É indissociável, do ponto
de vista de sua genealogia, a complementaridade entre o´”tragicismo”, a
vicissitude do herói e a natureza do discurso melancólico. Por esta razão,
encontraremos, em originária e radical formulação, a semântica do discurso
melancólico como um efeito do caráter trágico e predestinado do herói de
Sófocles intitulado: Édipo-Rei. Ali, por efeito de vicissitude paterna,
convertida em seu destino, o Édipo trágico, a juízo de Lacan, por desconhecer,
agiu. E o fazendo, condenou seu povo a responder em seu lugar e, para livrá-lo
disto, num gesto auto-hostil extremo, irá mutilar o seu olhar. Esse
enceguecimento, esta abolição da pulsão escópica, nele, paradoxalmente,
reverteu-se em forma de acesso à subjetividade de um modo nunca dantes revelado
e, paradoxalmente, conduzido pelo cego Tirésias. E assim sendo, a tradição
latina irá privilegiar esse conhecimento de si mesmo destacando-o como um “nosce
te ipsum’. Todavia, do ponto de vista de significação trágica do“me funai”,
poderemos ressaltar a fundação deste “tragicismo” que é melancólico e de
natureza clássica. Ele estará presente, precisamente, quando Édipo lamenta seu
destino trágico e nos diz que: “gostaria de não ter nascido, com tal
destino”.
Sabe-se que o
século XVI irá retomar a herança clássica helênica e/ou helenista e, ao fazê-lo,
fosse em versão tardo-gótica e/ou classicista, iria retomar o discurso
melancólico para confrontá-lo com os signos de sua mentalidade, verdadeiras
manifestações do Inconsciente que foram, a saber: a utopia (Morus) e a
sublimação (Leonardo da Vinci). Entretanto, não será clássica a presença do
discurso melancólico neste século e sim barroca e maneirista. No primeiro caso,
encontraremos, incorporado ao angélico barroco, como queria Rouanet em: “O Édipo
e o Anjo” (Editora Tempo Brasileiro), a “Caveira” de Albrecht Dürer a articular
melancolia, dor e morte. No segundo caso, encontraremos no “corpus possibile”
da lírica camoniana, fixado por Leodegário de Azevedo Filho, a presença de uma
também extrema e radical visão do discurso melancólico na poesia lírica de Luis
Vaz de Camões. Trata-se do poema: “O dia em que naci moura e pereça”, onde o
poeta, enquanto autor, não se lamenta, como Édipo, apenas de seu destino, mas
quer ver temporalmente abolida a existência do próprio dia em que nasceu; ou
seja: mais do que: quisera não ter nascido, ali se diz, quisera não existir
sequer o tempo da própria origem. Ainda no século XVI, só que barroco e tedesco,
iremos encontrar a presença da alegoria no “Trauspiel”, isto é, no “Drama
Barroco Alemão”. A alegoria tornara-se uma forma apriorística e radical de
melancolia, principalmente, quando outorgava à dama o papel de fênix, como
quando aparecia na tradição lírica das academias do barroco português. Ainda no
quinhentismo, para além da significação alegórica de Hamlet, evocada por Walter
Benjamin (o mesmo autor do conceito de alegoria) esta significava: “valorizar a
amada enquanto morta aos olhos do leitor”; ao passo que aquele (Hamlet) era: “o
dominador insatisfeito com as condições morais de dominação”. Por justiça, é
necessário que se diga que a cogitação da alegoria como forma originária e
extremada de melancolia remete-nos à obra de Flávio Köthe intitulada: “Benjamin&
Adorno: confrontos” (Editora Ática).
Mas, será no Barroco seiscentista, um Barroco estética e misticamente hegemônico, e compatível como o
ideário da contra-reforma: o Barroco (ibérico) espanhol de Quevedo, que
encontraremos sua manifestação mística como expressão da cristandade neo-gótica
e da latinidade, conforme Curtius. Essa melancolização de fundo místico
projetava-se também, no nível das artes plásticas, no latino (italiano) Bernini,
em sua escultura de Santa Tereza de Ávila, o que inspirou Jacques Lacan no
“Encore” a conceituar o Barroco como terreno da “ejaculação mística” por
dizê-lo: “a regulação da alma pela escopia corporal”. Paradoxalmente, trazido ao
trópico pelo expansionismo espanhol e guardado em sua versão arquitetônica pela
frugalidade espacial pertinente à disseminação do seletismo jesuítico, o mundo
cinzento de Quevedo, aqui usado como uma metáfora, será transformado na festa
latino-americana, onde a caveira não será mais a de Dürer e sim a de um ritual
de celebração da morte que dará valor de luto à conversão da alegoria em
alegria. Ele é pungente na tradução cultural mexicana, o que é, por sua vez,
demonstrada plasticamente por uma Frida Kahlo. Contudo, a compatibilização entre
o Barroco e o discurso melancólico irá permanecer na mentalidade européia e
Lawrence Stern, nela apoiando-se, lançará mão do “Schandysme” ao conceber de
forma mais integral e totalizante essa tendência estética já presente,
parcialmente, em outros autores. Por assim fazê-lo, ele se torna livro-texto a
ser parodiado pelo nosso Machado de Assis em: “Memória Póstuma de Brás Cubas”.
Dizemos que ele é parodiado, valendo-nos da concepção de Walter Benjamin, para
quem: “Paródia é um texto que passa a conter outro texto”. Assim sendo, iremos
encontrar nele uma forma, possivelmente mais completa e singular, de uso da
tradição “schandyana”, o que foi muito bem demonstrado pelo recente livro de
Sergio Paulo Rouanet sobre este tema (cf. “Riso e Melancolia”. Companhia das
Letras, 2007). Ali também se diz que é esta adoção do relato “schandyano”, como
atitude estética, que inscreverá Machado de Assis na universalidade. Stern e,
sobretudo, Machado, adotaram o contraponto entre a melancolia e o riso,
distinguindo-se, pois, da tradicional compatibilização entre melancolia e dor.
Assim fazendo, dão ao “schandismo” um papel de subjetivação extrema onde, pela
ironia, para além do “flâneur”, converte-se a objetividade em subjetividade
extrema, onde se destaca o corrosivo ponto de vista autoral. Sabe-se que o riso
se contrapõe ao luto, o que distinguirá esta concepção de melancolia
radicalmente da freudiana. A concepção freudiana, dita por Allouch compatível
com o discurso romântico, só o é parcialmente. Isto porque, se ali, como na
bovárica tradição romântica se articularia melancolia, dor e morte, lá, também,
ao contrário da tradição romântica onde não há luto no “morrer de amor”, o luto
será para Freud, a partir de suas nítidas preocupações clínicas, a possibilidade
de superação desejante da traumática e amorosa perda melancólica. Ora, o riso
não é a superação da melancolia, é a sua eternização pelo contraste. E por falar
no “morrer de amor”, ele será expresso através das vicissitudes das heroínas
romântico-realistas e naturalistas dos romances de: Honra X Paixão. Estes,
apesar de presentes na tradição romântica da literaturas: francesa, portuguesa e
brasileira e na tradição realista-naturalista destas mesmas literaturas,
receberá o nome de bovarismo em homenagem à heroína de Flaubert. Contudo, o
discurso melancólico também servirá de modelo, já no século XX, na Alemanha dos
anos 20 e 30 deste mesmo século, para uma teoria melancólica da sociedade. Esta
também foi chamada de teoria crítica da sociedade e inspirada, inicialmente, em
Hegel e, posteriormente, sobretudo, no Marx (da juventude) e via a sociedade
como produto do binômio: alienação X repressão. E para eles o triunfo do
Capitalismo e de sua Indústria da Cultura representaria uma espécie de morte da
razão crítica e, assim, este neo-iluminismo melancólico veria a melancolia como
“telos” das vicissitudes próprias da existência do binômio: alienação X
repressão, considerado, então, como uma forma de ser atual do capitalismo
industrial. No entanto, não faziam, de certa forma, senão redenominar o Hegel da
estética romântica que preconizara: após o romantismo alemão, que teria
produzido a síntese entre o sensível e o inteligível, só restaria a morte da
Arte. Tal procedimento teria permitido a Queneau, inspirado em Kojève, a supor a
“Morte da História”, diante da impossibilidade desta permanecer regida pela
razão, pelo Geist, pelo Almageist. Porém, voltando-se à
Psicanálise, percebemos que ela não só, enquanto freudiana, não admite o riso
como efeito de permanência da melancolia, mas também o vê como uma formação
psicopatológica do Inconsciente pulsional (freudiano), daí Lacan concebê-lo como
uma formação do Inconsciente. Mas, mesmo um Lacan, para quem a melancolia é um
ato masoquista extremo e perfeitamente compatível com a alegorização barroca,
isto por incidir sobre o próprio Sujeito, não lançará mão do efeito da comédia:
o riso, como um também efeito do discurso melancólico; pois, para Lacan, o riso
da Comédia não nos parece irônico como o de Machado de Assis, e sim compatível
com a tradição de Aristófones e com a ratificação do drama ático em direção à
fundação de uma erótica relativa à Antropologia do Desejo do “jovem” Hegel de
Jena, conforme ele próprio expôs em: “O Momento de Concluir”. Já Allouch,
pretendeu compatibilizar a melancolia , que é para ele um efeito da “Morte
Seca”, ou seja: da morte sem velório e carpideira, com o que chama de “Erótica
do Luto”. Ora, este luto, por não ser fálico como o que ele critica em Freud, é
da ordem do Gozo do Outro, isto é: da Sublimação. E, desta forma, termina por
contaminar a semântica da sublimação, que é acéfala, com a morbidez melancólica.
Ainda, voltando-se a Lacan, percebemos que este autor parece indicar a
existência de uma erótica do gozo em Duras por ali surpreender o arrebatamento
da personagem Lol.V.Stein como uma forma de aturdimento escópico, de êxtase, o
que é Barroco, principalmente para ele. Pode-se ainda inferir de sua obra a
possibilidade de indicação de uma erótica do gozo na compatibilização presente
na Fantasia de Sade (D
®
a à
$) entre esta gnosis e Eros, isto porque dá a esta fantasia e não a “Justine”,
que é da ordem da descrição da fantasia sádica, o estatuto de “Filosofia da
Alcova”. E, finalmente, Lacan ainda indica-nos uma erótica do gozo pela via do
Sinthome, por compatibilizar Symptôme, heresia e tradição tomista de leitura da
epifania em Joyce. E se Allouch compatibilizava melancolia à dor como o avesso
da morte, já que não chorada e vice versa, para a psicanálise a melancolia,
vinculada à dor da perda traumática, é superada pelo luto. Todavia, para a
ratificação “schandiana” de Machado de Assis, a melancolia torna-se perene
porque o riso irônico não a supera, mas a realimenta e é por ela realimentado.
Concluindo, diremos que se
Lacan, no conceito de Le père-Sévere, nos afirma ser o assassinato do Pai da
Horda (Real e Privador) a pré-condição necessária para a “significantização” do
“pai-morto” como o “Pai Simbólico, na tradição “schandiana” poderíamos dizer
algo equivalente: nela a dor melancólica é pré-condição do riso irônico e
corrosivo.
ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF,Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
coojornal@coojornal.com.br