15/04/2006
Número - 472

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



CEM ANOS DE MISSÃO SOCIAL

 

Festejar cem anos de atividades sociais num país como o Brasil é muito complicado. Poderia ser fácil se todos os membros da sociedade brasileira com capacidade financeira de contribuir para o bem estar dos mais pobres e, porque não dizer, dos que estão abaixo da linha de pobreza, conhecessem a palavra SOLIDARIEDADE. Estar solidário com as causas sociais é tarefa difícil para a elite brasileira. O mais importante para ela é estar sempre na mídia, é aparecer nas colunas sociais, é ter o seu Mercedes na garagem, é passar férias esquiando nas montanhas. Isso é que é vida, dizem eles. Em contrapartida, têm de blindar seus carros, carregar seguranças a tira-colo, pois, do contrário, poderão perder, quem sabe, até a própria vida em assaltos às suas propriedades residenciais e comerciais, pois, a fome, miséria e discriminação, são as fontes energéticas da situação atual em que nos encontramos. Nem todos se conformam com os bolsões de miséria em que vivem. De forma errada buscam alternativas para ganhar qualquer coisa que os façam sentir-se menos desprezíveis. Nessa cadeia levam de roldão nossas crianças que se tornam os Falcões do tráfico, como assistimos, estarrecidos, pela televisão, um menino dizendo: “se eu morrer, vou descansar” Meu Deus, ele ainda nem viveu e já pensa na morte como forma de descanso dessa vida macabra que é a sua, correndo da polícia, serviçal do traficante, escravo das drogas.

Será possível inverter a situação se houver união de todos: sindicatos, escolas, clubes, quartéis, prefeituras, governos estaduais e federal, dando-se às mãos, mobilizando todo um contingente imbuído numa causa nobre, a de salvar nossa juventude, oferecendo-lhes cidadania, motivação para enxergar que poderão viver uma vida digna e ganhar com seus esforços o sustento para sua família. Vejam o exemplo do fundador do Instituto Central do Povo, Sr Hugh Clarence Tucker.

Há cem anos, 1906, desembarcou no Brasil o missionário americano, Hugh Clarence Tucker, amigo pessoal do Sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, com a missão de ser pastor das pessoas de língua inglesa radicadas no Brasil. Levado pelo seu amigo Oswaldo Cruz a diversas área pobres, conheceu de perto a miséria e comoveu-se, precisava fazer alguma coisa para ajudar aquela gente. Começou apoiando o amigo Oswaldo Cruz na difícil tarefa da erradicação da Febre amarela no Rio de Janeiro. Verdadeira guerra, as pessoas não queriam ser vacinadas, viam com desconfiança essa prática de vacinação, mesmo morrendo muitas a cada dia. A ignorância é o maior flagelo da humanidade.

O pastor Tucker sentiu a necessidade de criar uma escola e instalar nela uma clínica infantil, com atendimento totalmente gratuito para as crianças pobres. Em 1906 fundou na Rua Rivadávia Corrêa – Gamboa, o colégio INSTITUTO CENTRAL DO POVO e a 1ª Clínica Infantil Grátis no Brasil, vizinhos ao Morro da Providência, tornando-se o embrião dos Postos de Saúde Pública, hoje existentes, somente criados em 1925. Daí, então, o atendimento gratuito às crianças daquele morro e adjacências, com médicos e dentista, sem qualquer contribuição das autoridades estaduais, municipais ou federais, até os dias de hoje, cem anos. Tudo custeado pelo Dr. Tucker e doações de amigos americanos que mensalmente contribuíam com as despesas de manutenção da clínica.

Cinqüenta anos depois, sentiram a necessidade das crianças terem um lugar para passar férias escolares, um lugar onde pudessem aprender disciplina extra-escolar, convívio com outras pessoas, praticar esportes e ter muito lazer. Fundaram em Petrópolis o Acampamento Clay. Todos os anos são recebidos alunos e professores para um convívio salutar e prazeroso.

Na trajetória centenária do Instituto Central do Povo, seus beneméritos encontraram muitas dificuldades para manter o Colégio e a Clínica, mas também colheram alegrias ao verificar que as crianças já não morriam por falta de assistência médica e alimentar, pois eram distribuídos às mães o leite em pó, chegado dos Estados Unidos, para seus filhos, e dado a elas orientação de como cuidar daquelas crianças, salvando, assim, muitas vidas infantis.

No dia 8 de abril de 2006, realizou-se uma festa nas dependências do Instituto Central do Povo para a inauguração das Placas com os nomes dos cem beneméritos do ICP e com os nomes dos Missionários que ali trabalharam, assim como, o Centro de Memórias “Núncia Martins Netto” que guarda a memória dos cem anos dessa Instituição, com mostra fotográfica registrando todos os acontecimentos desenrolados no Colégio nestes cem anos de existência.

Durante as festividades cada benemérito era ovacionado pelos presentes ao ter sua foto estampada num telão. Dentre eles estavam Fátima Bernardes, apresentadora do Jornal Nacional, Prof. Lucy Ribeiro, Prof. Napoleão, Prof. Eunice Gomes de Oliveira, presença marcante com seus 99 anos de idade, e as Empresas: Delírio Tropical, Pan Vita, que doa, semanalmente, pão para os lanches das crianças, Sra. Nair Pessanha, da Feira livre do Humaitá, que fornece, semanalmente, frutas, verduras e peixes para as refeições das crianças, a BP Petrobrás e CASC-RBl, que reformaram a cozinha que serve café, almoço e dois lanches diários para 350 crianças de 2ª a 6ª feiras e colocaram um telhado novo na quadra coberta e energia solar que serve para os freezers e computadores.

A alegria de abraçar os contemporâneos, professores e ex-alunos, contagiava a todos. Muitos que ali estudaram e receberam ajuda eram hoje, professores, médicos, advogados, coronéis, jornalistas. A cada rosto reconhecido, um abraço e um largo sorriso. À frente, um casal entusiástico da grande obra social que é o ICP, Sr. Mário Way e esposa, Sra. Anita Way, passando com humildade para alunos, amigos, professores e funcionários daquela instituição, que a dedicação, o trabalho, a perseverança e o amor são capazes de a tudo transformar.

As comemorações pelo Centenário do ICP continuarão e, no dia 10 de maio haverá festividades com as crianças da Escola, celebração pelo Dia das Mães e a caminhada pelo bairro com alunos, mães, professores, funcionários e amigos do ICP. É realmente uma missão social extraordinária que, apesar da sua importância para as comunidades carentes dos bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, não tem nenhum amparo dos governos. Acorda Autoridades, o Brasil precisa de muitos ICPs!



(15 de abril/2006)
CooJornal no 472


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm