| Arlete Moreira dos Reis
OS MEANDROS DA JUSTIÇA
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O relógio marcava seis e meia da manhã. O sol a tudo iluminava e
derramava seus raios sobre o mar. O tráfego fluía normalmente e as
pistas de rolamento estavam sem movimento. Dr. Sanches, dirigia-se ao
consultório dentário para mais uma semana de atendimento a seus
clientes. Ouvia as notícias pelo rádio, quando, de repente, ouviu um
forte barulho na traseira de seu carro. Agarrou-se ao volante, o
veículo foi jogado fora da pista e com maior velocidade atravessou o
canteiro e alcançou a pista contrária indo parar somente numa cerca de
arame farpado que encontrou pela frente.
O dentista ficou ali por alguns minutos, inerte, dores terríveis,
quando ouviu a sirene dos bombeiros. Recebidos os primeiros socorros
foi removido para o Hospital. A causadora do acidentou, uma jovem de
dezenove anos, dirigindo um Suzuki em alta velocidade, não o assistiu,
retirou-se do local do acidente alegando estar nervosa. O pai da moça
apareceu e foi logo dizendo à vítima que sua mulher era juíza e não
queria saber de processos contra sua filha, o seguro pagaria o
prejuízo do carro.
Com três costelas fraturadas, o dentista ficou internado. O carro
sofreu perda total. Depois de quinze dias de ausência, voltou ao
consultório no afã de colocar em dia o que ficou para trás com o
acidente mas, teve que dispensar os clientes e avisar pelo telefone, a
outros, que ainda sofria muitas dores e não podia fazer movimentos com
os braços, ficando assim impossibilitado de trabalhar.
Vítima e causadora do acidente foram intimados a comparecer à
Delegacia para prestar depoimento quase um mês depois. Dr. Sanches se
fez acompanhar de uma advogada e no decorrer do depoimento foi
informado pelo policial que a causadora do acidente não atendeu ao
chamado para comparecer a Delegacia e prestar seu depoimento.
Aguardaria por mais alguns dias e se não viesse daria um telefonema
convidando-a a vir à Delegacia.
Dr. Sanches reclamava que não recebeu qualquer atenção de quem lhe
causou todo aquele sofrimento, nem do pai dela que, no dia do
acidente, deixou com ele o número de vários telefones. Resolveu ligar
para o pai da moça. Precisava ser ressarcido dos prejuízos por ter
ficado sem trabalhar por quase vinte e quatro dias. O pai lhe informou
em tom ameaçador que sua mulher era Juíza e que não queria nenhum
processo contra sua filha, a causadora do acidente.
Com a auto-estima abalada e muito constrangido, resolveu ir em busca
de seus direitos. Procurou a advogada pedindo-lhe tomar conta do caso.
Para tanto, a causídica precisava do laudo do Instituto Médico Legal.
Dirigiu-se à Delegacia para solicitar o documento. Lá chegando,
encaminharam-na ao Escrivão responsável pelo caso. Com tantas
ocorrências diárias, este não se lembrava do assunto, mas ao ouvir o
nome das partes, abaixou a cabeça como se estivesse pensando e logo
anunciou: - já me lembro. A senhora sabe que a causadora do acidente
não veio depor? – Como não? - Liguei para a residência, já que não
compareceu ao primeiro convite e a mãe dela atendeu ao telefone. Com
arrogância, apresentou-se como Juíza e informou que a filha não
comparecerá à Delegacia para fazer qualquer depoimento. – Por que não
mandam apanhá-la em casa como fazem com qualquer um que não comparece
à intimação de vocês? Doutora, disse o escrivão: - faço disso aqui um
meio de vida e não um meio de morte. Não vou contra a Juíza senão eu
danço, ela entra em contato com alguma autoridade amiga e me manda
para bem longe, transferido.
Que justiça é essa? Perguntou a advogada. Ele disse: - é doutora a
senhora deveria conhecer os meandros da Justiça. Ela compreendeu o que
o Escrivão queria dizer. A importância que será dada a qualquer
delito, dependerá de quem cometeu o crime. Se for um trabalhador, um
homem comum, será aplicada a força da Lei, se for amigo ou parente de
autoridade, de repente, nem o registro da queixa será feito. É assim
que a Justiça é aplicada no nosso país. Indignada a advogada se
despediu do escrivão que repetiu,: -Doutora, lembre-se sempre dos
meandros da Justiça.
Decepcionada com este episódio, e com tantos outros que assistia pelos
meios de comunicação, a advogada em seu trajeto pensava na farsa da
sociedade quando convoca a população para clamar por Justiça e Paz.
Não podia entender como uma magistrada, podia difundir a impunidade
dentro de sua própria família. Como pode julgar os outros se ela mesma
age errado?
Se fosse um operário, filho do João da Silva, que não atendesse a
intimação, seria arrancado de casa e só Deus sabe o que poderia
acontecer com ele. Quando se trata de uma moradora da Barra da Tijuca,
filha de uma Juíza, o escrivão tem medo de ser punido desempenhando
seu dever, o de intimá-la ou forçá-la a comparecer para depor sobre o
acidente que causou com a sua irresponsabilidade, quase matando um
dentista de 68 anos que ainda tem prazer em desempenhar sua profissão
com dedicação e dignidade.
Diante de tudo isso, a advogada pensava no índio Galdino, queimado por
jovens, filhos de famílias influentes em Brasília, que só vão à cadeia
para dormir, passam o dia em total liberdade e um deles trabalhando
como funcionário público, ganhando um ótimo salário. Nos inúmeros
inocentes da periferia que são condenados e jogados dentro das cadeias
sem terem cometido delito algum, mas por não terem quem os defenda,
sem dinheiro, ficam anos encarcerados. No garçom de Porto Seguro, que
no desempenho de suas funções foi morto pela brutal agressão de jovens
universitários de Brasília que lá estavam passeando e se perguntava:
você acha que alguma coisa mudará? Triste, respondia a si mesma:
duvido muito, o símbolo deste país é a IMPUNIDADE traduzida pelo
escrivão como Meandros da Justiça, que ela tanto abominava.
(01 de
novembro/2002)
CooJornal no 284
Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa
arletemr@ig.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm