25/02/2006
Número - 465

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



Olá querido Brasil!

 

Recebi tuas mensagens e não as respondi porque estava muito aborrecida, indignada e, nestes momentos não consigo segurar a emoção. Hoje senti vontade de entrar em contato contigo para juntos avaliarmos a situação caótica em que nos encontramos.

Por certo tens acompanhado pela imprensa escrita e falada os novos personagens que surgiram no cenário político: mensalinho, mensalão, Valerioduto e sua gangue. Estás rindo? – é muito sério! - Ah, é de nervoso, entendo, às vezes também acontece comigo. – Diante de provas irrefutáveis, o dirigente do País vem à televisão minimizar a crise política e dizer que isso tudo não passa de ato para desestabilizar o governo, seu partido e a sua reeleição. Não há mensalinho nem mensalão. Diante dessa afirmação todo o Povo está pasmo com a desenvoltura teatral do presidente. Diz que a situação econômica do país nunca esteve tão boa, o superávit batendo recorde e o povo tendo a renda aumentada e o emprego de volta. Meu Deus, é de enfartar. – Será que o Povo, mesmo assim, o reelegerá?

Vemos a miséria mais presente a cada dia no teu território. O desemprego assolando os lares brasileiros, as pessoas cabisbaixas pelas ruas pensando como conseguir alguma coisa para levar para os filhos, a violência desenfreada causada pelo caos social em que nos encontramos e o titular do país alardeando que está tudo uma maravilha, defendendo o indefensável, enganando as pessoas de bem. O político lesa os cofres públicos em milhões e tudo é normal, foi para a campanha de eleição, sempre existiu caixa dois, afirma o presidente. O miserável furta um pão, vai mofar na infecta cadeia onde cabem vinte e estão cento e oitenta. Povo Feliz!. Quais as providências tomadas pelo Poder Executivo para melhorar esse quadro? - Nenhuma! Quando o povo se revolta e comete algum desatino, queima ônibus, fecha estrada, o contingente policial chega e acaba com a festa lançando bombas de efeito moral e muitas vezes atirando mesmo, pegue em quem pegar, mate ou aleije. É preocupante esta situação. Quando o dono do mundo o elogia, é porque nada está indo bem para nós, para os EE.UU. sim. – O quê adianta termos todos os meses excelente superávit? –Nada sobra para o país. Nossas divisas são desviadas para pagar os juros da dívida que não temos, já foi paga há muito tempo. Não há verbas para equipar os hospitais, criar mais leitos para atender a população e contratar através de concursos, médicos e equipes de apoio. As escolas? – caindo aos pedaços. Crianças andando quilômetros para receber o aprendizado básico, já que os professores não têm apoio do Ministério da Educação para reciclarem seus conhecimentos. Falo aqui em apoio aos professores, porque, como professora, sei o quanto é importante fazer cursos para levar aos alunos maneiras mais interessantes de aprendizado, mas, se muito dos professores têm que ir para as escolas improvisadas no lombo de um burro, andar quilômetros a pé e dar aulas até debaixo de árvores, o quê esperar do governo? É triste ver um país de tantas riquezas apresentar um quadro idêntico às nações mais pobres do mundo. De Gaulle disse que o Brasil não é um país sério. Ele errou nesta afirmativa, equivocou-se ao ofender-te assim. Sério és, irresponsáveis são os teus governantes que massacram o teu Povo para enviar nossas riquezas para os países ricos deixando-nos como há quinhentos anos, colônia de Portugal, mas agora, de todos os países da Europa e particularmente, dos Estados Unidos da América do Norte.

A Amazônia? –Soubeste do que está acontecendo? Está sendo loteada para diversos países que há muito estão de olho nas nossas imensas riquezas. O desmatamento desenfreado causou uma seca comparada a do nordeste. São para chorar as imagens mostradas nos noticiários. Os afluentes do Rio Amazonas completamente secos e sobre seus leitos ressecados, carcaças de peixes e jacarés.

O Pantanal? – Já chegaram lá também. Estão articulando a construção de uma usina e com isso acabar com a fauna tão exuberante naquele santuário ecológico.

Com todas essas notícias, como o brasileiro pode sentir orgulho de ter nascido aqui?

-Desculpe meu querido Brasil, mas não dá para enganar a si mesmo. É frustrante demais ver tanta miséria, tanto roubo, tanto desmando, tanta falta de vergonha dos parlamentares e ficar rindo como se nada estivesse acontecendo.

Temo pelo futuro, temo pelas crianças que estão começando a vida, o quê será delas, que futuro deixaremos para nossos filhos e netos? Isto me preocupa muito Brasil. Meu único alento são a tua beleza e a hospitalidade do teu povo, incomparáveis em todo o mundo.



(25 de fevereiro/2006)
CooJornal no 465


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm