Festejar cem
anos de atividades sociais num país como o Brasil é muito complicado. Poderia
ser fácil se todos os membros da sociedade brasileira com capacidade
financeira de contribuir para o bem estar dos mais pobres e, porque não dizer,
dos que estão abaixo da linha de pobreza, conhecessem a palavra SOLIDARIEDADE.
Estar solidário com as causas sociais é tarefa difícil para a elite
brasileira. O mais importante para ela é estar sempre na mídia, é aparecer nas
colunas sociais, é ter o seu Mercedes na garagem, é passar férias esquiando
nas montanhas. Isso é que é vida, dizem eles. Em contrapartida, têm de blindar
seus carros, carregar seguranças a tira-colo, pois, do contrário, poderão
perder, quem sabe, até a própria vida em assaltos às suas propriedades
residenciais e comerciais, pois, a fome, miséria e discriminação, são as
fontes energéticas da situação atual em que nos encontramos. Nem todos se
conformam com os bolsões de miséria em que vivem. De forma errada buscam
alternativas para ganhar qualquer coisa que os façam sentir-se menos
desprezíveis. Nessa cadeia levam de roldão nossas crianças que se tornam os
Falcões do tráfico, como assistimos, estarrecidos, pela televisão, um menino
dizendo: “se eu morrer, vou descansar” Meu Deus, ele ainda nem viveu e já
pensa na morte como forma de descanso dessa vida macabra que é a sua, correndo
da polícia, serviçal do traficante, escravo das drogas.
Será possível inverter a situação se houver união de todos: sindicatos,
escolas, clubes, quartéis, prefeituras, governos estaduais e federal, dando-se
às mãos, mobilizando todo um contingente imbuído numa causa nobre, a de salvar
nossa juventude, oferecendo-lhes cidadania, motivação para enxergar que
poderão viver uma vida digna e ganhar com seus esforços o sustento para sua
família. Vejam o exemplo do fundador do Instituto Central do Povo, Sr Hugh
Clarence Tucker.
Há cem anos, 1906, desembarcou no Brasil o missionário americano, Hugh
Clarence Tucker, amigo pessoal do Sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, com a missão
de ser pastor das pessoas de língua inglesa radicadas no Brasil. Levado pelo
seu amigo Oswaldo Cruz a diversas área pobres, conheceu de perto a miséria e
comoveu-se, precisava fazer alguma coisa para ajudar aquela gente. Começou
apoiando o amigo Oswaldo Cruz na difícil tarefa da erradicação da Febre
amarela no Rio de Janeiro. Verdadeira guerra, as pessoas não queriam ser
vacinadas, viam com desconfiança essa prática de vacinação, mesmo morrendo
muitas a cada dia. A ignorância é o maior flagelo da humanidade.
O pastor Tucker sentiu a necessidade de criar uma escola e instalar nela uma
clínica infantil, com atendimento totalmente gratuito para as crianças pobres.
Em 1906 fundou na Rua Rivadávia Corrêa – Gamboa, o colégio INSTITUTO CENTRAL
DO POVO e a 1ª Clínica Infantil Grátis no Brasil, vizinhos ao Morro da
Providência, tornando-se o embrião dos Postos de Saúde Pública, hoje
existentes, somente criados em 1925. Daí, então, o atendimento gratuito às
crianças daquele morro e adjacências, com médicos e dentista, sem qualquer
contribuição das autoridades estaduais, municipais ou federais, até os dias de
hoje, cem anos. Tudo custeado pelo Dr. Tucker e doações de amigos americanos
que mensalmente contribuíam com as despesas de manutenção da clínica.
Cinqüenta anos depois, sentiram a necessidade das crianças terem um lugar para
passar férias escolares, um lugar onde pudessem aprender disciplina
extra-escolar, convívio com outras pessoas, praticar esportes e ter muito
lazer. Fundaram em Petrópolis o Acampamento Clay. Todos os anos são recebidos
alunos e professores para um convívio salutar e prazeroso.
Na trajetória centenária do Instituto Central do Povo, seus beneméritos
encontraram muitas dificuldades para manter o Colégio e a Clínica, mas também
colheram alegrias ao verificar que as crianças já não morriam por falta de
assistência médica e alimentar, pois eram distribuídos às mães o leite em pó,
chegado dos Estados Unidos, para seus filhos, e dado a elas orientação de como
cuidar daquelas crianças, salvando, assim, muitas vidas infantis.
No dia 8 de abril de 2006, realizou-se uma festa nas dependências do Instituto
Central do Povo para a inauguração das Placas com os nomes dos cem beneméritos
do ICP e com os nomes dos Missionários que ali trabalharam, assim como, o
Centro de Memórias “Núncia Martins Netto” que guarda a memória dos cem anos
dessa Instituição, com mostra fotográfica registrando todos os acontecimentos
desenrolados no Colégio nestes cem anos de existência.
Durante as festividades cada benemérito era ovacionado pelos presentes ao ter
sua foto estampada num telão. Dentre eles estavam Fátima Bernardes,
apresentadora do Jornal Nacional, Prof. Lucy Ribeiro, Prof. Napoleão, Prof.
Eunice Gomes de Oliveira, presença marcante com seus 99 anos de idade, e as
Empresas: Delírio Tropical, Pan Vita, que doa, semanalmente, pão para os
lanches das crianças, Sra. Nair Pessanha, da Feira livre do Humaitá, que
fornece, semanalmente, frutas, verduras e peixes para as refeições das
crianças, a BP Petrobrás e CASC-RBl, que reformaram a cozinha que serve café,
almoço e dois lanches diários para 350 crianças de 2ª a 6ª feiras e colocaram
um telhado novo na quadra coberta e energia solar que serve para os freezers e
computadores.
A alegria de abraçar os contemporâneos, professores e ex-alunos, contagiava a
todos. Muitos que ali estudaram e receberam ajuda eram hoje, professores,
médicos, advogados, coronéis, jornalistas. A cada rosto reconhecido, um abraço
e um largo sorriso. À frente, um casal entusiástico da grande obra social que
é o ICP, Sr. Mário Way e esposa, Sra. Anita Way, passando com humildade para
alunos, amigos, professores e funcionários daquela instituição, que a
dedicação, o trabalho, a perseverança e o amor são capazes de a tudo
transformar.
As comemorações pelo Centenário do ICP continuarão e, no dia 10 de maio haverá
festividades com as crianças da Escola, celebração pelo Dia das Mães e a
caminhada pelo bairro com alunos, mães, professores, funcionários e amigos do
ICP. É realmente uma missão social extraordinária que, apesar da sua
importância para as comunidades carentes dos bairros da Gamboa, Saúde e Santo
Cristo, não tem nenhum amparo dos governos. Acorda Autoridades, o Brasil
precisa de muitos ICPs!
(15 de abril/2006)
CooJornal
no 472