CooJornal - Revista Rio Total





   
Arlete Moreira dos Reis


APAGÃO

    
Troquei algumas lâmpadas convencionais  por econômicas. Aposentei temporariamente o microondas. O computador, só estará comigo aos sábados. Tenho que economizar energia.

Estou tão indignada quanto todos os brasileiros. O Estado não aplicou recursos na geração de energia elétrica, nem tão pouco na construção das linhas de transmissão que abasteceria o sistema, além disso, cientistas de todo o mundo estão preocupados com a escassez de água no planeta. Se não pouparmos agora, que as hidrelétricas estão ainda com 29% de sua capacidade, de onde vamos tirar água quando nenhuma restar?   O que vai acontecer? É nisso que temos de nos preocupar e deixar a indignação de lado.

Começo a pensar no meu tempo de criança. Vivi o apagão.  Não tinha luz em casa... Não tinha geladeira, microondas, televisão, aparelho de som. Estudava  noite adentro sob a luz do lampião a querosene que esquentava meu rosto e me fazia dormir ao lado dos livros espalhados sobre a mesa.  A noite de luar era a coisa mais linda que se podia assistir e as estrelas eram contadas nos dedos pelos coleguinhas e primos que se reuniam no quintal para inventar suas histórias .

Lembro-me do Jonas, um garoto que adorava contar histórias sobre mulas-sem cabeça  e Saci-Pererê. Depois, os colegas  se recolhiam cheios de medo e Jonas se deliciava. Nos divertíamos trocando figurinhas do Sabonete Eucalol e das balas Rute, ouvindo as histórias dos Três Porquinhos, Branca de Neve e os Sete Anões, João e Maria  e a que eu mais gostava, a do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.

Na luminosidade, cada um pega seu prato e vai comer em frente à televisão. A hora da novela é sagrada, deixa-se tudo de lado. Não vemos mais as estrelas brilharem, não nos reunimos para ouvir histórias inventadas pelos amiguinhos. Não nos emocionamos com a lua cheia que invade de luz cada quintal. E os pirilampos? Acho que poucos tiveram a primazia de assistir  ao chão de estrelas ofertado a nós pelas centenas de vagalumes fazendo sua festa.

Eu assisti a  esse colosso e tenho tanta vontade de revê-lo que no apagão sairei à procura deles, sem muita esperança de encontrá-los, mas como a esperança é a última que  morre, quem sabe alguns sobreviveram  aos desmatamentos, as luzes incandescentes, aos incêndios nas florestas,  provocados por balões?

Aproveite o tempo de racionamento e junte-se a seus filhos. Faça bonecos de papel e os pendure no barbante. Dê nomes a cada um e vamos fazer teatrinho de bonecos, e haja imaginação!  Invente brincadeiras, recorte bonecas no papelão e faça vestidinhos de papel para as meninas as vestirem. Volte a ser criança algumas vezes. É bom demais fazer criança viajar nas histórias. Os olhinhos brilham, as carinhas se modificam e isto só no apagão poderemos conseguir, porque, quando a luz chegar, adeus fantasia, é só video-game, internet, e enlatados que nos enviam para que nossas crianças fiquem à frente da televisão, alienadas, não gostem de ler, nem deixem a imaginação voar.


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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