|
Opinião Acadêmica
A
Honra, a
Vergonha e a Autoria e/ou
alguns dos
ecos (impudentes)
pós 68
Antônio
Sérgio Mendonça
Epígrafe:
“Impudência:
s.f. (1685 cf. Av-Serm);
2
falta de
pudor;
descaramento,
impudor;
3 ...
cinismo,
desfaçatez, ...
ETIMOLOGIA
Latim: impudentìa,ae,
desaforo,
descaramento,
falta de
vergonha”.
(cf. p. 1586.
Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa, Ed.
Objetiva)
Esse
texto se pretende
apresentar
apenas
com
alguns
comentários
nossos a
respeito de
um
outro
texto de Jacques Alain-Miller
sobre a “Honra
e a
Vergonha” publicado na
revista Ornicar?. O referido
comentário tem
por
objetivo
apenas os
subtítulos encontrados nas
páginas 126, 127,
128,129 e 130 da
edição
brasileira intitulados: a) “Olhar
e
Vergonha” (pp. 126-127); b) “Olhar
e
Gozo” (pp. 128-129); c) “A
Morte do
Outro” (pp. 129-130).
-
Apresentação: A
Vergonha e o
Olhar
Comenta-se
ali
que Lacan irá
retomar e
datar a
obra de Max Weber a
respeito da
ética do
Capitalismo.
Como se sabe, Weber creditava,
por
contraposição à
ética da
usura,
católica e
medieval, a
expansão e
consolidação do
Capitalismo
norte-americano ao puritanismo. Lacan
ainda acreditava
que,
em 1960, continuaria
possível hiperdeterminar-se
Capitalismo e puritanismo. Foi,
sem
dúvida,
um
capítulo da
História das
Mentalidades e esta
fusão tem assegurado,
até
hoje, a
supremacia do
Capitalismo
norte-americano.
Contudo,
atualmente, evocando-se e, ao
mesmo
tempo, corrigindo-se o historiador
inglês Tawney, poder-se-ia
dizer
que, na
mentalidade pós-moderna de
nosso
Capitalismo neoliberal e “globalizado”,
o
dístico: “acumular
em
vez de
gozar”,
não seria,
como
este
autor supunha
por
estar,
então,
inteiramente identificado
com o repressivismo
mental dos
anos de 1960 (tipo
“dessublimação
repressiva” de Marcuse), uma
repressão ao
Gozo e
muito
menos ao
Desejo. A
juízo de Lacan, se levarmos
em
conta,
tanto o
seu
Seminário: “O
Avesso da
Psicanálise”,
quanto: “O
Sintoma”, o
que ocorria
era a
adoção de uma fantasmagorização do
Desejo a
dissimular, discursivamente e de
fato, o
fato de
que
acumular tinha-se
tornado uma
nova e pós-fálica
forma de “mais-gozar”. A
acumulação no
lugar de
Gozo parecia aos
incautos, a
reversão da impossibilidade deste.
Era
isto
que, os
eternos
opositores,
histéricos e/ou
psicóticos,
mas
sempre
impudentes e contra-culturais, pensavam
contrapor,
como uma
nova
máxima, à
ilusão paranóica do “governar”,
desde
que
tomada
pelo”avesso”,
ou seja,
ali propugnavam o anárquico
princípio do antigovernar. Estamos
falando,
em
suma, da “babaquice
midiática e caetana”, plagiadora
tardia do “Maio
de 1968”
francês, a
vociferar: “é
proibido
proibir”.
Por
muito
menos, Lacan chamou de “burrice”
os
equívocos dos
psicanalistas,
metidos a
psicólogos, ao
falar do arrebatamento na
obra de Marguerite Duras.
Sem
dúvida, esta
evocação da
Psicose
com
aparência, “soi disant”,
libertária, conjugava
com
valor de
impotência
histérica, o
que
era de
fato uma impossibilidade: “ser
realista” (“seja realista,
peça o
impossível”). Agia-se
como num “toque
de
mágica” o
princípio
psicótico da
abolição da
moral burguesa francesa,
qual no
delírio de Prometeu, a
chama
que desse
acesso ao
Real propriamente
dito,
pois
era
assim
que esperavam
manter
acesa a
chama
política da
nova
ordem,
ainda
que assentada numa
contradição
paradoxal,
pois confundiram,
como
era
comum ao
imaginário cultural daquela
época, recalque
com
repressão e apostaram
em
um
tipo de
ilusão do “governar”
que tangenciava,
em “incrível
flerte”, a
projeção da “consciência
política” na “loucura”.
Ora,
isso
só
poderia
ter gerado o
terrorismo
civil e
sua
lamentável
repressão
pelo “terrorismo
de
Estado” no
recente
passado político-militar da América
Latina.
Isto
porque
por
mais
absurdo
que pareça, tomavam
como
lamentável
modelo
libertário,
que
era injustificadamente dignificado
pela
juventude contestadora européia, a “nazificante” e
totalitária
revolução cultural chinesa.
Pois,
em
nome da
nova
ordem, o
que propugnavam
era a
eugenia dos
espíritos.
Logo, esta
inútil e impostora
adoção,
pela
via de
seu
suposto “avesso”,
de uma das acertadas impossibilidades freudianas,
não fazia
senão
reconhecer,
apesar deles, o
triunfo do
discurso
adversário.
Aliás,
sequer sabiam
que se tratava de
um
discurso,
pois o pensavam
apenas,
ora
como
um
modo de
produção,
ora
como
um
sistema
social
hegemônico (o
que
também procedia),
mas
não se davam
conta,
sobretudo, de
que esta
forma de
discurso
era, naquela
época, o
próprio
futuro (e
atual
presente) do
Capitalismo no
seu
fazer neoliberal.
Não se davam
conta do
triunfo de
um
discurso
que passava a
ser a irredutibilidade do
Capitalismo,
pois, ao
apor a
acumulação,
então pós-fetichizada, no
lugar do
Gozo,
ele (o
discurso)
nos fazia
deparar
com a foraclusão
imediata dos
efeitos
imaginários da
Lei do
Pai, da
Castração.
Para
tal,
nos fazia
crer
que havia, de
fato e de
direito,
um “novo
saber
impossível”
sobre o
Gozo: a
acumulação.
Assim sendo,
como se disse, ao
apor a
acumulação, pós-fetichizada no
lugar do
Gozo (já
que
não se tratava
apenas de a
mercadoria
ser
tomada
como
feitiço deste
sistema
social, e
sim da
acumulação
ser
um
novo
significante no
lugar do
Gozo a
projetar,
como “mais-gozar”, o
seu
objeto a na
mais-valia
capitalista, o
que levou Marx a
ser o
primeiro, a
juízo de Lacan, a
dar
forma de
Sintoma
Social ao
Sintoma), iríamos
ver
que
não seria
mais a
mercadoria o
eterno
feitiço
para
onde o
Sintoma
Social deslocaria o
seu
não
explicável, na
relação
econômica,
ou seja, a
relação
entre
trabalho e
valor;
pois,
este
fetichismo da
mercadoria
fora transformado,
sob o
manto diáfono das
leis do
consumo e do
sistema da
moda,
apenas
em
sua
face
visível.
Portanto, esta
fantasia teria
como
axioma
um
Sintoma
Social (a
mais-valia)
que,
sem
dúvida, ultrapassava as
imperfeições
inerentes às
leis de
seu
aparente
desenvolvimento
social,
visto
ser
ela
que,
em
última
instância,
nos remeteria ao
princípio
Real da
acumulação
como
ícone e/ou
simulacro do
Gozo; o
que,
ainda
que proposto
por
um
viés ideológico,
já
fora,
desde
então, estabelecido
por
Rosa Luxemburgo
em
seu: “A
Acumulação do
Capital”.
Em
seguida,
até encerrando esta
parte
preliminar, lembramos
que
como
já se disse,
assim formulado,
este
sistema
lógico do
Discurso do
Capitalista comina ao
Sujeito,
já
por
ele destituído, o
lugar,
em
forma escópica de
olhar de anonimato do
Outro; deste
Outro
que, condenado à
Morte,
nos legará, escopicamente, o
olhar
anônimo
próprio daquele
Sujeito despossuído e
tal
evento,
contudo,
nos levará ao
desmentido da
Honra e à supressão da
Vergonha.
Por esta
razão, uma
vez
desmentida a
Honra, dar-se-á,
como
efeito
automático, a
abolição e/ou
supressão da
Vergonha;
efeito
derradeiro e
radical desta
nova
estratégia do
olhar.
Só
para
recordar, nele
não
mais teremos o
olhar
excludente da bovárica: “L’École du
Regard” de Maupassant e
muito
menos o
olhar
referente ao
ponto de
vista
inclusivo,
próprio do
terceiro
olho,
para Lacan escopia de
objeto a,
para Lacan escopia de
objeto a, e atribuído
por
ele
tanto,
por
via
pictórica às “As Meninas” de Velásquez
quando,
por
via
verbal, ao arrebatamento de Lol. V
Stein
em Marguerite Duras.
Este
novo
olhar
anônimo irá
transcender,
não
só ao “voyerismo”
perverso,
mas
também ao
mandato
mortal do
Outro
não castrado,
quando
presente no
psicótico: “ter
um
Sintoma”. É
sempre
um
olhar
anônimo,
um
olhar
próprio,
não fetichizado, da
deposição do
Sujeito.
Olhar
que se
torna o
único
portador da
Vergonha a
ser elidida.
Porém,
este
tipo de
olhar terá,
nos adverte Lacan,
um déjà vu
que,
nos irá
trazer, no anonimato do
Outro, a
evocação de
sua
Morte.
Por esta
razão,
em
sua “Ética”,
Lacan
nos dirá: “reconheço
porque
Pascal e Kant se agitavam de
um
lado
para
outro
como
dois “serviçais”
a
ponto de sustentarem “Vatel” (...)”.
ou
dito de
outra
forma, ao
contrário do
que supõe o continuador dos
efeitos de 68
em
nós, o
que sobrou daquele
tempo e teria sido abandonado
hoje
em
dia, seria uma
preocupação
ética e republicana do ciceroniano “bem
comum”,
mas,
isto
não é
verdade,
pois
desde
aquele
tempo, de
forma dissimulada e
sob a
égide do
sublime
objeto da
ideologia, a
contestação,
apud repressivismo,
já continha o “ovo
da
serpente” da
impudência.
2. A
Pós-Modernidade (adoção das
banalidades e
abolição da
Honra) e a
Morte do
Outro.
“Vatel”
era de
direito,
qual o
sujeito deposto no
Discurso do
Capitalista o é de
fato,
apenas
um Mâitre d’Hotel.
Devemo-nos
lembrar
que, no
Discurso do
Capitalista, o
lugar de
serviçal será
análogo ao de Mâitre d’Hotel.
Nele, o
capitalista irá
ocupar
um
lugar
antes atribuído à autoria do
Mestre,
para
com
isso aboli-la
por
via sublimatória
por
ser
portador de
um
enunciado
que
era
garantia de
si
mesmo. Estabelecido
isso, veremos,
como
exemplo,
que “Vatel”
era o
organizador das
festas do
príncipe Condé.
Este,
por
sua
vez, pretendia,
com
elas, “cair
nas boas
graças” do
rei de França e
tais
propósitos teriam ficado demonstrados,
sobejamente, na: “correspondência”
de Mme. De Sèvignè, tida e havida
como avó de Proust.
Então,
como se narrava,
para
agradar o
príncipe, e
este ao
rei, “Vatel”, na
organização de
suas
festas,
geralmente, ficava indormido
por
cerca de 12
noites.
Todavia,
malgrado
seu
esforço e
dedicação, “Vatel”, na
festa
em
questão, havia encomendado
dúzias e
dezenas de
peixes e
frutos do
mar; entretanto,
infelizmente,
só duas delas chegaram e a
festa foi
um
fracasso. E
este “Vatel”,
que Gerard Depardieu
tão
bem representou no
cinema, e
que Lacan,
infelizmente e obviamente, não
assistiu, foi responsabilizado
pelo
príncipe Condé
pelo
fracasso daquela da
festa
dada
em
homenagem ao
rei.
Então, culpabilizado, mortificado
pelo
fracasso, “Vatel” se
suicida;
ou seja: morre,
explícita e
literalmente, de
vergonha. E,
embora, de
fato, “Vatel”
ainda fosse designado
como
um
serviçal (na
frivolidade dos “Setecentos”), se tratava, de
direito, de
um
servo,
não de
um
criado; de
um
vassalo,
não de
um
empregado
doméstico.
Era
ele
um
típico
vassalo old fashion,
aquém de
seu
tempo,
um
medieval e
histérico
vassalo,
inteiramente identificado,
até a
Morte,
com a
suposição de
Honra, tida e havida
como
marca
própria da nobreza;
isto é, a
Honra e o
sucesso de “Vatel” eram os de
seu
Senhor.
Assim sendo,
como se disse,
não
era propriamente
apenas
um
Maître d’Hotel,
mas
era
aparentemente a “mise-en-scène”
da
servidão;
todavia, ao
contrário,
era o
que realizava a
conjugação
literal da verdadeira vassalagem
histérica, de hegeliana
natureza
medieval,
onde a
impotência, na
forma de
fracasso, seria
como
um “ser-para-a-morte”, cobrada do
servo
nos
termos do
duo: nobreza/honra.
E, “Vatel”,
embora aparentasse
ser
um
mero Mâietre d’Hotel
dos “Setecentos”,
não se reduzia ao
serviçal/empregado
por egóica
imposição
externa.
Era
um “mestre
de
ofício”, “mestre
no
ofício de
banquetes”, e
isto
nos remetia ao
pensamento do “jovem”
Hegel de Jena, e
não à
moral cristã,
quer de
Pascal,
quer de Kant e
nos conduzia,
também, às
corporações de
ofício quinhentistas,
onde encontraríamos Leonardo da Vinci.
Nela se daria
sempre ao
Sujeito destituído o
lugar
natural de
serviçal, de
que o
Maître d’Hotel
era
um
exemplo.
Mas os “setecentos” destituíam
algo
análogo ao
que Bertold Brecht estabelecera
como o
lugar de
criado,
vide: “O Sr. Puntilla e
seu
criado Matt”.
Entretanto, esta
construção
viola e
atenta
contra a
ética autoral do
Discurso do
Mestre
cujo
pilar,
talvez
sem o
excesso do “infortúnio”
de “Vatel”, conjugaria
sempre o
erro e/ou
fracasso
sob a
ótica da
desonra, e o
seu
destino
sob a
ética da
Vergonha.
Mas,
para
nós,
em
época de pós-modernismo
capitalista,
só irá
sobrar a
moral do
serviçal,
já
abonada
por
Pascal e Kant; o
que, a
juízo de Lacan, faria de
todos
um
bando de
serviçais atormentados e/ou
angustiados
pela
vergonha de
sobreviver e, no
máximo, daria aos
sujeitos
humanos,
depois de destituí-los da
Honra e da autoria, o
lugar de despossuídos, dos
que estariam
para
sempre identificados
com o
conluio
entre:
homem/serviçal/vergonha,
desde
que
conjugado
segundo o
binômio
moral:
austeridade cristã X
frivolidade de
consumo. E
então, teríamos a
ausência, apontada
por Lacan,
segundo Jacques Alain-Miller, da
não-toda
verdade no
pensamento
ético e/ou
estético do
século XVIII,
só
que banalizada
como
virtude uma consumeirista da
acumulação
capitalista na
época
atual.
Pois, se
Pascal queria
apostar na
existência
real do
Outro, queria
apostar no
Outro
como o
mais
puro “mais-gozar” de
Deus, e o fazia
em
nome do
Deus da
moral, apostando
tudo nele;
já
que
não será
todo
dia
que o “mais-gozar” será não-humano,
“pós-morto”,
transcendental e
imortal; a
nossa
época indicará
como
tal, reconjugando
esse
olhar aprovador da
morte do
Outro, a
amoralidade da
acumulação. Se
Pascal distinguia-se de
Descarte
que preferia
ver a “ex-sistência” de
Deus
como
um contributo da
fé
dado
como
garantia e
certeza da
Ciência
Matemática, o
mesmo
não se pode
dizer de Kant e de
sua: “Crítica
da
Razão
Prática”. Nela, se irá
preferir
ver a
Verdade,
ali
um
princípio matemático e
inato,
como uma
criação metafórica da
imortalidade do
espírito (alma);
assim
conjugada, e
posta
em
prática na
forma de
moralidade
intrínseca, essa
Verdade será apresentada
como
modelo a
ser seguido na
sociedade,
já
que
era a
expressão de
um
imortal
valor
espiritual,
transcendental,
inato e apriorístico.
Ela, na
forma de
um
livre-arbítrio inatista, será,
ali, a
garantia do
exercício da
imortalidade do
espírito,
cujo
único
fracasso admissível é debitado na
conta da
adversidade
passional; o
que
não impedirá,
todavia,
que a “Faculdade
de
Julgar” e/ou
o “Julgamento
Estético”, possam
vir a
cerzir a “incompatibilidade
natural”
entre o
sensível e o
inteligível,
graças ao
artista
ser
visto
como
um “gênio
criador”,
graças,
também, a
sua
incursão no
reino sublimatório da “finalidade
sem
fim”.
Entretanto, se for
vista de
outra
forma, esta
Verdade
feita
virtude,
quando emanada da
moralidade
social, se irá
garantir no
sentido apriorístico de
Deus, o
verdadeiro
esteio da
imortalidade do
espírito.
Tal
evento,
sem
dúvida, tornou
possível a
suposição de
circulação
social da
virtude cristã
entre os
homens
sob o
jugo
imaginário de
um superegóico,
ainda
que
lógico e
humano,
livre-arbítrio.
Entretanto,
nos advertirá Lacan,
para
não
nos esquecermos de
que o
que estava
em
jogo
era a
virtude
ser
tomada
como
um
simulacro e
não
como a
Verdade não-toda;
isto
porque
mesmo a
virtude deste “Deus”
kantiano,
assim
como o
olhar “panóptico” do
deus da
moral de
Pascal,
não irão
fugir do
fato de
que é
essencial
cominar aos
sujeitos o
fardo de serem “despossuídos”
pela
ação
moral e escópica do anonimato
acéfalo,
que é
próprio do
olhar de
um
Outro,
que
só
lhes transmitirá o
lugar de
serviçal.
Assim, qualificado e destituído, o
Sujeito torna-se uma “vítima”,
passiva e
lombar, de
um
olhar
que
apenas
conserva e transmite
um
único
sentido
moral apriorístico: envergonhe-se e/ou
cultue a
virtude.
Este
mandamento se presta
para
que o “serviçal”
só venha a
conjugar a
própria
vida
como uma
eterna e culpada
abstinência do
Desejo e/ou
enquanto uma
longa
espera da
Vergonha,
que
sempre irá
comparecer advinda do
lugar da
culpa.
3.
Conclusão:
Capitalismo e/ou
Santidade
E se Lacan
nos disse,
em Roma,
que a
Religião triunfaria,
pois
sempre iria
substituir
com
êxito,
face à
morte, à
angústia;
hoje pode-se
dizer
que,
despido de
simulacros
morais
cristãos,
presbiterianos
ou
não, o
Discurso do
Capitalista irá
substituir esta
moral
pelo
advento,
não
mais do
reconhecimento
não
pecaminoso do
mero
lucro do
trabalho
abonado (lugar
da “usura”),
próprio da
moral
presbiteriana (momento
weberiano),
mas
sim
pelo
uso
sem
limites da
acumulação no
lugar do
Gozo,
cujo
Sintoma
Social, foi
outrora, na
sua
origem dezenovesca, identificado
por Lacan na
mais-valia de Marx, e
cujo
fetiche fastasmático
vinha sendo reduzido
pelo
Marxismo ao
reconhecimento do
mero “encanto”
da
mercadoria no
lugar do
valor do
trabalho.
Mas, neste
momento,
já
sem
álibis, estará banalizada a
agressividade, abolida a autoria, suprimida a
Honra,
banida a
Vergonha e cultuada a
acumulação
como
um
novo “mais-gozar”.
Talvez,
por essa
razão, Lacan tenha
dito, aplicando
ali o
valor de Joyceana autoria sintomática
ao
termo
empregado: “Contra
o
Capitalismo,
só
mesmo a
santidade”.
Prof. Dr. (UFRJ) Antônio Sérgio Mendonça,
Titular UFF, Docente-Livre UERJ,
Diretor de
Ensino do
Centro de
Estudos Lacanenos –
Instituição
Psicanalítica – CEL/RS -
Porto
Alegre –
celacan@celacan.com.br
|