Lá se vão cinqüenta anos. O
colégio Instituto Central do Povo, comemorou seus noventa e nove anos de
existência. Os ex-alunos, professores e diretores se encontraram num ambiente
agradável onde muitos retrocederam no tempo e voltaram à adolescência
inquietante, alegre e feliz. Como foi bom ter estudado nesse colégio. Quanta
coisa boa aprendemos para toda a vida. Não só os ensinamentos morais e
religiosos, mas também a prática dos esportes para nosso condicionamento
físico, as aulas de economia doméstica nos ensinando a ser econômicos,
culinária, como dirigir uma casa, a marcenaria para pequenos reparos, o tricô,
bordado e crochê. Eram tantas as atividades que passávamos mais tempo no
colégio do que em casa. Isso era prazeroso. Os alunos conheciam as famílias
uns dos outros, freqüentavam suas casas, estudavam juntos, trocando
conhecimentos. O companheirismo era incentivado na escola. Nas férias de fim
de ano, iam acampar com o colégio, continuando assim a relação entre alunos e
professores, a amizade, o respeito, a admiração, o que fortalecia a vontade do
aluno estudar, progredir, ser alguém na vida.
Chego ao portão principal, Vanda Piauí, colega de turma me acompanha,
avistamos uma senhora saindo de um táxi, lourinha, olhos verdes, continuava a
mesma. Pessoa amável, daquelas que você olha e já gosta. Era Dna. Lucy
Ribeiro, nossa professora de matemática no ginasial. Sorrimos, nos
cumprimentamos e subimos as três pelas escadas e rampa de acesso à secretaria.
Olho para a direita e vejo as palmeiras altaneiras. Tinha apenas quatorze anos
de idade e lembro com que entusiasmo minha turma plantou uma das mudas de
palmeira imperial. Cada um jogou uma pá de terra adubada no buraco, enquanto a
Profª Mary a segurava pelo caule. Quantas lembranças queridas! Passaram-se
cinqüenta anos. Meus olhos se encheram de lágrimas de saudade mas também de
alegria pela oportunidade de rever muito daqueles professores e colegas
queridos. Cada um devia ter a sua história para contar, suas vivências, seu
aprendizado pela estrada da vida e muitas recordações dos tempos vividos no
Instituto Central do Povo.
Cheguei ao salão da secretaria, sorri para os que lá estavam tentando
reconhecer cada rosto ali presente. Neste instante entra uma senhora amparada
por um casal. A reconheci. Dona Eunice, nossa diretora do primário, austera,
disciplinada, impunha-nos rigor nos uniformes, sapatos bem engraxados, postura
ao cantar o hino nacional.
Aproximei-me e a chamei pelo nome. Olhou-me procurando lembrar-se, apressei-me
na apresentação dizendo-lhe que toda aquela disciplina imposta a nós quando
meninos, nos ajudou muito pelos caminhos da vida.
Estava com 98 anos de idade e com seus familiares, todos falecidos, morava num
residencial para idosos no Hospital do Amparo no Rio Comprido. O senhor que a
ajudava, acompanhado da esposa, sorridente, me fez lembrar o estudante que
usava um topete, era galanteador, bonito, e as meninas suspiravam por ele.
Pronto, lembrei-me, era o Nelson, o galã das estudantes secundárias, todas
queriam namorá-lo. Me apresentei, nos abraçamos e lhe disse o quanto estava
feliz em revê-lo, mais ainda pela atenção que dedicava a nossa diretora
Dna.Eunice Oliveira. Conversei um pouco com ela, prometi fazer-lhe uma visita.
Ao lado, quem encontro? As irmãs Rute Ferreira e Noemi, professoras de desenho
e matemática, respectivamente. Que abraço ! Que alegria! Todos juntos naquele
momento de confraternização, Profª Núncia, Profª Lucy Ribeiro, Prof. Edgard e
sua esposa Dona Rute. Quantas tortas eu saboreei na casa deles. Às
quartas-feiras era dia de torta, e me diziam: Arlete, vá lá em casa comer um
pedaço de “pie” com meus filhos. Era assim o ambiente do colégio. Tão
diferente do de hoje. Entreguei-lhes um exemplar de cada um dos meus livros
intitulados, Sentimentos e Vivências, ficaram orgulhosos de ter uma ex-aluna,
menina pobre, nascida e criada no Morro da Providência, poetisa e escritora.
Eu, mais feliz ainda por terem eles grande participação no meu sucesso.
Formei-me em Letras e Direito. Os ensinamentos no ICP ministrados, ajudaram em
muito na minha formação e nunca esqueci dos meus mestres. Procurei pelos
professores Jarbas e Napoleão, não os encontrei.
Preparo-me para comemorar com todos o centenário do Colégio. Fui convidada
pelo Prof. Mário Way a escrever uma poesia comemorativa para este dia. É uma
difícil tarefa, mas vou enfrentar o desafio de colocar no papel toda a emoção
desses cem anos de participação do Colégio na vida dos alunos e comunidades
dos bairros pobres da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Até o centenário ICP!
(28 de janeiro/2005)
CooJornal
no 461