CooJornal - Revista Rio Total




Arlete Moreira dos Reis


INVERNO

Hoje, o dia está cinzento. Não chove, ainda. A tarde aproxima-se. O vento frio sopra e zumbe por trás da janela parecendo triste em sua melodiosa canção. Move as palhas dos coqueiros num esplendoroso balé, como se acenando para todos num elegante cumprimento. Toda a vegetação baila sorrindo. Posso visualizar os jardins bem cuidados e a chuva que começa a cair. As velhas amendoeiras despiram-se de suas folhagens e vestem-se agora para a primavera que se aproxima, mostrando-se alegres com a chuva e o vento a exercitarem suas folhas noviças.

Lá ao longe vislumbro o meu querido mar, parecendo um espelho ligeiramente ondulado. Muito cinzento, mas brilhante e inspirador. O mar é sempre um refrigério para o meu espírito. Diante da sua grandeza sinto-me extasiada. Minhas angústias desaparecem na linha do horizonte quando me perco a fitá-lo.

O Pão de Açúcar, envolto pela penumbra das nuvens, está melancólico, ninguém o visita neste dia. Não está acostumado à solidão. Sente a falta dos seus falantes e alegres turistas.

E eu, como estou? - Sinto-me triste. Neste momento há um vazio dentro de mim. Gostaria de, nesta tarde de inverno, quando a chuva e o vento lá fora nos convidam ao recolhimento, deixar esta sala e ir conversar baixinho com alguém que muito amo. Estou só, necessitando de um peito amigo onde pudesse encostar a cabeça e, quem sabe, até dormir na paz de uma amizade simples, terna, compreendida.

Meus pensamentos estão a duzentas milhas. A imaginação tece os melhores momentos que sonharia ter. A chuva e o vento frio me trazem recordações amadas, algumas sofridas, outras que gostaria de reviver. Tudo lá fora convida ao aconchego, a um drinque, a um abraço, ao amor. Amor de se dar sem nada pedir em troca, amor de entrega total.

O inverno começa a se despedir, a primavera logo virá tomar o seu lugar. A tarde está muito romântica para os que encontraram o que buscam: a paz, o amor, a realização como ser. Sombria para os não amados, os incompreendidos, os solitários.

O telefone toca, maldita invenção. Tenho de interromper minhas reflexões e mergulhar na realidade que me cerca. Obrigações do cotidiano, deixando a chuva e o vento para outro encontro casual.


Do Livro Vivências, de Arlete Moreira dos Reis
(agosto 2001)


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm