| Arlete Moreira dos Reis
O PATRIOTISMO BRASILEIRO
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Meu Brasil, havia prometido para mim mesma que não ia levantar
cedinho, preparar um gostoso café e me sentar em frente à televisão
para assistir a Seleção Brasileira jogar seu futebol na Coréia. Não
fique triste comigo, sabes o quanto te amo, e é por isso que não
queria fazer parte desse patriotismo que acontece com o nosso povo,
somente de quatro em quatro anos, justamente durante a Copa do Mundo.
Quero te dizer que constatei o quanto és querido. Fazem qualquer
sacrifício por ti, desde que o futebol esteja envolvido. Vejo
crianças, jovens e idosos vestindo a camisa com tuas cores. Em cada
rosto estampado está um sorriso de esperança, a quase certeza de que a
Seleção Brasileira vencerá cada jogo nos campos da Coréia. As ruas,
avenidas e praças, todas enfeitadas com as cores azul, branca, verde e
amarela.
Não pude cumprir minha promessa, os vizinhos de algumas vilas próximas
ao prédio onde moro, iam de casa em casa, acordando uns aos outros,
gritando: vamos, é hora, o Brasil vai jogar, levanta pessoal! E como
nos quartéis, davam o toque de alvorada soprando uma corneta que, com
aquele som estridente, levantava até defunto. Aquilo me comoveu, puxa,
eu que te amo tanto, ia ficar de fora? – Não, o sentimento patriótico
falou mais alto. Dei um pulo da cama, lavei o rosto depressa, chamei o
maridão, preparei nosso lanche e liguei a TV.
Ao ouvir o Hino Nacional, o coração disparou e uma lágrima escorreu
pelo meu rosto. Esqueci por alguns momentos todas as mágoas que tenho
de meus conterrâneos. Um país como o nosso devia ser respeitado, amado
e defendido das garras dos estrangeiros que querem de qualquer maneira
nos subjugar, sufocando-nos, se não pelas armas, pelo poder econômico.
Fico pensando, como seria bom a união de teu povo. Como seria bom meu
Brasil, se toda essa gente que pendura no carro ou na janela a linda
bandeira verde e amarela, que se veste com tuas cores, que junta
dinheiro para ir à Coréia assistir aos jogos, como seria bom se
tivesse a mesma vontade de te ajudar a vencer os problemas que te
criam.
Me perguntas como? – muito fácil meu Brasil.
- Temos milhões de analfabetos. Se cada um desses cidadãos tão
entusiasmados com o futebol se preocupassem em alfabetizar uma criança
ou um adulto, em pouco tempo não teríamos analfabetos.
- Se cada um que compra uma camisa com as tuas cores, se interessasse
em ajudar com esse dinheiro uma família paupérrima oferecendo-lhe uma
cesta básica no final do mês, como a fome de teu povo seria debelada.
- Se usassem esse poder de mobilização entre os vizinhos, para em
mutirões, limpar a sujeira que jogam nas ruas, nos rios, lagoas,
córregos e canais, o país teria um povo com mais saúde.
- Se discutissem em reuniões, a atuação dos políticos, como fazem
durante o Futebol, deixariam de votar em corruptos, prestariam mais
atenção nos homens que realmente apresentam leis em benefício do povo
e não votariam, jamais, naqueles que só sabem criticar e não
apresentam suas idéias, entenderiam que fazer oposição sem vivenciar
os problemas é facílimo, o difícil é encontrar solução para eles.
- Se cada médico, dentista, psicólogo, advogado, fisioterapeuta e
tantas outras profissões liberais, dessem um pouco de seu tempo para
dedicar-se gratuitamente aos seus compatriotas carentes, acho que
teríamos uma sociedade melhor, sem tanta discriminação social, sem
tanta violência.
São tantas as coisas que poderiam ser feitas para te tornar um país
melhor, que ficaria aqui escrevendo por horas. São alguns pontos que
te mostro só para te dizer que não posso acreditar nesse patriotismo
que só aflora durante a Copa do Mundo.
Não acredito no patriotismo de quem grita BRASIL ! BRASIL! e dá as
costas para a criança descalça que lhe pede um pão; que lava calçadas
com água, quando sabe que esse tesouro escasseia no planeta e os
grandes já andam dizendo que não merecemos tê-la por não sabermos
usá-la. Não acredito no patriotismo de quem grita BRASIL! e solta
balões para queimar tuas florestas. E os candidatos à eleição
presidencial Brasil, já parou para pensar? Outro dia falaremos sobre
isso.
Desculpe o desabafo, não agüento ver desperdiçado todo esse potencial
de mobilização que tem o povo brasileiro, mas que não sabe
direcioná-lo para o bem comum desta Nação. Haverá um dia em que se
arrependerão de terem sido tão omissos.
(15 de
junho/2002)
CooJornal no 263
Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa
arletemr@ig.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm