24/02/2007
Ano 10 - Número 517


ARQUIVO
ARICY CURVELLO

 

 

Aricy Curvello
 

INIGUALÁVEL  O  PATO  FU  ATUAL
(Aricy Curvello entrevista Fernanda Takai)

 

 
A revista “Time”, na edição dos Estados Unidos, em setembro de 2001,
colocou o grupo entre os dez melhores do mundo, na atualidade.


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Historiadores e especialistas consideram hoje a designação rock como o conjunto dos estilos musicais derivados do rock-and-roll dos anos cinqüenta do século XX. O que muita gente ignora é que o rock-and-roll tem antecedentes musicais complexos, anteriores ao seu marco oficial que é considerado o lançamento de “Rock around the clock” em 1954 por Bill Halley. Após esse ano, proliferaram grupos e cantores. Não há dúvida de que ao fim predominaram, nos Estados Unidos, duas grandes linhas. Uma delas, o rockabilly, geralmente interpretado por americanos brancos, sobretudo do sul (Elvis Presley, Buddy Holly, Ricky Nelson, entre os principais). Outra, representada pelo rock-and-roll negro, mais intenso e mais violento (Little Richard, Chuck Berry, por exemplo).

·  Esse estilo musical somente se espalhou pelo mundo após ter chegado à Inglaterra e ali ter propiciado, no início dos anos sessenta o surgimento do mais genial dos grupos até hoje aparecidos, os Beatles (1962), além de outras excelentes bandas, entre as quais, The Who e os Rolling Stones. Foi a partir daí que o rock se tornou a expressão musical popular da juventude contemporânea.

· Conforme tendências e modas, o rock  (designação empregada no mundo anglo-saxônico) ou pop music (nome empregado na França) passou a exibir-se como hard ou heavy metal (pesado ou metaleiro, pauleira) ou soft (leve ou rock-balada), punk ou funk, sinfônico ou psicodélico, new wave ou decadente, discoteca, africano, reggae.

· Quando o Pato Fu surgiu em 1992, no circuito de shows de Belo Horizonte, terceira cidade em importância no Brasil, o grupo dos Beatles já havia se dissolvido há 22 anos após o lançamento de “Let it be” (1970). Muita água já havia corrido sob a ponte, aliás, muito rock.

· Em 2002 a banda brasileira Pato Fu comemorou o seu décimo ano de estrada. E já traz uma boa leva de sucessos em sua bagagem. A revista “Time”, em sua edição nos Estados Unidos, em Setembro de 2001, colocou-o entre os dez melhores grupos do mundo, na atualidade, ao lado de, entre outros, U2, Radiohead,  Aterciopelados, Orishas.

· Nossa entrevistada do Pato Fu é Fernanda Takai. Nasceu em Serra do Navio, no Estado do Amapá, na Amazônia brasileira, onde seu pai trabalhava em uma empresa mineradora de manganês. Ela tem os olhos um pouco puxados, pelo fato de seus avós paternos serem japoneses. No Pato Fu, Fernanda é voz, violão e guitarra, além de compositora. Informa-nos que aprendeu com Suzanne Vega e Tracey Thorn que o legal é cantar baixinho e perto do microfone.

· (Os outros integrantes da banda são:
John  - (João Daniel Ulhoa, marido de Fernanda.) Guitarras, violões, voz, teclado e programações. Também compositor. Nasceu em Paracatu, Minas Gerais.
Ricardo Koctus - baixo e voz. Nasceu em Belo Horizonte.
Xande Tamietti – bateria. Também de Belo Horizonte. O último a entrar na banda.)

AC -  Fernanda, não é uma empresa fácil tentar classificar o Pato Fu. Como você o catalogaria entre as atuais tendências do rock? Som diversificado? Nunca oferecer mais do mesmo?

-FT – Acho que produzimos algo entre o pop e o rock, esses gêneros tão amplos que abraçam um pouco de tudo. Nunca quisemos fazer nada que soasse puro. Todos os discos que lançamos realmente trazem uma grande diversidade sonora e ao mesmo tempo têm uma identidade temporal/tecnológica, pois são um instantâneo do que fizemos em determinada época. Na verdade não se deve criar pensando em rótulos,  que são necessários para posicionamento no mercado, mas é algo que deixamos para a crítica especializada.

AC -  Em uma de suas entrevistas, você declarou: “ Não adiantaria ser tecnicamente perfeito, se não tocasse as pessoas...” De que modo pode o grupo auferir objetivamente esse aspecto a que você se referiu?

-FT- Muitos artistas acabam fazendo escolhas pelo o que há de mais seguro e eficaz no mercado... quero dizer, até mesmo seleção de repertório, forma de cantar e vestir, roteiro de clipes, tudo que pode agregar valor (ou subtraí-lo!) à carreira. Por exemplo, esse nosso disco ao vivo poderia ter sido o mais atacado por quem escreve sobre música e pelo público mais atento, mas transformamos o projeto em algo realmente novo, emocionante, trabalhoso. Geralmente um disco dessa natureza é apenas o registro de uma turnê de sucesso, não há muito elaboração ou preocupação com conteúdo , a não ser listar os grandes hits de um artista. O que se faz é tentar cobrir essa lacuna com a exaltação técnica e aclamação até exagerada da platéiaPra tentar fugir desse padrão excessivamente formatado, escolhemos um lugar pequeno, histórico, acolhedor. Nós mesmos selecionamos as músicas mais significativas da carreira, refizemos os arranjos e incluímos 4 músicas novas. Privilegiamos o mínimo, a dinâmica entre as músicas, o silêncio, a respiração, os detalhes. No fim tivemos as melhores críticas de toda a carreira! Acho que as pessoas que escutam as nossas canções podem perceber o nosso investimento em qualidade e sensibilidade. Fico feliz em saber que nossas letras e melodias encontram eco em alguns episódios da vida das pessoas. Isso é a maior prova de que não estamos fazendo música apenas pra gente mesmo ouvir.

AC  -  A banda completou dez anos, intacta, e crescendo. A que atribuir essa longevidade e tal vitalidade?

-FT -  Talvez a nossa própria proposta de evoluir sempre, não fazendo um disco igual ao outro. Nos orgulhamos da capacidade de surpreender os nossos ouvintes ano a ano. É uma cobrança interna nossa que se materializa na música. Até mesmo as diferenças entre os integrantes é algo a ser sempre aproveitado como ingrediente para fermentar o processo criativo. Temos uma carreira que é marcada por episódios importantes. Buscamos neles fôlego pra prosseguir. Uma coisa determinante foi o nosso investimento na autonomia da carreira, mesmo sendo contratados por uma grande gravadora. Hoje temos nosso próprio estúdio, nossa editora, um escritório de produção de shows, loja na Internet e o mais importante: trabalho diário, independente de shows ou gravações.

AC -  Para alguém que ouvir primeiramente “Ruído Rosa” ( o sexto disco, lançado em 2001) e só depois ouvir os três primeiros discos do Pato Fu, ficará bastante evidente que nesse caminho percorrido houve um notável ganho em maturidade artística. Que critérios vocês levam em conta para a seleção de suas novas composições que irão dar  forma a um novo lançamento?

-FT -  Não temos uma produção numerosa de canções quando vamos fazer um novo trabalho. Raramente há sobras de material não gravado. Nos últimos tempos, temos cuidado

mais  das letras de  cada canção. Estamos sempre lapidando tanto a parte sonora quanto a lírica até o último momento de entregarmos a master para ser reproduzida. Já houve momentos em que apenas a estética sonora importava. Hoje não abrimos mão de ter bons textos também e isso só se aprende com muito exercício. Fazendo e refazendo. Impondo a nós mesmos um padrão de qualidade mais alto. São critério subjetivos e pessoais, erramos e acertamos, mas procuramos não insistir no erro.

AC -  A partir de “Televisão de Cachorro” ( quarto disco, lançado em 1996) nota-se que surgem faixas que casam muito melhor que antes a letra  ( o poema )  e a melodia. Neste sentido, são notáveis “Eu”, “Canção para você viver mais” e “Perdendo dentes” . Em que contexto essas canções foram criadas? Quero dizer, a partir de que impulsos?

-FT –  Agradeço esta observação! Algumas letras tem histórias reais por trás, mas adicionamos doses de ficção para que não seja autobiográfico demais. Nossa principal inspiração é o cotidiano mesmo. John que é responsável por boa parte das letras, está sempre anotando idéias na agenda, frases interessantes, temas, tudo que possa sugerir uma nova canção. “Eu” é uma música de um autor gaúcho, Frank Jorge, que tem como principal característica falar de coisas simples que vem do coração. “Perdendo Dentes” vem de uma sensação recorrente do John, de que leva apenas um segundo para que ele se arrependa de ter reações emocionais demais ou mesmo agressivas. “Canção Pra Você Viver Mais” foi escrita pro meu pai que ficou doente e morreu em 97. Eu escrevi o título da música, mas não consegui terminá-la. É uma das músicas do John que mais gosto. Muitas pessoas que perderam alguém querido sentem-se tocados por ela.

AC -  Há críticos e aficcionados de música no Brasil que se colocam negativamente contra o rock, considerando-o mero americanismo, estrangeiro, exógeno, e recomendam em seu lugar a música brasileira de raiz, tradicional, como o samba, o choro, o samba-canção, etc. (E´evidente que se trata de um preconceito, pois o rock é um fenômeno musical universal. Por outro lado, ninguém se lembra de condenar as notórias influências do jazz sobre o samba moderno.) De alguma forma tem sido o Pato Fu atingido por esse tipo de preconceito?

-FT –  Sim e acentuaria até o fato de setores da crítica nacional simplesmente desprezarem a produção nacional, sem mesmo ouví-la com atenção, e escrevendo de forma preconceituosa sobre o que fazemos. Quando fomos incluídos na lista da revista Time, o que mais me vinha a cabeça era o fato do rock brasileiro ter sido tratado em pé de igualdade com grandes nomes mundiais. E o mais importante de tudo: cantando em Português! Acho que fazemos a música do Brasil também, apenas temos influências adicionais de outras partes do mundo e de forma alguma renegamos o que se chama música de raiz. Eu aliás, gosto muito de Clara Nunes, Nara Leão e a bossa-nova... adoro Rita Lee também que é ótima como referência de um bem-sucedido intercâmbio cultural.

AC-  A edição de Fevereiro último da “Cult” ( revista literária de mercado, editada em São Paulo e considerada uma das melhores no país) trouxe entrevista concedida por Paulo César Pinheiro, em que esse grande letrista (foi parceiro de Tom Jobim, Pixinguinha, Baden Powell e outros compositores de primeira grandeza) retornou à discussão a respeito de dever o autor da letra de uma canção ser considerado um poeta e como tal considerado em nossa literaturaQual sua opinião, Fernanda?

-FT- Concordo com essa afirmação de que é poesia a letra de uma canção . Considero uma letra bem escrita uma jóia poética. Principalmente por ter em comum com a poesia a possibilidade de leituras abertas. Gosto quando alguém se dirige a nós, tentando esclarecer o sentido de uma letra e às vezes nos mostra um outro caminho para o seu entendimento ou sensação. Letra e poesia nos trazem sensações, nos emocionam, nos fazem olhar pro horizonte e pensar, chorar, rir, aprender a usar as palavras com todas as suas forças ou fraquezas. Seria demais afirmar que fosse talvez uma POPoesia, quando presente em canções?

AC -  Seria possível transcrever aqui, para os leitores portugueses,  a que lhe parece a melhor letra de canção já gravada pelo Pato Fu?

-FT –  Tarefa difícil e perigosa... Não gostaria de soar pedante ou mesmo tecer um auto-elogio mal interpretado. Escolherei duas letras que tem um pouco de tudo que fazemos.

A primeira é uma quase crônica e  a outra, uma simples canção de amor.

TELEVISÃO DE CACHORRO      
(John) 

ÀS VEZES PENSO QUE EU ASSISTO À TV
COMO O CÃOZINHO QUE OLHA O FRANGO RODAR
QUE MAIS E MAIS SABOROSO DE SE VER
AGUÇA CADA VEZ MAIS MEU PALADAR 

E QUANDO UMA GOTINHA DE ÓLEO CAI
COMO UMA NOVIDADE QUE ENTRA NO AR
EU PARO TUDO, EU PARO DE PENSAR
SÓ PRA FICAR TE OLHANDO, TELEVISÃO 

PORQUE O QUE ESTÁ LÁ DENTRO
É TUDO O QUE EU QUERO TER
PORQUE O QUE ESTÁ LÁ DENTRO
É TUDO O QUE NÃO POSSO SER
 

EU PERCO HORAS BABANDO SEM SABER
QUE SE O GALO MORREU NÃO FOI POR MIM
E QUANDO OUTROS CÃEZINHOS VEM ME IMITAR
SÃO TELESPECTADORES NO MESMO CANAL

MAS MEU CACHORRO NADA VÊ NA TV
E AÍ QUE EU VEJO O BURRO QUE O BICHO É
A TELA PLANA NÃO DEIXA ELE PERCEBER
A PROPAGANDA BACANA DE FRANGO

 
NADA PRA MIM
(John)

Eu não vim aqui
Pra entender
Ou explicar
Nem pedir nada pra mim
Não quero nada pra mim
Eu vim pelo que sei
E pelo que sei
Você gosta de mim
É por isso que eu vim
Eu não quero cantar
Pra ninguém a canção
Que eu fiz pra você
Que eu guardei pra você
Pra você não esquecer
Que tenho um coração
E é seu
Tudo mais que eu tenho
Tenho tempo de sobra
Tenho um jogo de botão
Tenho essa canção

 

AC – Já pensaram em utilizar  poema(s)  de algum poeta brasileiro contemporâneo como letra(s) de canção do Pato Fu?

- FT – Já pensamos algumas vezes, mas nunca fomos a fundo na idéia. Uma cantora
e compositora brasileira que tem feito um ótimo trabalho nesse sentido é Adriana Calcanhoto.

AC -  O ano de 2001 foi especialmente benéfico e pródigo para com a banda. Como você nos relataria a sua experiência da apresentação do Pato Fu no Palco Mundo do Rock in Rio? (um dos maiores festivais de rock do mundo, com a presença dos maiores ídolos internacionais, realizado no Rio de Janeiro.)

-FT-  Realmente inesquecível. Eu fui espectadora desse festival nas edições anteriores e para mim era inacreditável tocar no mesmo palco ao lado de grandes bandas brasileiras e estrangeiras. Sei que não foi o melhor show que já fizemos, mas o mais importante até hoje. O que mais nos impressionou, ao contrário do que se alardeava, foi o excelente tratamento que tivemos como artistas nacionais. Fomos bem pagos, bem hospedados, tivemos horários respeitados para a passagem de som, coletivas com imprensa, tudo funcionando muito bem. Ainda hoje ficamos felizes em perceber que somos colegas de profissão de gente que admiramos.

AC -   Após sete CD’s lançados , seis deles inclusive pela grande gravadora BMG, e em comemoração ao  décimo aniversário da banda, em 28 e 29 de Abril último vocês gravaram no palco do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, o álbum, programa e DVD “MTV ao Vivo”. E´ um notável documento sonoro e visual do que conseguiram fazer até agora, não lhe parece?

-FT – Foi a primeira vez que conseguimos documentar em CD e DVD, com o apoio da MTV e da BMG um show do Pato Fu. A ocasião dos 10 anos de banda (que ocorre em setembro) nos deu o álibi perfeito! Felizmente tivemos o envolvimento total de pessoas muito criativas e dispostas a produzir um projeto que tivesse uma forte identidade estética além das músicas em si.

AC -  Já está previsto quando será a primeira apresentação do Pato Fu em Portugal?

- FT – Ainda não tenho esta boa notícia para dar. Há muitos portugueses conhecendo nossa música pela internet e gostaria de estreitar relações com Portugal. Espero que não demore tanto! Gostaria muito de conhecer Portugal também porque tenho parentes lá, meu avô materno era português de Paços de Ferreira, Freguesia de Frazão.

 

 
(24 de fevereiro/2007)
CooJornal no 517


Aricy Curvello,
poeta, ensaísta e tradutor. Consultor da Enciclopédia de Literatura Brasileira.
Nasceu em Minas Gerais, viveu no Rio de Janeiro e na Amazônia, bem como no exterior. Atualmente, na costa do Espírito Santo.
curvello.vix@terra.com.br