CooJornal - Revista Rio Total


20/04/2002
Número - 255




Arlete Moreira dos Reis


A MAIOR DEMOCRACIA DO MUNDO!

Cada vez que ligo a televisão para assistir ao noticiário, fico mais decepcionada pela hipocrisia daqueles que alardeiam e exigem a prática da democracia em todo o mundo.

Há dois pesos e duas medidas na conduta desses dominadores que impõem sua força bélica e econômica aos demais países do mundo.

Há alguns meses, assistindo ao noticiário apresentado pelo jornalista Boris Casoy, fiquei deveras surpreendida e indignada com o que o mesmo relatava. O nosso Ministro do Exterior, César Lafer, viajou para os Estados Unidos representando o Brasil numa missão diplomática e, ao desembarcar no aeroporto com autoridades de vários países, sofreu um terrível constrangimento, ou melhor, o Brasil foi desrespeitado, pois era representado por ele. Foi intimado pelos policiais a tirar os sapatos para revista. Foi o único a ser barrado, todos os representantes dos outros países passaram sem ser incomodados.

César Láfer tirou os sapatos para demonstrar que não estava carregando nada que fosse perigoso, escondido neles. O ilustre jornalista comentou, também indignado, que se fosse o Ministro, voltaria imediatamente ao Brasil e não tiraria os sapatos de forma alguma. O Ministro tirou os sapatos na mesma hora porque sabia que, se não o fizesse, seria conduzido algemado para as instalações da polícia americana e passaria por maiores vexames.

Desta vez o noticiário volta a informar que brasileiros com sobrenomes árabes, estão sendo expulsos dos Estados Unidos. Ora, não são terroristas, trabalham, têm o passaporte atualizado e com o devido visto do Consulado Americano. Que discriminação é essa? Que democracia estão vivendo?

Um brasileiro entrevistado conta que foi convidado a gerenciar um restaurante em New York, e que por sete vezes foi àquele país, ficou o tempo necessário e regressou ao Brasil sem nenhum problema. Desta vez, logo ao desembarcar, foi cercado pelos brutos policiais, teve os pés acorrentados e foi levado para um duro interrogatório que durou mais de sete horas. Após o interrogatório, resolveram colocá-lo no mesmo avião para o Brasil, ficando impedido de lá voltar durante cinco anos.

O desrespeito aos brasileiros está latente nessa atitude imperdoável de um país que grita aos quatro ventos ser o maior país democrata do mundo. Com os acontecimento de 11 de setembro ficaram neuróticos e vêem em todos um terrorista em potencial. Esquecem que também praticam o terrorismo quando massacram a economia dos países subdesenvolvidos com a cobrança de dívidas, cobrando juros exorbitantes e levando os povos desses países à miséria, sufocados pelo FMI. Praticam o terrorismo quando se mascaram dizendo estar trabalhando pela paz no Oriente Médio e incentivam Sharon a massacrar o povo árabe em nome de desarticular os terroristas. O mundo assiste a esse genocídio de braços cruzados.

Praticam o terrorismo quando derrubam presidentes eleitos pelo voto popular tão somente por não concordarem com a ingerência de sua política discriminatória e que só visa proteger seus próprios interesses, não se importando com a situação econômica dos outros povos, gerando-lhes a miséria. Na vizinha Venezuela, segundo exportador de petróleo para os EE.UU., embora tenham enviado seus assessores políticos para articularem a derrubada do regime, não deu certo o golpe e voltaram atrás. O presidente da Venezuela assumiu novamente o seu posto. É preciso acompanhar atentamente o cenário político internacional para entender as manobras sórdidas do todo poderoso que ironicamente se denomina a maior democracia do mundo, mas age com mão de ferro sobre os demais países que ousam ir de encontro aos seus interesses.


(20 de abril/2002)



Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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