25/06/2005
Número - 426

OPINIÃO ACADÊMICA
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Opinião Acadêmica

EM NOME DA PÈRE-VERSION *

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


A partir de fontes secundárias sumérias, assírias (caldeus) e hebraicas (primárias) do pensamento de Freud, que, inclusive, nos remetem à lenda (mito) e ao drama do “Rei de Uruk” (Gilgamesch)1 (onde se irá contrastar a ameaça filicida com a reação parricida), tivemos, possivelmente, há mais de 4.000 anos o surgimento da questão do “Assassínio do Pai”.

Posteriormente, convoca-se, então, uma fonte Ática, que era relativa ao período trágico da Polis Grega, mais especificamente: o drama do Sófocles (que, como se sabe, fazia parte de sua trilogia tebana, e, esta, por sua vez, tinha como base a versão tebana do mito do “assassínio do pai”) que foi intitulado, tragicamente, de: Édipo Rei.

Ali se sobredeterminavam o parricídio, a sua motivação incestuosa e a sua purgação catártica (na forma de enceguecimento). Por esta razão, será Tirésias, “o que não via”, que nos irá apontar a direção do olhar da verdade (não-toda). Mas, Sigmund Freud ainda irá convocar, neste tema, uma dupla contribuição judaica, tratava-se da questão monoteísta e, nela, há de se destacar o “Moisés Hebreu” e o seu “não matarás”, enquanto compatíveis com a questão edípica da Lei do Pai.2 Além do que, ao se substituir, em Freud, o “enceguecimento” pela castração, tomou-se por base a requisição filicida do Deus de Abrahão, bem como a forma mítica de suspensão deste sacrifício. Naquele texto mítico o “Cordeiro de Deus” cedeu lugar à “circuncisão” de origem egípcia e remetente ao Moisés da mesma pátria, e esta, por sua vez, metonimizou a ameaça de castração. Contudo, no âmbito do "mito do assassínio do pai”, foi preciso que se distinguisse a imortalidade monoteísta (a suposição de um Deus Único, para além da morte) do parricídio (de fato e/ou suposto) e do assassinato do pai por outrem. No primeiro caso citado nos deparávamos com a consagração, em “Moisés e Monoteísmo”, da visão bíblica do “não matarás”, que era pertinente ao Moisés hebreu (abdutor do egípcio) como origem tanto da imortalidade simbólica do Deus Cristão do Religare, quanto, já que era a sua pré-condição, da castração do pai.3 No segundo caso, encontraremos Sigmund Freud debruçado na leitura do cristianismo oriental (demoníaco) que informava o realismo mórbido do romance russo no Século XIX. Lá, o personagem Dimitri, por ser suposto como alter ego do próprio Dostoievski, nos fazia encontrar a suposição parricida, de sorte não existente, isto porque em “Os Irmãos Karamazov” tínhamos, ao contrário do dito nas leituras de Freud e Lacan sobre Leonardo da Vinci, a suspensão e não a realização da sublimação, bem como a sua transformação ficcional e “confessional” na “revelação” de suposto parricídio, de sorte não cometido por ninguém. Tratava-se, de fato, da obsessão parricida pela degradação maníaca. Já no último caso aventado encontraremos o oposto do herói trágico, que é, como se sabe, predestinado “à existência do crime”. Ele (Édipo), “por não saber, agiu” e convocou a auto-punição como redenção, para que o seu povo não pagasse em agruras pelo crime que o destino o fez cometer. Entretanto, já no Século XVI, em drama maquiavélico que, embora aparente uma moralidade cristã “do livre-arbítrio” (contraposição "das razões do poder”  “às razões da paixão” mais a “insatisfação moral com o domínio”), de fato não o é, por não pregar a reconciliação (cf. Lacan – Sobre a Transferência). O Hamlet (Shakespeare) invectiva contra o assassinato torpe de seu pai que fora cometido por seu tio paterno, que passou, após o crime, a desposar a sua mãe. Porém, por ser, a juízo de Lacan, “o que por saber, não agia” (momentaneamente), viu-se, por efeito de seu “crime de existir”, predestinado a morrer por desígnio de Desejo de Mãe, e, ainda que concretizasse a dita “vingança”, deu a própria vida em sacrifício ao oferecer “as entranhas” como dom ao Outro. Este era seu destino oblativo, conjugação de seu “desgarramento ôntico”.

Estabelecido este percurso, Lacan irá tirar dele três conseqüências: a) a reconsideração do Édipo, que passa a ser a síntese entre o tragicismo de Sófocles, o Moisés de Freud e o Mestre Castrado de Hegel, ainda que tenha, para isto, que supor o Inconsciente como sendo “o avesso da Psicanálise”; b) a retomada da castração como sendo apenas relativa ao pai (seu portador) e definida, por ele e não por Freud, enquanto “o impossível saber sobre o gozo”; c) e a formulação de Nomes do Pai como uma versão borromeana inspirada na (santíssima) gótica e agostiniana trindade, desde que despida de seu solo único e fechado (totalidade una e trinária ao mesmo tempo). Neste lugar, irão comparecer hiperdeterminados e mediatizados, o Pai-Real (Deus único e imortal que, quando severo, pode vir a autorizar o homicídio), o Simbólico “Pai-morto” (seu representante) e o Imaginário Pai Ideal a configurar seu exemplo entre os Homens. Portanto, nela se distinguia o Pai Real (quando era referente ao Deus Único do Religare, por estar para além da morte), da também “perversificação da morte” quando, por homofonia conceitual, iria se referir tanto ao Pai Perverso (Privador) quanto à severidade Paterna.4 E isto nos apontava, na esteira de Iknathon e de seu Moisés egípcio, para a severidade assassina do fundamentalismo religioso. Já a sucessão de Gilgamesch nos indicava a equivalência ao perverso e privador, se fosse bem sucedido, Deus de Abrahão, o que não apenas autorizava, mas (ainda) requisitava o filicídio. Já o Deus do “não matarás” teria como lugar-tenente o pai simbólico, que era edípico, e que seria, sem dúvida, o “pai morto” de Ática conjugação. Além disto, ao imaginarizá-lo, nos defrontaríamos com o Pai feito conforme o sintoma do Homem, isto é, como filho, ou seja, como a idealização da salvação e da purgação face ao pecado original. É este o sentido de reconciliação e misericórdia do drama cristão. E se este Pai-Ideal “faz-se sintoma”, então, o Nome-do-Pai, significação do Falo, torna-se, por via imaginária, o Pai do Nome e se expressa pela potência histérica e/ou pela servidão obsessiva, com valor suposto de Sintoma, isto por ter invertido a relação Pai/ $/ Castração/ Sintoma.

Em suma, a categoria singularmente lacaneana, de Nome(s) do Pai5 irá não só resgatar a freudiana questão: O que é um pai?; mas também irá fazê-lo ao categorizá-la na confluência de suas matrizes tanto bíblicas (judaicas e cristãs), quanto assírias, gregas e quinhentistas (estas humanistas e (tardo) góticas). Por isso, Lacan, homofonicamente, dirá que versão do pai é, apenas, um lugar desejante apontado pela função paterna.6

 



* Texto preparado para o curso realizado no Rio de Janeiro, 2003, na Escola Lacaneana de Psicanálise e intitulado: Lacan: da Magia à Psicanálise

1 A respeito da relação GILGAMESCH/ Freud, embora a tivéssemos suposto em nosso “O Ensino de Lacan II” (RJ, Gryphus (Forense), p. 110) [quando dissemos: “... a indicação de um Pai-Real, privador do Desejo, dito freudianamente pai-da-horda primitiva, remete-nos ao desmentido perverso, ..., pois, Freud evocava (aparentemente) Darwin, mas, provavelmente, se inspirava, hoje se sabe, menos pelo caráter totêmico-ritual de uma religiosidade obsessiva, menos ainda por hipóteses etnográficas, factualmente, não confirmadas, posteriormente, por antropologias sociais pós-estruturalistas, na bíblica lenda (pertinente ao sacrifício pedido por Deus (Jeová) a Abrahão), uma ficção que nos remete ao Real de uma escrita, de uma estória (im)possível, com 4.000 anos: a de Gilgamesh – Rei de Uruk – que, como todo o mítico, tem origem oral e anônima e evidência histórica como manuscrito (dramatúrgico)”]; teríamos, hoje, a acrescentar que: vemo-nos, de saída, obrigados a reconhecer um, sem dúvida, ponto de convergência entre Freud e Hobbes, ou seja, o Mestre de Viena teria, como aquele autor, visto a agressividade perversa como uma infindável fonte de hetero-hostilidade social, como bem ressaltou Sérgio Paulo Rouanet em seu “Os dez amigos de Freud” (SP, Cia das Letras, 2 vol, 2004). E o desdobramento de tal reconhecimento implicaria em se acatar a óbvia analogia de tal constatação com o tema mítico-freudiano do “pai da horda primitiva”. E, sobretudo, inclusive, ter-se-ia, por isto, que ressaltar que é da lavra textual de Lacan a constatação feita, no Seminário de 1976: “Le Sinthome”, de que, para além da universalidade atemporal da Lei do Amor quando relativa à função paterna (Lei do Pai), o “Totem e Tabu” freudiano é um dos desdobramentos possíveis do caráter borromeano da “père-version”. Enfim, todavia, concluindo, a alusão feita a Gilgamesh foi um juízo atributivo plausível já que este tema assírio “contaminou”, possivelmente, como fonte lendária, o “corpus”, também, lendário da cultura judaica recebida como herança por Freud, ao consagrar-se ali o tema do assassínio do pai. Logo, ela funcionou como fonte indireta e foi absorvida pelo ideário freudiano. Até porque é indubitável que a questão mosaica, por ser lendária e judaica, foi fonte direta da obra freudiana.

2 A partir do Seminário Le Sinthome  (5/76), Lacan nos coloca a questão da “Père-Version” em Freud. Este termo, quando plural, significa a borromeaneidade dos Nomes-do-Pai. No sentido singular, contudo, aponta, via o Freud de “A Resolução do Complexo de Édipo, para o Pai Simbólico, “morto”, enquanto portador da  Castração. Todavia, ainda invocando Freud, Lacan nos indicava que, conforme o “Totem e Tabu”, através do pai da horda, tal termo nos apontava o pai-privador como o que ao permanecer impossível enquanto Real, permitia que o simbolismo do “pai morto” relacionasse o amor relativo à função do Pai à eternidade monoteísta.

3  Por esta razão, a “Père-Version” é, conforme Lacan, a própria Lei do Pai: a sua lei do amor, e por se referir à eternidade monoteísta, designava a também função simbólica da metáfora paterna.

4  Se père-version for, homofonicamente, análoga à Le père-verse, isto é, ao verso, ao avesso, ao reverso do pai portador da Castração, ou seja, da própria Lei do Pai, poderá vir a significar o desmentido desta Lei. E como isto é a face “horda primitiva” da père-version, estaremos, pois, diante do Pai Privador (Real). Mas se, também, ainda homofonicamente, for possível pronunciar não Le père-verse e sim Le père-severe, estaremos, via Real, remetidos ao legado do Moisés Egípcio. Contudo, ainda no âmbito da homofonia, a père-version simbólica designa o Pai Perseverante.

5  Jacques Sédat afirma, com razão, que, desde 1963, no Seminário, então inacabado, intitulado Os Nome(s) / Nãos do Pai, o termo Nome do Pai nos remetia à gótica e agostiniana Santíssima Trindade. Ao indagar, contudo, tal fato do irmão de Jacques Lacan, o teólogo Marc-François Lacan, recebeu como resposta que, ao contrário do que pareceria indicar o título, por exemplo, do livro de Danny Robert-Dufour Os Mistérios da Trindade (RJ, Campo Freudiano), a Trindade não seria propriamente um mistério, no sentido de ser uma revelação de ordem teológica propriamente dita. Antes, pelo contrário, nos remeteria ao caráter expressivo e, também diríamos, binário do pensamento dialético hegeliano. E isto por ser, a seu juízo, apenas uma questão lógica, no sentido de uma pura e eidética abstração. Acontece que, conforme o mesmo Danny Robert-Dufour expõe em seu texto, o binarismo hegeliano (que, ainda de acordo com o mesmo autor, já fora fonte de especularidade unária egóica presente, pós-Boheme, no Estádio do Espelho de Lacan), por ser paratodizante, nos termos de uma lógica expressiva, remeteria o Geist (Espírito Absoluto) a uma totalidade fechada. Ora, será esta condição que fará o Lacan dos Escritos, especificamente em “Ciência e Verdade”, distinguir o caráter borromeano dos Nome(s) do Pai do texto agostiniano. Pois, este, a seu juízo, qual o de Hegel (para seu irmão), seria uma totalidade fechada, ao mesmo tempo una e trina, enquanto o caráter borromeano dos Nome(s) do Pai nos conduziria às relações de suplência e de necessidade existentes entre o impossível, o contingente e o consistente.

6  Vejamos, por fim, o que diz Jacques Lacan:
    “Até onde vai, ..., a père-version que vocês sabem como escrevo?
    O “nó borromeano” é isso: é a sanção do fato de que Freud faz com que se sustente, como um todo, a função do pai. O “nó borromeano” não passa da tradução disso: o amor, e, ainda por cima, do amor que se pode qualificar (por via monoteísta) de eterno, que é o que se refere à função paterna, ao pai que é portador da castração (referência ínclita ao Édipo Freudiano). Pelo menos é isso que Freud formula em “Totem e Tabu”, na referência à horda primitiva, e será na medida (paradoxal) que a filia(os) são privados das mulheres é que eles amam o pai (a ponto de fantasiarem o parricídio), e este algo de absolutamente singular e perturbador só foi sancionado pela intuição de Freud.
    Mas é a esta intuição de Freud que tento dar outro “corpus” (teórico), precisamente através de meu “nó borromeano”, onde a Lei é, simplesmente (por ser Lei do pai perseverante), a lei do amor, isto é, a “père-version”.
    (cf. versão livre de A. S. Mendonça da fala de 02/05
/76 do Seminário “Le Sinthome”.)

 


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF, Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
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