28/06/2008
Ano 11 - Número 587

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

Lacan e(m) 68 rotações

Antônio Sérgio  Mendonça


1.      Introdução

            Foi em 1966, no dia 19 de fevereiro, que Jacques Lacan, como que situando-se, premonitoriamente, sobre os futuros eventos do “Maio de 1968” na França, respondeu às perguntas do estudantes de Filosofia. Três partes de suas respostas disseram, respectivamente, respeito aos temas: Filosofia e Consciência (1ª parte), a partir da onde disserta sobre o fato de Freud supor, após a publicação de texto, então, inédito de Kaufmann, ter a Filosofia um enunciado paranóico (3ª parte) e sobre as relações entre Interpretação Hermenêutica (Paul Ricoeur), Interpretação Psicanalítica (Freud) e Antropológica (4ª parte), e elas não se relacionavam, diretamente ou conceitualmente, com o futuroMaio de 1968” e sim a segunda parte. Retomando-se a 1ª parte de suas respostas, nela Lacan abordaria temas tais como: Fenomenologia, Meleau-Ponty (seu pensamento), a critica à suposição de uma psicologia do ego autônomo de parte de uma Hartmam e a denominou de Consciência e Sujeito. Ao responder (na 3ª parte) à suposição freudiana, Lacan a identificaria como: “uma etapa selvagem da ironia freudianaque, malgrado o autor de Freiberg ser discípulo de Von Bretano e ter-se inspirado para a construção da categoria de Ics no conceito de natureza do romântico poeta-filósofo Goëthe e, também, ser tradutor de Aristóteles, levaria Freud a identificar a Filosofia como uma “quimera” e, ao responder à pergunta pertinente às relações entre interpretação, antropologia e Hermenêutica (de Ricoeur), distinguira a interpretação sintomática e onírica, de caráter pulsional, freudiana da Hermenêutica de Ricoeur e da interpretação culturalista da Antropologia. Não se pense, contudo, que Lacan tinha a desconfiança de Freud em relação ao saber filosófico, embora a Filosofia em diversos textos, por vezes, aproximasse certos enunciados filosóficos da foraclusão delirante do enunciado paranóico. Estamo-nos referindo ao “mito prometaico”, à crítica ao pedagogismo da “boa selvageria” (umbon mot”) de Rousseau, e à “flor sádica” manisfestada na moral cristã e social kantiana. Seriam, qual o enunciado real do saber, saberes supostos sujeitos e tendentes ao comprometimento de palavras-mestras com o delírio. Contudo, esse mesmo Lacan, deixará claro, em sua resposta, que a concepção de paranóia como delírio homossexual presente no pensamento Freudiano se iria referir ao “assassinato da alma” do Presidente Schreber e não, como um todo, ao pensamento filosófico. Até porque Lacan se iria inspirar em sua produção conceitual, nas formas clássicas de sublimação: o Pensamento, a Ciência e a Arte. E no que se refere à Filosofia estarão presentes em seu enunciado: Spinoza, Platão, Santo Tomás de Aquino, Aristóteles, Santo Agostinho e, sobre tudo, Hegel, dentre outros. Acolheria um Heidegger escorraçado pelo “patrulhismo” do após-guerra, distinguindo o seu pensamento das suas vicissitudes, como sempre o fizera, aliás, em suas relações com Koyré, Kojève, Picasso e Salvador Dali. Quanto à Ciência irá incorporar Galileu e Leonardo da Vinci o que levou seus leitores como Jean-Claude Milner a denominarem-no de “Lacan dos Classicismos”. Posteriormente tomando-se como referencia seus seminários, Livro XX, “Encore” (+ Ainda) e XVII: “O Avesso da Psicanálise”, vai procurar compatibilizar a Filosofia (e seus enunciados), com os discursos Universitário, da Histérica (Hegel) e do Mestre (de função histérica).

2.      Lacan a Linguagem e a Filosofia (anti) 

            Porém, e relação ao evento histórico e de mentalidade iconizada sob a denominação de “Maio de 1968”, destacar-se-ia o 2º grupo de respostas dadas por Lacan aos estudantes de Filosofia. Este se denominava: Psicanálise e Sociedade. Nele, de saída, distinguiria o ditosujeito alienado” do Marxismo, que é de fato uma construção neo-hegeliana, do que seus “inquisidores” ali chamavam de “sujeito do desejo alienado”; para ele, desde Freud, próprio da neurose e nela da obsessão, que é ritualística como crença, dita, por ele, mais tarde, de matriz hamletiana. em relação a concepção psicanalítica de linguagem uma formação que era pré-condição do Ics, a aproxima, paradoxalmente do Marxismo, mas não da “palavra de ordem” substancialista que via a “linguagem como superestruturacomo Marr e sim conforme o texto de Joseph Stalin. Neste grupo de respostas ao ser indagado se, por ser pago, o “tratamentopsicanalítico não seria uma “terapia classista”, afirma que não, porque o que estaria em jogo desde Freud seria a Transferência, e não a pecúnia e, como acrescentou mais adiante conforme leitura de Alain Didier-Weill, tratava-se de uma dívida simbólica para com o significante e, também, como, “lui-même”, posteriormente, afirmou na revista ORNICAR, a psicanálise não é medicina, pois Freud afirmara em “A Análise Leiga”, e “não se terapia o Ics” (fazendo um enunciado homofônico na língua francesa). Remete à afirmação de Mannoni, de que a psicanálise era “uma intervenção de uma instituição em outra”, à própria; o que foi uma maneira educada de evitar a sua não concordância. Mas a sua crítica, então, implícita, ao repressivismo dos enunciados de “Maio de 1968”, se delineia, quando distingue, literalmente, a psicanálise da interpretação política e/ou do político (ato) propriamente dito; posição, também, Freudiana desde: A Analise Leiga. Então, nos diz: “Mas, para evitar qualquer equívoco, tomem nota de que considero que a psicanálise não tem o menor direito de interpretar (como queriam os analistas franceses ligados à IPA) a prática revolucionáriamas que, ao contrário, a teoria revolucionária faria bem em se julgar responsável por ter deixado vaga a função da verdade como sua causa”. Bem mais tarde, seu discípulo, professor de Lingüística em Vincennes, Jean-Claude Milner em seu livro “Os Nomes Indistintos”, no capítulo sobre “As Palavras Mestras”, se iria permitir dizer da substituição desta causa por uma crença; e Vincennes foi um produto direto da intervenção do “Maio de 1968” na instância universitária francesa. Mas, voltando-se a Lacan, este nos irá dizer que a função da verdade como causa é ali substituída por “uma suposição primária da própria eficácia”, ou seja, por um enunciado que se garantiria no primarismo de “palavras-mestras” produzidas como crenças. E quem não ouviu o célebre enunciado pré-condicional “a prática é o critério da verdade”, isto é, a prática não tem a verdade como causa, mas , ao contrário, se propõe como causa material da verdade.

3.      A Retomada

            Lembro-me que em 1988, em Vitória do Espírito Santo, quando do 3º Congresso Brasileiro de Psicanálise, proposto por um movimento lacaneano, então existente, e que se denominava de “ A Causa Freudiana do Brasil”, em nossa intervenção que consta nos anais deste congresso, intervenção em parte motivada pelo tema da mesa (Psicanálise, Ética e Política) – Numa dupla alusão aos, então, vinte anos do “Maio de 1968” francês, dizíamos: “Lacan é o que permitiu à minha geração (que viveu 68) se dar conta de uma saga que, constantemente, passava da melancolia à impotência, pois não se escutou a advertência de que havia a necessidade de intervenção da Mestria, fundada no adversário pela nossa própria histeria. Em vez disso, nos lamentávamos por anos que supostamente não terminarão, ou então, do como e porque ficamos à deriva ao sobrevier à derrota. E como resposta apenas tínhamos retaliação, o ressentimento e/ou a descrença face à angústia inerente ao mal-estar causado pelo descrédito dos que, um dia, supondo desmentir Freud, acreditaram que GOVERNAR e ENSINAR fossem possíveis, simplesmente porque substituíram a crençanos seletos” da contra-reforma jesuítica e cristã, pela crença dos “escoteiros da boa ideologia” ”. E isso foi dito porque sabe-se que convocado insistentemente pelos estudantes emMaio de 1968” Lacan, preliminarmente, parece ter-lhes dito que, ou o escutavam, ou escutassem a Psicanálise oficial, que era tida como uma espécie de reformismo psicológico(no sentido político do termo que remonta ao modo como, no tempo de Gramsci, se admitia a referência ao estalinista PCI, e que, naquela década, opunha-se a revolucionário). Com isto, Lacan finaliza que a sua visão da psicanálise freudiana seria revolucionária apenas em termos psicanalíticos, mas jamais que havia uma identidade entre isso e ser revolucionário nos termos, em grande parte, maoístas da juventude universitária francesa. Dessa crença maoísta participara, inclusive, seu genro e hoje um de seus herdeiros intelectuais: Jacques Alain-Miller. Em tempo, essa juventude, revolucionária e contra-cultural, identificada até à medula com o repressivismo a combater, parece não ter-se dado conta de que aplaudia, naquele momento, um dos mais repressivos e autoritários assassinatos (físico e cultural), onde a humilhação pública e a “eugenia” dos espíritos eram praticados por Mao Tse-tung (e seu célebre livrinho vermelho), aplaudido, até por Jean-Luc Godard, como um fazer que visava alterar as relações de poder na China de modo a encobrir seu, então, fracasso econômico. Mas, apesar e/ou por causa deste tipo de equívoco, a juventude universitária francesa era anti-reformista, anti-PCF, anti-humanista, e um de seus intérpretes Louis Althusser, leitor “estruturalizante” e anti-hegeliano de “O Capital” de Marx, disse, textualmente, que Lacan estaria para Freud assim como ele para Marx. Talvez, por isso, a “geração de 68” tenha optado por escutar Lacan. E, em suma, ele apenas a advertiu, dando prosseguimento ao seu texto anterior de 1966, de que a falta de uma verdade (não-toda) como causa os levaria, por denegação, a inventar como Mestre um adversário. Ou seja, o ato de Mestria não surgiria do lado do “soi-disant” “poder jovem” e sim do outro lado, do lado do oponente e faria cessar, como aconteceu, a irrupção. Mas o Mestre não foi, como se pensou, inicialmente Charles de Gaulle, um cristão sobrevivente a Vichy e especialista estratégico no governar e, sim, talvez, um conselheiro político seu, epistemólogo russo, ex-mestre de Lacan e de sua geração, sucessor de Koyré no ensinamento da Fenomenologia Alemã na França: Alexandre Kojève. Lacan, contudo, apostou, adotou e participou de alguns efeitos deste movimento na Universidade, assim sendo, tornou-se responsável pelo Departamento da Psicanálise de Vincennes. Ali Lacan, como antes Freud, jamais abonou o ensino da clínica e da formação em Psicanálise em Universidade, pois isso se verificaria apenas na Escola Freudiana de Paris, e sim o ensino das conexões necessárias entre essa formação e os saberes, discursos e enunciados, pertinentes à complementação indispensável à formação em Psicanálise. E assim expôs no texto de 1975, publicado na ORNICAR, “Talvez em Vincennes”, que este ensino deveria, na transmissão da Psicanálise, ser formal, conteudístico e doutrinário (não eclético), apesar do aparente anarquismo quanto à existência ali de um “público-alvo”, por vezes, apartado do ensino formal. se ensinaria Lingüística (ressaltando-se a contribuição de seu mestre Jakobson), Lógica, Topologia e Anti-Filosofia. Com isso, conclui assim em 1975 a resposta, iniciada em 1966, aos estudantes de Filosofia. E como Anti-Filosofia entendia: “a investigação do que o discurso universitário deve à sua suposição  'educativa' e/ou 'pedagógica' ”. Mas a sua relação com 68 não termina , pois no seminário nº 17 intitulado “O Avesso da Psicanálise”, Lacan homenagearia o “Maio de 1968” ao apor na capa do mesmo uma fotografia de Daniel Cohn-Bendit (seu ícone) zombando da militarização do poder constituído. O mesmo Cohn-Bendit que mais tarde, social-democrata como Mitterrand, nos iria dizer: “68 precisa terminar”. A sua fotografia é um retrato do chamado lado positivo da impudência, pois com olhar cínico e atrevido desafia o poder. Aliás, seria, inclusive, neste mesmo seminário que Lacan iria propor, afastando-se de seu classicismo inicial, a sua Teoria do Gozo que denominaria de campo lacaneano, título de seu capítulo V. no capítulo II, em explícita referência a Hegel e implícita a Kojève, o que talvez se agregue à razão de a figura de Cohn-Bendit estar na capa, fornece a sua interpretação dos eventos do “Maio de 1968” como uma interpretação Psicanalítica e não uma “interpretose”, pois não analisa fato algum ou a suposta motivação de ninguém, e sim intitula este capítulo de “O Mestre e a Histérica”; pois esta seria a relação entre os vencedores e os contestadores, possivelmente. Mas seria no capítulo VI do mesmo livro, intitulado de “O Mestre Castrado”, que iria propor a superação, a resolução do impasse antes qualificado, capítulo que é complementado pelo seguinte, denominado de: “Édipo, Moisés e o Pai da Horda” (3 temas freudianos explícitos) e formularia a sua teoria do: “Le Pére Sevère”. E assim dá-se por incorporado, no âmbito da reflexão psicanalítica, esse capítulo que muitos, no Brasil, apegam-se em não poder abandonar, nem tampouco, a sua confirmação efetiva na afetação posterior de “Personalidades Atraentes” (cf. Alain Filkenkraut), que não fazem senão, a pretexto de dar um significado lendário a 68 e a sua geração, descrever os efeitos tardios dos desencantos e dos “acertos” desse evento. Fazem-nos lembrar do Jacques Alain-Miller que, ao retomar, indiretamente, este tema ( não mais maoísta) recentemente, na revista Ornicar, em seu texto “A Honra e a Vergonha” diz, dentre outras coisas, que um dos efeitos da ausência da Honra legiferante, presentes, por via sublimatória na Mestria e transferencial na Psicanálise, é a impudência (ausência de Honra e de Vergonha). E dizemos impudência dos senhores a da Memória Histórica querendo reescrevê-la para, com isto, apagar a ausência da Mestria e/ou de relação transferencial com a Verdade. E a palavra impudência, sabemos, em língua portuguesa, é um substantivo feminino, cujoregistro escrito data, provavelmente, do século XVII, 1685, presente desde a sua etimologia latina, nos latins clássico, novilatino e vulgar (impudentia, ae, 1ª declinação) e que, então, significava um misto de “desaforo, descaramento, falta de vergonha” e, hoje, na sincronia da língua portuguesa corrente, quer dizerfalta de pudor, descaramento, impudor, cinismo, desfaçatez”.

E aventando-se essa hipótese, poderemos encerrar esta fala afirmando que: “Os eternos opositores quer histéricos e/ou foraclusivos (delirantes), mas sempre impudentes e, por vezes, “contra-culturais”, pensavam em contrapor, como se fora uma nova máxima, à ilusão (para Freud) paranóica do “GOVERNAR”, desde que fosse tomada pelo avesso, ou seja, ali propugnaram o anárquico princípio do antigovernar. Estamos falando, em suma, do plágio tardio da palavra-mestra de umMaio de 1968” (francês) a vociferar: “É PROIBIDO PROIBIR” (expondo sua máxima confusão conceitual entre recalque e repressão). E, sem dúvida, esta evocação do delírio com um agravantesoi-disantlibertário, conjugava, com valor de impotência histérica, o que seria, de fato, a supressão de todas as impossibilidades: “seja realista, peça o impossível” ”. E Lacan nos advertiu de que contra o Discurso do Capitalista (a acumulação no lugar do gozo) a Santidade (binômio sintoma/autoria por referência a James Joyce), o que não quer dizer, como supõe o atual presidente francês, sempre tão bem acompanhado esteticamente, que 68 seja culpado dos males do mundo...
 

Bibliografia

a) LACAN, Jacques. Resposta a estudantes de Filosofia. In... Outros Escritos, RJ, Jorge Zahar, 2003.

b) LACAN, Jacques. Talvez em Vincennes. In... Outros Escritos, RJ, Jorge Zahar, 2003.

c)       LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17, O Avesso da Psicanálise, RJ, Jorge Zahar, 1992.

d)      MENDONÇA, A.S. Psicanálise, Ética e Política. In... Anais do 3º Congresso Brasileiro de Psicanálise, Vitória, Edição do Colégio Freudiano de Vitória, 1989.

e)      ALAIN-MILLER, Jacques. Sobre a Honra e a Vergonha. In... Ornicar I, RJ, Jorge Zahar, 2004.
 


Esta fala, que discutiu os 40 anos do evento, foi decorrente de nossa participação no ciclo de palestra intitulada: “Maio 68”, promovido pelo Cultura Livre, no dia 12 de junho de 2008, quinta-feira, Porto Alegre, Usina do Gasômetro, Sala 502.


Prof. Dr. (UFRJ) Antônio Sérgio  Mendonça, Titular UFF, Docente-Livre UERJ, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacanenos – Instituição Psicanalítica – CEL/RS - Porto Alegre celacan@celacan.com.br