18/02/2006
Número - 464

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



 Sem um tostão

 

Já passava da meia-noite. Geraldo continuava sentado no sofá apoiando nas mãos a cabeça, olhar perdido, expressão muito triste. Precisava ir ao médico, logo desiste da idéia. Como pagar a consulta? O salário mínimo não lhe dá condições. Ir ao INSS era a única solução, madrugaria na fila para tentar uma senha. Como o sono não chegava e os problemas não o deixavam relaxar, Geraldo resolveu ligar a televisão para assistir ao noticiário.

- Meu Deus! resmungou ele incrédulo do que estava ouvindo. Um cidadão ao ser revistado no momento do embarque foi flagrado transportando tanto dinheiro numa mala que daria para resolver todos os problemas de Geraldo e muitos outros Geraldos deste Brasil. A seguir o repórter noticia que além dos duzentos e cinqüenta mil reais o homem trazia dentro da cueca mais cem mil dólares. Geraldo deu um salto do sofá, disse um palavrão e continuou falando sozinho: - Eu, desgraçado, já não durmo há duas noites pensando como irei pagar as dívidas que contraí, prejudicadas mais ainda com o empréstimo que fiz por telefone ao Banco ”bonzinho” que quer ajudar aos aposentados e esse sujeito levando tanto dinheiro sei lá para quem e para aonde.

Geraldo havia se modificado. Era fanático pelo PT. Antes, alegre, comunicativo, não deixava de lembrar aos amigos que o Brasil iria mudar, os pobres teriam vez. De uns tempos para cá andava cabisbaixo, cortava caminho para não encontrar os amigos e vizinhos, alguma coisa havia mudado dentro dele. Era o desgosto de entender o quanto foi enganado.. Assim, fugia, tinha vergonha de encontrar os amigos, que não o poupavam com críticas aos políticos que ele tanto defendia.

Nesta semana, Geraldo assistia ao noticiário, e não se conteve. Gritou por Joelma, sua mulher e disse:
- Venha ouvir o que estão falando na televisão mulher! – Além de todo o escândalo que se abateu sobre o País, estou estarrecido e envergonhado com tanta humilhação. Como se não bastassem o desemprego que arruinou milhares de famílias, o salário mínimo que ia dobrar e ficou só na promessa, a fome zero que foi para o espaço, o presidente diz aos seus correligionários que nada deverá fazê-los abaixar a cabeça e que, errar é humano, nenhum dos companheiros deverá ser execrado pelos erros cometidos.

- Você não me ouviu, eu disse que mais cedo ou mais tarde eles se revelariam. Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder, já dizia papai.

- Mulher, eu acreditei. O povão jogou todas as fichas nesse governo. Se arrependimento matasse, você já seria viúva. Eu doente, sem um tostão no bolso, devendo a faculdade da filha desempregada e o dinheiro da Nação jorrando nos bolsos dos maus políticos e seus amigos. Não há verbas para melhorar as estradas, a saúde, educação, habitação, mas para Valerioduto, Mensalão, Mensalinho e marqueteiro, sobram. Estão deitando e rolando, é um salve-se quem puder! Sem nenhum pudor, de cara limpa, dizer que errar é humano, diante dos escândalos que abalaram todo o País, é mesmo que ter anunciado para toda a Nação a Medida Provisória da IMPUNIDADE. Só Deus para salvar este Povo. Mais uma vez Geraldo perdeu o sono.



(18 de fevereiro/2006)
CooJornal no 464


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm