SUMÁRIO
1ª Parte: Psicanálise &
Drama..................................................................
2
1 O Drama Ático¹ como Fundamento do Saber Analítico (ICS)........................
2
1.1 O ME FUNAI Trágico-Ático, a Heroicidade Trágica e o seu Princípio Melancó-lico: a Versão Tebana
...............................................................
2
1.2 A Tradição Latina (Romana), a Purgação, o Enceguecimento e o NOSCE
TE IPSUM: a Versão de
Colona.....................................................................
2
1.3 A Singularidade do Édipo (Tebano) de Sófocles
..................................... 2
1.4 O Édipo De e Em
Freud .....................................................................
3
1.5 e 6 O Édipo Conforme o Pensamento de Lacan, a Ética do Desejo em
Antígona Como a Ética Própria da Psicanálise e a Lição Dramática da
Comédia Ática:
“A Volta ao Lar” em
Aristófanes ............................................................
3
1.7 A Comédia, a Paródia e a Perversão no Teatro Moderno: Genet.................
4
1.8 Hamlet, a Obsessão, o Drama Maquiavélico e a Tragédia do Desejo por
¹ da Tragédia Cristã de Paul
Claudel................................................................
5
1.9 O Teatro, a Perversão e a Paródia do Moralismo Católico-burguês em
Nelson
Rodrigues ............................................................................................
5
1.10 Notas Explicativas
..........................................................................
6
1ª Parte: Psicanálise & Drama
1 O Drama Ático¹ como
Fundamento do Saber Analítico (ICS)
1.1 O ME FUNAI Trágico-Ático, a Heroicidade Trágica e o seu Princípio
Melancólico: a Versão Tebana
O
ME FUNAI trágico-ático como princípio melancólico instaurador da
heroicidade trágica. Ele significava, em relação ao Édipo tebano: “o não
gostaria de ter nascido com tal destino”. Destino provocado pelos crimes
paternos, então, o herói iria pagar em agruras por estes, e, para evitar
a maldição, terminaria por desconhecer a paternidade. Esta é suprida
pela condição de Rei, provisória e rasurada, e é pré-condição para a sua
forma de agir. Então, o ME FUNAI gera, via “Moira” / “Cloé”, a
predestinação e esta a heroicidade trágica. Um herói acima e diverso do
homem comum e imune à intervenção do “maravilhoso” do Olimpo, desde que
esteja realizando a sua “tiquê”, sua fortuna. Nela, ele repete o
“encontro faltoso com o Real”, cujo efeito é a dicotomia entre SABER e
AGIR, o que o fez supor ter decifrado, apenas por sobreviver, o enigma
da Esfinge.
1.2 A Tradição Latina (Romana), a Purgação, o Enceguecimento e o NOSCE
TE IPSUM: a Versão de Colona
Já
a tradição latina (Romana), contudo, no lugar do privilégio do ME FUNAI,
tem preferido, pós-enceguecimento, destacar, pela incorporação
reconfigurada do lugar de Tirésias (lá se passa do que sabe sobre a
fortuna de outrem (Desejo do Outro) para o que sabe sobre os efeitos de
sua própria fortuna (Sinthome)) o NOSCE TE IPSUM (“conheça a ti mesmo”)
onde, consertando-se o célebre texto de Andre Green publicado na Revista
L’Arc sobre Freud, dir-se-ia que: de início Édipo está cego para Sgte,
para ao final cegar-se enquanto Sgte, e poder ser por este (enceguecimento)
representado para a própria subjetivação.
1.3 A Singularidade do Édipo (Tebano) de Sófocles
Logo, o Édipo grego, versão tebana, irá hiperdeterminar a condenação do
parricídio, (homicídio) às custas da PROIBIÇÃO do incesto, à
predestinação e com isso constituir a heroicidade trágica. Então: mito
do assassínio do Pai + predestinação + heroicidade trágica +
enceguecimento (purgação) parecem caracterizá-la. Em tempo, será
justamente esse efeito de purgação de culpa, não de seu próprio ato, mas
de seu efeito em seu povo (a peste), que serão destacadas tanto por
Aristóteles, quanto pela tradição latina, ou seja, a purgação será, no
primeiro caso, hiperdeterminada à CATARSE e no segundo caso ao “NOSCE TE
IPSUM”, colocando-se em segundo plano o ME FUNAI como origem da
predestinação trágica.
1.4 O Édipo De e Em Freud
Já
o Édipo em Freud, um conceito e preocupação constante(s), é uma forma de
metaforizar sua questão sintomática: “o que é um Pai”, pois nasce de sua
observação de que este mito orbitava, de direito e de fato, em torno da
Paternidade e da forma de, paradoxalmente, simbolizar-se o “pai-morto”
às custas da erradicação normativa de seu assassínio, que é no texto
efetivamente praticado. Assim, Freud preocupava-se com sua transmissão
como um legado de Potência e formulou por isso sua teoria do Complexo de
Édipo; que não é nele jamais, como assinalou Foucault, uma estória
familiar de desejo incestuoso incontido e sim uma forma de na condição
de “morto”, só nela, o significante Pai poder nomear o filho, ainda que
este seja seu assassino. Portanto, em Sigmund Freud, o Édipo tebano de
Sófocles vai estar parcialmente reconfigurado. Teremos, pois, em sua
concepção: O mito do assassínio do Pai + A predestinação + A proibição
do incesto (e a condenação do Parricídio como forma de homicídio) + A
Castração (sua criação singular) + a questão: Paternidade/Monoteísmo.
Pois será tal modo de apresentação que nos permitirá observar duas
conclusões: a) ali se substitui o “enceguecimento”, e com isto a ênfase
na PURGAÇÃO, pela CASTRAÇÃO² (Complexo, para ele, derivado do Complexo
de Édipo); b) hiperdeterminava-se, também, à questão do “Pai-morto” e
seu porta-voz hebreu e se articulava a condenação do parricídio à do
homicídio: NÃO MATARÁS, isto por ser colocado o Édipo grego em campo
conceitual (análogo) ao dito Moisés Hebreu.
1.5 e 6 O Édipo conforme o Pensamento
de Lacan, a Ética do Desejo em Antígona como a Ética própria da
Psicanálise e a lição Dramática da Comédia Ática: “A Volta ao Lar” em
Aristófanes
Lacan, por sua vez, também irá
reconfigurar, por diferença de Freud e da tradição tebana, o conceito de
Édipo. Preliminarmente, irá contrapor-se ao texto de Ernest Jones sobre
Hamlet que via este personagem shakespereano como manifestação do
“Complexo de Édipo”. Ali enquanto Hamlet: “por saber, não agia”; Édipo,
por ser predestinado, agia em conformidade com sua Fortuna, com sua
TIQUÊ, com “seu encontro faltoso para com a Paternidade”. Por isso Lacan
afirmava ser ele o que: “por não saber, agia”. Além disso, em suas
reflexões no campo do gozo, sobretudo em seu texto de 1970 intitulado:
O Avesso da Psicanálise, Lacan irá articular o Édipo também à
questão trazida por sua leitura Kojeveana do “jovem Hegel”: O MESTRE
CASTRADO. Assim sendo, teremos para Lacan: mito do ASSASSÍNIO do PAI +
PREDESTINAÇÃO + CASTRAÇÃO + MONOTEÍSMO + “MESTRE CASTRADO”. O mestre de
Paris verá, também, em termos clínicos, o Édipo como: a Lei do Pai,
efetivação da Metáfora Paterna, constituição do “pai morto” enquanto
Pai-Simbólico, normatividade da potência a ser transmitida, como tal,
para o Sintoma do Homem e como contingência de procriação para as
mulheres.
Será Lacan que, ainda, invocando Sófocles e sua trilogia,
mas já referido à Antígona, verá ali, no que Jean Anouhil destacou como
denúncia da tirania em favor da dignidade humana, a presença da Ética do
Desejo enquanto Ética do Gozo, modelo da singular Ética da Psicanálise,
o que o possibilitou definir o herói trágico como: “o que não cede (não
abre mão) sobre o seu desejo”, isso no Seminário:
A Ética da Psicanálise.
1.7 A Comédia, a Paródia e a Perversão no Teatro Moderno: Genet
Será ainda Jacques Lacan, já no seu pouco conhecido
estudo introdutório sobre o “Balcão” de Genet (e Sartre, “a rejeição
fascinada do lacanismo” como disse PHILIPE SOLLERS, o chamou de
Saint-Genet) feito a seu convite, que demonstrou que havia naquela “sua”
obra um alegórico e parodístico retrato da perversão maníaca. Mas, para
tal, Lacan o articulou ainda ao Drama Ático, mais especificamente à
Comédia de Aristófanes, vendo, em comum, entre este autor e Genet, o
tema da: “volta ao Lar, próprio da adoção na pólis trágica do
dado que era compatível com a tragédia: o repúdio à guerra; adotado,
também, no enaltecimento do herói épico, (lutar-tenente de Etnia): o que
apenas se consagrava, por ”temer o canto das sereias”, (e na leitura de
Erich Auerbach víamos já ali nitidamente o repúdio, o rechaço ao gozo
como condição de heroicidade política), à guerra e iria demorar-se,
sempre, na “volta ao lar”. Aliás, retomando a importância da Comédia de
Aristófanes, já na obra lacaneana em fase final, quando própria do Campo
do Gozo, em O Momento de Concluir, Lacan pareceu lamentar-se do
fato de historicamente a Psicanálise freudiana ter sido fundada sob o
signo da Tragédia; ele preferiria vê-la fundada, via “jovem Hegel” e sua
Antropologia do Desejo, nos braços da Comédia. —
Fundar-se no Drama é situar-se entre a MELANCOLIA e seu
LUTO, já se referir unicamente à Tragédia é da ordem apenas da
MELANCOLIA, enquanto referir-se apenas à Comédia será simplesmente da
ordem do LUTO —.
1.8 Hamlet, a Obsessão, o Drama
Maquiavélico e a Tragédia do Desejo por
¹ da
Tragédia Cristã de Paul Claudel
Veremos, em seguida, o advento, no âmbito do drama
maquiavélico³ de outra forma de Tragédia: A Tragédia do
Desejo, que tem em Hamlet o seu ícone. Este é, como já se disse, o que
“por saber, não agia” configurando, em sua questão oblativa, para Lacan,
a inscrição do fantasma obsessivo: $
à
j, por
estar em permanente “desgarramento ôntico”, entre a “vendetta” do
“Pai-morto”, duplamente fracassado (denegrido fálica e politicamente) na
transmissão da falicidade, e o desejo incestuoso (como fantasia) que
era, nele, “travestido” de amor pela mãe (qual seu pai “traído”). Aliás,
o único traído ali, a juízo de Lacan, seria Hamlet, pois para Lacan,
traição equivale a “abrir mão, ceder sobre o próprio desejo”. Esta
tragédia, quinhentista e elizabetana, é, a juízo de Walter Benjamin,
também exemplo de “alegoria política”, pois Hamlet foi, inclusive, por
ser príncipe herdeiro, também, um “dominador insatisfeito com as
condições morais da dominação”.
1.9 O Teatro, a Perversão e a
Paródia do Moralismo Católico-burguês em
Nelson Rodrigues
Lacan, voltando-se a Genet, o irá considerar como autor de um drama
contemporâneo à sua época; isso significava dizê-lo um autor moderno
no sentido que LYOTARD empresta a este termo, ou seja, compatível com a
supremacia das narrativas de legitimação4.
Porém, para não dizer que não falamos “das flores e espinhos” do
Simbólico, deveríamos, também, destacar o “nosso anjo pornográfico”.
Nelson Rodrigues, isto no dizer de Rui Castro, pois este verdadeiro
“Kant com Sade” brasileiro e urbano, sem dúvida, em pelo menos três de
suas peças: O Beijo no Asfalto, O Boca de Ouro e Os
Sete Gatinhos parece não ver distinção alguma entre o moralismo
popular das vilas de subúrbio e o “cristianismo burguês” da udenista
classe média alta, inscrevendo ambos no que se denominou de “a perversão
nossa de cada dia”, que era dissimulada pela hipocrisia de um “bom-mocismo”,
tio-avô do que hoje é dito como: “politicamente correto”, e que Slavoj
Zizek caracterizaria como manifestação da “razão cínica”.
1.10 Notas Explicativas
1
Aqui é considerada a classificação Aristotélica exposta em: Arte
Retórica e Arte Poética que dividia a(s) Arte(s) em gêneros. Esses
eram 3 (três): o Lírico, o Épico e o Dramático. Este, por sua vez,
subdividia-se em Tragédia e Comédia. No Drama Trágico sobressai-se a
Trilogia Tebana de Sófocles composta de: Édipo Rei, Édipo em Colona e
Antígona. Já no Drama de caráter cômico destacava-se a obra de
Aristófanes. Aristóteles, em suas reflexões estéticas, considerava a
Tragédia como forma superior de Arte e no âmbito dessa forma
destacava-se o Édipo Rei de Sófocles, isto por melhor realizar o efeito
catártico, ou seja, centrava o valor do reconhecimento estético no
público (receptor) por este, ao ser motivado pelo coro e por Tirésias (o
que cego, podia ver do Outro o que este não se dava conta), realizar uma
identificação imaginária, de caráter anímico, com a sorte do herói
trágico.
2
Conceito inventado (criado) por Freud, mas jamais plenamente demonstrado
por este autor, a não ser como “temor”, quando a descreveu, bem como a
sua anulação, no célebre texto sobre o FETICHISMO. Será, ainda, Jacques
Lacan que a conceituará ora (Relação de Objeto) como a
articulação entre falta simbólica e objeto imaginário; ora (Escritos)
como a “privação do incesto”, e, finalmente, em sua obra pertinente ao
Campo do Gozo como: “o reconhecimento da impossibilidade de saber(-se)
sobre o Gozo”.
3
Trata-se da presença temática na dramaturgia do século XVI da
hiperdeterminação entre o “livre-arbítrio” e a oposição radical e mortal
entre “as razões do Estado” e as “as razões da paixão”. Além de
Shakespeare, este tema, cf. “Romeu e Julieta” (onde a família
substituía, como “sociedade parcial”, ao Estado) destacou-se na
península ibérica, a Tragédia: “A CASTRO”. Contudo, malgrado a
presença do “livre-arbítrio”, esta forma dramática, que em Hamlet,
tornou-se: A Tragédia do Desejo, não era uma Tragédia Cristã. Faltavam,
para tal, três elementos básicos: a) a reconciliação com a “COUSA” e/ ou
a “CAUSA” perdida; b) a referência ao “Pai Humilhado”, impossível de se
simbolizar; c) e, sobretudo, a reparação da covardia, do fracasso e da
culpa pelo arrependimento, o que fazia da misericórdia (divina) um mero
suporte para a reconciliação com a própria culpa. Lá subtrocava-se o
fracasso histérico da potência paterna (atribuído ao amante) pelo
melancólico, psicótico e passivo culto ao “Pai Humilhado”. O signo deste
tipo de Tragédia é a obra dramática de Paul Claudel sobre sua irmã; a
escultora Camile Claudel.
4
No dizer de Jean-François Lyotard, em seu texto-referência sobre o
“Pós-Modernismo”, narrativa de legitimação é a que se propõe a
interpretar o mundo, a sociedade. Nos séculos XIX e XX destacaram-se
como exemplos da “KULTUR KRITIK” (Crítica da Cultura) o marxismo
ocidental enquanto índice de legitimação histórico-política, as
vanguardas históricas como ícones de legitimação estética, e a
Psicanálise como marco da legitimação erótica.
Referências Bibliográficas
1. CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico.
São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1992.
2. FREUD, Sigmund. A Dissolução do
Complexo de Édipo. In: Obras Completas, vol XIX, Rio de Janeiro:
Imago, 1996.
3. FREUD, Sigmund. Moisés e o Monoteísmo.
In: Obras Completas, vol. XXIII, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
4. LACAN, Jacques. Escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
5. LACAN, Jacques. O Seminário,
livro 17, Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
6. LACAN, Jacques. O Seminário,
livro 4, A Relação de Objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
7. LACAN, Jacques. Sobre o Balcão de Genet.
Revista A Transmissão, Ano 4, n. 5, Gryphus (Forense), 1996.
8.LYOTARD, Jean-François. A Condição
Pós-Moderna. 7.ed. Rio de Janeiro: Editora José Olímpio, 2002.
9. MAGALDI, Sábato. Teatro Completo de
Nelson Rodrigues (organização geral e prefácio). único volume. Rio
de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1993; reimpressão, 1994.
10. MAGALDI, Sábato. Teatro Completo de
Nelson Rodrigues. Quatro volumes, Editora Nova Fronteira, 1981-1989.
11. MENDONÇA, A. S. Genet, A Comédia e a
Perversão. In: Poesis nº 1 (Revista da Pós-Graduação: Mestrado e
Doutorado em Ciência da Arte/ UFF). Niterói: Eduff, 2000, ano 1, p.
5-15.
12. MENDONÇA, A. S. Da Formação do Ego a
Reconsideração do Édipo Freudiano por Lacan. Revista A Transmissão,
Lacan: da magia à psicanálise, Ano 10, n.11 - 2001 - 2002, Edições do
CEL, 2002.
13. MENDONÇA, A. S. A Frustação, a
Obsessividade e a Cessão sobre o Próprio Desejo em Hamlet. Revista A
Transmissão, A Clínica em Lacan. Ano 9, n.10, Tomo II. Porto Alegre:
Edições do CEL/ RS, 2001/ 2002.
14. MENDONÇA, Antônio Sérgio. O Ensino
de Lacan. Rio de Janeiro: Edições do CEL – Gryphus (Forense), 1993.
15. MENDONÇA, Rita Franci. O Engano do
Gozo Fálico e sua Conformação Trágica na Obsessividade. Revista A
Transmissão, Ano 3, n.4. Porto Alegre: Edições do CEL, 1995.
16. RODRIGUES, Nelson. Teatro Completo
de Nelson Rodrigues I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 (Os Sete
Gatinhos, 1958. Boca de Ouro, 1959. Beijo no Asfalto, 1960).
17. SHAKESPEARE, William.
In: Obras Completas, 2 v., 16.ed. (Romeu &
Julieta. Hamlet). Madri:
Editora Aguilar, 1974.
18. SÓFOCLES. A Trilogia Tebana.
(Tradução e apresentação Mário da Gama Kury). Rio de Janeiro: Zahar,
2001.
2º
Parte: Genet, a Comédia e a Perversão
A Opção pela Erótica
A
comédia tem origem Ática, pois remete à crise da pólis em Atenas.
Lacan, então, observa que naquele momento, a cultura Ática substitui o
apego à guerra, valor de Esparta extremamente valorizado na ancestralidade
épica, por uma “volta ao lar”. Este abandono da prisão: cidadania/
heroicidade (própria da Épica) eleva ao “desrespeito” o agalma de Odisseu
(Ulisses) para fazer da guerra um não-sentido, refeito pelo apego do homem
comum aos pequenos prazeres da vida, dentre eles a volta ao lar, e, com
isso, banaliza a heroicidade da guerra e, também, passa a ironizá-la por
dizê-la absurda. No entanto, não só se afasta do sublime, enquanto
emblemático, mas também da sublimação como origem, na trágico-estética
aristotélica, de uma estética da suspensão do juízo, posteriormente
retomada por Kant. Nela, no lugar do sublime ideal de pólis, ou da
sublime causa do ideal catártico: a comoção, teremos, via Kant e Sade, a
opção entre a sublimação e a erotização. Em Freud, tratar-se-á de apostar
em Eros em face do mal-estar civilizatório, mas tanto em Aristófanes como
em Genet, tratar-se-á de uma época de crise, onde este Eros não é
Iluminista como o Freudiano, que tem em Tânatus seu adversário vinculado à
guerra, à agressividade enquanto liame social precoce de perversidade, e
sim é o de Bataille: um Eros que incorporasse Tânatus. O simbólico assim
erotizado em direção à paródia produz a crítica da perversão. Uma paródia
que testemunha, pelo riso, a perversão encenada como espetáculo teatral,
figura, no sentido hegeliano, pois O Balcão a universaliza, e nós,
leitores, por identificação, a singularizamos.
A Encenação da Perversão na
Metáfora do Bordel
Aristófanes vai evocar, muito antes de Freud, mas a partir do mesmo princípio de crise encontrado em Antígona, ou
seja, em face da guerra, só que uma impondo o direito à morte e ao desejo
e outro lembrando (que o mal-estar de Tânatus decorre não do tempo ou da
justeza da guerra, mas por não haver objeto possível que satisfaça o
desejo humano) que governar é impossível. Diante da crise, além da
Comédia, explicita o que a perversidade da guerra faz, precisamente:
Atenas ceder sobre o seu Desejo de ser pólis, embora fosse esta,
paradoxalmente, a alegação da guerra. O vínculo pré-freudiano está dado na
palavra aberração. Lacan verá então Genet como o Aristófanes de nossa
época e a guerra como um estado de generalização do bordel em que se
transformou a questão social contemporânea, onde o homem não deve dever ao
Estado, mas o que importa são as formas de sobrevivência ou ilusão. Mais
do que a guerra, é a decadência que se torna permanente, a mesma que ele
já anunciara no misantropo e, diante dela, a Comédia só produz pessoas
dramáticas, significantes: bispos, juízes ou generais, e a Comédia de
Genet torna-se O Balcão de onde se assiste, como casa ilusória, à
guerra de que se participa sans-le-savoir. Ali, como na charge
contemporânea (“Quero o Meu” – personagem do Veríssimo), trata-se de
sobreviver e o Ego-Ideal, o Moi torna-se um “Ideal-do-Meu” e, no lugar da
sublimação, temos esta guerra permanente como “erotização” do
relacionamento simbólico, a partir daí, Genet reivindica a libertinagem,
redenominando Sade, como a verdadeira função subversiva do Sujeito
Patológico, na acepção de Serge André. Pois, O Balcão ilusório nos
faz assistir, como palco da guerra, o bordel que vivemos desde aquela
época, o que vem corresponder ao que hoje é chamado de modo pós-moderno de
“banalização da violência”. E, como todas as personagens são pessoas
dramáticas, podem ser perfeitamente assimiladas umas às outras em seus
papéis ilusórios.
A
sociedade transformada em bordel faz com que todos participem da função
ajudante/ correspondente da parceria/cúmplice, fazendo com que o plano,
então, da sociedade mantivesse vivo o ponto de vista freudiano, de 1928, o
plano da perversão, só que esse plano da perversão não remetia mais à
guerra e à luta fratricida entre Eros e Tânatus e à aposta Iluminista em
Eros, mas teria transformado a sociedade em um bordel, não no sentido
moral, mas no sentido da ausência da lei, de decadência da função paterna
por Lacan, prenunciada desde Os complexos familiares.
Se a
comédia denuncia que somos um bordel que “banaliza a violência” pela
ausência da Lei, ela diz que nós somos a degradação da cultura, e o
principal papel de pessoa dramática passa a ser o do chefe de política: o
único ainda a fingir que é possível manter alguma lei. Por isto,
destaca-se como principal a seguinte passagem do texto lacaneano:
[...] Genet nos encarna no plano da perversão aquilo que...
podemos chamar, nos dias de grande confusão, de o bordel no qual vivemos.
Para
Genet é fundamental, na coadjuvância desta sociedade sem lei, qual no
anúncio de Gelol, o princípio fetichista de que não basta representar a
prostituição, não basta representar como prostituição a fantasia sádica, é
preciso dela participar. A fantasia sádica torna-se, tal como o anúncio,
incorporada à função estratégica da mídia que sustenta a degradação da
cultura em nome do show-business, do entretenimento, do espetáculo,
da audiência, enfim... “Não basta ser pai, é preciso participar”, não
basta não ter um pai, é preciso participar. Este “prazer” se realimenta de
sua própria culpa, porque este prazer não é uma culpa natural, psicótica,
nem o remorso neurótico: ele é o prazer que se obtém provocando culpa em
outrem, é sádico.
Lacan, ao falar de Genet, amplia a própria idéia do Sujeito do Prazer: não
mais se trata apenas de alguém que coloca o prazer no lugar do gozo para
que a virtude ali não habite, mas de que até isto, para acontecer, terá de
acontecer como simulacro, no que antecipa o “sonho deleuziano [...]”
Então, a perversão se torna aquilo que ela verdadeiramente é: um jogo de
prazer com a imagem anexa, não precisando mais do álibi sexual freudiano.
É porque a castração que aqui é suspensa não é a imaginária da mãe, mas
Genet propõe uma interpenetração entre fetichismo e perversidade, ao
contrário de Gide, que a juízo de Allouch propicia a Lacan, qual Jensen, a
visão da estruturalidade do fetichismo na sua forma mais singular.
Lacan, ao dizer de Genet, dá estatuto maníaco ao projeto freudiano de
dissolução da cultura, pois diante do bordel em que vivemos a dissolução
toma a forma de degradação da cultura, o que serve de argumento até para
os moralistas que defendem os caros princípios do Mal-Estar. Logo, a
função do chefe de polícia como elemento sobrevivente da fusão entre
dissolução e degradação é uma constatação para a Psicanálise e um álibi
para a “repressão”, do ponto de vista daqueles que querem transformar a
ilusão do bordel numa exceção. É o fato de que, quando toda a ordem se
desvanece, serve à lei apenas o personagem mediano na hierarquia, porque é
o único que pode estabelecer as regras da sobrevivência. Se de um lado a
sociedade é reduzida à manutenção da ordem, destaca-se o chefe de polícia,
porque se o juiz ouve da prostituta que ela é ladra, ela poderá ouvir
desse juiz a confissão de que ele é um libertino. Todos pedem para ocupar,
portanto, o ápice da ordem, ninguém pede para mantê-la, e neste momento só
sobrevive quem a mantém, daí o chefe de polícia funcionar como objeto a,
semblante do Falo.
O
chefe de polícia é aquele que para manter a ordem não precisa se
identificar. O chefe de polícia é aquele que, em princípio, pode evitar a
revolução, desde que saiba de onde ela veio, enquanto os outros não podem
evitar a revolução, porque os outros vivem apenas em função de uma ordem
que não pode ser alterada e que, pasmem, não sabem direito qual é, nem
como funciona, pois não meramente emblemáticos. O chefe de polícia é
amante da dona de todo e qualquer bordel porque ele é o liame perverso
entre aquilo que toda sociedade tem, uma ordem moral e uma ordem secreta e
paralela essenciais para a manutenção do poder. Ele é o elo entre as duas
vidas que mantêm viva a perversão.
A Revolução
Então, Genet também nos chama a atenção, na leitura de Lacan, de que a
revolução pode ser uma festa, no sentido de ser um ritual de morte, que
pode até provocar diversão, desde que quem a assista ou a pratique seja um
perverso. Logo, a revolução se faz aparentemente entre o bem moral
político e o bem moral da ordem, pois os atos da revolução vão mostrá-los
quase como equivalentes, porque vão interseccioná-los.
Assim
como a Revolução Francesa, que foi historicamente burguesa, qualquer
revolução proletária tende a produzir a fraternidade perversa no lugar
pretendido de liberdade enquanto desejo do fantasma romântico. Mas neste
texto Lacan, mais do que isto, afirma-nos que a Comédia, desde
Aristófanes, decide pela explicitação derrisível da dissolução como forma
de degradação da cultura, que torna idênticas todas as revoluções como
efeito da decadência, no nível do liame social, do Ideal-de-Ego, vale
dizer, da função paterna transmitida pelo superego, no desejo de mãe
enquanto identificação viril. A revolução se faz de símbolos porque ela,
em última análise, produz o desaparecimento de todos os seus (próprios)
símbolos. O que Lacan quer dizer com isto? Que ela tem símbolos no sentido
romântico: o objeto “cisne” se torna símbolo na xícara de chá, como
qualquer trapo se torna um símbolo de miséria. Mas o que se perde é o
primeiro símbolo como primeira metáfora, porque o que ela perde é o jogo
de assujeição à referência paterna. Aí mostra-se que a revolução vem
sempre como uma promessa de ressureição moral e aí vai-se sobredeterminar
a prostituta e o virtuoso psicótico, e dessa união da prostituta e do
virtuoso psicótico é que vai depender o sucesso não-factual, mas de
mentalidade, da revolução.
Genet
elegeu um desrespeito aparente à Revolução Francesa, desrespeito pensado,
àquela mulher do povo, de seio de fora, oprimida pelos juízes; elegeu-a no
lugar de prostituta para fazer a revolução do bordel. A caricatura de
Genet não eleva o grotesco ao sublime, e sim o sublime ao grotesco. Por
esta razão concordamos, neste caso, com o que Serge André fala da
degradação do Falo, já que ele acredita que a revolução é uma mania, esta
nova Joana D’Arc da Revolução Francesa, esta figura santificada como
símbolo reminiscente e romântico da Revolução Francesa, para ele, não é
senão uma prostituta transformada em santa por um virtuoso psicótico. Ela
é uma boa líder revolucionária porque tira partido de seu desempenho
histórico como prostituta, e o desempenho histórico aí é na realidade uma
referência à experiência de bordel. Isto quer dizer que, se ela era a
eterna amante daquele que em última análise assegurava o poder, e se a
degradação da ordem torna todas as revoluções iguais, por que fazer
revolução em nome da moralidade? Por que não explicitar o necessário
caráter maníaco de degradação do Falo nas revoluções e fazer da amante do
chefe de polícia, a quem cabia garantir a ordem, a nova rainha? É uma
questão de portar jóias no sentido material de portar jóias, ou no sentido
de portar títulos? Mas, antes da conclusão, Lacan mostra-nos que os
personagens dramáticos que significavam a ordem só a faziam funcionar
quando esta ordem não era ameaçada, o que faz disto uma farsa sincera, mas
a conclusão vai elevar esta farsa sincera, pela sua surpresa, a uma farsa
picante. O menos investido é que talvez consiga restabelecer alguma ordem,
a salvação vem de onde não se espera mais...
Conclusão
O
chefe de polícia sabe que a revolução nesse sentido é um jogo, é um
bordel, é um jogo de funções não-assumidas ou pseudoassumidas de
personagens dramáticos que levam à mania, à degradação da cultura, mas o
que ele coloca em jogo ali é que se Freud inventou o Ideal-de-Ego para
transmitir identificação viril, Freud também disse que a Psicanálise
avançou onde a paranóia fracassara, o que não impediu que a cultura
inventasse a figura psicótica do ditador. E o chefe de polícia, se não tem
de quem cumprir ordens, pode vir a se tornar um ditador. Na verdade, o
ditador é aquele que passa a ser o “encarnador” da psicótica possibilidade
de governar e o “supressor” de todos esses paramentos a que o chefe de
polícia teria de se subordinar; ele passa a encarnar a polícia no poder.
Ou seja, eles conspiram como se o poder não estivesse sendo ameaçado, e
desde o bonapartismo, o Estado, quando ameaçado, abandona os paramentos do
poder e troca a política pela polícia. Isto é, tratava-se de castrar
(castrar literalmente, no sentido daquilo que o fetichista teme, castrar
no sentido do medo de o fetichista ser castrado) o chefe de polícia,
porque o seu Falo estava no seu uniforme. Isto é, fazer com que o Falo
seja novamente promovido ao estado significante, dignificadamente, como
algo que pode dar ou retirar, conferir ou não conferir.
O
verdadeiro “Pai nosso que estais no céu”, não é fazer disto para Lacan uma
oração blasfematória, é a possibilidade dessa revolução, onde os papéis se
interpenetram, substituir a castração (amputação), no sentido anatômico,
pela restauração da ordem significante do Pai, de um Pai ao mesmo tempo
real e simbólico. Este é o impasse de todas as culturas. Traduzindo: isto
ou nos coloca diante do Nome-do-Pai Simbólico, da instauração da Função
Paterna, ou então retorna ao ciclo do Pai Severo em nome do qual outra
revolução se fará e outro chefe de polícia será a metáfora da degradação
do Falo, isto se um Pai-Privador não fizer, antes, liame social com o
poder.
Resumo
O texto estabelece, a partir de conceitos
lacaneanos, a correlação entre comédia e perversão, tendo como foco a
produção de Genet. Mostra, entre muitos aspectos, que Lacan, ao falar de
Genet, amplia a própria idéia do Sujeito do Prazer. Genet propõe uma
interpenetração entre fetichismo e perversidade, propiciando a Lacan a
visão da estruturalidade do fetichismo na sua forma mais singular.
PALAVRAS-CHAVE: Lacan; Psicanálise; Genet.
Abstract
From lacanian concepts,
the text establishes the correlation between comedy and perversion, having
Genet’s production as its main focus. It demonstrates, among others
aspect, that Lacan, when speaking about Genet, amplifies the idea of the
Subject of Pleasure itself. Genet proposes an interpenetration between
fetishism and perversity, offerng to Lacan the vision of structurality of
fetishism in its most singular form.
KEY WORDS: Lacan;
Psychoanalysis; Genet.