20/08/2005
Número - 438

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Opinião Acadêmica

A Psicanálise Enquanto uma Erótica (ético-estética) do Luto 
- Psicanálise & Drama -

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


SUMÁRIO


1ª Parte: Psicanálise & Drama.................................................................. 2

1 O Drama Ático¹ como Fundamento do Saber Analítico (ICS)........................ 2

1.1 O ME FUNAI Trágico-Ático, a Heroicidade Trágica e o seu Princípio Melancó-lico:  a Versão Tebana  ............................................................... 2

1.2 A Tradição Latina (Romana), a Purgação, o Enceguecimento e o NOSCE TE IPSUM: a Versão de Colona..................................................................... 2

1.3 A Singularidade do Édipo (Tebano) de Sófocles ..................................... 2

1.4 O Édipo De e Em Freud ..................................................................... 3

1.5 e 6 O Édipo Conforme o Pensamento de Lacan, a Ética do Desejo em Antígona Como a Ética Própria da Psicanálise e a Lição Dramática da Comédia Ática:
“A Volta ao Lar” em Aristófanes   ............................................................ 3

1.7 A Comédia, a Paródia e a Perversão no Teatro Moderno: Genet................. 4

1.8 Hamlet, a Obsessão, o Drama Maquiavélico e a Tragédia do Desejo por ¹ da Tragédia Cristã de Paul Claudel................................................................ 5

1.9 O Teatro, a Perversão e a Paródia do Moralismo Católico-burguês em Nelson Rodrigues ............................................................................................ 5

1.10 Notas Explicativas .......................................................................... 6


 

1ª Parte: Psicanálise & Drama

1 O Drama Ático¹ como Fundamento do Saber Analítico (ICS)



1.1 O ME FUNAI Trágico-Ático, a Heroicidade Trágica e o seu Princípio Melancólico: a Versão Tebana

O ME FUNAI trágico-ático como princípio melancólico instaurador da heroicidade trágica. Ele significava, em relação ao Édipo tebano: “o não gostaria de ter nascido com tal destino”. Destino provocado pelos crimes paternos, então, o herói iria pagar em agruras por estes, e, para evitar a maldição, terminaria por desconhecer a paternidade. Esta é suprida pela condição de Rei, provisória e rasurada, e é pré-condição para a sua forma de agir. Então, o ME FUNAI gera, via “Moira” / “Cloé”, a predestinação e esta a heroicidade trágica. Um herói acima e diverso do homem comum e imune à intervenção do “maravilhoso” do Olimpo, desde que esteja realizando a sua “tiquê”, sua fortuna. Nela, ele repete o “encontro faltoso com o Real”, cujo efeito é a dicotomia entre SABER e AGIR, o que o fez supor ter decifrado, apenas por sobreviver, o enigma da Esfinge.

1.2 A Tradição Latina (Romana), a Purgação, o Enceguecimento e o NOSCE TE IPSUM: a Versão de Colona

Já a tradição latina (Romana), contudo, no lugar do privilégio do ME FUNAI, tem preferido, pós-enceguecimento, destacar, pela incorporação reconfigurada do lugar de Tirésias (lá se passa do que sabe sobre a fortuna de outrem (Desejo do Outro) para o que sabe sobre os efeitos de sua própria fortuna (Sinthome)) o NOSCE TE IPSUM (“conheça a ti mesmo”) onde, consertando-se o célebre texto de Andre Green publicado na Revista L’Arc sobre Freud, dir-se-ia que: de início Édipo está cego para Sgte, para ao final cegar-se enquanto Sgte, e poder ser por este (enceguecimento) representado para a própria subjetivação.

1.3 A Singularidade do Édipo (Tebano) de Sófocles

Logo, o Édipo grego, versão tebana, irá hiperdeterminar a condenação do parricídio, (homicídio) às custas da PROIBIÇÃO do incesto, à predestinação e com isso constituir a heroicidade trágica. Então: mito do assassínio do Pai + predestinação + heroicidade trágica + enceguecimento (purgação) parecem caracterizá-la. Em tempo, será justamente esse efeito de purgação de culpa, não de seu próprio ato, mas de seu efeito em seu povo (a peste), que serão destacadas tanto por Aristóteles, quanto pela tradição latina, ou seja, a purgação será, no primeiro caso, hiperdeterminada à CATARSE e no segundo caso ao “NOSCE TE IPSUM”, colocando-se em segundo plano o ME FUNAI como origem da predestinação trágica.

1.4 O Édipo De e Em Freud

Já o Édipo em Freud, um conceito e preocupação constante(s), é uma forma de metaforizar sua questão sintomática: “o que é um Pai”, pois nasce de sua observação de que este mito orbitava, de direito e de fato, em torno da Paternidade e da forma de, paradoxalmente, simbolizar-se o “pai-morto” às custas da erradicação normativa de seu assassínio, que é no texto efetivamente praticado. Assim, Freud preocupava-se com sua transmissão como um legado de Potência e formulou por isso sua teoria do Complexo de Édipo; que não é nele jamais, como assinalou Foucault, uma estória familiar de desejo incestuoso incontido e sim uma forma de na condição de “morto”, só nela, o significante Pai poder nomear o filho, ainda que este seja seu assassino. Portanto, em Sigmund Freud, o Édipo tebano de Sófocles vai estar parcialmente reconfigurado. Teremos, pois, em sua concepção: O mito do assassínio do Pai + A predestinação + A proibição do incesto (e a condenação do Parricídio como forma de homicídio) + A Castração (sua criação singular) + a questão: Paternidade/Monoteísmo. Pois será tal modo de apresentação que nos permitirá observar duas conclusões: a) ali se substitui o “enceguecimento”, e com isto a ênfase na PURGAÇÃO, pela CASTRAÇÃO² (Complexo, para ele, derivado do Complexo de Édipo); b) hiperdeterminava-se, também, à questão do “Pai-morto” e seu porta-voz hebreu e se articulava a condenação do parricídio à do homicídio: NÃO MATARÁS, isto por ser colocado o Édipo grego em campo conceitual (análogo) ao dito Moisés Hebreu.

1.5  e  6  O Édipo conforme o Pensamento de Lacan, a Ética do Desejo em Antígona como a Ética própria da Psicanálise e a lição Dramática da Comédia Ática: “A Volta ao Lar” em Aristófanes

Lacan, por sua vez, também irá reconfigurar, por diferença de Freud e da tradição tebana, o conceito de Édipo. Preliminarmente, irá contrapor-se ao texto de Ernest Jones sobre Hamlet que via este personagem shakespereano como manifestação do “Complexo de Édipo”. Ali enquanto Hamlet: “por saber, não agia”; Édipo, por ser predestinado, agia em conformidade com sua Fortuna, com sua TIQUÊ, com “seu encontro faltoso para com a Paternidade”. Por isso Lacan afirmava ser ele o que: “por não saber, agia”. Além disso, em suas reflexões no campo do gozo, sobretudo em seu texto de 1970 intitulado: O Avesso da Psicanálise, Lacan irá articular o Édipo também à questão trazida por sua leitura Kojeveana do “jovem Hegel”: O MESTRE CASTRADO. Assim sendo, teremos para Lacan: mito do ASSASSÍNIO  do PAI + PREDESTINAÇÃO + CASTRAÇÃO + MONOTEÍSMO + “MESTRE CASTRADO”. O mestre de Paris verá, também, em termos clínicos, o Édipo como: a Lei do Pai, efetivação da Metáfora Paterna, constituição do “pai morto” enquanto Pai-Simbólico, normatividade da potência a ser transmitida, como tal, para o Sintoma do Homem e como contingência de procriação para as mulheres.

Será Lacan que, ainda, invocando Sófocles e sua trilogia, mas já referido à Antígona, verá ali, no que Jean Anouhil destacou como denúncia da tirania em favor da dignidade humana, a presença da Ética do Desejo enquanto Ética do Gozo, modelo da singular Ética da Psicanálise, o que o possibilitou definir o herói trágico como: “o que não cede (não abre mão) sobre o seu desejo”, isso no Seminário: A Ética da Psicanálise.

1.7 A Comédia, a Paródia e a Perversão no Teatro Moderno: Genet

Será ainda Jacques Lacan, já no seu pouco conhecido estudo introdutório sobre o “Balcão” de Genet (e Sartre, “a rejeição fascinada do lacanismo” como disse PHILIPE SOLLERS, o chamou de Saint-Genet) feito a seu convite, que demonstrou que havia naquela “sua” obra um alegórico e parodístico retrato da perversão maníaca. Mas, para tal, Lacan o articulou ainda ao Drama Ático, mais especificamente à Comédia de Aristófanes, vendo, em comum, entre este autor e Genet, o tema da: “volta ao Lar, próprio da adoção na pólis trágica do dado que era compatível com a tragédia: o repúdio à guerra; adotado, também, no enaltecimento do herói épico, (lutar-tenente de Etnia): o que apenas se consagrava, por ”temer o canto das sereias”, (e na leitura de Erich Auerbach víamos já ali nitidamente o repúdio, o rechaço ao gozo como condição de heroicidade política), à guerra e iria demorar-se, sempre, na “volta ao lar”. Aliás, retomando a importância da Comédia de Aristófanes, já na obra lacaneana em fase final, quando própria do Campo do Gozo, em O Momento de Concluir, Lacan pareceu lamentar-se do fato de historicamente a Psicanálise freudiana ter sido fundada sob o signo da Tragédia; ele preferiria vê-la fundada, via “jovem Hegel” e sua Antropologia do Desejo, nos braços da Comédia. — Fundar-se no Drama é situar-se entre a MELANCOLIA e seu LUTO, já se referir unicamente à Tragédia é da ordem apenas da MELANCOLIA, enquanto referir-se apenas à Comédia será simplesmente da ordem do LUTO —.

1.8 Hamlet, a Obsessão, o Drama Maquiavélico e a Tragédia do Desejo por ¹ da Tragédia Cristã de Paul Claudel

Veremos, em seguida, o advento, no âmbito do drama maquiavélico³ de outra forma de Tragédia: A Tragédia do Desejo, que tem em Hamlet o seu ícone. Este é, como já se disse, o que “por saber, não agia” configurando, em sua questão oblativa, para Lacan, a inscrição do fantasma obsessivo: $ à j, por estar em permanente “desgarramento ôntico”, entre a “vendetta” do “Pai-morto”, duplamente fracassado (denegrido fálica e politicamente) na transmissão da falicidade, e o desejo incestuoso (como fantasia) que era, nele, “travestido” de amor pela mãe (qual seu pai “traído”). Aliás, o único traído ali, a juízo de Lacan, seria Hamlet, pois para Lacan, traição equivale a “abrir mão, ceder sobre o próprio desejo”. Esta tragédia, quinhentista e elizabetana, é, a juízo de Walter Benjamin, também exemplo de “alegoria política”, pois Hamlet foi, inclusive, por ser príncipe herdeiro, também, um “dominador insatisfeito com  as condições morais da dominação”.

1.9 O Teatro, a Perversão e a Paródia do Moralismo Católico-burguês em Nelson Rodrigues

Lacan, voltando-se a Genet, o irá considerar como autor de um drama contemporâneo à sua época; isso significava dizê-lo um autor moderno no sentido que LYOTARD empresta a este termo, ou seja, compatível com a supremacia das narrativas de legitimação4. Porém, para não dizer que não falamos “das flores e espinhos” do Simbólico, deveríamos, também, destacar o “nosso anjo pornográfico”. Nelson Rodrigues, isto no dizer de Rui Castro, pois este verdadeiro “Kant com Sade” brasileiro e urbano, sem dúvida, em pelo menos três de suas peças: O Beijo no Asfalto, O Boca de Ouro e Os Sete Gatinhos parece não ver distinção alguma entre o moralismo popular das vilas de subúrbio e o “cristianismo burguês” da udenista classe média alta, inscrevendo ambos no que se denominou de “a perversão nossa de cada dia”, que era dissimulada pela hipocrisia de um “bom-mocismo”, tio-avô do que hoje é dito como: “politicamente correto”, e que Slavoj Zizek caracterizaria como manifestação da “razão cínica”.

1.10 Notas Explicativas

1 Aqui é considerada a classificação Aristotélica exposta em: Arte Retórica e Arte Poética que dividia a(s) Arte(s) em gêneros. Esses eram 3 (três): o Lírico, o Épico e o Dramático. Este, por sua vez, subdividia-se em Tragédia e Comédia. No Drama Trágico sobressai-se a Trilogia Tebana de Sófocles composta de: Édipo Rei, Édipo em Colona e Antígona. Já no Drama de caráter cômico destacava-se a obra de Aristófanes. Aristóteles, em suas reflexões estéticas, considerava a Tragédia como forma superior de Arte e no âmbito dessa forma destacava-se o Édipo Rei de Sófocles, isto por melhor realizar o efeito catártico, ou seja, centrava o valor do reconhecimento estético no público (receptor) por este, ao ser motivado pelo coro e por Tirésias (o que cego, podia ver do Outro o que este não se dava conta), realizar uma identificação imaginária, de caráter anímico, com a sorte do herói trágico.

2 Conceito inventado (criado) por Freud, mas jamais plenamente demonstrado por este autor, a não ser como “temor”, quando a descreveu, bem como a sua anulação, no célebre texto sobre o FETICHISMO. Será, ainda, Jacques Lacan que a conceituará ora (Relação de Objeto) como a articulação entre falta simbólica e objeto imaginário; ora (Escritos) como a “privação do incesto”, e, finalmente, em sua obra pertinente ao Campo do Gozo como: “o reconhecimento da impossibilidade de saber(-se) sobre o Gozo”.

3 Trata-se da presença temática na dramaturgia do século XVI da hiperdeterminação entre o “livre-arbítrio” e a oposição radical e mortal entre “as razões do Estado” e as “as razões da paixão”. Além de Shakespeare, este tema, cf. “Romeu e Julieta” (onde a família substituía, como “sociedade parcial”, ao Estado) destacou-se na península ibérica, a Tragédia: “A CASTRO”. Contudo, malgrado a presença do “livre-arbítrio”, esta forma  dramática, que em Hamlet, tornou-se: A Tragédia do Desejo, não era uma Tragédia Cristã. Faltavam, para tal, três elementos básicos: a) a reconciliação com a “COUSA” e/ ou a “CAUSA” perdida; b) a referência ao “Pai Humilhado”, impossível de se simbolizar; c) e, sobretudo, a reparação da covardia, do fracasso e da culpa pelo arrependimento, o que fazia da misericórdia (divina) um mero suporte para a reconciliação com a própria culpa. Lá subtrocava-se o fracasso histérico da potência paterna (atribuído ao amante) pelo melancólico, psicótico e passivo culto ao “Pai Humilhado”. O signo deste tipo de Tragédia é a obra dramática de Paul Claudel sobre sua irmã; a escultora Camile Claudel.

4 No dizer de Jean-François Lyotard, em seu texto-referência sobre o “Pós-Modernismo”, narrativa de legitimação é a que se propõe a interpretar o mundo, a sociedade. Nos séculos XIX e XX destacaram-se como exemplos da “KULTUR KRITIK” (Crítica da Cultura) o marxismo ocidental enquanto índice de legitimação histórico-política, as vanguardas históricas como ícones de legitimação estética, e a Psicanálise como marco da legitimação erótica.


 
Referências Bibliográficas

1. CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1992.

2. FREUD, Sigmund. A Dissolução do Complexo de Édipo. In: Obras Completas, vol XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

3. FREUD, Sigmund. Moisés e o Monoteísmo. In: Obras Completas, vol. XXIII, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

4. LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

5. LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17, Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

6. LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4, A Relação de Objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

7. LACAN, Jacques. Sobre o Balcão de Genet. Revista A Transmissão, Ano 4, n. 5, Gryphus (Forense), 1996.

8.LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. 7.ed. Rio de Janeiro: Editora José Olímpio, 2002.

9. MAGALDI, Sábato. Teatro Completo de Nelson Rodrigues (organização geral e prefácio). único volume. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1993; reimpressão, 1994.

10. MAGALDI, Sábato. Teatro Completo de Nelson Rodrigues. Quatro volumes, Editora Nova Fronteira, 1981-1989.

11. MENDONÇA, A. S. Genet, A Comédia e a Perversão. In: Poesis nº 1 (Revista da Pós-Graduação: Mestrado e Doutorado em Ciência da Arte/ UFF). Niterói: Eduff, 2000, ano 1, p. 5-15.

12. MENDONÇA, A. S. Da Formação do Ego a Reconsideração do Édipo Freudiano por Lacan. Revista A Transmissão, Lacan: da magia à psicanálise, Ano 10, n.11 - 2001 - 2002, Edições do CEL, 2002.

13. MENDONÇA, A. S. A Frustação, a Obsessividade e a Cessão sobre o Próprio Desejo em Hamlet. Revista A Transmissão, A Clínica em Lacan. Ano 9, n.10, Tomo II. Porto Alegre: Edições do CEL/ RS, 2001/ 2002.

14. MENDONÇA, Antônio Sérgio. O Ensino de Lacan. Rio de Janeiro: Edições do CEL – Gryphus (Forense), 1993.

15. MENDONÇA, Rita Franci. O Engano do Gozo Fálico e sua Conformação Trágica na Obsessividade. Revista A Transmissão, Ano 3, n.4. Porto Alegre: Edições do CEL, 1995.

16. RODRIGUES, Nelson. Teatro Completo de Nelson Rodrigues I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 (Os Sete Gatinhos, 1958. Boca de Ouro, 1959. Beijo no Asfalto, 1960).

17. SHAKESPEARE, William. In: Obras Completas, 2 v., 16.ed. (Romeu & Julieta. Hamlet). Madri: Editora Aguilar, 1974.

18. SÓFOCLES. A Trilogia Tebana. (Tradução e apresentação Mário da Gama Kury). Rio de Janeiro: Zahar, 2001.


2º Parte: Genet, a Comédia e a Perversão

A Opção pela Erótica

A comédia tem origem Ática, pois remete à crise da pólis em Atenas. Lacan, então, observa que naquele momento, a cultura Ática substitui o apego à guerra, valor de Esparta extremamente valorizado na ancestralidade épica, por uma “volta ao lar”. Este abandono da prisão: cidadania/ heroicidade (própria da Épica) eleva ao “desrespeito” o agalma de Odisseu (Ulisses) para fazer da guerra um não-sentido, refeito pelo apego do homem comum aos pequenos prazeres da vida, dentre eles a volta ao lar, e, com isso, banaliza a heroicidade da guerra e, também, passa a ironizá-la por dizê-la absurda. No entanto, não só se afasta do sublime, enquanto emblemático, mas também da sublimação como origem, na trágico-estética aristotélica, de uma estética da suspensão do juízo, posteriormente retomada por Kant. Nela, no lugar do sublime ideal de pólis, ou da sublime causa do ideal catártico: a comoção, teremos, via Kant e Sade, a opção entre a sublimação e a erotização. Em Freud, tratar-se-á de apostar em Eros em face do mal-estar civilizatório, mas tanto em Aristófanes como em Genet, tratar-se-á de uma época de crise, onde este Eros não é Iluminista como o Freudiano, que tem em Tânatus seu adversário vinculado à guerra, à agressividade enquanto liame social precoce de perversidade, e sim é o de Bataille: um Eros que incorporasse Tânatus. O simbólico assim erotizado em direção à paródia produz a crítica da perversão. Uma paródia que testemunha, pelo riso, a perversão encenada como espetáculo teatral, figura, no sentido hegeliano, pois O Balcão a universaliza, e nós, leitores, por identificação, a singularizamos.

A Encenação da Perversão na Metáfora do Bordel

Aristófanes vai evocar, muito antes de Freud, mas a partir do mesmo princípio de crise encontrado em Antígona, ou seja, em face da guerra, só que uma impondo o direito à morte e ao desejo e outro lembrando (que o mal-estar de Tânatus decorre não do tempo ou da justeza da guerra, mas por não haver objeto possível que satisfaça o desejo humano) que governar é impossível. Diante da crise, além da Comédia, explicita o que a perversidade da guerra faz, precisamente: Atenas ceder sobre o seu Desejo de ser pólis, embora fosse esta, paradoxalmente, a alegação da guerra. O vínculo pré-freudiano está dado na palavra aberração. Lacan verá então Genet como o Aristófanes de nossa época e a guerra como um estado de generalização do bordel em que se transformou a questão social contemporânea, onde o homem não deve dever ao Estado, mas o que importa são as formas de sobrevivência ou ilusão. Mais do que a guerra, é a decadência que se torna permanente, a mesma que ele já anunciara no misantropo e, diante dela, a Comédia só produz pessoas dramáticas, significantes: bispos, juízes ou generais, e a Comédia de Genet torna-se O Balcão de onde se assiste, como casa ilusória, à guerra de que se participa sans-le-savoir. Ali, como na charge contemporânea (“Quero o Meu” – personagem do Veríssimo), trata-se de sobreviver e o Ego-Ideal, o Moi torna-se um “Ideal-do-Meu” e, no lugar da sublimação, temos esta guerra permanente como “erotização” do relacionamento simbólico, a partir daí, Genet reivindica a libertinagem, redenominando Sade, como a verdadeira função subversiva do Sujeito Patológico, na acepção de Serge André. Pois, O Balcão ilusório nos faz assistir, como palco da guerra, o bordel que vivemos desde aquela época, o que vem corresponder ao que hoje é chamado de modo pós-moderno de “banalização da violência”. E, como todas as personagens são pessoas dramáticas, podem ser perfeitamente assimiladas umas às outras em seus papéis ilusórios.

A sociedade transformada em bordel faz com que todos participem da função ajudante/ correspondente da parceria/cúmplice, fazendo com que o plano, então, da sociedade mantivesse vivo o ponto de vista freudiano, de 1928, o plano da perversão, só que esse plano da perversão não remetia mais à guerra e à luta fratricida entre Eros e Tânatus e à aposta Iluminista em Eros, mas teria transformado a sociedade em um bordel, não no sentido moral, mas no sentido da ausência da lei, de decadência da função paterna por Lacan, prenunciada desde Os complexos familiares.

           Se a comédia denuncia que somos um bordel que “banaliza a violência” pela ausência da Lei, ela diz que nós somos a degradação da cultura, e o principal papel de pessoa dramática passa a ser o do chefe de política: o único ainda a fingir que é possível manter alguma lei. Por isto, destaca-se como principal a seguinte passagem do texto lacaneano:

[...] Genet nos encarna no plano da perversão aquilo que...
podemos chamar, nos dias de grande confusão, de o bordel no qual vivemos.

Para Genet é fundamental, na coadjuvância desta sociedade sem lei, qual no anúncio de Gelol, o princípio fetichista de que não basta representar a prostituição, não basta representar como prostituição a fantasia sádica, é preciso dela participar. A fantasia sádica torna-se, tal como o anúncio, incorporada à função estratégica da mídia que sustenta a degradação da cultura em nome do show-business, do entretenimento, do espetáculo, da audiência, enfim... “Não basta ser pai, é preciso participar”, não basta não ter um pai, é preciso participar. Este “prazer” se realimenta de sua própria culpa, porque este prazer não é uma culpa natural, psicótica, nem o remorso neurótico: ele é o prazer que se obtém provocando culpa em outrem, é sádico.

Lacan, ao falar de Genet, amplia a própria idéia do Sujeito do Prazer: não mais se trata apenas de alguém que coloca o prazer no lugar do gozo para que a virtude ali não habite, mas de que até isto, para acontecer, terá de acontecer como simulacro, no que antecipa o “sonho deleuziano [...]”

Então, a perversão se torna aquilo que ela verdadeiramente é: um jogo de prazer com a imagem anexa, não precisando mais do álibi sexual freudiano. É porque a castração que aqui é suspensa não é a imaginária da mãe, mas Genet propõe uma interpenetração entre fetichismo e perversidade, ao contrário de Gide, que a juízo de Allouch propicia a Lacan, qual Jensen, a visão da estruturalidade do fetichismo na sua forma mais singular.

Lacan, ao dizer de Genet, dá estatuto maníaco ao projeto freudiano de dissolução da cultura, pois diante do bordel em que vivemos a dissolução toma a forma de degradação da cultura, o que serve de argumento até para os moralistas que defendem os caros princípios do Mal-Estar. Logo, a função do chefe de polícia como elemento sobrevivente da fusão entre dissolução e degradação é uma constatação para a Psicanálise e um álibi para a “repressão”, do ponto de vista daqueles que querem transformar a ilusão do bordel numa exceção. É o fato de que, quando toda a ordem se desvanece, serve à lei apenas o personagem mediano na hierarquia, porque é o único que pode estabelecer as regras da sobrevivência. Se de um lado a sociedade é reduzida à manutenção da ordem, destaca-se o chefe de polícia, porque se o juiz ouve da prostituta que ela é ladra, ela poderá ouvir desse juiz a confissão de que ele é um libertino. Todos pedem para ocupar, portanto, o ápice da ordem, ninguém pede para mantê-la, e neste momento só sobrevive quem a mantém, daí o chefe de polícia funcionar como objeto a, semblante do Falo.

O chefe de polícia é aquele que para manter a ordem não precisa se identificar. O chefe de polícia é aquele que, em princípio, pode evitar a revolução, desde que saiba de onde ela veio, enquanto os outros não podem evitar a revolução, porque os outros vivem apenas em função de uma ordem que não pode ser alterada e que, pasmem, não sabem direito qual é, nem como funciona, pois não meramente emblemáticos. O chefe de polícia é amante da dona de todo e qualquer bordel porque ele é o liame perverso entre aquilo que toda sociedade tem, uma ordem moral e uma ordem secreta e paralela essenciais para a manutenção do poder. Ele é o elo entre as duas vidas que mantêm viva a perversão.

A Revolução

Então, Genet também nos chama a atenção, na leitura de Lacan, de que a revolução pode ser uma festa, no sentido de ser um ritual de morte, que pode até provocar diversão, desde que quem a assista ou a pratique seja um perverso. Logo, a revolução se faz aparentemente entre o bem moral político e o bem moral da ordem, pois os atos da revolução vão mostrá-los quase como equivalentes, porque vão interseccioná-los.

Assim como a Revolução Francesa, que foi historicamente burguesa, qualquer revolução proletária tende a produzir a fraternidade perversa no lugar pretendido de liberdade enquanto desejo do fantasma romântico. Mas neste texto Lacan, mais do que isto, afirma-nos que a Comédia, desde Aristófanes, decide pela explicitação derrisível da dissolução como forma de degradação da cultura, que torna idênticas todas as revoluções como efeito da decadência, no nível do liame social, do Ideal-de-Ego, vale dizer, da função paterna transmitida pelo superego, no desejo de mãe enquanto identificação viril. A revolução se faz de símbolos porque ela, em última análise, produz o desaparecimento de todos os seus (próprios) símbolos. O que Lacan quer dizer com isto? Que ela tem símbolos no sentido romântico: o objeto “cisne” se torna símbolo na xícara de chá, como qualquer trapo se torna um símbolo de miséria. Mas o que se perde é o primeiro símbolo como primeira metáfora, porque o que ela perde é o jogo de assujeição à referência paterna. Aí mostra-se que a revolução vem sempre como uma promessa de ressureição moral e aí vai-se sobredeterminar a prostituta e o virtuoso psicótico, e dessa união da prostituta e do virtuoso psicótico é que vai depender o sucesso não-factual, mas de mentalidade, da revolução.

Genet elegeu um desrespeito aparente à Revolução Francesa, desrespeito pensado, àquela mulher do povo, de seio de fora, oprimida pelos juízes; elegeu-a no lugar de prostituta para fazer a revolução do bordel. A caricatura de Genet não eleva o grotesco ao sublime, e sim o sublime ao grotesco. Por esta razão concordamos, neste caso, com o que Serge André fala da degradação do Falo, já que ele acredita que a revolução é uma mania, esta nova Joana D’Arc da Revolução Francesa, esta figura santificada como símbolo reminiscente e romântico da Revolução Francesa, para ele, não é senão uma prostituta transformada em santa por um virtuoso psicótico. Ela é uma boa líder revolucionária porque tira partido de seu desempenho histórico como prostituta, e o desempenho histórico aí é na realidade uma referência à experiência de bordel. Isto quer dizer que, se ela era a eterna amante daquele que em última análise assegurava o poder, e se a degradação da ordem torna todas as revoluções iguais, por que fazer revolução em nome da moralidade? Por que não explicitar o necessário caráter maníaco de degradação do Falo nas revoluções e fazer da amante do chefe de polícia, a quem cabia garantir a ordem, a nova rainha? É uma questão de portar jóias no sentido material de portar jóias, ou no sentido de portar títulos? Mas, antes da conclusão, Lacan mostra-nos que os personagens dramáticos que significavam a ordem só a faziam funcionar quando esta ordem não era ameaçada, o que faz disto uma farsa sincera, mas a conclusão vai elevar esta farsa sincera, pela sua surpresa, a uma farsa picante. O menos investido é que talvez consiga restabelecer alguma ordem, a salvação vem de onde não se espera mais...

Conclusão

O chefe de polícia sabe que a revolução nesse sentido é um jogo, é um bordel, é um jogo de funções não-assumidas ou pseudoassumidas de personagens dramáticos que levam à mania, à degradação da cultura, mas o que ele coloca em jogo ali é que se Freud inventou o Ideal-de-Ego para transmitir identificação viril, Freud também disse que a Psicanálise avançou onde a paranóia fracassara, o que não impediu que a cultura inventasse a figura psicótica do ditador. E o chefe de polícia, se não tem de quem cumprir ordens, pode vir a se tornar um ditador. Na verdade, o ditador é aquele que passa a ser o “encarnador” da psicótica possibilidade de governar e o “supressor” de todos esses paramentos a que o chefe de polícia teria de se subordinar; ele passa a encarnar a polícia no poder. Ou seja, eles conspiram como se o poder não estivesse sendo ameaçado, e desde o bonapartismo, o Estado, quando ameaçado, abandona os paramentos do poder e troca a política pela polícia. Isto é, tratava-se de castrar (castrar literalmente, no sentido daquilo que o fetichista teme, castrar no sentido do medo de o fetichista ser castrado) o chefe de polícia, porque o seu Falo estava no seu uniforme. Isto é, fazer com que o Falo seja novamente promovido ao estado significante, dignificadamente, como algo que pode dar ou retirar, conferir ou não conferir.

O verdadeiro “Pai nosso que estais no céu”, não é fazer disto para Lacan uma oração blasfematória, é a possibilidade dessa revolução, onde os papéis se interpenetram, substituir a castração (amputação), no sentido anatômico, pela restauração da ordem significante do Pai, de um Pai ao mesmo tempo real e simbólico. Este é o impasse de todas as culturas. Traduzindo: isto ou nos coloca diante do Nome-do-Pai Simbólico, da instauração da Função Paterna, ou então retorna ao ciclo do Pai Severo em nome do qual outra revolução se fará e outro chefe de polícia será a metáfora da degradação do Falo, isto se um Pai-Privador não fizer, antes, liame social com o poder.

Resumo

O texto estabelece, a partir de conceitos lacaneanos, a correlação entre comédia e perversão, tendo como foco a produção de Genet. Mostra, entre muitos aspectos, que Lacan, ao falar de Genet, amplia a própria idéia do Sujeito do Prazer. Genet propõe uma interpenetração entre fetichismo e perversidade, propiciando a Lacan a visão da estruturalidade do fetichismo na sua forma mais singular.

PALAVRAS-CHAVE: Lacan; Psicanálise; Genet.

Abstract

From lacanian concepts, the text establishes the correlation between comedy and perversion, having Genet’s production as its main focus. It demonstrates, among others aspect, that Lacan, when speaking about Genet, amplifies the idea of the Subject of Pleasure itself. Genet proposes an interpenetration between fetishism and perversity, offerng to Lacan the vision of structurality of fetishism in its most singular form.

KEY WORDS: Lacan; Psychoanalysis; Genet.

 


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF, Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
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