CooJornal - Revista Rio Total




Arlete Moreira dos Reis


DESARMAR A POPULAÇÃO

Rio de Janeiro e São Paulo, mobilizaram-se para tentar diminuir a violência que ronda a todos nós. Vários setores da sociedade, como o Movimento Viva Rio e outros, foram para a televisão convocar a população à prática da não violência, a entrega das armas mantidas em casa. Os espíritos precisavam ser desarmados.

Num Domingo de sol, no Rio de Janeiro, no belíssimo Parque do Aterro do Flamengo, centenas de armas foram destruídas, num evento que reuniu uma multidão, numa festa de solidariedade à população, no sentido de que a paz volte ao Rio de Janeiro, tornando-a mais Maravilhosa. 

De repente, as autoridades incumbidas de trazer segurança e paz à população, proteção aos carentes, excluídos de tudo, esqueceram completamente da semana de destruição das armas, do pedido de desarmamento ao povo e da paz para a Cidade.
O que se viu em todos os canais de televisão, chocou a quantos assistiram as cenas de violência. Imaginem que alunos do terceiro ano da Academia de Polícia Militar, invadiram a comunidade da Favela da Maré empunhando seus armamentos pesados, numa operação que levava o espectador a pensar que estivéssemos numa guerra.

Os habitantes da favela, entre eles muitas crianças, corriam e gritavam apavorados, sem entender o que estava acontecendo. Adolescentes jogavam pedras nos policiais e uma criança jogou-se dentro de uma vala infecta. Não era uma guerra, era um treinamento dos futuros cadetes para enfrentar situações em favelas. - como se vai fazer um treinamento desses numa comunidade de pessoas carentes, a maioria trabalhadores indefesos, sem qualquer participação em crimes ou tráfico de drogas? E a paz tão propagada pelos dirigentes e pedida aos favelados?

Foi impressionante a frieza dos futuros tenentes empunhando suas pesadas armas, esgueirando-se pelos muros e vielas, atirando com festim. Os moradores em pânico, desconheciam se eram projéteis verdadeiros ou não. Uma futura tenente, perguntada por um repórter como se sentia fazendo aquela simulação de aula prática, com muita calma e frieza disse que estava preparada para aquelas incursões.

Fico a me perguntar: - por quê a favela da Maré foi invadida daquela maneira? Onde estão os direitos humanos e os de cidadania? A mesma incursão seria feita em Ipanema? Nada pode explicar essa prática. Aquele povo pobre, tão massacrado pela miséria, tão marcado pela violência dos bandidos, sofre uma invasão dirigida por autoridade que levou-lhes o terror ao invés da paz.

Como cidadã, fiquei tão chocada vendo as crianças correndo, gritando, e o contingente com armas pesadas apontando e atirando para os diversos barracos, que duvidei de toda essa campanha de desarmamento. Aquela comunidade desvalida sofreu total desrespeito por parte de quem a deveria defender, demonstrando-lhes que há violência sim, principalmente contra eles, que sempre são achados por balas perdidas; será que perdidas mesmo? Deixei de acreditar nisso. 


(julho 2001)


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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