CooJornal - Revista Rio Total


15/06/2002
Número - 263



Arlete Moreira dos Reis


O PATRIOTISMO BRASILEIRO

Meu Brasil, havia prometido para mim mesma que não ia levantar cedinho, preparar um gostoso café e me sentar em frente à televisão para assistir a Seleção Brasileira jogar seu futebol na Coréia. Não fique triste comigo, sabes o quanto te amo, e é por isso que não queria fazer parte desse patriotismo que acontece com o nosso povo, somente de quatro em quatro anos, justamente durante a Copa do Mundo.

Quero te dizer que constatei o quanto és querido. Fazem qualquer sacrifício por ti, desde que o futebol esteja envolvido. Vejo crianças, jovens e idosos vestindo a camisa com tuas cores. Em cada rosto estampado está um sorriso de esperança, a quase certeza de que a Seleção Brasileira vencerá cada jogo nos campos da Coréia. As ruas, avenidas e praças, todas enfeitadas com as cores azul, branca, verde e amarela.

Não pude cumprir minha promessa, os vizinhos de algumas vilas próximas ao prédio onde moro, iam de casa em casa, acordando uns aos outros, gritando: vamos, é hora, o Brasil vai jogar, levanta pessoal! E como nos quartéis, davam o toque de alvorada soprando uma corneta que, com aquele som estridente, levantava até defunto. Aquilo me comoveu, puxa, eu que te amo tanto, ia ficar de fora? – Não, o sentimento patriótico falou mais alto. Dei um pulo da cama, lavei o rosto depressa, chamei o maridão, preparei nosso lanche e liguei a TV.

Ao ouvir o Hino Nacional, o coração disparou e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Esqueci por alguns momentos todas as mágoas que tenho de meus conterrâneos. Um país como o nosso devia ser respeitado, amado e defendido das garras dos estrangeiros que querem de qualquer maneira nos subjugar, sufocando-nos, se não pelas armas, pelo poder econômico.

Fico pensando, como seria bom a união de teu povo. Como seria bom meu Brasil, se toda essa gente que pendura no carro ou na janela a linda bandeira verde e amarela, que se veste com tuas cores, que junta dinheiro para ir à Coréia assistir aos jogos, como seria bom se tivesse a mesma vontade de te ajudar a vencer os problemas que te criam.

Me perguntas como? – muito fácil meu Brasil.
- Temos milhões de analfabetos. Se cada um desses cidadãos tão entusiasmados com o futebol se preocupassem em alfabetizar uma criança ou um adulto, em pouco tempo não teríamos analfabetos.
- Se cada um que compra uma camisa com as tuas cores, se interessasse em ajudar com esse dinheiro uma família paupérrima oferecendo-lhe uma cesta básica no final do mês, como a fome de teu povo seria debelada.
- Se usassem esse poder de mobilização entre os vizinhos, para em mutirões, limpar a sujeira que jogam nas ruas, nos rios, lagoas, córregos e canais, o país teria um povo com mais saúde.
- Se discutissem em reuniões, a atuação dos políticos, como fazem durante o Futebol, deixariam de votar em corruptos, prestariam mais atenção nos homens que realmente apresentam leis em benefício do povo e não votariam, jamais, naqueles que só sabem criticar e não apresentam suas idéias, entenderiam que fazer oposição sem vivenciar os problemas é facílimo, o difícil é encontrar solução para eles.
- Se cada médico, dentista, psicólogo, advogado, fisioterapeuta e tantas outras profissões liberais, dessem um pouco de seu tempo para dedicar-se gratuitamente aos seus compatriotas carentes, acho que teríamos uma sociedade melhor, sem tanta discriminação social, sem tanta violência.

São tantas as coisas que poderiam ser feitas para te tornar um país melhor, que ficaria aqui escrevendo por horas. São alguns pontos que te mostro só para te dizer que não posso acreditar nesse patriotismo que só aflora durante a Copa do Mundo.

Não acredito no patriotismo de quem grita BRASIL ! BRASIL! e dá as costas para a criança descalça que lhe pede um pão; que lava calçadas com água, quando sabe que esse tesouro escasseia no planeta e os grandes já andam dizendo que não merecemos tê-la por não sabermos usá-la. Não acredito no patriotismo de quem grita BRASIL! e solta balões para queimar tuas florestas. E os candidatos à eleição presidencial Brasil, já parou para pensar? Outro dia falaremos sobre isso.

Desculpe o desabafo, não agüento ver desperdiçado todo esse potencial de mobilização que tem o povo brasileiro, mas que não sabe direcioná-lo para o bem comum desta Nação. Haverá um dia em que se arrependerão de terem sido tão omissos.


(15 de junho/2002)
CooJornal no 263


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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