16/06/2007
Ano 11 - Número 533


ARQUIVO
ARICY CURVELLO

 

 

Aricy Curvello


ENTREVISTA COM ARICY CURVELLO PARA O JORNAL “VAIA”, de Porto Alegre/RS(*)

Por  Marco Marques e  Fernando Ramos Trindade
 

Vaia - Em recente entrevista (a “O Escritor – Jornal da União Brasileira de Escritores” n. 100, São Paulo, out.2002) há uma afirmação de que sua poesia modificou-se a partir dos acontecimentos pós-1964. Qual era a sua noção de poesia naquela época conturbada da  vida brasileira? E o que mudou na sua concepção poética em face daquele momento? Você desenvolveu um conceito de poesia a partir de então?

Aricy Curvello - O que tive de modificar frente aos fatos não foi apenas um conceito de poesia, mas sim  toda uma visão de mundo. As classes dominantes no Brasil naquela época derrubaram pela força das armas um governo federal legalmente constituído e deixaram claro que não permitiriam reformas nem avanços sociais e políticos que viessem a diminuir seu poder e seus privilégios. Não toleraram que a sociedade brasileira caminhasse pacificamente para uma melhor distribuição das riquezas criadas pelo trabalho de todos. Quando você começa  a compreender como funcionam na prática os poderes que criam o atraso, a miséria, a fome, os baixos salários dos trabalhadores, a submissão às multinacionais, ou seja, o subdesenvolvimento do país, você também começa a compreender a ideologia das classes que detêm o poder no Brasil. E também começa a entender porque a grande imprensa e os meios de comunicação de massa tanto prestigiam a poesia que é apenas um jogo de palavras, “sorriso da sociedade”  ou uma cifra estética formal sem qualquer densidade humana ou histórica.  Só os mal intencionados ou os ingênuos não percebem que cada época tem de criar sua própria poesia, sua própria arte, e que o melhor dessa arte e dessa poesia é criado de modo a deixar entrever o escorregadio, o contraditório, o complexo e o efêmero que são o real e também o ser humano. Acima de tudo, a poesia não pode ser indiferente ao destino dos homens.

Vaia - Por que o seu primeiro livro veio a ser publicado em 1979, somente aos 34 anos?

A. Curvello – Sofria já uma profunda mudança de visão de mundo, ou seja, em todos os meus valores, quando um amigo colocou em minhas mãos em 1965 ou 1966 um livro (“Língua e Realidade”, do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser) que me fez mergulhar em uma crise ainda mais profunda. Esse livro me marcou para sempre. Segundo Flusser, a palavra e a linguagem jamais dão conta da complexidade do real, mas apenas de uma fração dele e apenas quando formam frases simples que expressam pequenos fatos comuns como “esta maçã é vermelha”. Os falantes nativos de cada idioma são prisioneiros dentro desse idioma e têm suas percepções e visões condicionadas pelas características desse idioma. O Inglês conta com o verbo to be (“ser”) e o verbo to have (“ter”), desconhecendo a extensa noção do que é transmitido por meio dos verbos “estar” e “haver” que são comuns ao Espanhol e ao Português, e isto é apenas um exemplo muito pobre do que tento dizer. Agora a crise transferia-se também para o próprio interior da linguagem, o meu único meio de expressão. Tive de ir até o fundo do poço para depois recomeçar tudo outra vez. Aí estão as razões pelas quais meu primeiro livro, “Os Dias Selvagens te Ensinam”, só ficou pronto em 1974, em plenos anos de chumbo e de treva, e só conseguiu ser editado em 1979.

Vaia - Você identifica a influência de algum poeta ou filósofo em sua obra? Podem-se apontar confluências com as idéias de Heidegger em seu mais recente livro, “Mais que os Nomes do Nada”Por que autor nutre empatia literária?

A. Curvello – Sim, no sentido de que sou herdeiro de uma tradição de poesia que me antecede. Por outro lado, também sou estudioso de filosofia e da sua história, donde dever eu a muitos filósofos, entre os quais os pré-socráticos (sobretudo Heráclito), Marx, Engels, Adorno, Walter Benjamin, Wittgenstein, Heidegger, Sartre, Vilém Flusser. Sou principalmente um filho das crises da modernidade, se é que ela já não deixou de ser modernidade. Entre escritores brasileiros, minha empatia é com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, uma parte da obra de Drummond e João Cabral, gente do fio da lâmina.

Vaia - Fale um pouco sobre a crise da modernidade. No que diz respeito à poesia, poderemos apontar algumas fases em que a poesia moderna brasileira enfrentou essas crises, ou rupturas, sobretudo a de linguagem? Hoje em dia, em que estágio você acha que a poesia brasileira se encontra?
 

A. Curvello – É muito vasta essa crise. Muito do que constituiu a modernidade está em crise hoje, como várias das idéias básicas propostas por Marx, Darwin, Freud, entre outros. Esse fenômeno agônico atinge inclusive a razão como o Ocidente a concebeu em filosofia, como também as nossas certezas estruturadas a respeito da linguagem. Atinge o que tínhamos por universal em cultura, da mesma forma que atinge o coração do que conhecíamos como História. Um exemplo? Ocorreu que os historiadores europeus privilegiaram durante séculos a História do Ocidente em detrimento daquela do resto do mundo. A História da Europa, em detrimento da ocidental. Freqüentemente, a História nacional de algum país europeu hegemônico em detrimento da História de seus vizinhos. Com toda a certeza, o que é ocidental não mais passará hoje por ser universal.  Respondendo à segunda parte de sua questão, a poesia brasileira não é hoje aguçada como seria de se desejar. Não vejo nenhum grande poeta que possa substituir à altura Drummond, Bandeira ou João Cabral de Melo. Ainda há muita metafísica e pobreza cultural, quando não um centrado interesse no ego inflado, no enfeite, no decorativo, e não no cerne do que é uma poesia feita no Brasil, hoje. Não se dá notícia nem mesmo filosoficamente do que ocorre de mais decisivo. Na verdade, nossa História também é pobre e não conheceu grandes rupturas; a economia da Colônia chegou quase intacta a 1930, ano em que pela primeira vez houve uma séria ruptura entre as classes dominantes, o que permitiu afastar do poder os setores mais atrasados ligados à agricultura e à exportação de bens primários, sobrevindo daí a primeira modernização que conhecemos. Sem essa chamada Revolução de 1930, com os seus antecedentes históricos, os escritores modernistas não teriam chegado ao poder e constituído um novo padrão literário entre nós. Foi sim uma ruptura com o passado e com a linguagem do passado. Uma tentativa de segunda modernização foi destruída  pelo golpe militar de 1964, com apoio flagrante dos Estados Unidos. Esta, também, uma ruptura importante, pois findou com qualquer ilusão que se poderia nutrir em uma série de matérias e assuntos  que são fundamentais para o desenvolvimento social e econômico e o futuro de nosso país. No entanto, a brutalidade da repressão aniquilou no nascedouro uma nova experiência de poesia e de linguagem, voltada para amplas camadas populares e a discussão dos problemas mais candentes do país, como as tentativas da UNE, a união nacional dos estudantes universitários, inclusive no teatro e na música, assim também a da série “Violão de Rua”, publicada pela Editora Civilização Brasileira de Ênio da Silveira. Experiências ainda em estado larvar, embrionárias, imperfeitas, porém importantes. Pena que não tenham chegado a se desenvolver e atingido a maturidade. No entanto influenciaram e bastante. Não esqueçamos que verdadeiros talentos como, entre outros, Ferreira Gullar, Gianfrancesco Guarnieri, Glauber Rocha, Joaquim Pedro, Chico Buarque de Holanda, estiveram, de uma forma ou de outra, ligados a essas experiências.

Vaia -  Qual a sua relação com a religião? E com Deus? A morte significa o que para você?

A. Curvello – Não consigo aceitar que, para se atingir Deus, torna-se necessário abandonar a razão e se comportar, dentro das normas de uma igreja, como as ovelhas de um rebanho dócil ao pastor. Por outro lado, vejo a morte como um fato biológico natural, sem deixar de constituir um inimigo a ser vencido pela civilização, pelo menos relativamente. Um dia o homem vencerá a barreira dos séculos e haverá de viver um milênio.

Vaia -  Por que você escreve poesia? Que significado a poesia tem na vida de Aricy Curvello?

A. Curvello -  Poesia é minha forma de expressão, a que mais condiz com o ser humano e a consciência que sou. Poesia é sobretudo, talvez, a melhor forma que posso dar a meu espanto diante do real e diante das ilusões, às minhas verdades pessoais, a uma forma pessoal de estar no mundo.

Vaia – Você se reconhece como componente de uma geração de poetas brasileiros?

A. Curvello – Julgo que estou fora do esquema de gerações literárias. Meu primeiro livro foi lançado fora dos limites cronológicos da chamada Geração 1960 e não me identifico com a Geração 1980. Creio que o hábito de tentar enquadrar os poetas dentro do esquema de geração deverá ser abandonado. Não funciona mais, a não ser para aqueles que intencionalmente se mutilam ou se autolimitam para “parecerem” uma geração.

Vaia – Como é que nasce o poema para você? O que é que detona a idéia poética? Vocêsente” a gestação de um poema em verso, ou é algo aleatório à sua vontade? Como é que é?

A. Curvello – De vários modos pode um poema começar a nascer. De todos os que você mencionou e mais alguns outros. Uma frase musical pode detonar o nascimento de um núcleo, em torno do qual o poema será formado. No entanto, o mais importante processo é o do trabalho. Diário, se possível. Sem o trabalho, nem as Musas podem ajudar. Na verdade tem-se de conjugar a inspiração e a transpiração.

Vaia – Você poderia comentar o poema “O Náufrago” (que saiu publicado no Vaia 6). Como nasceu, foi pensado e construído esse poema?

A. Curvello - “O Náufrago”  nasceu de um fato real. Nos anos oitenta vivi durante algum tempo em Niterói, na Av. Amaral Peixoto, a duas quadras da baía da Guanabara. Diariamente atravessava a baía para trabalhar no Rio, valendo-me das grandes Barcas de passageiros da Cantareira.  Numa noite em que saí mais tarde do escritório, mal a Barca em que eu vinha atracou no cais em Niterói, ouvimos um estrondo surdo vindo do meio do mar. Já na rua, do lado de fora, com maior espaço de visão, pude ver que um navio (depois soube, o Soares Dutra, da Marinha de Guerra brasileira) abalroara uma Barca. Batera sua quina bem no meio da embarcação de passageiros e abrira um rombo considerável. A Barca estava adernando e passageiros se jogavam às águas. Lanchas e Barcas disponíveis estavam largando do cais de atracação para auxiliar no resgate dos passageiros e também prestar socorro à tripulação da Barca sinistrada. Durante esses momentos de tragédia, ”O Náufrago” principiou a nascer. A partir da noção de que o acaso e a tragédia sempre intervêm na vida dos seres humanos e de tudo o mais, os primeiros versos começaram a formar em minha mente o que é hoje o trecho inicial (as demais partes se formariam depois, aos poucos, por meio do trabalho consciente). Sim, começou a nascer do fato  de que o acaso sempre intervém e que o homem vive no aberto, sempre sujeito á tragédia. 

Vaia - Qual a sua opinião a respeito do grande número de novos autores que buscam espaço através de publicações alternativas e de antologias poéticas?

A. Curvello – É uma forma de principiar vida literária, porém não a mais correta de iniciar uma obra. A obra exige recolhimento, estudo, reflexão - sempre. A vida literária é badalação, festa, lançamentos, reuniões, revistas e jornais alternativos, antologias. Ocorre que muitos candidatos a escritores findam fascinados e passam a viver pelos ouropéis e falsos brilhos da vida literária, e terminam sem uma obra de valor.

Vaia – O exercício da poesia e da literatura são atos solitários, assim como o da leitura. Mas é uma solidão acompanhada, não é? Como é que você pensa que seja o leitor de poesia, mais especificamente da sua poesia? No Brasil é aquela coisa que todo mundo fala: a literatura circula pouco, o espaço para poesia é mínimo, fala-se que poesia é uma espécie de seita, pra pouquíssimos, quem lê poesia são os poetas, etc. Como é que você vê isso tudo?

A. Curvello -  Primeiro, creio que se deve admitir o humor, senão também a autoironia.  Não transmite vontade de rir a terceira parte de sua questão? Pense bem: pouca circulação, espaço mínimo, uma espécie de seita, pouquíssimos, quem lê poesia são os poetas. Vamos nos perguntar qual a razão disso? Está claro que os poetas brasileiros ainda não falam ou pouco falam  do Brasil: muitos preferem falar de si mesmos e de seus egos inflados ou de mundos fantásticos. Ainda não se dignaram participar da vida da gente brasileira, quase nunca estiveram interessados em nós nem no país brasileiro, a não ser em alguns momentos de nosso Romantismo no século XIX e de alguns instantes de nosso Modernismo no século seguinte. Some-se a isso a crescente complexidade da poesia moderna contemporânea, que mais dificulta do que auxilia a criação de uma grande poesia de paixão social. Estes fatos são agravados pelas deficiências de nosso ensino básico, que não tem o apoio de bibliotecas escolares nem públicas, as quais deveriam divulgar nossa poesia (mesmo a alienada) e nossa ficção. Para nossa vergonha, Brasília é a única capital do mundo que não possui uma só biblioteca pública. Agora, 43 anos depois da inauguração de nossa nova capital, é que se atualizou o projeto de Niemeyer para a Biblioteca Nacional de Brasília. Será que dessa vez vai? Diante da distância da maioria dos poetas em relação ao Brasil, das deficiências de nosso ensino básico e da falta de bibliotecas escolares e públicas, do baixíssimo nível de renda da maioria absoluta de nossa população (que nem pode pensar em comprar livros, mas sim em sobreviver), só se pode perguntar: como a poesia resiste a tudo isso no Brasil e sobrevive?  Também a mim a questão deixa perplexo.

Vaia - O “Mais que os Nomes do Nada” não teve ainda uma segunda edição, porque você espera primeiro lançar o par dele, que é o “Menos que os Nomes de Tudo”, é isso? Você poderia falar um pouco sobre o “Menos que os Nomes de Tudo”? Em que sentido os dois livros formarão um par?

 

A. Curvello - Sim. Nossa capacidade de dizer está limitada a um espaço lingüístico entre mais que os nomes do nada e menos que os nomes de tudo. Ela não é infinita, como pensam os indigentes de espírito, mas muito limitada. Nossa própria vida mental/psicológica/cultural transcorre entre esse mais e esse menos. Nós temos muito mais limites do que julgamos. E muito mais fronteiras. Muito mais prisões, como a do idioma Muito bem o compreendeu Wittgenstein que sugeriu buscarmos o uso de cada palavra, e não o seu significado, pois o significado de uma palavra isolada de seu contexto será sempre falso, ou seja, metafísico. Para uma poética libertária do ser, não se pode valer-se da linguagem da ilusão, que é a da poesia metafísica e alienada, quando não nihilista ou individualista Tem-se de se valer de uma nova linguagem, crítica, alerta, aberta, consciente, ainda que trágica, pois somos seres efêmeros.

 

Vaia – Fale sobre a coincidência de que alguns de seus poemas  - o caso mais notório é o do poema “Cezanne” que já foi traduzido para quatro idiomas -tornarem-se “andarilhos”, pois foram escolhidos para figurar em várias antologias de poesia brasileira publicadas no Brasil e no exterior.

 

A. Curvello -  Sim, é preferível resumir a carta a que você se refere, Fernando. Só lhe peço que no final acrescente o seguinte:

Sim, talvez o pequeno sucesso de “Cézanne” se deva ao fato de que esse poema busca dizer a mesma fronteira em que estão o poeta moderno que tenta criar uma linguagem própria e o artista plástico impressionista (o Cézanne histórico, criador de uma nova linguagem pictórica, considerado um dos pais da arte moderna). É uma circunstância hoje comum a todos os países de cultura ocidental. Julgo porém que tal busca de linguagem interessa sobremaneira à poesia do Brasil, à literatura brasileira, ao produto brasileiro enfim, pois necessitamos de personalidade própria, de fatura própria, de griffe própria. 

(* Entrevista publicada em “Vaia” n. 8, Porto Alegre/RS, abril 2003, pp. 6-7.) 
  

 
(16 de junho/2007)
CooJornal no 533
 


Aricy Curvello
Aricy Curvello é poeta, ensaísta e tradutor. Consultor da Enciclopédia de Literatura Brasileira. Entre seus livros mais conhecidos estão “Mais que os Nomes do Nada” (São Paulo, Editora do Escritor, 1996, poesia); “Uilcon Pereira: no coração dos boatos” (Porto Alegre: Editora AGE / S.Paulo: Editora Giordano, 2000, ensaios, Prêmio Joaquim Norberto 2001, da União Bras. de Escritores); o poema longo (sobre a Amazônia) “O Acampamento” já traduzido para o espanhol, o italiano e o francês, neste último idioma em livro lançado por Les Presses Littéraires, em tradução de Jean-Paul Mestas.
Nasceu em Minas Gerais, viveu no Rio de Janeiro e na Amazônia, bem como no exterior. Atualmente, na costa do Espírito Santo.
curvello.vix@terra.com.br