28/01/2006
Número - 461

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



Voltando à adolescência

 

Lá se vão cinqüenta anos. O colégio Instituto Central do Povo, comemorou seus noventa e nove anos de existência. Os ex-alunos, professores e diretores se encontraram num ambiente agradável onde muitos retrocederam no tempo e voltaram à adolescência inquietante, alegre e feliz. Como foi bom ter estudado nesse colégio. Quanta coisa boa aprendemos para toda a vida. Não só os ensinamentos morais e religiosos, mas também a prática dos esportes para nosso condicionamento físico, as aulas de economia doméstica nos ensinando a ser econômicos, culinária, como dirigir uma casa, a marcenaria para pequenos reparos, o tricô, bordado e crochê. Eram tantas as atividades que passávamos mais tempo no colégio do que em casa. Isso era prazeroso. Os alunos conheciam as famílias uns dos outros, freqüentavam suas casas, estudavam juntos, trocando conhecimentos. O companheirismo era incentivado na escola. Nas férias de fim de ano, iam acampar com o colégio, continuando assim a relação entre alunos e professores, a amizade, o respeito, a admiração, o que fortalecia a vontade do aluno estudar, progredir, ser alguém na vida.

Chego ao portão principal, Vanda Piauí, colega de turma me acompanha, avistamos uma senhora saindo de um táxi, lourinha, olhos verdes, continuava a mesma. Pessoa amável, daquelas que você olha e já gosta. Era Dna. Lucy Ribeiro, nossa professora de matemática no ginasial. Sorrimos, nos cumprimentamos e subimos as três pelas escadas e rampa de acesso à secretaria. Olho para a direita e vejo as palmeiras altaneiras. Tinha apenas quatorze anos de idade e lembro com que entusiasmo minha turma plantou uma das mudas de palmeira imperial. Cada um jogou uma pá de terra adubada no buraco, enquanto a Profª Mary a segurava pelo caule. Quantas lembranças queridas! Passaram-se cinqüenta anos. Meus olhos se encheram de lágrimas de saudade mas também de alegria pela oportunidade de rever muito daqueles professores e colegas queridos. Cada um devia ter a sua história para contar, suas vivências, seu aprendizado pela estrada da vida e muitas recordações dos tempos vividos no Instituto Central do Povo.

Cheguei ao salão da secretaria, sorri para os que lá estavam tentando reconhecer cada rosto ali presente. Neste instante entra uma senhora amparada por um casal. A reconheci. Dona Eunice, nossa diretora do primário, austera, disciplinada, impunha-nos rigor nos uniformes, sapatos bem engraxados, postura ao cantar o hino nacional.

Aproximei-me e a chamei pelo nome. Olhou-me procurando lembrar-se, apressei-me na apresentação dizendo-lhe que toda aquela disciplina imposta a nós quando meninos, nos ajudou muito pelos caminhos da vida.

Estava com 98 anos de idade e com seus familiares, todos falecidos, morava num residencial para idosos no Hospital do Amparo no Rio Comprido. O senhor que a ajudava, acompanhado da esposa, sorridente, me fez lembrar o estudante que usava um topete, era galanteador, bonito, e as meninas suspiravam por ele. Pronto, lembrei-me, era o Nelson, o galã das estudantes secundárias, todas queriam namorá-lo. Me apresentei, nos abraçamos e lhe disse o quanto estava feliz em revê-lo, mais ainda pela atenção que dedicava a nossa diretora Dna.Eunice Oliveira. Conversei um pouco com ela, prometi fazer-lhe uma visita. Ao lado, quem encontro? As irmãs Rute Ferreira e Noemi, professoras de desenho e matemática, respectivamente. Que abraço ! Que alegria! Todos juntos naquele momento de confraternização, Profª Núncia, Profª Lucy Ribeiro, Prof. Edgard e sua esposa Dona Rute. Quantas tortas eu saboreei na casa deles. Às quartas-feiras era dia de torta, e me diziam: Arlete, vá lá em casa comer um pedaço de “pie” com meus filhos. Era assim o ambiente do colégio. Tão diferente do de hoje. Entreguei-lhes um exemplar de cada um dos meus livros intitulados, Sentimentos e Vivências, ficaram orgulhosos de ter uma ex-aluna, menina pobre, nascida e criada no Morro da Providência, poetisa e escritora. Eu, mais feliz ainda por terem eles grande participação no meu sucesso. Formei-me em Letras e Direito. Os ensinamentos no ICP ministrados, ajudaram em muito na minha formação e nunca esqueci dos meus mestres. Procurei pelos professores Jarbas e Napoleão, não os encontrei.

Preparo-me para comemorar com todos o centenário do Colégio. Fui convidada pelo Prof. Mário Way a escrever uma poesia comemorativa para este dia. É uma difícil tarefa, mas vou enfrentar o desafio de colocar no papel toda a emoção desses cem anos de participação do Colégio na vida dos alunos e comunidades dos bairros pobres da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Até o centenário ICP!




(28 de janeiro/2005)
CooJornal no 461


Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor.
Reside atualmente na Suécia.
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