece ter precocemente incidido sobre um
ciclo libidinal que se hiperdeterminava, por via erógena, a uma forma de
atualização do masoquismo propriamente dito (álibi melancólico, explicitado em
suas telas finais, para a penúria extrema, cuja resolução o conduziu para a
auto-mutilação de aparência esquizofrenizante) por inversão do havido com
Aimée de Lacan. Lá se buscava como palavra-plena a celebridade, aqui sua
recusa conduziu o artista a retratar-se, também, bovaricamente. Seu
auto-retrato pôs no lugar da recusa à celebridade a suposição bovárica de ser
um Outro (não-castrado) que não se é, expurgando-se o apelido paterno, e vendo
o 1º nome despido da referência semântica à paternidade, como um lugar de
sem-nome (do Pai). Se a sublimação interrompeu um ciclo de auto-anulação
erótica, ela foi, pelo recidivar melancolizante (que o supria), obrigada a
conviver com a Foraclusão: Será? Ou ela terá tido novamente suspenso o seu
efeito autoral de symptôme?
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VAN
GOGH-BONGER, Johanna (Jo), Biografia de Vincent Van Gogh por sua
cunhada. Porto Alegre, LPM, 2004.
Prof. Dr. LD.
Antônio Sérgio
Mendonça: Titular/U.F.F.; Doutor em poética pela U.F.R.J.; Livre docente em
Letras pela U.E.R.J.; Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacanianos/RS.
www.celacan.com.br
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