15/12/2007
Ano 11 - Número 559

 

Opinião Acadêmica
 

V CIRANDA DE PSICANÁLISE E ARTE


PUC-RJ   -  Setembro 2007
Sob os auspícios da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro

Erotismo e/ ou erótica:
Um discurso possível

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


  EPÍGRAFE:

Eros e Psiquê

“E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada afora
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormira.

Apud Fernando Pessoa
            in revista Presença, n° 41 e 42,
            Maio de 1934


Erotismo e/ou erótica (?):
Um discurso possível.

O Ocidente, após o século V, quando termina, de fato, a vigência da “Paidéia”, assiste serem postas em cena as bases de uma futura, e ao mesmo tempo fálica e sublimatória, cultura Classicista. Sabe-se que a mesma se engendrou no medievo, como nos ensinou Koyré e se consolidou no binômio Classicismo (Lotman e Panofsky)/ Maneirismo (Weise e Hauser) no século XVI. Ali, naquele momento e lugar, de saída, aboliu-se, de uma vez por todas, o resquício da tradição épica, ou seja: Eros não mais fundiu-se à Ágape. E, uma vez tendo assimilado Ágape, Eros passou a ter como contraponto a Psiquê; e a relação entre ambos é magnificamente demonstrada no célebre poema de Fernando Pessoa. Todavia, como efeito desta fusão e contra-forma, criou-se na mentalidade Ocidental, indo, inclusive, projetar-se na Modernidade, a suposição de sinonímia entre Erotismo e Erótica. Ora, preliminarmente, quando presentes na obra de arte, estes procedimentos estéticos apresentam, realizados numa linguagem fálica enquanto efeito de ato poético, uma origem comum: a gênese sublimatória. Entretanto, isto não é o bastante para torná-los idênticos. Pois, o Erotismo se qualifica, quando, por exemplo, uma obra de arte tematiza, explicitamente, em seu enunciado e/ou apresenta, de forma latente, em sua enunciação, a nítida opção pelo Desejo, lançando o rechaço do Gozo para além do já natural caráter fálico da linguagem. Assenta-se, para tal, numa origem axiomática própria do Gozo Fálico, freudianamente universalizado como Sintoma (Sinthome), pouco importando a fantasia que sustente esta opção desejante; pois esta pode ir da adoção da fantasia sádica ao Desejo insatisfeito de bovárica nomeação.

Já uma Erótica, conquanto, também, uma vez obra de arte, apresente a necessária gênese sublimatória e, inclusive, a realize, a atualize numa linguagem que é sempre fálica, faz uma opção pelo não rechaço e sim, para além do Desejo, pela representação do Gozo; ou seja, ali a Sublimação Erótica, própria da freudiana “pulsão de pesquisa”, coloca, com valor transferencial, no nível do pensamento, do Saber, em suma: do Gozo do Outro, algo análogo ao convivium platônico. Trata-se, por exemplo, da relação de aturdimento entre o arrebatamento Erótico e a representação escópica do Gozo, só para ficar em Duras com Lacan. Logo, o Erotismo estará para a representação artística do Desejo fantasmático, assim como uma Erótica estaria para a representação escópica e/ou eidética do Gozo.

Então pergunta-se: a que se deve “este” mal entendido?

Somos tentados a apontar duas hipóteses: uma primeira explícita a uma segunda ínclita. A primeira nos conduz a George Bataille, quando, com acerto, pretende “desligar”, de vez, o Erotismo da pornografia, sua leitura diluída em conformidade com a Kantiana Moral religiosa “de plantão”, e, para tal, deu-lhe o estatuto de Santidade Erótica e, assim, terminou por criar as condições mentais necessárias para a vigência desta suposta indistinção, logrando, momentaneamente, parcialmente, êxito nesse juízo de atribuição. Já a segunda hipótese estará ínclita na mentalidade Ocidental e, sobretudo, no discurso psicanalítico, principalmente, quando este, seja em Lacan, seja em Allouch, insiste em esquecer a Erótica Épica presente na “Odisséia” de Homero e, tardiamente, em: “Os Lusíadas” de Camões. O Discurso Psicanalítico não se dá conta que com isto estará abrindo mão, para fundar-se como Erótica possível, não só da distinção entre Eros e Ágape, mas também, e, principalmente, da fusão entre Gnosis e Eros. Se a primeira é essencial para que a profecia como manifestação do Ics Real, no “século do talento”, não abrace a psicose; a segunda é fundamental, tanto para a produção da Sublimação, quanto para o reconhecimento, no quinhentismo, da utopia ser também uma manifestação do Ics. Insistindo, lembraremos que mesmo psicanalistas, da e na atualidade, ainda que ligados ao lacaneano Campo do Gozo, como, por exemplo, um Jean Allouch, quando tentam fundar uma Erótica do Luto, para ele assentada na irreversibilidade gozosa da “seca” morte infantil e filial, terminam por divisar para a sua Erótica, vista, então, como uma estética do Luto, o sempre sombrio e “cinzento” espaço da Melancolia. E, assim sendo, embora já possam distinguir uma Erótica do Erotismo, fazem-no em nome da opção pela representação da Morte, isto é, pelo Gozo do Outro no lugar do Real do Gozo. Do mesmo modo que Homero, não a fundam no Desejo, mas, ao contrário de Homero, não a fundam no Amor, dito ali Gozo do Outro, (paradoxalmente, por não ser o seu signo), que, por isto, para Lacan, “não é signo do Amor”, sendo, para tal, aposto no lugar do Gozo Real (Falo), isto é, trata-se de uma Erótica que dá ao Amor o Lugar de representante da dignificação do Falo. Por isso Homero indistinguia, assim como os gregos de seu tempo, Gnosis de Eros, bem como, não distinguia Ágape de Eros, e desse modo fundava sua Erótica, de natureza Épica, na representação sublimatória (por isto não fálica, nem desejante) da dignificação do Falo, ou seja: do Gozo Real. E sabe-se que o Falo “fala” através da escopia do olhar e foi assim que Lacan, verbalmente, o surpreendeu no arrebatamento “em Marguerite Duras”. Do mesmo modo que o fez em relação ao quadro: “As Meninas” de Velásquez. Então, em Duras, seríamos remetidos à exaltação e ao aturdimento inerentes ao arrebatamento de Lol V. Stein; e em Velásquez há a reversão, não da perspectiva clássica pela anamorfose gótica e sim pelo seu contrário. Logo, na esteira do Erotismo encontraremos Sade, malgrado a sua “A filosofia de Alcova”, contudo, se apostarmos, como o fazem alguns críticos, no “Kant com Sade” como um inicial “divisor de águas” da e na obra de Lacan, deveremos observar que o citado texto, também, nos indicará, no nível da Demanda pela universalidade da fantasia perversa (diferentemente de sua fetichista (dirigida ao leitor), opção pelo Erotismo quando da universalidade desejante de fantasia sádica (da ◊ $)) a sua inclusão, enquanto sujeito vivente, e não apenas como autor, na dita fantasia de Sade (Da ◊ $), porque ali se indica, inclusive, a fundação de uma erótica quando Eros (o Deus do Desejo Fálico) é subdito à condição de Saber, de Gnosis, de Filosofia. Contudo, se circunscrevermos a frivolidade à obrigação fálica nos “Setecentos”; bem como, à “dezenovesca” mentalidade “bovárica”, que era formulada por via histérica, iremos encontrar a “decepção fálica” a contrapor a Melancolia ao Erotismo. Já na Modernidade, a qualificação estética representou o Erotismo, principalmente, através de duas obras e autores especiais: O “Trópico de Câncer” de Henry Miller e “O Quarteto de Alexandria” de D. H. Lawrence. Mas, não poderíamos deixar de enfatizar, com a simpatia de Lacan, “O Delphus” de Anaïs Nin. E, como uma questão pendente, ainda na modernidade do século anterior, mas já no plano cênico, ficaria a obra de Jean Genet intitulada “Notre Dame des Fleurs”, ao contrário de “Querelle”, onde está óbvia a apologia homo-erótica. Para alguns, parece existir ali, literalmente, a conjugação da Santidade Erótica prevista por Bataille, já que, aparentemente, se incorporava o “homossexualismo imaginário” e a “prostituição” ao campo desta dita Santidade; enquanto para outros, possivelmente mais argutos, ali se revelava o fato de que a degradação moral e sexual explicitada por sua “opção maníaca” nos indicar a possibilidade de ser representado, então, talvez, um rechaço ao Desejo e um confronto entre Desejo e Gozo no nível de uma “tique” (encontro faltoso), onde se alternariam, com sucesso, tanto as referências à impossibilidade de dignificação do Falo (Gozo Real), quanto a impossibilidade de a imortalidade rechaçar a Morte (Real do Gozo). E, possivelmente, por esta via, qual se dera em Joyce, pela via da nomeação, produzir-se-íam de um “Symptôme” um “Sinthome”. E uma vez confirmado, tal evento, com sucesso, sem dúvida, estaríamos, nesta obra de Genet, diante de uma Erótica do Gozo.

Para finalizar, restaria ainda ser dito que, de um ponto de vista estético (quer se dê a produção do Erotismo, quer se conjugue a contra-forma melancólica de uma Erótica do Luto; ou ainda, quer ocorra a produção de uma Erótica do Gozo como em Homero, como em Camões, como em Joyce, como em Duras, por exemplo), não só haverá sempre uma gênese sublimatória, como a produção, por vezes imaginária, do reconhecimento de seu valor artístico pela mentalidade estética de época.
 

CONCLUSÃO:

Cabe ainda reconhecer que se Freud procurou sua erótica pelos caminhos do Luto, fosse esse expressão da dramaticidade trágica e/ ou do romantismo melancólico, Lacan, embora também se refira as duas opções freudianas ao tratar, respectivamente, da heterossexualidade edípica enquanto identificação viril ou dos efeitos de melancolização bováricos, parece apostar, posteriormente, ainda nos limites do drama, na vertente erótica da comédia lastreada na “volta ao lar” que substituiu o épico “Ulisses” de Homero por Aristófanes em direção a Genet. E dizemos “erótica”, uma vez que ele as coloca no mesmo campo semântico da antropologia do Desejo hegeliana de Kojèveana inspiração.

Todavia, não podemos negar que, embora jamais se inclua na lição épica, provavelmente, por sua opção platônica, ainda que a maiêutica e a Épica possuíssem uma lógica argumentativa comum, Lacan nos brindou, em sua leitura de Joyce, com a singular possibilidade de se fundar nela uma Erótica do Gozo, no que de Sinthome fosse colocado em jogo a medieval e sublimatória recomposição da paternidade.

Em suma; se o Ics, um discurso para Freud sem autoria, é o avesso da Psicanálise e se aproxima, para Lacan, do Discurso da autoria da própria palavra, (o do Mestre, tanto na acepção de Alain Didier-Weil, quanto de Jean-Pierre Léfebvre), isto porque compatibiliza a acefalia da pulsão com a do saber sublimatório (que aquela aloca na produção), a Psicanálise em princípio, como já se pensou, talvez não seja ou contenha, a rigor, uma erótica, assim como ela não é nem o Ics, nem o Discurso do Mestre, mas cabe-lhe, privilegiadamente, já que a própria estética parece disso ter-se esquecido, desde o século V, a retomada da lição épica (que ela, também, até hoje, não incorporou). Logo,  reconhecê-la na obra de arte foi o que a obra de Jacques Lacan nos parece ter, implicitamente, indicado em suas considerações, colocando-a para além da opção do arbítrio moral sado-kantiano a despeito de “A Filosofia de Alcova”, malgrado a opção pela fantasia de Sade, que parece ter custado a este a própria vida, e, explicitamente, no Sinthome, como evidência da sublimatória, em Joyce, “obra em progresso”, pois lá se nomeia o gozo como impossibilidade e o caminho do “Finnegans” é, por isto, ilegível, e é isto que qualifica a Castração, ou seja, é o reconhecimento de que não há saber possível sobre o gozo.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF, Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
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