08/04/2006
Número - 471

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



Vitorioso ou desmoralizado?

 

O Estado do Rio de Janeiro vivencia uma guerra civil mascarada pelas autoridades que  dizem estar tudo sobre controle e que, diuturnamente, vêm combatendo a criminalidade de forma eficaz, diminuindo os assaltos à residências, a ônibus e aos pedestres. Será? – Todos sabemos que não é isso que acontece no dia-a-dia da cidade. Temos medo de tudo e de todos. Desconfiamos até da própria sombra. Nos trancamos em casa enquanto os meliantes estão à solta. Só eles têm o direito de ir e vir, nós, a pagarmos os impostos e nos refugiarmos entre grades, câmeras e seguranças particulares, que nem sempre o são.

Não causou surpresa a ousadia dos fora da lei, que invadiram o Estabelecimento Central de Transportes do exército em São Cristóvão, levando de lá dez fuzis e uma pistola. Renderam os sentinelas e outros militares que dormiam no alojamento  e levaram  as armas que os interessava. Não foi a primeira nem a segunda vez que os quartéis foram atacados e  armas levadas. O povo nem se abalou. Já estava acostumado com  esta notícia.

Amanheceu o dia e algumas comunidades de favelas se assustaram com o aparato militar em torno de seus barracos. Eram 1.600 soldados com armamento pesado, roupas camufladas, tanques, canhões, pareciam vindos para a  guerra.

Chegaram ao Morro da Providência, morro bem pertinho da Central do Brasil e vizinho à Cidade do Samba. Começaram a procurar pelas armas roubadas.  A força bruta  assustou às famílias. Descarregavam seus fuzis, não só para responder ao fogo dos traficantes, mas para instalar mesmo o terror, assim, quem sabe, alguém diria  aonde esconderam as armas.  Os moradores chegaram a desconfiar que estavam fazendo treinamento para combate no Haiti e inventaram a história das armas para camuflar  o que  faziam ali. Nunca tinham assistido a tanto horror. Parecia que estavam condenados a morrer a qualquer momento por uma bala “perdida” (bem direcionada). Eles sabiam que, se as armas estivessem no morro, logo seriam entregues ou jogadas em algum lugar que pudessem encontrá-las, pois, todo aquele aparato militar atrapalharia o movimento da droga e os traficantes detestam isso, teriam prejuízo no comerciar. Daí a certeza de que  não estariam lá.

Algumas pessoas foram feridas por balas, dentre eles um bebê e, como sempre acontece, um rapaz de dezesseis anos que se dirigia a um centro comunitário no Morro do Pinto para matricular-se num curso de fotografia, carregando um guarda-chuva, foi morto por um soldado do exército que confundiu o guarda-chuva com um fuzil, assim noticiou a mídia. Pobre rapaz! Pagou com a vida  o despreparo de nossas forças. Confundir um guarda-chuva com um fuzil não me parece compatível para quem tem treinamento militar.  Por que não monitorou o jovem e esperou que chegasse mais perto para visualizar melhor o que levava às mãos num dia chuvoso?  Pra quê? - era apenas mais um favelado, mais um desassistido do Estado, da Sociedade que em passeatas clamam  por  Paz e Justiça, mas  todos os dias fazem justamente o contrário.

Aquele jovem rapaz era mais um cidadão brasileiro à procura de rumo para a sua vida, já que os jovens das comunidades carentes não têm nenhuma perspectiva de futuro. O Morro da Providência é um morro que tem história. Os participantes da Guerra dos Canudos foram habitar aquele lugar que primeiro recebeu o nome de favela por ter em abundância uma planta espinhosa com esse nome.   Pelas proximidades com o Cais do Porto, foi e é habitado, em sua  maioria,  por  estivadores, facilitando assim a chegada ao trabalho e a volta para casa. O Morro da Providência, não obstante a proximidade com o Centro da Cidade, do antigo Quartel General, hoje, Comando do Leste, sempre foi um local abandonado. O único a se importar com aquela gente é o Colégio Instituto Central do Povo, comemorando este ano cem anos, colégio que presta assistência social a muitas famílias do Morro e  com o seu trabalho na área educacional,  forjou o caráter de muitos  meninos e meninas dando-lhes atenção, carinho, formação moral e religiosa. Muitos de seus ex-alunos são médicos, administradores de empresa, professores, advogados e engenheiros, todos saídos de famílias pobres moradoras do  Morro da Providência e bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo .Este Colégio, vizinho ao Morro, não tem nenhum apoio das autoridades  e é mantido por doações.  No dia 11 de março, Sábado, em cima da hora o  Colégio viu-se obrigado a cancelar uma festa onde se confraternizariam mais de 150 pessoas, entre professores, diretores, ex-alunos e amigos do Colégio. Os tiros eram dados para cima, só que o projétil sobe e em seguida desce com a mesma velocidade causando morte ou prejuízo, dependendo onde pegar. Tiros  ecoavam a todo momento e para não colocar a vida das pessoas em perigo, com tudo organizado para acontecer a festa, outro jeito não houve senão cancelar o evento marcado para às 15 horas. Todos ficaram muito tristes e decepcionados.  Parecia uma praça de guerra. O telhado do galpão onde outrora os alunos praticavam esportes, parecendo peneira com centenas de furos, os muros do colégio todos marcados por dezenas de tiros. Imagine  a tragédia que aconteceria!

 Ao invés de construir a Cidade do Samba, que poderia ter sido noutro lugar, o Município deveria ter ali construído uma Escola Técnica para encaminhar profissionalmente os meninos do Morro e dos bairros pobres da Gamboa, Santo Cristo e Saúde, mas,  Cidade do Samba dá  votos. Fazer o quê? -  Construiu-se a Vila Olímpica da Gamboa, menos mal, tomara que os meninos    e meninas do morro e periferia tenham a oportunidade de desenvolver não só atividades físicas, mas também sejam criadas atividades sociais para ajudá-los a construir um futuro, ensinando-lhes cidadania e dando-lhes o direito da vida, saúde, educação, moradia, liberdade de ir e vir, livres da discriminação, conforme reza  nossa Constituição.

Foram vários dias de horror. Um senhor de 65 anos, indo para o INSS renovar seu auxílio doença, contava para um amigo dentro do ônibus o desespero que passou com a família. Ele dizia: - os soldados pareciam malucos, atiravam para cima em todas as direções, minha casa foi alvejada muitas vezes e minhas telhas foram perfuradas em muitos lugares. Eu e minha esposa ficamos deitados no chão por várias vezes e dias. Não posso subir ao telhado para consertá-las, terei que pedir a alguém para tapar os buracos com durapox. Quem pagará o prejuízo desse senhor deficiente visual? Ninguém conta o drama das pessoas de bem moradoras no Morro quando são feitas essas incursões, tanto pela Polícia Militar como por outra força. Não respeitam os moradores. Metem o pé na porta e vão entrando. Quebram móveis, batem nos moradores, etc.etc. – Elas moram ali porque gostam? Seria um lugar ideal para morar se as autoridades se fizessem presentes. É bem pertinho do centro, facilita aos jovens trabalhar, estudar e chegar em casa não tão tarde. Mas, o que acontece é totalmente contrário ao que as pessoas almejam. São discriminados pelas próprias autoridades que os deixam sem qualquer assistência e quando a polícia chega, não interessa quem morra, são pobres coitados, gente humilde, ninguém os ouvirá, são favelados. É só inventar que reagiram. Se denunciam ou protestam, com facilidade dizem que foram manipulados pelos traficantes. Não,  este não é um país de todos como anunciam os outdoors.

A Mídia de forma  sensacionalista exalta o poderio dos traficantes com suas balas traçantes lançadas contra os soldados ou policiais, mas não informa com a mesma ênfase o drama de cada morador, gente do bem, literalmente, desrespeitado por quem deveria protegê-los, que passa sem dormir, coração disparado, respiração controlada porque a qualquer momento pode estar ele próprio, ou alguém de sua família, morto com uma bala direcionada para seus barracos e não para os traficantes que sempre levam a melhor, nenhum preso, nenhum morto, quando muito, apreensão de alguns quilos de drogas. Não é o bastante.

Depois de muitos estragos à comunidade, físicos, materiais e morais, sem arma nenhuma encontrar, resolveram deixar o Morro da Providência. Não entendo esse setor de inteligência que eles têm. Quanto desgaste emocional sofreu aquela gente, quantos diabéticos tiveram suas taxas glicêmicas elevadas, outras problemas cardíacos alterados, sem ao menos poder descer o morro para procurar um posto de saúde, já que, se correr o bicho pega, se ficar a” bala perdida” come.

 Chegaram à maior favela da América do Sul, Rocinha. Não trataram a comunidade com tanta violência, tiveram mais cuidado, a bala perdida poderia acertar  vizinhos  ilustres, que conhecem seus direitos, vão aos jornais, fazem manifestação, cobram das autoridades. Tiveram a informação de que as armas estavam no matagal entre os morros da Rocinha e Vidigal, foram à procura delas  e  as encontraram.  O Serviço de Inteligência falhou mais uma vez, massacrou a comunidade do  Morro da Providência na certeza de que as armas estavam lá, nada encontraram, mataram um jovem rapaz por carregar um guarda-chuva que confundiram com  fuzil,  levaram pânico àquela comunidade pacata, não prenderam traficante algum, e tudo continuará como era, só os civis levaram a pior.

Entro na Internet e ressalta-me a notícia circulante que, segundo o Jornal Folha de São Paulo, o Exército, sigilosamente,  teria negociado com uma facção criminosa a recuperação das  armas e que as mesmas, desde Domingo à noite, já estariam em poder do Exército. Entretanto, o Comandante do CML reagiu irritado às perguntas sobre o possível acordo, dizendo: - encontramos as armas por causa das informações que foram passadas ao Serviço de Inteligência criado para investigar o assunto. Já o assessor de imprensa do Comando Militar do Leste  disse : - é a vitória da inteligência contra a força bruta. “Usamos a força bruta apenas para  evitar tiroteios e um mal maior à população civil.”  Só a população civil que lá na Providência se encontrava é que pode dizer se esta afirmativa tem algum cunho de verdade.  A força bruta e todo esse aparato deveriam ser empregados nas fronteiras brasileiras, desarticulando e prendendo os grandes barões da droga  que despejam toneladas de cocaína e seus derivados aqui dentro gerando a riqueza de muitos residentes em mansões e a desgraça de muitas famílias de  jovens excluídos dessa Nação que alardeia: “Brasil, um país de todos”.

Confesso  minha decepção com o aparato montado  para enfrentar alguns meliantes. Não entendi também porque nestes sete dias em que lá ficaram não prenderam ninguém e só causaram danos à comunidade. Tudo continuará como estava. Procurar nas mochilas das crianças que iam para o colégio as armas roubadas foi piada de mal gosto e desmoralização para os que ali representavam o Exército Brasileiro. A comunidade perdeu por eles o respeito.  O Brasil precisa de homens sérios, destemidos, verdadeiros, que não usem máscaras e que não suportem fazer encenação.



(08 de abril/2006)
CooJornal no 471


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm