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Aricy Curvello
INIGUALÁVEL
O PATO FU ATUAL
(Aricy
Curvello entrevista Fernanda Takai)
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A revista
“Time”, na edição dos Estados Unidos, em setembro de 2001,
colocou o grupo entre os dez melhores do mundo, na atualidade.
· Historiadores e especialistas consideram hoje a
designação rock como o conjunto dos estilos musicais
derivados do rock-and-roll dos anos cinqüenta do século XX. O que
muita gente ignora é que o rock-and-roll tem antecedentes musicais
complexos, anteriores ao seu marco oficial que é considerado o
lançamento de “Rock around the clock” em 1954 por Bill Halley.
Após esse ano, proliferaram grupos e cantores. Não há dúvida de
que ao fim predominaram, nos Estados Unidos, duas grandes linhas.
Uma delas, o rockabilly, geralmente interpretado por americanos brancos,
sobretudo do sul (Elvis Presley, Buddy Holly, Ricky Nelson, entre
os principais). Outra, representada pelo rock-and-roll
negro, mais intenso e mais violento (Little Richard, Chuck Berry, por
exemplo).
· Esse
estilo musical somente se espalhou pelo mundo após ter chegado à
Inglaterra e ali ter propiciado, no início dos anos sessenta o
surgimento do mais genial dos grupos até hoje aparecidos, os Beatles
(1962), além de outras excelentes bandas, entre as quais, The Who e os
Rolling Stones. Foi a partir daí que o rock se tornou a expressão
musical popular da juventude contemporânea.
· Conforme
tendências e modas, o rock (designação empregada no mundo
anglo-saxônico) ou pop music (nome empregado na França) passou a
exibir-se como hard ou heavy metal (pesado ou metaleiro, pauleira) ou
soft (leve ou rock-balada), punk ou funk, sinfônico ou psicodélico, new
wave ou decadente, discoteca, africano, reggae.
· Quando o
Pato Fu surgiu em 1992, no circuito de shows de Belo Horizonte, terceira
cidade em importância no Brasil, o grupo dos Beatles já havia se
dissolvido há 22 anos após o lançamento de “Let it be” (1970).
Muita água já havia corrido sob a ponte, aliás, muito rock.
· Em 2002 a
banda brasileira Pato Fu comemorou o seu décimo ano de estrada. E
já traz uma boa leva de sucessos em sua bagagem. A revista
“Time”, em sua edição nos Estados Unidos, em Setembro de 2001, colocou-o
entre os dez melhores grupos do mundo, na atualidade, ao lado de, entre
outros, U2, Radiohead, Aterciopelados, Orishas.
· Nossa
entrevistada do Pato Fu é Fernanda Takai. Nasceu em Serra do
Navio, no Estado do Amapá, na Amazônia brasileira, onde seu pai
trabalhava em uma empresa mineradora de manganês. Ela tem os
olhos um pouco puxados, pelo fato de seus avós paternos serem japoneses.
No Pato Fu, Fernanda é voz, violão e guitarra, além de compositora.
Informa-nos que aprendeu com Suzanne Vega e Tracey Thorn que o legal
é cantar baixinho e perto do microfone.
· (Os
outros integrantes da banda são:
John -
(João Daniel Ulhoa, marido de Fernanda.) Guitarras,
violões, voz, teclado e programações. Também compositor.
Nasceu em Paracatu, Minas Gerais.
Ricardo
Koctus -
baixo e voz. Nasceu em Belo Horizonte.
Xande
Tamietti –
bateria. Também de Belo Horizonte. O último a entrar na
banda.)
AC
- Fernanda, não é uma empresa fácil tentar classificar o Pato Fu.
Como você o catalogaria entre as atuais tendências do rock?
Som diversificado? Nunca oferecer mais do mesmo?
-FT –
Acho que produzimos
algo entre o pop e o rock, esses gêneros tão amplos que abraçam um pouco
de tudo. Nunca quisemos fazer nada que soasse puro. Todos os discos que
lançamos realmente trazem uma grande diversidade sonora e ao mesmo tempo
têm uma identidade temporal/tecnológica, pois são um
instantâneo do que fizemos em determinada época. Na verdade não
se deve criar pensando em rótulos, que são necessários para
posicionamento no mercado, mas é algo que deixamos para a crítica
especializada.
AC
- Em uma de suas
entrevistas, você declarou: “ Não adiantaria ser tecnicamente
perfeito, se não tocasse as pessoas...” De que modo pode o grupo
auferir objetivamente esse aspecto a que você se referiu?
-FT- Muitos artistas acabam fazendo escolhas pelo o
que há de mais seguro e eficaz no mercado... quero dizer, até mesmo
seleção de repertório, forma de cantar e vestir, roteiro de clipes, tudo
que pode agregar valor (ou subtraí-lo!) à carreira. Por exemplo, esse
nosso disco ao vivo poderia ter sido o mais atacado por quem escreve
sobre música e pelo público mais atento, mas transformamos o projeto em
algo realmente novo, emocionante, trabalhoso. Geralmente um disco
dessa natureza é apenas o registro de uma turnê de sucesso, não há muito
elaboração ou preocupação com conteúdo , a não ser listar os grandes
hits de um artista. O que se faz é tentar cobrir essa lacuna com a
exaltação técnica e aclamação até exagerada da platéia. Pra
tentar fugir desse padrão excessivamente formatado, escolhemos um lugar
pequeno, histórico, acolhedor. Nós mesmos selecionamos as músicas mais
significativas da carreira, refizemos os arranjos e incluímos 4 músicas
novas. Privilegiamos o mínimo, a dinâmica entre as músicas, o
silêncio, a respiração, os detalhes. No fim tivemos as melhores
críticas de toda a carreira! Acho que as pessoas que escutam as nossas
canções podem perceber o nosso investimento em qualidade e sensibilidade.
Fico feliz em saber que nossas letras e melodias encontram eco em
alguns episódios da vida das pessoas. Isso é a maior prova de que não
estamos fazendo música apenas pra gente mesmo ouvir.
AC -
A banda completou dez
anos, intacta, e crescendo. A que atribuir essa longevidade e
tal vitalidade?
-FT -
Talvez a nossa própria proposta de evoluir sempre, não
fazendo um disco igual ao outro. Nos orgulhamos da capacidade de
surpreender os nossos ouvintes ano a ano. É uma cobrança interna nossa
que se materializa na música. Até mesmo as diferenças entre os
integrantes é algo a ser sempre aproveitado como ingrediente para
fermentar o processo criativo. Temos uma carreira que é marcada por
episódios importantes. Buscamos neles fôlego pra prosseguir. Uma coisa
determinante foi o nosso investimento na autonomia da carreira, mesmo
sendo contratados por uma grande gravadora. Hoje temos nosso próprio
estúdio, nossa editora, um escritório de produção de shows, loja na
Internet e o mais importante: trabalho diário, independente de
shows ou gravações.
AC -
Para alguém que ouvir primeiramente “Ruído Rosa” ( o sexto
disco, lançado em 2001) e só depois ouvir os três primeiros discos do
Pato Fu, ficará bastante evidente que nesse caminho percorrido houve um
notável ganho em maturidade artística. Que critérios vocês levam
em conta para a seleção de suas novas composições que irão dar forma a
um novo lançamento?
-FT -
Não temos uma produção numerosa de canções quando vamos
fazer um novo trabalho. Raramente há sobras de material não gravado. Nos
últimos tempos, temos cuidado
mais das letras de cada canção. Estamos sempre lapidando
tanto a parte sonora quanto a lírica até o último momento de entregarmos
a master para ser reproduzida. Já houve momentos em que apenas a
estética sonora importava. Hoje não abrimos mão de ter bons textos
também e isso só se aprende com muito exercício. Fazendo e
refazendo. Impondo a nós mesmos um padrão de qualidade mais alto. São
critério subjetivos e pessoais, erramos e acertamos, mas procuramos não
insistir no erro.
AC -
A partir de “Televisão de Cachorro” ( quarto disco, lançado
em 1996) nota-se que surgem faixas que casam muito melhor que antes a
letra ( o poema ) e a melodia. Neste sentido, são notáveis
“Eu”, “Canção para você viver mais” e “Perdendo dentes” . Em que
contexto essas canções foram criadas? Quero dizer, a partir de que
impulsos?
-FT –
Agradeço esta observação! Algumas letras tem
histórias reais por trás, mas adicionamos doses de ficção para que não
seja autobiográfico demais. Nossa principal inspiração é o cotidiano
mesmo. John que é responsável por boa parte das letras, está sempre
anotando idéias na agenda, frases interessantes, temas, tudo que possa
sugerir uma nova canção. “Eu” é uma música de um autor gaúcho, Frank
Jorge, que tem como principal característica falar de coisas simples que
vem do coração. “Perdendo Dentes” vem de uma sensação recorrente
do John, de que leva apenas um segundo para que ele se arrependa de ter
reações emocionais demais ou mesmo agressivas. “Canção Pra Você
Viver Mais” foi escrita pro meu pai que ficou doente e morreu em 97.
Eu escrevi o título da música, mas não consegui terminá-la. É uma
das músicas do John que mais gosto. Muitas pessoas que perderam alguém
querido sentem-se tocados por ela.
AC -
Há críticos e aficcionados de música no Brasil que se
colocam negativamente contra o rock, considerando-o mero americanismo,
estrangeiro, exógeno, e recomendam em seu lugar a música brasileira de
raiz, tradicional, como o samba, o choro, o samba-canção, etc. (E´evidente
que se trata de um preconceito, pois o rock é um fenômeno musical
universal. Por outro lado, ninguém se lembra de condenar as
notórias influências do jazz sobre o samba moderno.) De
alguma forma tem sido o Pato Fu atingido por esse tipo de preconceito?
-FT –
Sim e acentuaria até o fato de setores da crítica nacional
simplesmente desprezarem a produção nacional, sem mesmo ouví-la com
atenção, e escrevendo de forma preconceituosa sobre o que fazemos.
Quando fomos incluídos na lista da revista Time, o que mais me vinha a
cabeça era o fato do rock brasileiro ter sido tratado em pé de igualdade
com grandes nomes mundiais. E o mais importante de tudo: cantando em
Português! Acho que fazemos a música do Brasil também, apenas temos
influências adicionais de outras partes do mundo e de forma alguma
renegamos o que se chama música de raiz. Eu aliás, gosto muito de Clara
Nunes, Nara Leão e a bossa-nova... adoro Rita Lee também que é ótima
como referência de um bem-sucedido intercâmbio cultural.
AC-
A edição de Fevereiro último da “Cult” ( revista literária
de mercado, editada em São Paulo e considerada uma das melhores no país)
trouxe entrevista concedida por Paulo César Pinheiro, em que esse grande
letrista (foi parceiro de Tom Jobim, Pixinguinha, Baden Powell e outros
compositores de primeira grandeza) retornou à discussão a respeito de
dever o autor da letra de uma canção ser considerado um poeta e como tal
considerado em nossa literatura. Qual sua opinião, Fernanda?
-FT-
Concordo com essa
afirmação de que é poesia a letra de uma canção . Considero uma letra
bem escrita uma jóia poética. Principalmente por ter em comum com a
poesia a possibilidade de leituras abertas. Gosto quando alguém se
dirige a nós, tentando esclarecer o sentido de uma letra e às vezes nos
mostra um outro caminho para o seu entendimento ou sensação. Letra e
poesia nos trazem sensações, nos emocionam, nos fazem olhar pro
horizonte e pensar, chorar, rir, aprender a usar as palavras com todas
as suas forças ou fraquezas. Seria demais afirmar que fosse talvez uma
POPoesia, quando presente em canções?
AC -
Seria possível transcrever aqui, para os leitores
portugueses, a que lhe parece a melhor letra de canção já gravada pelo
Pato Fu?
-FT –
Tarefa difícil e perigosa... Não gostaria de soar
pedante ou mesmo tecer um auto-elogio mal interpretado. Escolherei duas
letras que tem um pouco de tudo que fazemos.
A primeira é uma quase crônica e a outra, uma simples
canção de amor.
TELEVISÃO DE CACHORRO
(John)
ÀS VEZES PENSO QUE EU ASSISTO À TV
COMO O CÃOZINHO QUE OLHA O FRANGO RODAR
QUE MAIS E MAIS SABOROSO DE SE VER
AGUÇA CADA VEZ MAIS MEU PALADAR
E
QUANDO UMA GOTINHA DE ÓLEO CAI
COMO UMA NOVIDADE QUE ENTRA NO AR
EU PARO TUDO, EU PARO DE PENSAR
SÓ PRA FICAR TE OLHANDO, TELEVISÃO
PORQUE O QUE ESTÁ LÁ
DENTRO
É TUDO O QUE EU QUERO
TER
PORQUE O QUE ESTÁ LÁ
DENTRO
É TUDO O QUE NÃO POSSO
SER
EU PERCO HORAS BABANDO SEM SABER
QUE SE O GALO MORREU NÃO FOI POR MIM
E
QUANDO OUTROS CÃEZINHOS VEM ME IMITAR
SÃO TELESPECTADORES NO MESMO CANAL
MAS MEU CACHORRO NADA VÊ NA TV
E
AÍ QUE EU VEJO O BURRO QUE O BICHO É
A
TELA PLANA NÃO DEIXA ELE PERCEBER
A PROPAGANDA BACANA DE FRANGO
NADA PRA MIM
(John)
Eu não vim aqui
Pra entender
Ou explicar
Nem pedir nada pra mim
Não quero nada pra mim
Eu vim pelo que sei
E
pelo que sei
Você gosta de mim
É
por isso que eu vim
Eu não quero cantar
Pra ninguém a canção
Que eu fiz pra você
Que eu guardei pra você
Pra você não esquecer
Que tenho um coração
E
é seu
Tudo mais que eu tenho
Tenho tempo de sobra
Tenho um jogo de botão
Tenho essa canção
AC –
Já pensaram em
utilizar poema(s) de algum poeta brasileiro contemporâneo como
letra(s) de canção do Pato Fu?
- FT –
Já pensamos
algumas vezes, mas nunca fomos a fundo na idéia. Uma cantora
e
compositora brasileira que tem feito um ótimo trabalho nesse sentido é
Adriana Calcanhoto.
AC -
O ano de 2001 foi especialmente benéfico e pródigo
para com a banda. Como você nos relataria a sua experiência da
apresentação do Pato Fu no Palco Mundo do Rock in Rio? (um dos maiores
festivais de rock do mundo, com a presença dos maiores ídolos
internacionais, realizado no Rio de Janeiro.)
-FT-
Realmente inesquecível. Eu fui espectadora desse festival
nas edições anteriores e para mim era inacreditável tocar no mesmo palco
ao lado de grandes bandas brasileiras e estrangeiras. Sei que não foi o melhor show que já fizemos,
mas o mais importante até hoje. O que mais nos impressionou, ao contrário do que se
alardeava, foi o excelente tratamento que tivemos como artistas
nacionais. Fomos bem pagos, bem hospedados, tivemos horários respeitados para a passagem de som, coletivas com imprensa,
tudo funcionando muito bem. Ainda hoje ficamos felizes em perceber que somos colegas de
profissão de gente que admiramos.
AC -
Após sete CD’s lançados , seis deles inclusive pela grande gravadora BMG,
e em comemoração ao décimo aniversário da banda, em 28 e 29 de Abril
último vocês gravaram no palco do Museu de Arte da Pampulha, em Belo
Horizonte, o álbum, programa e DVD “MTV ao Vivo”.
E´ um notável documento sonoro e visual do que conseguiram fazer até
agora, não lhe parece?
-FT –
Foi a primeira vez que
conseguimos documentar em CD e DVD, com o apoio da MTV e da BMG um show
do Pato Fu. A ocasião dos 10 anos de banda (que ocorre em setembro) nos
deu o álibi perfeito! Felizmente tivemos o envolvimento total de pessoas
muito criativas e dispostas a produzir um projeto que tivesse uma forte
identidade estética além das músicas em si.
AC -
Já está previsto quando será a primeira apresentação do
Pato Fu em Portugal?
-
FT –
Ainda não
tenho esta boa notícia para dar. Há muitos portugueses conhecendo nossa
música pela internet e gostaria de estreitar relações com Portugal.
Espero que não demore tanto! Gostaria muito de conhecer Portugal também
porque tenho parentes lá, meu avô materno era português de Paços de
Ferreira, Freguesia de Frazão.
(24 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 517