31/05/2008
Ano 11 - Número 583

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

Mais ainda o filicídio

Antônio Sérgio  Mendonça


Certa vez, Sigmund Freud ao assistir, no seu exílio inglês, uma encenação de “Édipo Rei” de Sófocles, malgrado essa representação ter-se dado conforme os ditames cênicos do hoje chamado “teatrão” e, não, como na Grécia, num teatro de arena, manifestou sua surpresa e admiração pelo fato de que este texto comovia a então moderna audiência inglesa, tanto quanto outrora o texto ático o fizera.  Sabe-se, também, e isso é um dos principais legados, tanto da obra de Freud, quanto da de Lacan, que a proibição do incesto fora uma forma de erradicação do parricídio e de todas as formas de homicídio, principalmente, de seu avesso filicida. A isto Lacan chamou de “Lei do Pai” e também de “Le Pére Sévere”, onde o Édipo grego recalcaria o assassinato do Pai Real presente emTotem e Tabu”. E se o parricídio comoveu tanto a Grécia ancestral como a Inglaterra do século XX, o filicídio nos parece, mais ainda, continuar nos comovendo. Na verve ática, sabe-se da pena trágica de Medéia, do sacrifício pessoal de Agamenon na versão épica e, do ponto de vista camito-semítico, precursor do ideário judaico-cristão, embora absolvido ali pela justa mediação divina, o filicídio proposto em Abrahão, serviu não de inspiração para o que Freud adicionou ao Édipo grego, ou seja: a Castração; mas também para a vinculação entre absolvição e gozo místico, que, uma vez relido pelo Religare de Roma, o “Cordeiro de Deus” irá, sublimatoriamente, metaforizar a misericórdia divina. Freud disse, certa vez, que a dificuldade não estava na deformação, com valor de assassinato, de um texto e sim, também, ao perpetrá-lo, em dissimular os seus traços.

         Houve um assassinato, por suposição filicida, e os saberes que de Platão a Copérnico recobrem e revestem a “Ratio EscendipelaRatio Cognoscendipara produzir, na luz iluminista, o Realismo Ocidental, pátria das “palavras-mestras” no dizer de Jean Claude-Milner, se lançam, no dizer de “especialistas” e “comportamentalistas”, a explicar “cientificamente” o ocorrido. Paul Valery, notável esteta francês, de certa forma precursor da questão estética, histórica e midiática da recepção, no seuPiéces sur L’Art”, nos dizia que os críticos ao invés de conhecer a arte, não faziam senão repetir a impressão social que esta lhes causara.  Jauss, , no âmbito do que se convencionou denominar entre nós de estética da recepção, chamava a atenção para a necessidade de convocação da Psicanálise no estudo da dita recepção. Malgrado isso, é precisamente o que não parece acontecer com os “especialistas”, que falam menos do ocorrido e muito mais de seu aturdimento, de seu assombro, de sua perplexidade, e ficam cercando a factualidade fictícia e suposta a partir de opiniões que não tem passado de meras projeções ideológicas e/ou egóico-imaginárias (suas). Conseguem até destacar, sem nomear, contudo, a presença, na recepção, que é responsável pela audiência brutal do crime, da Identificação Imaginária. Dizem tratar-se de uma família comum de classe média de onde menos se espera que compareça tal horror. Se abrissem mão do “psicanalisar”, isto é, do interpretativismo, cuja impossibilidade foi tão condenada por Freud, e escutassem, antes de observar, teriam notado na encenação da “confissão” midiática e denegatória de “culpa” do “casal”, aqui e ali, traços profundos de um tipo de complô acobertante, próprio da fraternidade perversa. Poder-se-ia ainda observar, desde que se abrisse mão dos “chavõespróprios do “chulé sócio-ideológico”, ali mesmo indícios evidentes daquilo que Lacan chamou de decadência da imago paterna e que Charles Melmann, em recente entrevista à mídia brasileira, aponta como o ocaso e/ou possível desaparecimento da família na sociedade atual. Todavia, deve-se buscar nisto, não razões comportamentais de puro efeito, e sim, a “des-simbolização” na sociedade contemporânea do ético princípio legiferante da paternidade, que, obviamente, não se confunde com patriarcalismo e significa, hoje, a impotência e/ou a impossibilidade de transmissão da “Lei do Pai” no sintoma familiar. Mas, isto não não explica, porque a rigor Freud “não explica nada”, e tampouco justifica o assassinato e muito menos, como queria Freud, a impossibilidade de dissimular os seus traços (filicidas).

         Contudo, um auditório se comove, por suposição e/ou identificação imaginária, ao ver-se refletido, apesar de sua vontade,  naquela “suburbana” (“band-lieu”)  ilusão de “classe médiaque é a egóica “estabilidadefamiliar. Supõem que os “assassinos”, de fato, não são como eles, pois o geneticismo atual até reinventou a dicotomia normal X patológico, malgrado a Psicanálise ter inventado a psicopatologia inconsciente. Mas o que não quer calar está para além do dito que fica esquecido naquilo que (se) (h)ouve (ou ), conforme ressalta o aturdimento lacaniano. O que não consegue calar e até agora tem sido escamoteado pela mídia e pelosespecialistas” é que se trata, a confirmar-se a culpa jurídica (que se chama dolo), de um puro e simples filicídio, sem os álibis da outrora honra heróica, fosse trágica, épica ou mítica, grega e/ou da sobrevivente honra divina judaica. No senso comum costuma-se dizer que em condiçõesnormaisum filho deveria sobreviver aos seus pais, e para haver civilização deveria condenar-se o parricídio como uma forma de se erradicar o homicídio; então resta o seguinte horror: como um pai pode simplesmente ser cúmplice do assassinato de uma filha?. Quem será essemonstroque desmoralizou na prática o mito de Electra? Que sociedade é esta que não tem mais lugar para a heroicidade trágica de Antígona, que, ao denunciar o assassínio da tirania, fez valer o seu Desejo, e/ou para o Hamlet shakespeareano que, ao fracassar em punir o assassino de seu pai, termina por abrir mão do próprio Desejo?

         Estamos todos aturditos com o gozo filicida de um pai que insiste em mascarar-se de um “homem comum”, e nos propõe, com isso, a “barbárie”. Pois, se o filicídio já é um absurdo, sua insistência será o próprio desmentido da civilização, e seu autor não pode continuar a se imaginarizar como se fora um homem comum, porque tornará visível que com a abolição progressiva do sintoma familiar, a nossa sociedade atual parece ter ido longe demais no seu afã de combinar, no reino da impudência, a produção do desejo anônimo e de sujeitos sem nome.


Conclusão: “Ontem e Hoje”/”Encore”.

         Em suma, deveríamos, como Freud, apostar na universalidade do Inconsciente; assim como, qual Lacan, supor a universalidade do gozo; pois como, de outra forma, dar conta do fato de a “pós-moderna” e “globalizada” (para além da legitimação) sociedade atual repetir, qual a ancestralidade caudéia e/ou assíria (Gilgamesh, Rei de Uruk), judaica (Abrahão) e ática (Sófocles), como atos, os, então, nomeados temas lendários, míticos e bíblicos do incesto do filicídio? A diferença está em que outrora fosse no texto, fosse no dizer, a sublimação (inibição da pulsão pelo pensamento) e a castração (recalque) eram convocadas e se o “Rei de Uruk” possivelmente teria inspirado o Pai Real de “Totem e Tabu”, Lacan nos lembraria, com Le pére sévere, que o Édipo grego recalcaria para que pudesse haver, como evidência do “pai-morto”, o Pai Simbólico. Porém, hoje (aqui, ali e agora) sem álibi algum, por mera suspensão de recalque e/ou desmentido prévio de qualquer possibilidade de sublimação mística, praticou-se, em ato, o filicídio (Brasil) e o incesto (Áustria); que ontem eram conjugados sob o manto diáfano da ficção, mas hoje o são pelo signo da realidade.


Post-scritum I: “Ab-reação” e “Violência Mítica”.

         Pode-se ainda afirmar que o filicídio, por ser um tema mítico (épico e trágico), parece caracterizar o que, em sua obra: “Mito e Violência”, Walter Benjamin, no âmbito da distinção ali feita, chamou de Violência Mítica. E isto por se conjecturar haver na mesma uma transgressão de norma supostamente natural. Continuando nesta mesma linha de raciocínio o citado autor nos apontará, inclusive, para o efeito de ab-reação, ou seja, catártico dessa violência. Pois isso é algo encontrado tanto, conforme Claude Lèvi-Strauss, nas relações de efetivação existentes entre o feiticeiro e sua magia, quanto no “Mito de Massa”, por Roland Barthes definido, e que também suporta a comoção catártica ao apresentá-la como um efeito próprio do “fait-diversmidiático que, continuamente, transforma o acontecimento em tragédia e esta em espetáculo. E, ainda do ponto de vista da identificação imaginária, não causa estranheza, por parecer fazer parte de uma plausível herança passional, jurídica e emocional, a violência, em ato, quando praticada pormadrastas” e/ouamantes” ao retalharem o abandono. Ali pratica o infanticídio para com isso atingir os homens que as abandonaram. No entanto, agora vimos surgir diante de nós, para além da intrusão psicótica, algo bem mais grave que é o assassinato filicida. Ele tinge de sangue e horror o cenário urbano de nossa sociedade e desmente qualquer processo civilizatório. Como conviver com isto?


Post-scriptum II:  “Mais ainda o incesto”.

         E eis que, mais ainda, novamente e ainda mais, somos surpreendidos pelo noticiário da mídia que nos divulga o mais recente capítulo da “globalização” do horror, e com ele coloca em cena a unidimensionalidade aparente do aturdimento. Refiro-me ao que ocorreu na Áustria, terra de direito de Sigmund Freud, tcheco, de nascimento na Moravia em Freiberg, que era, então, parte do Império Austro-Húngaro, (hoje Pribor) e da Viena, tão amada por seu pai e odiada por ele. um Pai Sedutor, reconfigurando-se, , a terminologia retificadora de Allouch, ao falar da “Jovem Homossexual” (um caso clínico de Freud) não terá abolido, por desmentido (déni), qualquer “imago” masculina para a “filia” no caso feminina, mas também, por fraude paterna (caracterizando assim o avesso da maníaca fraude materna), a degrada em vida, chegando ao cúmulo de declará-la fugitiva e, também, responsável pelo abandono dos filhos, para com isto poder estuprá-la em crime continuado em cárcere privado e desta forma impor (acobertado pelo suposto e pretendido anonimato do crime) de forma perversificada a bastardia incestuosa aos filhos, a esposa e ao mundo civilizado. Ou seja, poderia, se fosse o caso, candidatar-se a uma espécie de prêmio “Nobel” da transgressão criminosa, tanto em termos de anonimato, quanto de impunidade (pretendidos). Mas, sobretudo, e é precisamente o que não pode ser calado, associa, tal qual em Sófocles, o incesto ao crime; , ficcionalmente, ao parricídio, aqui (hoje) aos demandos facínoras de um Pai Sedutor. E tratando-se, seja do incesto, seja do filicídio, nãocomo se evitar, graças, principalmente, à divulgação, emsuíte”, do espetáculo midiático, o aturdimento provocado pelo horror próprio da violência mítica (na citada acepção benjaminiana) o que, sem dúvida, irá gerar a egóica difusão da agressividade perversa que, para tal, se apresentará como um retorno do recalcado, verdadeiro retorno do Real que, por sua lide se mostrará inteiramente em conformidade com a fantasia sadiana.


 

Prof. Dr. (UFRJ) Antônio Sérgio  Mendonça, Titular UFF, Docente-Livre UERJ, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacanenos – Instituição Psicanalítica – CEL/RS - Porto Alegre celacan@celacan.com.br