11/02/2006
Número - 463

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



SOLIDARIEDADE AINDA EXISTE

 

O telefone toca.
- Amiga, como vai você? Está melhor?

Era Vanda Piauí, contemporânea dos bancos escolares, preocupada com meu estado de saúde. Há poucas semanas sofri uma cirurgia não programada que preocupou a todos os amigos. Passado o susto, quase recuperada, começamos a conversar e quis saber do estado de saúde do marido dela .

A amiga desenrolou sua angústia, seu desânimo, pois, mesmo com toda a dedicação não consegue notar melhoras no estado de saúde dele. Disse-me estar muito deprimida e isso piorou em muito seu grau de diabetes tendo ficado uma noite no Hospital Marcílio Dias com glicemia altíssima. Estava desencantada da vida. Pobre amiga, sempre tão alegre, brincalhona, precisava de apoio. Prometi visitá-la no outro dia, aproveitando minha ida ao Rio para consulta médica. Assim o fiz.

A porta do apartamento já se encontrava aberta, esperando-me, pois, havia ligado dizendo-lhe que estava chegando. – Oi, estou entrando! Logo aparece Vanda, me dá um abraço tão apertado e diz: - como é bom te ver! Conversamos, foi-me servido um suco de maracujá, mostrei-lhe meus exames, o resultado da biópsia. Ela contou-me da sua decepção com a vida, e eu lhe disse que não ficasse assim, era a sua missão. Esses altos e baixos são provações pelas quais temos de passar e pedir a Deus que nos segure pelas mãos e nos dê forças para continuar na caminhada. Ela sorriu, não consegui convencê-la, mas me pareceu menos ansiosa.

Me despeço e pego o ônibus de volta ao centro, em direção ao Terminal Menezes Cortes, rumo a Maricá. Aperto a campainha para que o ônibus pare na Av. Rio Branco esquina com Assembléia. Mais duas pessoas estão à minha frente. Quando estou prestes a desembarcar, o guarda municipal apita para o motorista e este, sem prestar atenção nos passageiros que estavam saltando, fecha a porta e arranca com o ônibus. Eu estava com um pé suspenso em direção ao asfalto, a porta me jogou para fora do ônibus e caí de costas, bati primeiro com o cóccix e depois com a cabeça.

Um homem de aproximadamente 40 anos levantou-me, perguntou se estava bem, se queria que ligasse para alguém da família, atravessou comigo a avenida segurando meu braço, levou-me à lanchonete para tomar um copo de água mineral e não parava de perguntar se eu estava me sentindo bem. Eu afirmava que estava tudo bem, com um pouco de dor, que era muita, e que iria pegar o ônibus para Maricá. Ele me deu seu cartão e disse-me : - Se precisar de alguma coisa, pode ligar. Era um jovem homem, bonito, bem vestido, passava confiança, e pensando nele, impressionada com a atenção que me prestou, já dentro do ônibus para Maricá, tirei o cartão da bolsa e li: Estebam Kowalicezer, Promotor de Justiça, parecia um anjo protetor, parecia um filho. Obrigada Doutor, pela solidariedade.


(11 de fevereiro/2006)
CooJornal no 463


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm