01/04/2006
Número - 470

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



FRANCENILDO, O CASEIRO

 

Nunca a profissão de caseiro esteve tão em alta. O caseiro é aquela pessoa que está no dia-a-dia de seus patrões, vendo, ouvindo e muitas vezes participando de tudo que acontece na casa onde é o responsável pela organização, limpeza, enfim, cuidados.

Quem poderia imaginar que um caseiro derrubaria o Ministro da Fazenda Palloci? Ele parecia intocável, nada o atingia, por mais que fossem contundentes as acusações, os depoimentos. O homem forte do Presidente continuava firme no seu lugar, nada o destituía. Diante das acusações que lhe faziam, com aquele jeito tranqüilo, não se abalava. Essa postura gerou o comentário de que os médicos não se abalam com a morte de seus pacientes e, assim, o médico Palloci mantinha o sangue frio diante de tanta acusação, não se deixava abater.

Quando estava tudo calmo, parecendo que mais uma pizza sairia quentinha, pronta para ser consumida, surge um humilde caseiro, que ao ser indagado sobre a presença do ministro na casa onde ele trabalhava, afirmou tê-lo visto várias vezes no recinto. Caiu como uma bomba essa afirmação, já que desmentia categoricamente o Ministro que jurou de pés juntos que jamais esteve naquela casa. Alguma coisa teria de ser feita para derrubar o caseiro e, assim, pensaram numa estratégia: alguém estaria pagando ao caseiro para que confirmasse a presença do Ministro, e agiriam rápido para dar uma resposta à sociedade. Enquanto o caseiro depunha na Polícia Federal, entraram no sistema da Caixa Econômica e violaram o sigilo bancário do caseiro. Encontraram importância alta depositada na conta do rapaz. Quem sabe encontraram o que procuravam para desmoralizar o caseiro. Acontece que o rapaz, filho de um empresário do Piauí, recebeu do pai, como forma de amenizar a culpa por não poder reconhecê-lo, oficialmente, como filho biológico, por motivos familiares, a quantia de vinte e cinco mil reais. Feito o levantamento, ouvido o empresário e confirmado que o mesmo depositara para seu filho bastardo aquela importância, não houve como se safar do caseiro. Ao invés de minorar a situação, a coisa complicou-se, e muito. Praticou-se um crime gravíssimo, a invasão da conta bancária de um cidadão brasileiro, o que só pode ser praticado com ordem judicial. O escândalo chocou a todo o país. Agora não tinham saída, o que dizer à sociedade? O sigilo bancário não existe mais, dependendo de quem você se meta? Ficou insustentável a situação. Cometeram um crime contra a Constituição Brasileira. E o caseiro ao ser ouvido disse com aquela voz pausada: eu gostaria que eles quebrassem o sigilo do meu título de eleitor para saber em quem eu votei, votei num trabalhador. Veja a sutileza da resposta do caseiro. É como se ele dissesse: fui enganado, mentiram para mim, acreditei no trabalhador e me apunhalam, quebraram a minha confiança.

O episódio tomou proporções catastróficas para o governo e outro remédio não teve senão o Ministro Palloci pegar seu chapéu e tomar outro rumo. O caseiro continuou sua trajetória simples e, ao ser homenageado pela OAB de São Paulo, que lhe agradeceu pelo serviço prestado ao país, levou todos ao riso farto quando disse: chutei o balde! ao mesmo tempo, muito sério, falou: estão sujando a bandeira do trabalhador!



(01 de abril/2006)
CooJornal no 470


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm