CooJornal - Revista Rio Total


04/05/2002
Número - 257



Arlete Moreira dos Reis


NINGUÉM É SOGRA POR OPÇÃO

Assídua leitora do escritor João Ubaldo Ribeiro, lendo a crônica intitulada AMADA SOGRINHA, publicada no Jornal O Globo, caderno Opinião, no dia 28 de abril, Dia da Sogra, só posso admitir que seja mesmo gozação desse ilustre escritor.

Ora, Ubaldo, há o dia do soldado, o dia do amigo, o dia da mentira, o dia da criança, o dia do idoso, porque não homenagear as sogras e também criar um dia para elas? Parabenizo ao iluminado parlamentar que instituiu este dia. Já é hora de acabar com o tom pejorativo pelo qual as pessoas se referem às sogras. Elas não escolheram serem sogras, é como parente, você não pode escolhê-los.

Nas ações dos diversos personagens vejo que, o neto que puxa o saco da vovó esperando descolar aquela graninha, na verdade está treinando para tirar dos pais, quando idosos, tudo que puder. Será um daqueles filhos que, esporadicamente, vai visitar os pais e ao chegar, já passa o raio-x em todo o ambiente, procurando algo que lhe interesse para levar. Os velhos, carentes de afetividade dão à visita do filho uma importância que não merece e ficam sem jeito de negar o objeto pretendido, porque o fazendo, temem que ele não volte nunca mais. E então, timidamente dizem: você gostou filho, pode levar.

Quando a vovó diz para a neta que botou um brinco no nariz, que não casaria se soubesse que teria uma neta canibal, ela está cheia de razão. Os jovens se mutilam. Filho meu, enquanto comendo do meu feijão e debaixo do mesmo teto, não coloca brinco, tatuagem e algo mais que apareça na televisão. Os jovens de hoje, com exceções, graças a Deus, são verdadeiros macacos, tudo copiam para chamar a atenção. 

A vovó mais uma vez está certíssima quando rebate a sigla TPM, é mais uma delas que andam por aí, agora tudo é sigla. No tempo da sogrinha, era mesmo cólica menstrual, todos entendiam e a moça recatada, até escondia de todos "aqueles dias" difíceis para algumas. Hoje quando você dá de cara com uma mulher sem educação, mal-humorada, esculachada, que lhe profere palavras de baixo calão, logo diz: ah, ela está com TPM. Veja a diferença de cólica menstrual para TPM, vulgarizou, um problema de saúde serve para qualificar pessoas sem muito trato.

A personagem Ana Paula afirma que deixou o Rogério por causa da sogra. Ela tem vergonha de aceitar que falhou e precisa de um bode expiatório para esconder o fracasso que foi como esposa e mulher. Não estava preparada para assumir os deveres impostos pelo matrimônio e a convivência a dois, nada fácil, onde um e outro tem de se doar, perdoar e amar.

Na verdade, mulher nenhuma perde o seu marido por causa da mãe dele, nem por causa de outra mulher. Quando o casamento acaba, já estava morto há muito tempo, só que o casal finge não entender e, necessário se faz que algum fato mais forte aconteça para a realidade emergir e deixarem de ser hipócritas e assumir o fim da relação.

Meu caro escritor, respondendo à sua pergunta, não há, ainda, divórcio para sogras. Com todo o respeito, haverá um dia em que os causídicos criarão o Divórcio de Sogra e, daí em diante, elas ficarão livres dos genros irresponsáveis, vagabundos, que não proporcionam às suas filhas o mínimo de segurança que toda mulher precisa. As sogras ficarão livres das incumbências que suas noras lhes dão de substituir a babá que não compareceu ao trabalho, de pegar as crianças na escola, de aturar os netos mal educados que os pais não sabem impor limites. Divorciadas, não quebrarão mais o galho ficando com as crianças para os pais se divertirem indo ao cinema, teatro, freqüentarem o happy hours às sextas-feiras, após o expediente.

Com o Divórcio, as sogras viverão suas vidas de forma plena, livres de encargos e obrigações que tiveram por longos anos para criar e educar os filhos e que genros e noras não respeitam e sempre contam com elas para a solução de seus problemas, sejam financeiros ou domésticos, e mais, ficarão livres de tanta ingratidão. 

Como advogada, gostei dessa idéia e a semearei pelos campos onde poderão germinar. Quem sabe, um dia, instituído o Divórcio da Sogra elas poderão ser livres e lembradas com respeito e saudade?


(04 de maio/ 2002)
CooJornal no 257


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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