05/07/2008
Ano 11 - Número 588

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

A Honra, a Vergonha e a Autoria e/ou
alguns
dos ecos (impudentes) pós 68
 

Antônio Sérgio  Mendonça


Epígrafe:

Impudência: s.f. (1685 cf. Av-Serm);
2 falta de pudor; descaramento, impudor;
3 ... cinismo, desfaçatez, ... ETIMOLOGIA
Latim: impudentìa,ae, desaforo, descaramento, falta de vergonha”.
(cf. p. 1586. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Ed. Objetiva)

Esse texto se pretende apresentar apenas com alguns comentários nossos a respeito de um outro texto de Jacques Alain-Miller sobre a “Honra e a Vergonha” publicado na revista Ornicar?. O referido comentário tem por objetivo apenas os subtítulos encontrados nas ginas 126, 127, 128,129 e 130 da edição brasileira intitulados: a) “Olhar e Vergonha” (pp. 126-127); b) “Olhar e Gozo” (pp. 128-129); c) “A Morte do Outro” (pp. 129-130).

  1. Apresentação: A Vergonha e o Olhar

Comenta-se ali que Lacan irá retomar e datar a obra de Max Weber a respeito da ética do Capitalismo. Como se sabe, Weber creditava, por contraposição à ética da usura, católica e medieval, a expansão e consolidação do Capitalismo norte-americano ao puritanismo. Lacan ainda acreditava que, em 1960, continuaria possível hiperdeterminar-se Capitalismo e puritanismo. Foi, sem dúvida, um capítulo da História das Mentalidades e esta fusão tem assegurado, até hoje, a supremacia do Capitalismo norte-americano. Contudo, atualmente, evocando-se e, ao mesmo tempo, corrigindo-se o historiador inglês Tawney, poder-se-ia dizer que, na mentalidade pós-moderna de nosso Capitalismo neoliberal e “globalizado”, o dístico: “acumular em vez de gozar”, não seria, como este autor supunha por estar, então, inteiramente identificado com o repressivismo mental dos anos de 1960 (tipo “dessublimação repressiva” de Marcuse), uma repressão ao Gozo e muito menos ao Desejo. A juízo de Lacan, se levarmos em conta, tanto o seu Seminário: “O Avesso da Psicanálise”, quanto: “O Sintoma”, o que ocorria era a adoção de uma fantasmagorização do Desejo a dissimular, discursivamente e de fato, o fato de que acumular tinha-se tornado uma nova e pós-fálica forma de “mais-gozar”. A acumulação no lugar de Gozo parecia aos incautos, a reversão da impossibilidade deste. Era isto que, os eternos opositores, histéricos e/ou psicóticos, mas sempre impudentes e contra-culturais, pensavam contrapor, como uma nova máxima, à ilusão paranóica do “governar”, desde que tomada peloavesso”, ou seja, ali propugnavam o anárquico princípio do antigovernar. Estamos falando, em suma, da “babaquice midiática e caetana”, plagiadora tardia do “Maio de 1968” francês, a vociferar: “é proibido proibir”.  Por muito menos, Lacan chamou de “burrice” os equívocos dos psicanalistas, metidos a psicólogos, ao falar do arrebatamento na obra de Marguerite Duras. Sem dúvida, esta evocação da Psicose com aparência, “soi disant”, libertária, conjugava com valor de impotência histérica, o que era de fato uma impossibilidade: “ser realista” (“seja realista, peça o impossível”). Agia-se como num “toque de mágica” o princípio psicótico da abolição da moral burguesa francesa, qual no delírio de Prometeu, a chama que desse acesso ao Real propriamente dito, pois era assim que esperavam manter acesa a chama política da nova ordem, ainda que assentada numa contradição paradoxal, pois confundiram, como era comum ao imaginário cultural daquela época, recalque com repressão e apostaram em um tipo de ilusão do “governarque tangenciava, emincrível flerte”, a projeção da “consciência política” na “loucura”. Ora, isso poderia ter gerado o terrorismo civil e sua lamentável repressão peloterrorismo de Estado” no recente passado político-militar da América Latina. Isto porque por mais absurdo que pareça, tomavam como lamentável modelo libertário, que era injustificadamente dignificado pela juventude contestadora européia, a “nazificante” e totalitária revolução cultural chinesa. Pois, em nome da nova ordem, o que propugnavam era a eugenia dos espíritos. Logo, esta inútil e impostora adoção, pela via de seu supostoavesso”, de uma das acertadas impossibilidades freudianas, não fazia senão reconhecer, apesar deles, o triunfo do discurso adversário. Aliás, sequer sabiam que se tratava de um discurso, pois o pensavam apenas, ora como um modo de produção, ora como um sistema social hegemônico (o que também procedia), mas não se davam conta, sobretudo, de que esta forma de discurso era, naquela época, o próprio futuro (e atual presente) do Capitalismo no seu fazer neoliberal. Não se davam conta do triunfo de um discurso que passava a ser a irredutibilidade do Capitalismo, pois, ao apor a acumulação, então pós-fetichizada, no lugar do Gozo, ele (o discurso) nos fazia deparar com a foraclusão imediata dos efeitos imaginários da Lei do Pai, da Castração. Para tal, nos fazia crer que havia, de fato e de direito, umnovo saber impossívelsobre o Gozo: a acumulação. Assim sendo, como se disse, ao apor a acumulação, pós-fetichizada no lugar do Gozo ( que não se tratava apenas de a mercadoria ser tomada como feitiço deste sistema social, e sim da acumulação ser um novo significante no lugar do Gozo a projetar, como “mais-gozar”, o seu objeto a na mais-valia capitalista, o que levou Marx a ser o primeiro, a juízo de Lacan, a dar forma de Sintoma Social ao Sintoma), iríamos ver que não seria mais a mercadoria o eterno feitiço para onde o Sintoma Social deslocaria o seu não explicável,  na relação econômica, ou seja, a relação entre trabalho e valor; pois, este fetichismo da mercadoria fora transformado, sob o manto diáfono das leis do consumo e do sistema da moda, apenas em sua face visível. Portanto, esta fantasia teria como axioma um Sintoma Social (a mais-valia) que, sem dúvida, ultrapassava as imperfeições inerentes às leis de seu aparente desenvolvimento social, visto ser ela que, em última instância, nos remeteria ao princípio Real da acumulação como ícone e/ou simulacro do Gozo; o que, ainda que proposto por um viés ideológico, fora, desde então, estabelecido por Rosa Luxemburgo em seu: “A Acumulação do Capital”.

Em seguida, até encerrando esta parte preliminar, lembramos que como se disse, assim formulado, este sistema lógico do Discurso do Capitalista comina ao Sujeito, por ele destituído, o lugar, em forma escópica de olhar de anonimato do Outro; deste Outro que, condenado à Morte, nos legará, escopicamente, o olhar anônimo próprio daquele Sujeito despossuído e tal evento, contudo, nos levará ao desmentido da Honra e à supressão da Vergonha. Por esta razão, uma vez desmentida a Honra, dar-se-á, como efeito automático, a abolição e/ou supressão da Vergonha; efeito derradeiro e radical desta nova estratégia do olhar. para recordar, nele não mais teremos o olhar excludente da bovárica: “L’École du Regard” de Maupassant e muito menos o olhar referente ao ponto de vista inclusivo, próprio do terceiro olho, para Lacan escopia de objeto a, para Lacan escopia de objeto a, e atribuído por ele tanto, por via pictórica às “As Meninas” de Velásquez quando, por via verbal, ao arrebatamento de Lol. V Stein em Marguerite Duras. Este novo olhar anônimo irá transcender, não ao “voyerismo” perverso, mas também ao mandato mortal do Outro não castrado, quando presente no psicótico: “ter um Sintoma”.  É sempre um olhar anônimo, um olhar próprio, não fetichizado, da deposição do Sujeito. Olhar que se torna o único portador da Vergonha a ser elidida. Porém, este tipo de olhar terá, nos adverte Lacan, um déjà vu que, nos irá trazer, no anonimato do Outro, a evocação de sua Morte. Por esta razão, em suaÉtica”, Lacan nos dirá: “reconheço porque Pascal e Kant se agitavam de um lado para outro como doisserviçais” a ponto de sustentarem “Vatel” (...)”. ou dito de outra forma, ao contrário do que supõe o continuador dos efeitos de 68 em nós, o que sobrou daquele tempo e teria sido abandonado hoje em dia, seria uma preocupação ética e republicana do ciceroniano “bem comum”, mas, isto não é verdade, pois desde aquele tempo, de forma dissimulada e sob a égide do sublime objeto da ideologia, a contestação, apud repressivismo, continha o “ovo da serpente” da impudência.

2. A Pós-Modernidade (adoção das banalidades e abolição da Honra) e a Morte do Outro.

“Vatel” era de direito, qual o sujeito deposto no Discurso do Capitalista o é de fato, apenas um Mâitre d’Hotel. Devemo-nos lembrar que, no Discurso do Capitalista, o lugar de serviçal  será análogo ao de Mâitre d’Hotel. Nele, o capitalista irá ocupar um lugar antes atribuído à autoria do Mestre, para com isso aboli-la por via sublimatória por ser portador de um enunciado que era garantia de si mesmo. Estabelecido isso, veremos, como exemplo, que “Vatel” era o organizador das festas do príncipe Condé. Este, por sua vez, pretendia, com elas, “cair nas boas graças” do rei de França e tais propósitos teriam ficado demonstrados, sobejamente, na: “correspondência” de Mme. De Sèvignè, tida e havida como avó de Proust. Então, como se narrava, para agradar o príncipe, e este ao rei, “Vatel”, na organização de suas festas, geralmente, ficava indormido por cerca de 12 noites. Todavia, malgrado seu esforço e dedicação, “Vatel”, na festa em questão, havia encomendado dúzias e dezenas de peixes e frutos do mar;  entretanto, infelizmente, duas delas chegaram e a festa foi um fracasso. E este “Vatel”, que Gerard Depardieu tão bem representou no cinema, e que Lacan, infelizmente e obviamente,  não assistiu, foi responsabilizado pelo príncipe Condé pelo fracasso daquela da festa dada em homenagem ao rei. Então, culpabilizado, mortificado pelo fracasso, “Vatel” se suicida; ou seja: morre, explícita e literalmente, de vergonha. E, embora, de fato, “Vatel” ainda fosse designado como um serviçal (na frivolidade dos “Setecentos”), se tratava, de direito, de um servo, não de um criado; de um vassalo, não de um empregado doméstico. Era ele um típico vassalo old fashion, aquém de seu tempo, um medieval e histérico vassalo, inteiramente identificado, até a Morte, com a suposição de Honra, tida e havida como marca própria da nobreza; isto é, a Honra e o sucesso de “Vatel” eram os de seu Senhor. Assim sendo, como se disse, não era propriamente apenas um Maître d’Hotel, mas era aparentemente a “mise-en-scène” da servidão; todavia, ao contrário, era o que realizava a conjugação literal da verdadeira vassalagem histérica, de hegeliana natureza medieval, onde a impotência, na forma de fracasso, seria como um “ser-para-a-morte”, cobrada do servo nos termos do duo: nobreza/honra. E, “Vatel”, embora aparentasse ser um mero Mâietre d’Hotel dos “Setecentos”, não se reduzia ao serviçal/empregado por egóica imposição externa. Era ummestre de ofício”, “mestre no ofício de banquetes”, e isto nos remetia ao pensamento do “jovem” Hegel de Jena, e não à moral cristã, quer de Pascal, quer de Kant e nos conduzia, também, às corporações de ofício quinhentistas, onde encontraríamos Leonardo da Vinci. Nela se daria sempre ao Sujeito destituído o lugar natural de serviçal, de que o Maître d’Hotel era um exemplo. Mas os “setecentos” destituíam algo análogo ao que Bertold Brecht estabelecera como o lugar de criado, vide: “O Sr. Puntilla e seu criado Matt”. Entretanto, esta construção viola e atenta contra a ética autoral do Discurso do Mestre cujo pilar, talvez sem o excesso do “infortúnio” de “Vatel”, conjugaria sempre o erro e/ou fracasso sob a ótica da desonra, e o seu destino sob a ética da Vergonha. Mas, para nós, em época de pós-modernismo capitalista, irá sobrar a moral do serviçal, abonada por Pascal e Kant; o que, a juízo de Lacan, faria de todos um bando de serviçais atormentados e/ou angustiados pela vergonha de sobreviver e, no máximo, daria aos sujeitos humanos, depois de destituí-los da Honra e da autoria, o lugar de despossuídos, dos que estariam para sempre identificados com o conluio entre: homem/serviçal/vergonha, desde que conjugado segundo o binômio moral: austeridade cristã X frivolidade de consumo. E então, teríamos a ausência, apontada por Lacan, segundo Jacques Alain-Miller, da não-toda verdade no pensamento ético e/ou estético do século XVIII, que banalizada como virtude uma consumeirista da acumulação capitalista na época atual. Pois, se Pascal queria apostar na existência real do Outro, queria apostar no Outro como o mais puro “mais-gozar” de Deus, e o fazia em nome do Deus da moral, apostando tudo nele; que não será todo dia que o “mais-gozar” será não-humano, “pós-morto”, transcendental e imortal; a nossa época indicará como tal, reconjugando esse olhar aprovador da morte do Outro, a amoralidade da acumulação. Se Pascal distinguia-se de Descarte que preferia ver a “ex-sistência” de Deus como um contributo da dado como garantia e certeza da Ciência Matemática, o mesmo não se pode dizer de Kant e de sua: “Crítica da Razão Prática”.  Nela, se irá preferir ver a Verdade, ali um princípio matemático e inato, como uma criação metafórica da imortalidade do espírito (alma); assim conjugada, e posta em prática na forma de moralidade intrínseca, essa Verdade será apresentada como modelo a ser seguido na sociedade, que era a expressão de um imortal valor espiritual, transcendental, inato e apriorístico. Ela, na forma de um livre-arbítrio inatista, será, ali, a garantia do exercício da imortalidade do espírito, cujo único fracasso admissível é debitado na conta da adversidade passional; o que não impedirá, todavia, que a “Faculdade de Julgar” e/ou o “Julgamento Estético”, possam vir a cerzir a “incompatibilidade naturalentre o sensível e o inteligível, graças ao artista ser visto como umgênio criador”, graças, também, a sua incursão no reino sublimatório da “finalidade sem fim”. Entretanto, se for vista de outra forma, esta Verdade feita virtude, quando emanada da moralidade social, se irá garantir no sentido apriorístico de Deus, o verdadeiro esteio da imortalidade do espírito. Tal evento, sem dúvida, tornou possível a suposição de circulação social da virtude cristã entre os homens sob o jugo imaginário de um superegóico, ainda que lógico e humano, livre-arbítrio. Entretanto, nos advertirá Lacan, para não nos esquecermos de que o que estava em jogo era a virtude ser tomada como um simulacro e não como a Verdade não-toda; isto porque mesmo a virtude deste “Deus” kantiano, assim como o olhar “panóptico” do deus da moral de Pascal, não irão fugir do fato de que é essencial cominar aos sujeitos o fardo de serem “despossuídos” pela ação moral e escópica do anonimato acéfalo, que é próprio do olhar de um Outro, que lhes transmitirá o lugar de serviçal. Assim, qualificado e destituído, o Sujeito torna-se uma “vítima”, passiva e lombar, de um olhar que apenas conserva e transmite um único sentido moral apriorístico: envergonhe-se e/ou cultue a virtude. Este mandamento se presta para que o “serviçal venha a conjugar a própria vida como uma eterna e culpada abstinência do Desejo e/ou enquanto uma longa espera da Vergonha, que sempre irá comparecer advinda do lugar da culpa.

3. Conclusão: Capitalismo e/ou Santidade

         E se Lacan nos disse, em Roma, que a Religião triunfaria, pois sempre iria substituir com êxito, face à morte, à angústia; hoje pode-se dizer que, despido de simulacros morais cristãos, presbiterianos ou não, o Discurso do Capitalista irá substituir esta moral pelo advento, não mais do reconhecimento não pecaminoso do mero lucro do trabalho abonado (lugar da “usura”),  próprio da moral presbiteriana (momento weberiano), mas sim pelo uso sem limites da acumulação no lugar do Gozo, cujo Sintoma Social, foi outrora, na sua origem dezenovesca, identificado por Lacan na mais-valia de Marx, e cujo fetiche fastasmático vinha sendo reduzido pelo Marxismo ao reconhecimento do meroencanto” da mercadoria no lugar do valor do trabalho. Mas, neste momento, sem álibis, estará banalizada a agressividade, abolida a autoria, suprimida a Honra, banida a Vergonha e cultuada a acumulação como um novo “mais-gozar”. Talvez, por essa razão, Lacan tenha dito, aplicando ali o valor de Joyceana autoria sintomática ao termo empregado: “Contra o Capitalismo, mesmo a santidade”.


Prof. Dr. (UFRJ) Antônio Sérgio  Mendonça, Titular UFF, Docente-Livre UERJ, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacanenos – Instituição Psicanalítica – CEL/RS - Porto Alegre celacan@celacan.com.br