O Estado do
Rio de Janeiro vivencia uma guerra civil mascarada pelas autoridades que
dizem estar tudo sobre controle e que, diuturnamente, vêm combatendo a
criminalidade de forma eficaz, diminuindo os assaltos à residências, a ônibus
e aos pedestres. Será? – Todos sabemos que não é isso que acontece no
dia-a-dia da cidade. Temos medo de tudo e de todos. Desconfiamos até da
própria sombra. Nos trancamos em casa enquanto os meliantes estão à solta. Só
eles têm o direito de ir e vir, nós, a pagarmos os impostos e nos refugiarmos
entre grades, câmeras e seguranças particulares, que nem sempre o são.
Não causou
surpresa a ousadia dos fora da lei, que invadiram o Estabelecimento Central de
Transportes do exército em São Cristóvão, levando de lá dez fuzis e uma
pistola. Renderam os sentinelas e outros militares que dormiam no alojamento
e levaram as armas que os interessava. Não foi a primeira nem a segunda vez
que os quartéis foram atacados e armas levadas. O povo nem se abalou. Já
estava acostumado com esta notícia.
Amanheceu o
dia e algumas comunidades de favelas se assustaram com o aparato militar em
torno de seus barracos. Eram 1.600 soldados com armamento pesado, roupas
camufladas, tanques, canhões, pareciam vindos para a guerra.
Chegaram ao
Morro da Providência, morro bem pertinho da Central do Brasil e vizinho à
Cidade do Samba. Começaram a procurar pelas armas roubadas. A força bruta
assustou às famílias. Descarregavam seus fuzis, não só para responder ao fogo
dos traficantes, mas para instalar mesmo o terror, assim, quem sabe, alguém
diria aonde esconderam as armas. Os moradores chegaram a desconfiar que
estavam fazendo treinamento para combate no Haiti e inventaram a história das
armas para camuflar o que faziam ali. Nunca tinham assistido a tanto horror.
Parecia que estavam condenados a morrer a qualquer momento por uma bala
“perdida” (bem direcionada). Eles sabiam que, se as armas estivessem no morro,
logo seriam entregues ou jogadas em algum lugar que pudessem encontrá-las,
pois, todo aquele aparato militar atrapalharia o movimento da droga e os
traficantes detestam isso, teriam prejuízo no comerciar. Daí a certeza de que
não estariam lá.
Algumas
pessoas foram feridas por balas, dentre eles um bebê e, como sempre acontece,
um rapaz de dezesseis anos que se dirigia a um centro comunitário no Morro do
Pinto para matricular-se num curso de fotografia, carregando um guarda-chuva,
foi morto por um soldado do exército que confundiu o guarda-chuva com um
fuzil, assim noticiou a mídia. Pobre rapaz! Pagou com a vida o despreparo de
nossas forças. Confundir um guarda-chuva com um fuzil não me parece compatível
para quem tem treinamento militar. Por que não monitorou o jovem e esperou
que chegasse mais perto para visualizar melhor o que levava às mãos num dia
chuvoso? Pra quê? - era apenas mais um favelado, mais um desassistido do
Estado, da Sociedade que em passeatas clamam por Paz e Justiça, mas todos
os dias fazem justamente o contrário.
Aquele jovem
rapaz era mais um cidadão brasileiro à procura de rumo para a sua vida, já que
os jovens das comunidades carentes não têm nenhuma perspectiva de futuro. O
Morro da Providência é um morro que tem história. Os participantes da Guerra
dos Canudos foram habitar aquele lugar que primeiro recebeu o nome de favela
por ter em abundância uma planta espinhosa com esse nome. Pelas proximidades
com o Cais do Porto, foi e é habitado, em sua maioria, por estivadores,
facilitando assim a chegada ao trabalho e a volta para casa. O Morro da
Providência, não obstante a proximidade com o Centro da Cidade, do antigo
Quartel General, hoje, Comando do Leste, sempre foi um local abandonado. O
único a se importar com aquela gente é o Colégio Instituto Central do Povo,
comemorando este ano cem anos, colégio que presta assistência social a muitas
famílias do Morro e com o seu trabalho na área educacional, forjou o caráter
de muitos meninos e meninas dando-lhes atenção, carinho, formação moral e
religiosa. Muitos de seus ex-alunos são médicos, administradores de empresa,
professores, advogados e engenheiros, todos saídos de famílias pobres
moradoras do Morro da Providência e bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo
.Este Colégio, vizinho ao Morro, não tem nenhum apoio das autoridades e é
mantido por doações. No dia 11 de março, Sábado, em cima da hora o Colégio
viu-se obrigado a cancelar uma festa onde se confraternizariam mais de 150
pessoas, entre professores, diretores, ex-alunos e amigos do Colégio. Os tiros
eram dados para cima, só que o projétil sobe e em seguida desce com a mesma
velocidade causando morte ou prejuízo, dependendo onde pegar. Tiros ecoavam a
todo momento e para não colocar a vida das pessoas em perigo, com tudo
organizado para acontecer a festa, outro jeito não houve senão cancelar o
evento marcado para às 15 horas. Todos ficaram muito tristes e decepcionados.
Parecia uma praça de guerra. O telhado do galpão onde outrora os alunos
praticavam esportes, parecendo peneira com centenas de furos, os muros do
colégio todos marcados por dezenas de tiros. Imagine a tragédia que
aconteceria!
Ao invés de
construir a Cidade do Samba, que poderia ter sido noutro lugar, o Município
deveria ter ali construído uma Escola Técnica para encaminhar
profissionalmente os meninos do Morro e dos bairros pobres da Gamboa, Santo
Cristo e Saúde, mas, Cidade do Samba dá votos. Fazer o quê? - Construiu-se
a Vila Olímpica da Gamboa, menos mal, tomara que os meninos e meninas do
morro e periferia tenham a oportunidade de desenvolver não só atividades
físicas, mas também sejam criadas atividades sociais para ajudá-los a
construir um futuro, ensinando-lhes cidadania e dando-lhes o direito da vida,
saúde, educação, moradia, liberdade de ir e vir, livres da discriminação,
conforme reza nossa Constituição.
Foram vários
dias de horror. Um senhor de 65 anos, indo para o INSS renovar seu auxílio
doença, contava para um amigo dentro do ônibus o desespero que passou com a
família. Ele dizia: - os soldados pareciam malucos, atiravam para cima em
todas as direções, minha casa foi alvejada muitas vezes e minhas telhas foram
perfuradas em muitos lugares. Eu e minha esposa ficamos deitados no chão por
várias vezes e dias. Não posso subir ao telhado para consertá-las, terei que
pedir a alguém para tapar os buracos com durapox. Quem pagará o prejuízo desse
senhor deficiente visual? Ninguém conta o drama das pessoas de bem moradoras
no Morro quando são feitas essas incursões, tanto pela Polícia Militar como
por outra força. Não respeitam os moradores. Metem o pé na porta e vão
entrando. Quebram móveis, batem nos moradores, etc.etc. – Elas moram ali
porque gostam? Seria um lugar ideal para morar se as autoridades se fizessem
presentes. É bem pertinho do centro, facilita aos jovens trabalhar, estudar e
chegar em casa não tão tarde. Mas, o que acontece é totalmente contrário ao
que as pessoas almejam. São discriminados pelas próprias autoridades que os
deixam sem qualquer assistência e quando a polícia chega, não interessa quem
morra, são pobres coitados, gente humilde, ninguém os ouvirá, são favelados. É
só inventar que reagiram. Se denunciam ou protestam, com facilidade dizem que
foram manipulados pelos traficantes. Não, este não é um país de todos como
anunciam os outdoors.
A Mídia de
forma sensacionalista exalta o poderio dos traficantes com suas balas
traçantes lançadas contra os soldados ou policiais, mas não informa com a
mesma ênfase o drama de cada morador, gente do bem, literalmente,
desrespeitado por quem deveria protegê-los, que passa sem dormir, coração
disparado, respiração controlada porque a qualquer momento pode estar ele
próprio, ou alguém de sua família, morto com uma bala direcionada para seus
barracos e não para os traficantes que sempre levam a melhor, nenhum preso,
nenhum morto, quando muito, apreensão de alguns quilos de drogas. Não é o
bastante.
Depois de
muitos estragos à comunidade, físicos, materiais e morais, sem arma nenhuma
encontrar, resolveram deixar o Morro da Providência. Não entendo esse setor de
inteligência que eles têm. Quanto desgaste emocional sofreu aquela gente,
quantos diabéticos tiveram suas taxas glicêmicas elevadas, outras problemas
cardíacos alterados, sem ao menos poder descer o morro para procurar um posto
de saúde, já que, se correr o bicho pega, se ficar a” bala perdida” come.
Chegaram à
maior favela da América do Sul, Rocinha. Não trataram a comunidade com tanta
violência, tiveram mais cuidado, a bala perdida poderia acertar vizinhos
ilustres, que conhecem seus direitos, vão aos jornais, fazem manifestação,
cobram das autoridades. Tiveram a informação de que as armas estavam no
matagal entre os morros da Rocinha e Vidigal, foram à procura delas e as
encontraram. O Serviço de Inteligência falhou mais uma vez, massacrou a
comunidade do Morro da Providência na certeza de que as armas estavam lá,
nada encontraram, mataram um jovem rapaz por carregar um guarda-chuva que
confundiram com fuzil, levaram pânico àquela comunidade pacata, não
prenderam traficante algum, e tudo continuará como era, só os civis levaram a
pior.
Entro na
Internet e ressalta-me a notícia circulante que, segundo o Jornal Folha de São
Paulo, o Exército, sigilosamente, teria negociado com uma facção criminosa a
recuperação das armas e que as mesmas, desde Domingo à noite, já estariam em
poder do Exército. Entretanto, o Comandante do CML reagiu irritado às
perguntas sobre o possível acordo, dizendo: - encontramos as armas por causa
das informações que foram passadas ao Serviço de Inteligência criado para
investigar o assunto. Já o assessor de imprensa do Comando Militar do Leste
disse : - é a vitória da inteligência contra a força bruta. “Usamos a força
bruta apenas para evitar tiroteios e um mal maior à população civil.” Só a
população civil que lá na Providência se encontrava é que pode dizer se esta
afirmativa tem algum cunho de verdade. A força bruta e todo esse aparato
deveriam ser empregados nas fronteiras brasileiras, desarticulando e prendendo
os grandes barões da droga que despejam toneladas de cocaína e seus derivados
aqui dentro gerando a riqueza de muitos residentes em mansões e a desgraça de
muitas famílias de jovens excluídos dessa Nação que alardeia: “Brasil, um
país de todos”.
Confesso
minha decepção com o aparato montado para enfrentar alguns meliantes. Não
entendi também porque nestes sete dias em que lá ficaram não prenderam ninguém
e só causaram danos à comunidade. Tudo continuará como estava. Procurar nas
mochilas das crianças que iam para o colégio as armas roubadas foi piada de
mal gosto e desmoralização para os que ali representavam o Exército
Brasileiro. A comunidade perdeu por eles o respeito. O Brasil precisa de
homens sérios, destemidos, verdadeiros, que não usem máscaras e que não
suportem fazer encenação.
(08 de abril/2006)
CooJornal
no 471