Recebi tuas mensagens e não as
respondi porque estava muito aborrecida, indignada e, nestes momentos não
consigo segurar a emoção. Hoje senti vontade de entrar em contato contigo para
juntos avaliarmos a situação caótica em que nos encontramos.
Por certo tens acompanhado pela imprensa escrita e falada os novos personagens
que surgiram no cenário político: mensalinho, mensalão, Valerioduto e sua
gangue. Estás rindo? – é muito sério! - Ah, é de nervoso, entendo, às vezes
também acontece comigo. – Diante de provas irrefutáveis, o dirigente do País
vem à televisão minimizar a crise política e dizer que isso tudo não passa de
ato para desestabilizar o governo, seu partido e a sua reeleição. Não há
mensalinho nem mensalão. Diante dessa afirmação todo o Povo está pasmo com a
desenvoltura teatral do presidente. Diz que a situação econômica do país nunca
esteve tão boa, o superávit batendo recorde e o povo tendo a renda aumentada e
o emprego de volta. Meu Deus, é de enfartar. – Será que o Povo, mesmo assim, o
reelegerá?
Vemos a miséria mais presente a cada dia no teu território. O desemprego
assolando os lares brasileiros, as pessoas cabisbaixas pelas ruas pensando
como conseguir alguma coisa para levar para os filhos, a violência desenfreada
causada pelo caos social em que nos encontramos e o titular do país alardeando
que está tudo uma maravilha, defendendo o indefensável, enganando as pessoas
de bem. O político lesa os cofres públicos em milhões e tudo é normal, foi
para a campanha de eleição, sempre existiu caixa dois, afirma o presidente. O
miserável furta um pão, vai mofar na infecta cadeia onde cabem vinte e estão
cento e oitenta. Povo Feliz!. Quais as providências tomadas pelo Poder
Executivo para melhorar esse quadro? - Nenhuma! Quando o povo se revolta e
comete algum desatino, queima ônibus, fecha estrada, o contingente policial
chega e acaba com a festa lançando bombas de efeito moral e muitas vezes
atirando mesmo, pegue em quem pegar, mate ou aleije. É preocupante esta
situação. Quando o dono do mundo o elogia, é porque nada está indo bem para
nós, para os EE.UU. sim. – O quê adianta termos todos os meses excelente
superávit? –Nada sobra para o país. Nossas divisas são desviadas para pagar os
juros da dívida que não temos, já foi paga há muito tempo. Não há verbas para
equipar os hospitais, criar mais leitos para atender a população e contratar
através de concursos, médicos e equipes de apoio. As escolas? – caindo aos
pedaços. Crianças andando quilômetros para receber o aprendizado básico, já
que os professores não têm apoio do Ministério da Educação para reciclarem
seus conhecimentos. Falo aqui em apoio aos professores, porque, como
professora, sei o quanto é importante fazer cursos para levar aos alunos
maneiras mais interessantes de aprendizado, mas, se muito dos professores têm
que ir para as escolas improvisadas no lombo de um burro, andar quilômetros a
pé e dar aulas até debaixo de árvores, o quê esperar do governo? É triste ver
um país de tantas riquezas apresentar um quadro idêntico às nações mais pobres
do mundo. De Gaulle disse que o Brasil não é um país sério. Ele errou nesta
afirmativa, equivocou-se ao ofender-te assim. Sério és, irresponsáveis são os
teus governantes que massacram o teu Povo para enviar nossas riquezas para os
países ricos deixando-nos como há quinhentos anos, colônia de Portugal, mas
agora, de todos os países da Europa e particularmente, dos Estados Unidos da
América do Norte.
A Amazônia? –Soubeste do que está acontecendo? Está sendo loteada para
diversos países que há muito estão de olho nas nossas imensas riquezas. O
desmatamento desenfreado causou uma seca comparada a do nordeste. São para
chorar as imagens mostradas nos noticiários. Os afluentes do Rio Amazonas
completamente secos e sobre seus leitos ressecados, carcaças de peixes e
jacarés.
O Pantanal? – Já chegaram lá também. Estão articulando a construção de uma
usina e com isso acabar com a fauna tão exuberante naquele santuário
ecológico.
Com todas essas notícias, como o brasileiro pode sentir orgulho de ter nascido
aqui?
-Desculpe meu querido Brasil, mas não dá para enganar a si mesmo. É frustrante
demais ver tanta miséria, tanto roubo, tanto desmando, tanta falta de vergonha
dos parlamentares e ficar rindo como se nada estivesse acontecendo.
Temo pelo futuro, temo pelas crianças que estão começando a vida, o quê será
delas, que futuro deixaremos para nossos filhos e netos? Isto me preocupa
muito Brasil. Meu único alento são a tua beleza e a hospitalidade do teu povo,
incomparáveis em todo o mundo.
(25 de fevereiro/2006)
CooJornal
no 465