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Aricy Curvello
ENTREVISTA COM ARICY CURVELLO PARA O JORNAL “VAIA”, de Porto
Alegre/RS(*)
Por Marco Marques e Fernando Ramos Trindade
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Vaia - Em recente entrevista (a “O Escritor – Jornal da União Brasileira de
Escritores” n. 100, São Paulo, out.2002) há uma afirmação de que sua
poesia modificou-se a partir dos acontecimentos pós-1964. Qual
era a sua noção de poesia naquela época conturbada da vida brasileira?
E o que mudou na sua concepção poética em face daquele momento?
Você desenvolveu um conceito de poesia a partir de então?
Aricy Curvello - O que tive
de modificar frente aos fatos não foi apenas um conceito de poesia, mas
sim toda uma visão de mundo. As classes dominantes no Brasil
naquela época derrubaram pela força das armas um governo federal
legalmente constituído e deixaram claro que não permitiriam reformas nem
avanços sociais e políticos que viessem a diminuir seu poder e seus
privilégios. Não toleraram que a sociedade brasileira caminhasse
pacificamente para uma melhor distribuição das riquezas criadas pelo
trabalho de todos. Quando você começa a compreender como
funcionam na prática os poderes que criam o atraso, a miséria, a fome,
os baixos salários dos trabalhadores, a submissão às multinacionais, ou
seja, o subdesenvolvimento do país, você também começa a compreender a
ideologia das classes que detêm o poder no Brasil. E também
começa a entender porque a grande imprensa e os meios de comunicação de
massa tanto prestigiam a poesia que é apenas um jogo de palavras,
“sorriso da sociedade” ou uma cifra estética formal sem qualquer
densidade humana ou histórica. Só os mal intencionados ou os ingênuos
não percebem que cada época tem de criar sua própria poesia, sua própria
arte, e que o melhor dessa arte e dessa poesia é criado de modo a deixar
entrever o escorregadio, o contraditório, o complexo e o efêmero que são
o real e também o ser humano. Acima de tudo, a poesia não pode ser
indiferente ao destino dos homens.
Vaia - Por que o seu primeiro livro veio a ser publicado em 1979,
somente aos 34 anos?
A. Curvello –
Sofria já uma
profunda mudança de visão de mundo, ou seja, em todos os meus valores, quando um amigo colocou em minhas mãos em 1965 ou 1966 um livro
(“Língua e Realidade”, do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser) que
me fez mergulhar em uma crise ainda mais profunda. Esse livro me
marcou para sempre. Segundo Flusser, a palavra e a linguagem
jamais dão conta da complexidade do real, mas apenas de uma fração dele
e apenas quando formam frases simples que expressam pequenos fatos
comuns como “esta maçã é vermelha”. Os falantes nativos de cada
idioma são prisioneiros dentro desse idioma e têm suas percepções e
visões condicionadas pelas características desse idioma. O Inglês
conta com o verbo to be (“ser”) e o verbo to have (“ter”),
desconhecendo a extensa noção do que é transmitido por meio dos verbos
“estar” e “haver” que são comuns ao Espanhol e ao Português, e isto é
apenas um exemplo muito pobre do que tento dizer. Agora a crise
transferia-se também para o próprio interior da linguagem, o meu único
meio de expressão. Tive de ir até o fundo do poço para depois recomeçar
tudo outra vez. Aí estão as razões pelas quais meu primeiro livro, “Os
Dias Selvagens te Ensinam”, só ficou pronto em 1974, em plenos anos de
chumbo e de treva, e só conseguiu ser editado em 1979.
Vaia - Você identifica a influência de algum poeta ou filósofo em
sua obra? Podem-se apontar confluências com as idéias de
Heidegger em seu mais recente livro, “Mais que os Nomes do Nada”?
Por que autor nutre empatia literária?
A. Curvello –
Sim,
no sentido de que sou herdeiro de uma tradição de poesia que me
antecede. Por outro lado, também sou estudioso de filosofia e da
sua história, donde dever eu a muitos filósofos, entre os quais os
pré-socráticos (sobretudo Heráclito), Marx, Engels, Adorno, Walter
Benjamin, Wittgenstein, Heidegger, Sartre, Vilém Flusser. Sou
principalmente um filho das crises da modernidade, se é que ela já não
deixou de ser modernidade. Entre escritores brasileiros, minha
empatia é com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, uma
parte da obra de Drummond e João Cabral, gente do fio da lâmina.
Vaia -
Fale um pouco sobre a crise da modernidade. No que diz respeito à
poesia, poderemos apontar algumas fases em que a poesia moderna
brasileira enfrentou essas crises, ou rupturas, sobretudo a de
linguagem? Hoje em dia, em que estágio você acha que a poesia brasileira
se encontra?
A. Curvello –
É muito vasta essa crise. Muito do que constituiu a modernidade está em
crise hoje, como várias das idéias básicas propostas por Marx, Darwin,
Freud, entre outros. Esse fenômeno agônico atinge
inclusive a razão como o Ocidente a concebeu em filosofia, como também
as nossas certezas estruturadas a respeito da linguagem. Atinge o
que tínhamos por universal em cultura, da mesma forma que atinge o
coração do que conhecíamos como História. Um exemplo? Ocorreu que
os historiadores europeus privilegiaram durante séculos a História do
Ocidente em detrimento daquela do resto do mundo. A História da
Europa, em detrimento da ocidental. Freqüentemente, a História
nacional de algum país europeu hegemônico em detrimento da História de
seus vizinhos. Com toda a certeza, o que é ocidental não mais
passará hoje por ser universal. Respondendo à segunda parte de
sua questão, a poesia brasileira não é hoje aguçada como seria de se
desejar. Não vejo nenhum grande poeta que possa substituir à
altura Drummond, Bandeira ou João Cabral de Melo. Ainda há muita
metafísica e pobreza cultural, quando não um centrado interesse no ego
inflado, no enfeite, no decorativo, e não no cerne do que é uma poesia
feita no Brasil, hoje. Não se dá notícia nem mesmo
filosoficamente do que ocorre de mais decisivo. Na verdade, nossa
História também é pobre e não conheceu grandes rupturas; a
economia da Colônia chegou quase intacta a 1930, ano em que pela
primeira vez houve uma séria ruptura entre as classes dominantes, o que
permitiu afastar do poder os setores mais atrasados ligados à
agricultura e à exportação de bens primários, sobrevindo daí a primeira
modernização que conhecemos. Sem essa chamada Revolução de 1930,
com os seus antecedentes históricos, os escritores modernistas não
teriam chegado ao poder e constituído um novo padrão literário entre nós.
Foi sim uma ruptura com o passado e com a linguagem do passado.
Uma tentativa de segunda modernização foi destruída pelo golpe
militar de 1964, com apoio flagrante dos Estados Unidos. Esta,
também, uma ruptura importante, pois findou com qualquer ilusão que se
poderia nutrir em uma série de matérias e assuntos que são fundamentais
para o desenvolvimento social e econômico e o futuro de nosso país.
No entanto, a brutalidade da repressão aniquilou no nascedouro uma
nova experiência de poesia e de linguagem, voltada para amplas camadas
populares e a discussão dos problemas mais candentes do país, como as
tentativas da UNE, a união nacional dos estudantes universitários,
inclusive no teatro e na música, assim também a da série “Violão de
Rua”, publicada pela Editora Civilização Brasileira de Ênio da Silveira.
Experiências ainda em estado larvar, embrionárias, imperfeitas,
porém importantes. Pena que não tenham chegado a se desenvolver e
atingido a maturidade. No entanto influenciaram e bastante. Não
esqueçamos que verdadeiros talentos como, entre outros, Ferreira Gullar,
Gianfrancesco Guarnieri, Glauber Rocha, Joaquim Pedro, Chico Buarque de
Holanda, estiveram, de uma forma ou de outra, ligados a essas
experiências.
Vaia -
Qual a sua relação com a religião? E com Deus?
A morte significa o que para você?
A. Curvello –
Não consigo aceitar que, para se atingir Deus,
torna-se necessário abandonar a razão e se comportar, dentro das
normas de uma igreja, como as ovelhas de um rebanho dócil ao pastor.
Por outro lado, vejo a morte como um fato biológico natural, sem
deixar de constituir um inimigo a ser vencido pela civilização, pelo
menos relativamente. Um dia o homem vencerá a barreira dos
séculos e haverá de viver um milênio.
Vaia -
Por que você escreve poesia?
Que significado a poesia tem na
vida de Aricy Curvello?
A. Curvello -
Poesia é minha forma de expressão, a que mais condiz com o
ser humano e a consciência que sou. Poesia é sobretudo, talvez,
a melhor forma que posso dar a meu espanto diante do real e diante das
ilusões, às minhas verdades pessoais, a uma forma pessoal de estar no
mundo.
Vaia –
Você se reconhece como componente de uma geração de poetas brasileiros?
A. Curvello –
Julgo que estou
fora do esquema de gerações literárias. Meu primeiro livro foi
lançado fora dos limites cronológicos da chamada Geração 1960 e não me
identifico com a Geração 1980. Creio que o hábito de tentar
enquadrar os poetas dentro do esquema de geração deverá ser abandonado.
Não funciona mais, a não ser para aqueles que intencionalmente se
mutilam ou se autolimitam para “parecerem” uma geração.
Vaia –
Como é que nasce o
poema para você? O que é que detona a idéia poética? Você
“sente” a gestação de um poema em verso, ou é algo aleatório à sua
vontade? Como é que é?
A. Curvello – De vários modos pode um poema começar a nascer. De
todos os que você mencionou e mais alguns outros. Uma frase
musical pode detonar o nascimento de um núcleo, em torno do qual
o poema será formado. No entanto, o mais importante processo é o
do trabalho. Diário, se possível. Sem o trabalho, nem as
Musas podem ajudar. Na verdade tem-se de conjugar a inspiração e
a transpiração.
Vaia –
Você poderia comentar
o poema “O Náufrago” (que saiu publicado no Vaia 6).
Como nasceu, foi pensado e construído esse poema?
A. Curvello - “O
Náufrago” nasceu de um fato real. Nos anos oitenta vivi durante
algum tempo em Niterói, na Av. Amaral Peixoto, a duas quadras da baía da
Guanabara. Diariamente atravessava a baía para trabalhar no Rio,
valendo-me das grandes Barcas de passageiros da Cantareira. Numa
noite em que saí mais tarde do escritório, mal a Barca em que eu vinha
atracou no cais em Niterói, ouvimos um estrondo surdo vindo do meio do
mar. Já na rua, do lado de fora, com maior espaço de visão, pude ver que
um navio (depois soube, o Soares Dutra, da Marinha de Guerra
brasileira) abalroara uma Barca. Batera sua quina bem no meio da
embarcação de passageiros e abrira um rombo considerável. A Barca
estava adernando e passageiros se jogavam às águas. Lanchas e
Barcas disponíveis estavam largando do cais de atracação para auxiliar
no resgate dos passageiros e também prestar socorro à tripulação da
Barca sinistrada. Durante esses momentos de tragédia, ”O
Náufrago” principiou a nascer. A partir da noção de que o acaso e
a tragédia sempre intervêm na vida dos seres humanos e de tudo o mais,
os primeiros versos começaram a formar em minha mente o que é hoje o
trecho inicial (as demais partes se formariam depois, aos poucos, por
meio do trabalho consciente). Sim, começou a nascer do fato de
que o acaso sempre intervém e que o homem vive no aberto, sempre sujeito
á tragédia.
Vaia - Qual a sua opinião a respeito do grande número de novos
autores que buscam espaço através de publicações alternativas e de
antologias poéticas?
A. Curvello –
É uma forma de principiar vida
literária, porém não a mais correta de iniciar uma obra.
A obra exige recolhimento,
estudo, reflexão - sempre.
A vida literária é badalação, festa, lançamentos, reuniões,
revistas e jornais alternativos, antologias.
Ocorre que muitos candidatos a escritores findam fascinados
e passam a viver pelos ouropéis e falsos brilhos da vida literária, e
terminam sem uma obra de valor.
Vaia –
O exercício da poesia
e da literatura são atos solitários, assim como o da leitura. Mas
é uma solidão acompanhada, não é? Como é que você pensa que seja o
leitor de poesia, mais especificamente da sua poesia? No Brasil é aquela
coisa que todo mundo fala: a literatura circula pouco, o espaço
para poesia é mínimo, fala-se que poesia é uma espécie de seita, pra
pouquíssimos, quem lê poesia são os poetas, etc. Como é que você
vê isso tudo?
A. Curvello - Primeiro, creio que se deve admitir o humor,
senão também a autoironia. Não transmite vontade de rir a terceira
parte de sua questão? Pense bem: pouca circulação, espaço mínimo, uma
espécie de seita, pouquíssimos, quem lê poesia são os poetas. Vamos nos
perguntar qual a razão disso? Está claro que os poetas brasileiros ainda
não falam ou pouco falam do Brasil: muitos preferem falar de si mesmos
e de seus egos inflados ou de mundos fantásticos. Ainda não se
dignaram participar da vida da gente brasileira, quase nunca estiveram
interessados em nós nem no país brasileiro, a não ser em alguns momentos
de nosso Romantismo no século XIX e de alguns instantes de nosso
Modernismo no século seguinte. Some-se a isso a crescente
complexidade da poesia moderna contemporânea, que mais dificulta do que
auxilia a criação de uma grande poesia de paixão social. Estes
fatos são agravados pelas deficiências de nosso ensino básico, que não
tem o apoio de bibliotecas escolares nem públicas, as quais deveriam
divulgar nossa poesia (mesmo a alienada) e nossa ficção. Para nossa
vergonha, Brasília é a única capital do mundo que não possui uma só
biblioteca pública. Agora, 43 anos depois da inauguração de nossa nova
capital, é que se atualizou o projeto de Niemeyer para a Biblioteca
Nacional de Brasília. Será que dessa vez vai? Diante da distância da
maioria dos poetas em relação ao Brasil, das deficiências de nosso
ensino básico e da falta de bibliotecas escolares e públicas, do
baixíssimo nível de renda da maioria absoluta de nossa população (que
nem pode pensar em comprar livros, mas sim em sobreviver), só se
pode perguntar: como a poesia resiste a tudo isso no Brasil e
sobrevive? Também a mim a questão deixa perplexo.
Vaia
- O “Mais que os Nomes do Nada” não teve ainda uma segunda edição,
porque você espera primeiro lançar o par dele, que é o “Menos que os
Nomes de Tudo”, é isso? Você poderia falar um pouco sobre o “Menos que
os Nomes de Tudo”? Em que sentido os dois livros formarão um par?
A. Curvello -
Sim.
Nossa capacidade de dizer está limitada a um espaço lingüístico entre
mais que os nomes do nada e menos que os nomes de tudo.
Ela não é infinita, como pensam os indigentes de espírito,
mas muito limitada.
Nossa própria vida mental/psicológica/cultural transcorre entre esse
mais e esse menos.
Nós temos muito mais limites do
que julgamos.
E muito mais fronteiras.
Muito mais prisões, como a do idioma.
Muito bem o compreendeu Wittgenstein que sugeriu buscarmos o uso de cada
palavra, e não o seu significado, pois o significado de uma palavra
isolada de seu contexto será sempre falso, ou seja, metafísico. Para uma poética libertária do
ser, não se pode valer-se da linguagem da ilusão, que é a da poesia
metafísica e alienada, quando não nihilista ou individualista.
Tem-se de se valer
de uma nova linguagem, crítica, alerta, aberta, consciente, ainda que
trágica, pois somos seres efêmeros.
Vaia –
Fale sobre a coincidência de que alguns de seus poemas - o caso mais
notório é o do poema “Cezanne” que já foi traduzido para quatro idiomas
-tornarem-se “andarilhos”, pois foram escolhidos para figurar em
várias antologias de poesia brasileira publicadas no Brasil e no
exterior.
A. Curvello -
Sim, é preferível resumir a carta a que você se refere, Fernando. Só lhe
peço que no final acrescente o seguinte:
Sim, talvez o pequeno sucesso de “Cézanne” se deva ao fato de que esse
poema busca dizer a mesma fronteira em que estão o poeta moderno que
tenta criar uma linguagem própria e o artista plástico impressionista (o
Cézanne histórico, criador de uma nova linguagem pictórica, considerado
um dos pais da arte moderna).
É
uma circunstância
hoje comum a todos os países de cultura ocidental. Julgo porém que
tal busca de linguagem interessa sobremaneira à poesia do
Brasil, à literatura brasileira, ao produto brasileiro enfim, pois
necessitamos de personalidade própria, de fatura própria, de griffe
própria.
(* Entrevista
publicada em “Vaia” n. 8, Porto Alegre/RS, abril 2003, pp. 6-7.)
(16 de junho/2007)
CooJornal
no 533