19/06/2010
Ano 13 - Número 689

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

O Impossível do Amor

Prof. Dr. Ld. Antônio Sérgio Mendonça



A Psicanálise vem desde a sua invenção freudiana inspirando-se na Ática tradição do Amor. O que veio a se radicalizar ao ser perpassada pela renovação de Lacan. Assim sendo, ainda na Grécia, a oralidade mitológica já associava a idéia de Amor à plena conjugação de dois seres em completude. Corpos em união, indissociados, buscavam na alma a metade outra que os uniria para sempre. Até que, certo dia, o irado Zeus, os separou definitivamente e, com isso, estabeleceu, em hiância, uma fenda a afastar as duas metades que daí surgiram. Todavia, malgrado essa verdadeira desintegração do Uno, não se impediu a origem da ilusão de o Amor permanecer ligado à completude perdida de dois seres que se amam. E a possibilidade de seu reencontro vem sendo, desde então, transmitida, sistematicamente, pelo imaginário (ilusório) dos saberes ocidentais. Portanto, (n) essa busca de completude em outro ser de Amor, criou-se a suposição deste ser marcado, inexoravelmente, pela via desejante da paixão; para Lacan trata-se do Imaginário do Amor. Vale dizer, que se trata de Eros por Afrodite abençoado. Logo, deste modo concebido, Eros, em seu dito poder reunificador (já destacado por Freud) almejou encontrar a completude, originariamente perdida, por restaurá-la em sua fusão com Ágape (a amizade como signo do Amor no Convívio platônico, onde se destacava o saber dos seletos). Então, aí, apostava-se, nesse momento e lugar, na não dissociação entre Ágape e Eros. A Maiêutica (retórica interpretativa e dialogal platônica) nisso apostou graças ao “Banquete”. Mas, ao mesmo tempo, por se manter transmissivamente no nível da oralidade, esse modo de supor o Amor, tornou-se épico. E, para tal, Homero fundiu GNOSIS (Conhecimento) e Eros- (Desejo). Logo, este ato próprio do “Maravilhoso” (intervenção divina a mudar o curso das ações humanas), fosse mítico e/ou épico, fazia-se presente na gênese desse tipo de assimilação. Portanto, o iremos identificar nos efeitos da poção mágica por Afrodite doada a Helena e que a tornava irresistível ao olhar masculino. E tal ato de arrebatamento deveu-se, como já se disse, à intervenção de Afrodite, o que permitiu aos humanos a conjugação desejante de Eros em abundância. Note-se que tal conceito anteciparia o que, somente muito mais tarde, iria constituir-se na visão do Desejo conforme a psicanálise de Lacan, ou seja, na hiância (separação) entre Desejo e necessidade, vale dizer, entre Eros e Ananké. Posto desta forma, o Amor, enquanto emanação do Desejo, já então, compunha a semântica comum do saber, da necessidade e da abundância. Restava, todavia, reconhecer a permanência da Amizade e, por causa disso, Freud irá defini-la como a “relação que não cumpriria a sua finalidade sexual”. Neste tempo já se abandonara Ágape, afastaram-se de Ananké e, ao criar a anteposição de Tanatus a Eros, Freud, bebendo no cálice ático de Gomperz, celebrou e incorporou em sua lição trágica a antecipação épica. Contudo, após Tanatus, invocou-se à Psiché (como bem demonstrou o poema de Fernando Pessoa), apresentando-a como nova forma de completude do Amor. Em tempo, Tanatus convertia a abundância erótica em penúria, assumindo forma agressivo-melancólica de ser. Freud assim o identificou tanto no mítico Id (conforme a segunda tópica do Inconsciente), quanto no mal estar civilizatório. Psiché, por seu turno, adicionava à fusão Desejo/Amor o sopro vital do espírito, tão caro à alma platônica. No entretanto, já na modernidade própria do século passado, Jacques Lacan ficou atento e nos brindou com a Interpretação psicanalítica do ato de Zeus na Antiguidade Clássica. Pois, se este houvera separado para sempre qualquer suposta completude entre os seres que se amavam, aquele iria ver tal procedimento como sendo a cabal demonstração da impossibilidade do Amor, por este não se prestar a ser conjugado por via de acesso que fosse passional ou desejante. É sempre curioso ser lembrado que a rota do Desejo, sobretudo, no Ocidente, tende a sobrepor Desejar a viver, como dentre outros, chamou-nos a atenção Fernando Pessoa. Parodiando-o, pode-se dizer que navegá-lo é preciso (necessário), já viver (sem ele) não o é, e tudo só valeria a pena se a Alma (própria do Amor) não fosse pequena. O Desejo, assim visto, irá tornar-se contingente e, possível, estando, por aí, a Fantasia para prová-lo e sustentá-lo e, por supor, na transmissão imagética, a eterna ilusão de completude entre dois seres amantes, vai banir a falta e exilar a diferença. Por isso, a declinação latina da amante indicava, verbalmente, seres que se amam; ao passo que a romântica, pós século XIX, se converteu passionalmente, em seres que se desejam. Então, se o Amor configura-se, por esta via, como impossível, apenas restaria ao Desejo, em aliança com a fantasia inconsciente, tornar-se contingente, porque polimorfo quando sexualmente parcializado. Logo, poder-se-ia buscar, nas freudianas “ilusões futuras”, para as utopias, o solo de um gozo Outro que legaria aos homens ora a impotente histeria da falicidade, ora o mito “heróico” do prometeico saber e, junto com eles, viria a manutenção do sonho de completude amorosa. Sem dúvida, tal tipo de ilusão tem levado os falantes, imersos na mentalidade ocidental, a acreditar ser possível o relacionamento, em completude, pela via do sexual. Só que essa impossibilidade da via sexual se inscreve no âmbito do Desejo, isto porque ambos visam obter novamente a perdida ilusão de completude por Zeus banida do Amor. Em face de tal evento, Freud nos advertiu não haver objeto capaz de satisfazer o Desejo humano e, em seguida, Lacan nos indicou que a permanência de tal ilusão se converteria, se levada ao pé da letra, na sexualidade sem esperança dos falantes. E bastaria que fossem relacionados os dois fatos para que se encontrasse, no mesmo Lacan, a explícita indicação de a causa da inexistência, por impossibilidade, da completude na relação com o sexual vir dar lugar propriamente dito ao Amor, visto ser este que, por suplência, a supriria. Porém, voltando-se à tradição grega, veremos que, por antecipação, antes ainda, Zeus disse não à indivisibilidade do Um (platônico) e, também, ao medievo neo platonismo quando este pretendia supor em Psiché (ali um sopro vital do espírito) uma segunda emanação do mesmo e originário Uno. E, com isso, ambos pretendiam restaurar a completude, ainda que espiritual, do Amor. No entanto, o inconsciente freudiano proposto “para além da alma”, em sendo lugar de realização do Desejo, era ótico e pulsional, logo avesso à completude. Todavia, já, novamente, com Lacan, o Amor viria à cena somente na esteira explícita e suplente da inexistência de qualquer relação de completude, fosse do Desejo (fantasia), fosse da relação sexual. O que não impediu que encontrássemos, em face dramática e literária, a mediatização (representação) do Amor, tanto na cultura Ática, quanto na tradição clerical da cultura medieval. Assim, teremos o Amor Trágico em Antígona a dizer não à tirania e sim à dignidade humana e, em Édipo que, como ela, “não cedia, nem abria mão do próprio Desejo” e, predestinado, “agiu, sem saber”, por personificar a condenação do parricídio, veremos o crime e não o Amor ser praticado pela via do Desejo incestuoso. Indo, para além, mantendo-se, contudo, ainda no âmbito da distinção entre o (im)possível do amor “pelas mulheres”, traço psicanalítico de heterossexualidade, e o “ desejá-las uma a uma”, encontraremos o clerical Don Juan de Molina. Outrossim, a medieval cortesia de um Amor de mesmo nome, uma forma sublime de se “amar o próprio Amor”, vai vê-lo como impossível pela oposta razão de às damas ser interditado o Desejo, mantendo-se o casamento católico na lide da progene. Por tal fato, Lacan irá considerar o Amor Cortês uma forma de sublimação.

Enfim, veremos que o Classicismo quinhentista, ao retomar o épico caminho da Antiguidade Clássica, irá, na poesia camoniana (conforme: “A Ilha dos Amores”) por Vênus (Afrodite) abençoada, dizer do Desejo: “Melhor experimentá-lo, que julgá-lo”, porém, pensando-se no Amor, poder-se-ia, conforme o mesmo poema, acrescentar: “mas, julgue-no, quem não pode experimentá-lo”, ainda que, como o poeta, o trilhemos por “mares nunca dantes navegados”, pois Ulisses, na “volta ao lar”, teve, reconhecido por Amor que foi, para tal, de não sucumbir à fantasia melodiosa do “canto das sereias”.

 


Prof. Dr. Ld. Antônio Sérgio Mendonça  é Diretor de Ensino do CEL