EPÍGRAFE:
Eros
e Psiquê
“E, se
bem que seja obscuro
Tudo
pela estrada afora
E
falso, ele vem seguro,
E,
vencendo estrada e muro,
Chega
onde em sono ela mora
E, inda
tonto do que houvera,
À
cabeça, em maresia,
Ergue a
mão, e encontra hera,
E vê
que ele mesmo era
A
Princesa que dormira.”
Apud
Fernando Pessoa
in
revista Presença, n° 41 e 42,
Maio de
1934
Erotismo e/ou
erótica (?): Um discurso possível.
O Ocidente, após o século V,
quando termina, de fato, a vigência da “Paidéia”, assiste serem postas em cena
as bases de uma futura, e ao mesmo tempo fálica e sublimatória, cultura Classicista. Sabe-se que a mesma se engendrou no medievo, como nos ensinou Koyré
e se consolidou no binômio Classicismo (Lotman e Panofsky)/ Maneirismo (Weise e
Hauser) no século XVI. Ali, naquele momento e lugar, de saída, aboliu-se, de uma
vez por todas, o resquício da tradição épica, ou seja: Eros não mais fundiu-se à
Ágape. E, uma vez tendo assimilado Ágape, Eros passou a ter como contraponto a
Psiquê; e a relação entre ambos é magnificamente demonstrada no célebre poema de
Fernando Pessoa. Todavia, como efeito desta fusão e contra-forma, criou-se na
mentalidade Ocidental, indo, inclusive, projetar-se na Modernidade, a suposição
de sinonímia entre Erotismo e Erótica. Ora, preliminarmente, quando presentes na
obra de arte, estes procedimentos estéticos apresentam, realizados numa
linguagem fálica enquanto efeito de ato poético, uma origem comum: a gênese
sublimatória. Entretanto, isto não é o bastante para torná-los idênticos. Pois,
o Erotismo se qualifica, quando, por exemplo, uma obra de arte tematiza,
explicitamente, em seu enunciado e/ou apresenta, de forma latente, em sua
enunciação, a nítida opção pelo Desejo, lançando o rechaço do Gozo para além do
já natural caráter fálico da linguagem. Assenta-se, para tal, numa origem
axiomática própria do Gozo Fálico, freudianamente universalizado como Sintoma (Sinthome),
pouco importando a fantasia que sustente esta opção desejante; pois esta pode ir
da adoção da fantasia sádica ao Desejo insatisfeito de bovárica nomeação.
Já uma Erótica, conquanto, também,
uma vez obra de arte, apresente a necessária gênese sublimatória e, inclusive, a
realize, a atualize numa linguagem que é sempre fálica, faz uma opção pelo não
rechaço e sim, para além do Desejo, pela representação do Gozo; ou seja, ali a
Sublimação Erótica, própria da freudiana “pulsão de pesquisa”, coloca, com valor transferencial, no nível do pensamento, do Saber, em suma: do Gozo do Outro,
algo análogo ao convivium platônico. Trata-se, por exemplo, da relação de
aturdimento entre o arrebatamento Erótico e a representação escópica do Gozo, só
para ficar em Duras com Lacan. Logo, o Erotismo estará para a representação
artística do Desejo fantasmático, assim como uma Erótica estaria para a
representação escópica e/ou eidética do Gozo.
Então pergunta-se: a que se deve “este” mal
entendido?
Somos tentados a apontar duas
hipóteses: uma primeira explícita a uma segunda ínclita. A primeira nos conduz a
George Bataille, quando, com acerto, pretende “desligar”, de vez, o Erotismo da
pornografia, sua leitura diluída em conformidade com a Kantiana Moral religiosa
“de plantão”, e, para tal, deu-lhe o estatuto de Santidade Erótica e, assim,
terminou por criar as condições mentais necessárias para a vigência desta
suposta indistinção, logrando, momentaneamente, parcialmente, êxito nesse juízo
de atribuição. Já a segunda hipótese estará ínclita na mentalidade Ocidental e,
sobretudo, no discurso psicanalítico, principalmente, quando este, seja em
Lacan, seja em Allouch, insiste em esquecer a Erótica Épica presente na “Odisséia”
de Homero e, tardiamente, em: “Os Lusíadas” de Camões. O Discurso
Psicanalítico não se dá conta que com isto estará abrindo mão, para fundar-se
como Erótica possível, não só da distinção entre Eros e Ágape, mas também, e,
principalmente, da fusão entre Gnosis e Eros. Se a primeira é essencial para que
a profecia como manifestação do Ics Real, no “século do talento”, não abrace a
psicose; a segunda é fundamental, tanto para a produção da Sublimação, quanto
para o reconhecimento, no quinhentismo, da utopia ser também uma manifestação do
Ics. Insistindo, lembraremos que mesmo psicanalistas, da e na atualidade, ainda
que ligados ao lacaneano Campo do Gozo, como, por exemplo, um Jean Allouch,
quando tentam fundar uma Erótica do Luto, para ele assentada na
irreversibilidade gozosa da “seca” morte infantil e filial, terminam por divisar
para a sua Erótica, vista, então, como uma estética do Luto, o sempre sombrio e
“cinzento” espaço da Melancolia. E, assim sendo, embora já possam distinguir uma
Erótica do Erotismo, fazem-no em nome da opção pela representação da Morte, isto
é, pelo Gozo do Outro no lugar do Real do Gozo. Do mesmo modo que Homero, não a
fundam no Desejo, mas, ao contrário de Homero, não a fundam no Amor, dito ali
Gozo do Outro, (paradoxalmente, por não ser o seu signo), que, por isto, para
Lacan, “não é signo do Amor”, sendo, para tal, aposto no lugar do Gozo Real
(Falo), isto é, trata-se de uma Erótica que dá ao Amor o Lugar de representante
da dignificação do Falo. Por isso Homero indistinguia, assim como os gregos de
seu tempo, Gnosis de Eros, bem como, não distinguia Ágape de Eros, e desse modo
fundava sua Erótica, de natureza Épica, na representação sublimatória (por isto
não fálica, nem desejante) da dignificação do Falo, ou seja: do Gozo Real. E
sabe-se que o Falo “fala” através da escopia do olhar e foi assim que Lacan,
verbalmente, o surpreendeu no arrebatamento “em Marguerite Duras”. Do mesmo modo
que o fez em relação ao quadro: “As Meninas” de Velásquez. Então, em
Duras, seríamos remetidos à exaltação e ao aturdimento inerentes ao
arrebatamento de Lol V. Stein; e em Velásquez há a reversão, não da perspectiva
clássica pela anamorfose gótica e sim pelo seu contrário. Logo, na esteira do
Erotismo encontraremos Sade, malgrado a sua “A filosofia de Alcova”,
contudo, se apostarmos, como o fazem alguns críticos, no “Kant com Sade” como um
inicial “divisor de águas” da e na obra de Lacan, deveremos observar que o
citado texto, também, nos indicará, no nível da Demanda pela universalidade da
fantasia perversa (diferentemente de sua fetichista (dirigida ao leitor), opção
pelo Erotismo quando da universalidade desejante de fantasia sádica (d→a
◊ $)) a sua inclusão, enquanto sujeito vivente, e não apenas como autor, na dita
fantasia de Sade (D→a ◊ $), porque ali
se indica, inclusive, a fundação de uma erótica quando Eros (o Deus do Desejo
Fálico) é subdito à condição de Saber, de Gnosis, de Filosofia. Contudo, se
circunscrevermos a frivolidade à obrigação fálica nos “Setecentos”; bem como, à
“dezenovesca” mentalidade “bovárica”, que era formulada por via histérica,
iremos encontrar a “decepção fálica” a contrapor a Melancolia ao Erotismo. Já na
Modernidade, a qualificação estética representou o Erotismo, principalmente,
através de duas obras e autores especiais: O “Trópico de Câncer” de Henry
Miller e “O Quarteto de Alexandria” de D. H. Lawrence. Mas, não
poderíamos deixar de enfatizar, com a simpatia de Lacan, “O Delphus” de
Anaïs Nin. E, como uma questão pendente, ainda na modernidade do século
anterior, mas já no plano cênico, ficaria a obra de Jean Genet intitulada “Notre
Dame des Fleurs”, ao contrário de “Querelle”, onde está óbvia a
apologia homo-erótica. Para alguns, parece existir ali, literalmente, a
conjugação da Santidade Erótica prevista por Bataille, já que, aparentemente, se
incorporava o “homossexualismo imaginário” e a “prostituição” ao campo desta
dita Santidade; enquanto para outros, possivelmente mais argutos, ali se
revelava o fato de que a degradação moral e sexual explicitada por sua “opção
maníaca” nos indicar a possibilidade de ser representado, então, talvez, um
rechaço ao Desejo e um confronto entre Desejo e Gozo no nível de uma “tique”
(encontro faltoso), onde se alternariam, com sucesso, tanto as referências à
impossibilidade de dignificação do Falo (Gozo Real), quanto a impossibilidade de
a imortalidade rechaçar a Morte (Real do Gozo). E, possivelmente, por esta via,
qual se dera em Joyce, pela via da nomeação, produzir-se-íam de um “Symptôme”
um “Sinthome”. E uma vez confirmado, tal evento, com sucesso, sem dúvida,
estaríamos, nesta obra de Genet, diante de uma Erótica do Gozo.
Para finalizar, restaria ainda ser dito que,
de um ponto de vista estético (quer se dê a produção do Erotismo, quer se
conjugue a contra-forma melancólica de uma Erótica do Luto; ou ainda, quer
ocorra a produção de uma Erótica do Gozo como em Homero, como em Camões, como em
Joyce, como em Duras, por exemplo), não só haverá sempre uma gênese
sublimatória, como a produção, por vezes imaginária, do reconhecimento de seu
valor artístico pela mentalidade estética de época.
CONCLUSÃO:
Cabe ainda reconhecer que se Freud procurou
sua erótica pelos caminhos do Luto, fosse esse expressão da dramaticidade
trágica e/ ou do romantismo melancólico, Lacan, embora também se refira as duas
opções freudianas ao tratar, respectivamente, da heterossexualidade edípica
enquanto identificação viril ou dos efeitos de melancolização bováricos, parece
apostar, posteriormente, ainda nos limites do drama, na vertente erótica da
comédia lastreada na “volta ao lar” que substituiu o épico “Ulisses” de Homero
por Aristófanes em direção a Genet. E dizemos “erótica”, uma vez que ele as
coloca no mesmo campo semântico da antropologia do Desejo hegeliana de Kojèveana
inspiração.
Todavia, não podemos negar que,
embora jamais se inclua na lição épica, provavelmente, por sua opção platônica,
ainda que a maiêutica e a Épica possuíssem uma lógica argumentativa comum, Lacan
nos brindou, em sua leitura de Joyce, com a singular possibilidade de se fundar
nela uma Erótica do Gozo, no que de Sinthome fosse colocado em jogo a medieval e
sublimatória recomposição da paternidade.
Em suma; se o Ics, um discurso para
Freud sem autoria, é o avesso da Psicanálise e se aproxima, para Lacan, do
Discurso da autoria da própria palavra, (o do Mestre, tanto na acepção de Alain
Didier-Weil, quanto de Jean-Pierre Léfebvre), isto porque compatibiliza a
acefalia da pulsão com a do saber sublimatório (que aquela aloca na produção), a
Psicanálise em princípio, como já se pensou, talvez não seja ou contenha, a
rigor, uma erótica, assim como ela não é nem o Ics, nem o Discurso do Mestre,
mas cabe-lhe, privilegiadamente, já que a própria estética parece disso ter-se
esquecido, desde o século V, a retomada da lição épica (que ela, também, até
hoje, não incorporou). Logo, reconhecê-la na obra de arte foi o que a obra de
Jacques Lacan nos parece ter, implicitamente, indicado em suas considerações,
colocando-a para além da opção do arbítrio moral sado-kantiano a despeito de “A
Filosofia de Alcova”, malgrado a opção pela fantasia de Sade, que parece ter
custado a este a própria vida, e, explicitamente, no Sinthome, como evidência da
sublimatória, em Joyce, “obra em progresso”, pois lá se nomeia o gozo como
impossibilidade e o caminho do “Finnegans” é, por isto, ilegível, e é isto que
qualifica a Castração, ou seja, é o reconhecimento de que não há saber possível
sobre o gozo.
ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF, Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
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