Arlete Moreira dos Reis
 

VIZINHOS

Hoje vamos falar sobre os vizinhos. Todos somos. Qual o nosso relacionamento com eles? Ninguém pode viver sozinho. Isto é ponto pacífico. Então, devemos nos esforçar para manter um relacionamento sadio junto àqueles que nos rodeiam.

Os vizinhos deviam ser amigos uns dos outros, porém, o que se nota a cada dia, é o distanciamento maior entre eles. E isto por quê? - Somos intolerantes com as mínimas ocorrências, só vemos o que os outros fazem e não temos tempo para olhar para nós mesmos, outras vezes, fechamo-nos dentro de nossas carcaças, preocupados com toda essa agitação em busca do sustento para a família, enfim, uma série de fatores nos conduz ao recolhimento.

Devemos procurar o bem estar no meio em que vivemos, a essência das coisas que nos fazem bem. Deixar de dar importância a qualquer motivozinho fútil e nos aborrecer. Assim falo porque a preocupação maior de cada um de nós não está no bom relacionamento e sim:
- nos filhos do vizinho que nos incomodam com os jogos de bola;
- na gritaria das crianças com suas brincadeiras de pique-esconde e pega-ladrão;
- no barulho do acelerador, do carro em frente que o vizinho tenta consertar;
- com o ladrar dos cachorros que muitas vezes afasta o ladrão;
- na festa que foi até de madrugada e não nos deixou dormir.

Tudo isto incomoda. Também estou com vocês, mas, diante de tantos outros problemas mais graves, aos quais presenciamos ou assistimos pela TV, tanta violência, injustiça social, incerteza de podermos saldar nossas obrigações no final do mês, serão as bobagens acima tão incômodas que não possamos suportá-las? - Vejamos:
- Você já pensou que aquela festa que varou madrugada adentro pôde reunir muitos amigos, proporcionar alegria a muita gente e é realizada somente uma vez por ano? - Acho que com um pouquinho de esforço, dá para agüentar.

- O vizinho que contribui para a poluição sonora da qual tentamos fugir, está apenas lutando para economizar um pouco, nestes dias tão difíceis. Ele tenta consertar o defeito e assim não pagar à oficina pelo reparo. Já pensou que amanhã você poderá estar na mesma situação?

-  O barulho das crianças, suas algazarras, será que não podemos nos lembrar da nossa infância, ou será que não a tivemos? - Para evitar neuróticos, violentos, revoltados, deixemos nossas crianças brincar, elas precisam extravasar toda a potencialidade que têm. Se há doente em casa, podemos explicá-las e solicitar delas colaboração. Garanto que entenderão, pois, criança para entender certas coisas é bem melhor do que adultos.

 - O ladrar insistente dos cachorros da vizinha é desagradável aos nossos ouvidos. Já pensou quantas vezes a sua casa deve ter sido poupada pelo ladrão, só porque o latido desses cachorros não o deixou muito à vontade? Enquanto muitos estão pagando vigilantes,você os está tendo de graça!

Se conseguirmos ver as diversas situações por outro lado, estaremos afastando de nós a neurose que nos ronda. Se você não tem filhos e acha que por isso não deve ser incomodado pelas crianças, pense como seria bom tê-los, vendo-os indo e voltando da escola, contando novidades, dando-lhes sustos e também inúmeras alegrias.  Se você entender as crianças que não são suas mas fazem parte da comunidade em que vive, passará a ser mais feliz, porque elas olharão para você com respeito e simpatia. Um pedido seu para elas será uma ordem, você as compreende.

A preocupação exagerada com a vida alheia é outra grave ameaça ao bom convívio com a vizinhança. Se o vizinho bebeu demais, brigou com a mulher, é problema só dele e de sua família, a nós não compete julgar ou divulgar o fato. Se a vizinhança chegou acompanhada de um desconhecido, cedo ou tarde, de carro ou a pé, são fatos que só a ela dizem respeito. A nossa preocupação começa quando um deles está doente, em dificuldades, aí sim, devemos arranjar um meio de ajudá-los.O bom vizinho não é aquele que está todos os dias em nossa casa, tirando nossa privacidade, mas sim aquele que aparece e desaparece na hora certa.

Seria muito bom que existisse mais fraternidade entre nós. Lembrar que, antes de jogarmos a primeira pedra, devemos olhar nosso telhado de vidro. O que criticamos hoje, é justamente o que faremos amanhã, por isso, tentar compreender é sempre melhor do que acusar.

Vamos nos esforçar para viver bem com o nosso próximo, respeitando-o, ajudando-o, para que possamos receber tudo isso de volta, pois, como disse São Francisco de Assis, é dando que recebemos, é perdoando que somos perdoados e é amando, que somos amados.


Arlete Moreira dos Reis
escritora
arletemr@ig.com.br