Nunca a profissão de caseiro
esteve tão em alta. O caseiro é aquela pessoa que está no dia-a-dia de seus
patrões, vendo, ouvindo e muitas vezes participando de tudo que acontece na
casa onde é o responsável pela organização, limpeza, enfim, cuidados.
Quem poderia imaginar que um caseiro derrubaria o Ministro da Fazenda Palloci?
Ele parecia intocável, nada o atingia, por mais que fossem contundentes as
acusações, os depoimentos. O homem forte do Presidente continuava firme no seu
lugar, nada o destituía. Diante das acusações que lhe faziam, com aquele jeito
tranqüilo, não se abalava. Essa postura gerou o comentário de que os médicos
não se abalam com a morte de seus pacientes e, assim, o médico Palloci
mantinha o sangue frio diante de tanta acusação, não se deixava abater.
Quando estava tudo calmo, parecendo que mais uma pizza sairia quentinha,
pronta para ser consumida, surge um humilde caseiro, que ao ser indagado sobre
a presença do ministro na casa onde ele trabalhava, afirmou tê-lo visto várias
vezes no recinto. Caiu como uma bomba essa afirmação, já que desmentia
categoricamente o Ministro que jurou de pés juntos que jamais esteve naquela
casa. Alguma coisa teria de ser feita para derrubar o caseiro e, assim,
pensaram numa estratégia: alguém estaria pagando ao caseiro para que
confirmasse a presença do Ministro, e agiriam rápido para dar uma resposta à
sociedade. Enquanto o caseiro depunha na Polícia Federal, entraram no sistema
da Caixa Econômica e violaram o sigilo bancário do caseiro. Encontraram
importância alta depositada na conta do rapaz. Quem sabe encontraram o que
procuravam para desmoralizar o caseiro. Acontece que o rapaz, filho de um
empresário do Piauí, recebeu do pai, como forma de amenizar a culpa por não
poder reconhecê-lo, oficialmente, como filho biológico, por motivos
familiares, a quantia de vinte e cinco mil reais. Feito o levantamento, ouvido
o empresário e confirmado que o mesmo depositara para seu filho bastardo
aquela importância, não houve como se safar do caseiro. Ao invés de minorar a
situação, a coisa complicou-se, e muito. Praticou-se um crime gravíssimo, a
invasão da conta bancária de um cidadão brasileiro, o que só pode ser
praticado com ordem judicial. O escândalo chocou a todo o país. Agora não
tinham saída, o que dizer à sociedade? O sigilo bancário não existe mais,
dependendo de quem você se meta? Ficou insustentável a situação. Cometeram um
crime contra a Constituição Brasileira. E o caseiro ao ser ouvido disse com
aquela voz pausada: eu gostaria que eles quebrassem o sigilo do meu título de
eleitor para saber em quem eu votei, votei num trabalhador. Veja a sutileza da
resposta do caseiro. É como se ele dissesse: fui enganado, mentiram para mim,
acreditei no trabalhador e me apunhalam, quebraram a minha confiança.
O episódio tomou proporções catastróficas para o governo e outro remédio não
teve senão o Ministro Palloci pegar seu chapéu e tomar outro rumo. O caseiro
continuou sua trajetória simples e, ao ser homenageado pela OAB de São Paulo,
que lhe agradeceu pelo serviço prestado ao país, levou todos ao riso farto
quando disse: chutei o balde! ao mesmo tempo, muito sério, falou: estão
sujando a bandeira do trabalhador!
(01 de abril/2006)
CooJornal
no 470