CooJornal - Revista Rio Total


01/11/2002
Número - 284



Arlete Moreira dos Reis


OS MEANDROS DA JUSTIÇA

O relógio marcava seis e meia da manhã. O sol a tudo iluminava e derramava seus raios sobre o mar. O tráfego fluía normalmente e as pistas de rolamento estavam sem movimento. Dr. Sanches, dirigia-se ao consultório dentário para mais uma semana de atendimento a seus clientes. Ouvia as notícias pelo rádio, quando, de repente, ouviu um forte barulho na traseira de seu carro. Agarrou-se ao volante, o veículo foi jogado fora da pista e com maior velocidade atravessou o canteiro e alcançou a pista contrária indo parar somente numa cerca de arame farpado que encontrou pela frente.

O dentista ficou ali por alguns minutos, inerte, dores terríveis, quando ouviu a sirene dos bombeiros. Recebidos os primeiros socorros foi removido para o Hospital. A causadora do acidentou, uma jovem de dezenove anos, dirigindo um Suzuki em alta velocidade, não o assistiu, retirou-se do local do acidente alegando estar nervosa. O pai da moça apareceu e foi logo dizendo à vítima que sua mulher era juíza e não queria saber de processos contra sua filha, o seguro pagaria o prejuízo do carro.

Com três costelas fraturadas, o dentista ficou internado. O carro sofreu perda total. Depois de quinze dias de ausência, voltou ao consultório no afã de colocar em dia o que ficou para trás com o acidente mas, teve que dispensar os clientes e avisar pelo telefone, a outros, que ainda sofria muitas dores e não podia fazer movimentos com os braços, ficando assim impossibilitado de trabalhar.

Vítima e causadora do acidente foram intimados a comparecer à Delegacia para prestar depoimento quase um mês depois. Dr. Sanches se fez acompanhar de uma advogada e no decorrer do depoimento foi informado pelo policial que a causadora do acidente não atendeu ao chamado para comparecer a Delegacia e prestar seu depoimento. Aguardaria por mais alguns dias e se não viesse daria um telefonema convidando-a a vir à Delegacia.

Dr. Sanches reclamava que não recebeu qualquer atenção de quem lhe causou todo aquele sofrimento, nem do pai dela que, no dia do acidente, deixou com ele o número de vários telefones. Resolveu ligar para o pai da moça. Precisava ser ressarcido dos prejuízos por ter ficado sem trabalhar por quase vinte e quatro dias. O pai lhe informou em tom ameaçador que sua mulher era Juíza e que não queria nenhum processo contra sua filha, a causadora do acidente.

Com a auto-estima abalada e muito constrangido, resolveu ir em busca de seus direitos. Procurou a advogada pedindo-lhe tomar conta do caso. Para tanto, a causídica precisava do laudo do Instituto Médico Legal. Dirigiu-se à Delegacia para solicitar o documento. Lá chegando, encaminharam-na ao Escrivão responsável pelo caso. Com tantas ocorrências diárias, este não se lembrava do assunto, mas ao ouvir o nome das partes, abaixou a cabeça como se estivesse pensando e logo anunciou: - já me lembro. A senhora sabe que a causadora do acidente não veio depor? – Como não? - Liguei para a residência, já que não compareceu ao primeiro convite e a mãe dela atendeu ao telefone. Com arrogância, apresentou-se como Juíza e informou que a filha não comparecerá à Delegacia para fazer qualquer depoimento. – Por que não mandam apanhá-la em casa como fazem com qualquer um que não comparece à intimação de vocês? Doutora, disse o escrivão: - faço disso aqui um meio de vida e não um meio de morte. Não vou contra a Juíza senão eu danço, ela entra em contato com alguma autoridade amiga e me manda para bem longe, transferido.

Que justiça é essa? Perguntou a advogada. Ele disse: - é doutora a senhora deveria conhecer os meandros da Justiça. Ela compreendeu o que o Escrivão queria dizer. A importância que será dada a qualquer delito, dependerá de quem cometeu o crime. Se for um trabalhador, um homem comum, será aplicada a força da Lei, se for amigo ou parente de autoridade, de repente, nem o registro da queixa será feito. É assim que a Justiça é aplicada no nosso país. Indignada a advogada se despediu do escrivão que repetiu,: -Doutora, lembre-se sempre dos meandros da Justiça.

Decepcionada com este episódio, e com tantos outros que assistia pelos meios de comunicação, a advogada em seu trajeto pensava na farsa da sociedade quando convoca a população para clamar por Justiça e Paz. Não podia entender como uma magistrada, podia difundir a impunidade dentro de sua própria família. Como pode julgar os outros se ela mesma age errado?

Se fosse um operário, filho do João da Silva, que não atendesse a intimação, seria arrancado de casa e só Deus sabe o que poderia acontecer com ele. Quando se trata de uma moradora da Barra da Tijuca, filha de uma Juíza, o escrivão tem medo de ser punido desempenhando seu dever, o de intimá-la ou forçá-la a comparecer para depor sobre o acidente que causou com a sua irresponsabilidade, quase matando um dentista de 68 anos que ainda tem prazer em desempenhar sua profissão com dedicação e dignidade.

Diante de tudo isso, a advogada pensava no índio Galdino, queimado por jovens, filhos de famílias influentes em Brasília, que só vão à cadeia para dormir, passam o dia em total liberdade e um deles trabalhando como funcionário público, ganhando um ótimo salário. Nos inúmeros inocentes da periferia que são condenados e jogados dentro das cadeias sem terem cometido delito algum, mas por não terem quem os defenda, sem dinheiro, ficam anos encarcerados. No garçom de Porto Seguro, que no desempenho de suas funções foi morto pela brutal agressão de jovens universitários de Brasília que lá estavam passeando e se perguntava: você acha que alguma coisa mudará? Triste, respondia a si mesma: duvido muito, o símbolo deste país é a IMPUNIDADE traduzida pelo escrivão como Meandros da Justiça, que ela tanto abominava.



(01 de novembro/2002)
CooJornal no 284


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

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