CooJornal - Revista Rio Total




Arlete Moreira dos Reis


A FOME FALA MAIS ALTO

Como gostaria de escrever sobre algo que nos desse alegria, satisfação. Infelizmente, mais uma vez devo alertar as autoridades deste país e a sociedade em geral, para a grave situação em que se encontram os excluídos. Até quando agüentarão pacificamente a fome que os assola e aniquila?
São cinqüenta milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza. Sem moradia, sem alimentos, sem saúde, sem escola, sem identidade, sem cidadania.

As cenas mostradas pela televisão, em pleno século XXI são aterrorizantes. Me deparo com famílias inteiras, em busca de alimentos em meio aos escombros de um incêndio ocorrido no CEASA, há dez dias. Me arrepio e entristeço. Dói ser filha de um país tão rico e ver o povo saqueando o que sobrou do incêndio do Pavilhão 41 do CEASA consumido pelo fogo no dia 21, lá no subúrbio de Irajá. 

Eram mulheres, homens e crianças garimpando alimentos nos 17 boxes, ainda tomados pela fumaça, pondo em risco suas vidas sob uma laje que ameaçava ruir a qualquer momento, enchendo seus carrinhos de feira, sacolas, vasilhames e até carregando nos braços, arroz, feijão, sal, óleo, leite, salsicha e algum eletrodoméstico que achavam ainda, em boas condições, chamuscado pelo fogo.

Soldados da Polícia Militar e seguranças do CEASA assistiam a tudo, sem nada fazer, já que a multidão era grande. A reportagem chegando, entrevistou alguns deles carregando seus alimentos e uma senhora perguntada se sabia sobre o risco para a saúde que aqueles alimentos poderiam trazer para ela e seus filhos, respondeu: A fome fala mais alto. Outra disse: já peguei alimentos de lugar pior, do lixo e de valas. Cortei a parte podre e cozinhei o que sobrou, faço qualquer coisa para não ver as crianças com fome, moço. Prefiro a doença à fome.

Estas frases deviam soar dia e noite nos ouvidos daqueles que prometem em suas campanhas eleitorais acabar com a fome, com a pobreza. A falta de sensibilidade a tudo isso que assistimos é abominável. Muitos projetos são direcionados para a população carente, mas o dinheiro não chega ao seu destino ou então é desviado para outros fins, continuando tudo na mesma.

No outro dia, a população de outras favelas periféricas vêm saquear também. São impedidas pela polícia. A draga começa a destruir o que restou para desespero dos famintos que vêem sacos de arroz, latas de óleo, salsichas, serem esmagadas de roldão. Outros alimentos são jogados numa caçamba de lixo. Os excluídos vão até ela e começam a retirar abóboras inteiras e outras verduras, na esperança de fazerem uma sopa para servir aos filhos que não têm hora para almoçar ou jantar, é quando alguma coisa aparece ou acontece. 

Autoridades e Sociedade pensem rápido e passem à ação. Encontrem urgente, solução para dar a estes brasileiros discriminados, o direito sagrado de poder alimentar seus filhos, dar-lhes educação e poder abrigá-los num teto. Deixemos de arrogância com os fracos e servilismo com os fortes.

(agosto 2001)


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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