| Arlete Moreira dos Reis
A SAGA DOS MARINHEIROS
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Há muito que as Forças Armadas estão sendo desmanteladas aos poucos,
devagarinho, para não dar a perceber.
Li num jornal de grande circulação que o Exército está pensando em
fechar os quartéis. As Forças Armadas não estão podendo esconder as
dificuldades que estão enfrentando.
Esposa de militar subalterno, na linguagem militar, praça de pré,
lembro como era difícil a vida de militar, principalmente os da
Marinha de Guerra que não podiam compartilhar com a família de
momentos preciosos desenrolados no lar. Estavam sempre viajando.
As viagens eram freqüentes e tinham a duração de um a dois meses. As
de seis meses meu marido fez por duas vezes. O segundo filho nasceu na
Revolução de 1964 e nem sabia, ele se encontrava de prontidão em alto
mar. Mais tarde, quando o menino estava com oito meses, viajou por
seis meses, ao voltar, o filho chorava e não queria ir para os seus
braços, não conhecia o pai.
Nunca tive marido que me acompanhasse ao médico para uma consulta de
pré-natal, os filhos não tiveram um pai que acompanhasse o seu
crescimento, que escutasse suas histórias escolares. Eu tinha de ser a
mãe e o pai deles. Nos momentos mais difíceis nunca estava presente,
a Pátria estava em primeiro lugar. São passagens que conto para
mostrar o quanto sofre a família de militar, principalmente a de
marinheiro.
O militar, praça de pré, sempre recebeu um salário baixo para a
dedicação integral que dá a Pátria. Desde que ingressa na Caserna, é
doutrinado da seguinte maneira: primeiro Deus, depois a Pátria e em
último lugar a família..
O tempo passou. O Brasil mudou, mas não tanto. As discriminações nos
quartéis ainda continuam e nos hospitais militares também. O soldado,
seja do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica, tem um tratamento
diferenciado do Oficial. Nos países de primeiro mundo é diferente,
todos são tratados igualmente, todos servem à Pátria, não há
distinção.
Depois de trinta anos de serviços prestados à Pátria chegou a reforma.
Colocar o pijama, soldo magro, dificuldades à vista. Os soldos dos
subalternos sofreram um grande achatamento, pois não acompanharam os
aumentos auferidos aos superiores.
Na expectativa de dias melhores com as dificuldades enfrentadas por
todos os brasileiros, surge a Associação Nacional de Assistência ao
Consumidor e Trabalhador-ANACONT, que está impetrando Ação Civil
Coletiva em face da União Federal visando integralização do percentual
de 28,86 e o pagamento das respectivas parcelas atrasadas, em relação
aos servidores públicos militares e pensionistas, nos termos das Leis
7347/85 e 8078/90.
Os interessados teriam de trazer os contra-cheques desde fevereiro de
1998. Daí todos acorreram aos Ministérios respectivos para solicitar
tais documentos, começando então, as dificuldades para o fornecimento
dos comprovantes de pagamento.
Meu marido, como tantos outros, procurou sua unidade e, adivinhem qual
foi o prêmio que recebeu do Ministério da Marinha por ter se dedicado
tanto à Pátria e deixado a família em segundo plano?
Centenas de militares reformados, muitos com mais de sessenta anos,
alguns doentes e deficientes físicos, aguardavam numa fila
interminável o momento de serem atendidos. São distribuídas cinqüenta
senhas. Os demais têm de voltar no dia seguinte. Ele havia saído de
casa às cinco e meia da manhã. Na frente dele havia uma centena de
pessoas, é uma injustiça impor àqueles homens alquebrados, idosos, um
castigo desse. Voltou para casa.
Com 71 anos de idade, arriscou-se mais uma vez. Acostumado aos perigos
dos mares, sentiu-se traído. O patriotismo que o levou a arriscar a
vida tantas vezes pela Pátria, o impulsionou a uma reação. Sentiu-se
enganado pelo que acreditava. Depois de trinta anos de dedicação
exclusiva à Marinha Brasileira, não se deixaria abater.
Resolveu que iria receber a senha sim. Saiu de casa às dez horas da
noite, arriscando mais uma vez a vida nesta cidade violenta do Rio de
Janeiro e foi postar-se em frente à Praça Barão de Ladário para com
todo aquele frio, esperar a madrugada adentrar, o dia amanhecer e o
expediente começar às nove horas da manhã. Foi o primeiro da fila.
Mesmo assim, não ficou alegre. A injustiça estava por todos os lados.
Outros velhos marinheiros não conseguiram e vinham lhe perguntar a que
horas chegou, dentre eles um velhinho com 78 anos de idade e outro
deficiente físico. Eram vizinhos, saíram de Belford Roxo às quatro da
manhã, não conseguiram a senha e teriam de voltar pela terceira vez.
Este é o Brasil. Não respeita seus filhos nem aqueles que sacrificaram
suas famílias pela Pátria. Se é um direito, porque terão de passar por
essa humilhação? Mais uma violência velada, mas continuam clamando por
JUSTIÇA e PAZ.
(27 de
julho/2002)
CooJornal no 269
Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa
arletemr@ig.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm