01/10/2005
Número - 444

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica

A morte enquanto luto da vida

Prof. Dr. Antônio Sérgio Mendonça


O soneto camoniano, em pauta (“O dia em que eu nasci moura e pereça”), graças aos estudos iniciados por Emanuel Pereira Filho e consolidados hoje por Leodegário A. Azevedo Filho, pode ser dito como pertencente ao “corpus possibile” (quanto à questão da autoria) e nos leva, de início, a três conclusões, e isto parece, sem dúvida, um paradoxo temporal...

a) Por causa da existência de dupla conexão cultural, ou seja, da hiperdeterminação entre a raiz bíblica própria da tradição tardo-gótica e de sua inclusão na forma fixa do soneto clássico que é de pendor quinhentista, estaremos, sem dúvida, diante da fusão entre algo místico de natureza judaica e algo ático, se apenas formalmente considerado. No entanto, além disso, a presença clássica se ampliará, pois nele (soneto) estará presente também uma ática e trágica (dramatúrgica) concepção singular de discurso melancólico; logo, estamos diante de um texto esteticamente maneirista, no preciso e estético sentido da atitude estética (cf. Koyré) destacada por Leodegário de Azevedo Filho1;

b) Não resta dúvida de que esta concepção de vida não nos remeteria apenas, como em outros textos épicos e líricos do poeta, à brevidade e/ou fugacidade do tempo, mas ao fato de este não justificar-se jamais diante de seu eclipse, de que o poeta se lamenta por não ser prévio, diante de um culto à morte tido como uma forma de gozo supremo da sua existência. Isso vai configurar o campo semântico da concepção singular de discurso melancólico ali apresentada;

c) O tema clássico da VENTURA, primo-irmão (semântico) da FORTUNA (“tiquê”), (ambos) dedicados ao vir-a-ser da vida, seja este premonitivo, predestinado ou teleológico, dará, textualmente, enfim, lugar, para além da versão de Juromenha, à melancolização da desventura e não de desgraça como foi suposta pelos copistas. E a melancólica desventura maneirista tornava-se o avesso da ventura clássica.

Dito isto, torna-se necessário distinguirmos, em seguida, metodologimente, o discurso melancólico da melancolia enquanto estrutura psíquica e/ou clínica, visto que, como já afirmamos, o texto poético a Camões atribuído, restabelece, em ato, uma singular concepção de discurso melancólico.

Freud, em seu exemplar “Luto e Melancolia”, irá conceber esta estrutura psíquica como uma estrutura clínica singular que, por apresentar o delírio mórbido em ato, estaria, a seu juízo, mais próxima da psicose. Ali, na lide da aflição, por não ceder mais lugar à angústia, haverá a “colação” no objeto amoroso, que é suposto como tendo sido “perdido para sempre”. O efeito dramático de tal perda irá gerar, em ato, o desinteresse fálico pela vida, mas Freud abriu a possibilidade de fazer-se luto desta entrega mórbida pela refalicização do objeto amoroso perdido. Em suma, o fálico no lugar da perda.

Já Jacques Lacan, em seu seminário dos anos 50 intitulado “A Relação do Objeto”, irá dar prosseguimento à convicção freudiana de a melancolia ser uma estrutura clínica singular. Ela se distinguiria, então, da psicose, para Lacan “tipificável” apenas, conforme seu seminário “As Psicoses”, pela paranóia e pela esquizofrenia, mas a diz: O MASOQUISMO propriamente dito, onde o Ato, de mesmo nome, incidiria sobre o sujeito, levando-o ao delírio mórbido e desfalicizante próprio deste mesmo Ato. Essa sua obra, contudo, pertence ao período que Jean-Claude Milner classificou de “Lacan do Classicismo”. Mas, já afetado, parcialmente, por sua teoria do campo do gozo, o aventado campo lacaneano, o psicanalista Serge André em seu livro “A Impostura Perversa”, tomando o artista francês Celine como referência, vai estudá-la no campo da perversão. Contudo, não do Fetichismo, de quem Lacan já a tinha (Melancolia) distinguido, por dizê-lo um Ato Masoquista incidente sobre  (Outro) e não sobre o Sujeito. Ali, por analogia referencial (implícita) com a leitura freudiana de Dostoievski, Serge André aborda a relação Céline: vida e obra. Todavia se Freud via no tema parricida de Dostoievski, a quem não admirava enquanto autor literário, explicitamente no personagem Dimitri de “Os Irmãos Karamazov”, a questão perversa (maníaca) como ínclita na obsessão parricida, Serge André verá demonstrada na obra de Céline uma concepção melancólica que visava a suprir seu destino maníaco na própria vida real.

Como se vê, ali (na obra de Serge André) vai-se da melancolia (estrutura clínica) para o discurso melancólico no e do artista. Não se trata de sua vida maníaca gerar uma visão melancólica de mundo, e sim, de esta vir “tamponar”, “dublar”, suprir o gozo, porventura, havido na outra.

Em seguida, já inteiramente imersos no campo lacaneano, surgiram dois trabalhos que iriam vincular, de uma vez por todas, a melancolia ao campo da perversão, quando, sem abolir as contribuições de Lacan e Serge André, dizia-se que havia na sua origem um tipo de  VERLEUGNUNG, de déni (desmentido), que se abatia sobre a própria referência fálica, ou seja, sobre a freudiana Bejahung (Afirmação Primordial).

Tal concepção é encontrada nos trabalhos “A Estrutura da Melancolia e seu diagnóstico diferencial” e “Por uma Teoria Lacaniana de Melancolia” de, respectivamente, Rita Franci Mendonça e de nossa autoria (A. S. Mendonça) publicados no livro-texto A Clínica em Lacan, Porto Alegre: Edições do C. E. L, 2002. Lá, também, se irá distinguir a MELANCOLIA (uma estrutura clínica singular) não só do discurso melancólico, mas também da melancolização, um efeito melancólico das neuroses e da psicose. Como exemplo dos primeiros veremos a suposição de “decepação fálica” na Obsessão e de “decepção fálica” na Histeria, enquanto na psicose o efeito da melancolização irá comparecer como um “delírio de auto-hostilidade”.

No entanto, serão a escrita e a mentalidade do Barroco que nos apresentarão as mais típicas concepções do discurso melancólico, presentes tanto no texto poético de um Quevedo, no nível do Barroco Ibérico, ao se hiperdeterminar ali o gozo místico à morbidez da vida, quanto no “dramalhão” (“Trauspiel”) Barroco Alemão que, no ver do esteta Walter Benjamin, alegorizou a melancolia ao apresentar a amada como “coisa-morta” enquanto requisito para, valorizando-a esteticamente, fazer luto poético dessa mesma morte junto ao leitor. Nelas isto foi demonstrado plenamente.

Já no século XIX, saltando-se de propósito a camoniana contribuição quinhentista, a Melancolia bovárica, fosse romântica, realista e/ou naturalista, adviria como um vir-a-ser da histérica “decepção fálica” enquanto face teleológica do “morrer de amor”.

Mas nenhuma dessas atribuições, quer clínicas, quer estéticas, é idêntica ao exemplo atribuido a Camões. Ali, porque de raiz clássica, também se trata, se redenomina o tragicismo dramático de Édipo (“o que não pediu para nascer com tal destino”) que estava, sem dúvida, na origem da conversão do drama clássico em cristão e que Lacan denominará, através de Paul Claudel, de tragédia cristã por conceber o luto como uma reconciliação da perda trágica (da “causa perdida”, onde se teria a vigência do “Pai Humilhado”). Assim, em nosso seminário imédito (CEL/RS, POA, 2005), no capítulo “A Estético-Erótica do Luto” dizíamos, ao separar o discurso melancólico, enquanto modalidade, em Ato, de sublimação estética, da melancolia quando clinicamente tomada: “Enquanto isto, do ponto de vista do fundamento estético da sublimação, trata-se de uma segunda, nova e singular alusão ao culto de impossibilidade do gozo. Ela é a Fortuna (“tiquê”) deste encontro faltoso” “(para Camões, redenominando a tradição de Petrarca, entre a morte e a vida cuja letra “morta” é ali representada”, cf. p. 33 do original). Ou seja, a obra poética camoniana, no soneto em pauta, propõe seu ato como luto da vida na afirmação do culto à morte. Por isto, também, afirmávamos noutro capítulo do mesmo seminário já, então, intitulado “Mais Ainda Sobre o Amor” (cf. p. 47 do original) “[...] O luto que agora (inclusive, premonitivamente no soneto dito camoniano) passa a ser requisitado, está a exigir para a psicanálise, uma nova visão do discurso melancólico. Essa, no entanto, já nos fora indicada pela cultura Ática, quando hiperdeterminava a ventura à morte, daí a des-ventura como também pelo quinhentismo camoniano. As concepções psicanalíticas e estéticas anteriormente descritas de melancolia, clínicas, inclusive, embora também tenham sido de suma eficácia em seus propósitos e objetivos intensivos e extensivos, permaneceram insuficientes para a compreensão de uma estética do luto”.

Em suma, o luto aqui não é simplesmente da morte, pois foi a escrita da morte que passou a se constituir no luto precoce da própria vida. No entanto, como tudo o que é poético, é uma ficção, é uma fábula, vai dizer-nos Giambattista Vico: “[...] tais fábulas, tais sentenças, tais costumes, tais falas, tais versos chamaram-se todos de “heróicos” e, assim, se celebraram nos tempos em que a História situou os heróis, como plenamente demonstrado na SABEDORIA POÉTICA”. (cf. Vico, Giambattista. Princípios de (uma) Ciência Nova. São Paulo: Abril, (versão do Prof. Dr. Antônio Lázaro de Almeida Prado, 2005, p. 271).

Nota: Tal texto pretende ser apenas uma contribuição teórica, tanto no nível de teoria psicanalítica, quanto da teoria da Literatura, ao ensaio de L.A. de Azevedo Filho intitulado “Camões: Um Soneto do ‘Corpus Possible’” – “O dia em que eu nasci moura e pereça”, ainda inédito.


1 Cf. AZEVEDO FILHO, Leodegário A. Uma Poética da Confluência (Renascimento, Maneirismo e Barroco). In: ...Ideas (Caderno de Cultura do Instiruto de Estudos e Ações Sociais). Rio de Janeiro: Univesidade, 2005. p. 111-117
 


Antônio Sérgio Mendonça é Prof. Titular da UFF, Doutor em Letras pela UFRJ, Docente-livre em Letras pela UERJ, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos, Instituição Psicanalítica, Rio Grande do Sul e Membro da Escola Camoniana do Rio de Janeiro (UERJ). www.celacan.com.br