Desde que
você partiu, um vazio muito grande fez-se presente em minha vida. Já se vão
vinte anos. O cotidiano ajuda a empurrar a vida, um dia mais acelerado, outro
dia mais devagar, coisas acontecem, boas e ruins, e assim o tempo vai
passando, a estrada sendo percorrida, o caminho cheio de altos e baixos,
machucando a estrutura óssea, outras vezes, machucando fundo o coração.
Lembra o que vovó Carolina dizia? Filhos criados trabalho dobrado! A gente ria
dela, achava que estava rabugenta e que de tudo reclamava. Hoje, mãe também,
sei que tinha razão. A minha infância passou, que saudade de vovó com aquela
saia arrastando pelo chão, me protegendo de você que ia me castigar pela
peraltice cometida. Ah! Meu Deus! Como era bom meu tempo de menina. E quando
chegava o Natal! Me fizeram acreditar em Papai Noel até que, aos onze anos,
finquei pé, quase coloquei dois palitos nos olhos para não fecharem de sono,
mas agüentei firme, fingi que dormia, e vi quando papai entrou no quarto com
você, colocou aquela linda boneca embaixo da minha cama e a bola de vôlei na
cama do mano Luizinho. Neste dia o encantamento acabou. Meu Papai Noel, de
verdade, era meu pai que com tanto sacrifício e com muita alegria esperava que
os filhos dormissem para fazer-lhes a surpresa do dia seguinte. Que amor pelos
filhos, que dedicação e que cuidados em nos dar disciplina, respeito aos
professores, amigos e vizinhos. Tínhamos que nos levantar para dar lugar aos
idosos e senhoras grávidas, cumprimentar as pessoas sempre que por elas
passássemos. Não vejo mais isso.
A adolescência chegou sem qualquer problema. Meu primeiro namorado com dezoito
anos, o casamento seis anos depois, o primeiro filho, tão esperado por todos,
partiu com dois dias de nascido. Eu, tão frágil, achei forças em você para
continuar a vida sem meu pequeno bebê. Abatida e enferma encontrei a
enfermeira, a amiga, a mãe zelosa que tudo fez para ver sua filha bem. Lembro
que seu almoço era lá pelas quatro horas da tarde, não havia tempo, eu o
tomava todo com aquela febre que molhava minha roupa e você, não me deixava
ficar molhada, ia trocando e lavando em seguida. Quão trabalhadeira você era,
querida!
Às vezes sentada no jardim, admirando as plantas, a água azul da piscina, os
coqueiros com seus cachos, os pássaros sobrevoando as bananeiras, o beija-flor
indo em cada flor sugar o néctar, sinto a presença de papai sorrindo para mim.
Ele ficaria feliz se estivesse comigo. Gostava muito de cuidar de plantas, de
flores, de ver o jardim limpo, bonito. O sol a pino iluminando todo o cenário
me faz lembrar você com o grande chapéu de palha protegendo a pele tão
branquinha, estendendo a roupa na corda com os pregadores todos presos à blusa
para facilitar seu trabalho e com aqueles olhos tão azuis olhando para mim e
dizendo: - Minha filha, almoça comigo, fiz um ensopadinho de vagem especial,
aquele que você gosta.
Quando a segunda gravidez foi confirmada, como você sofreu temendo pela minha
sorte. Deu tudo certo, Deus ouviu suas preces e nos concedeu a graça. Durante
quatro anos você tomou conta de seu neto para que eu pudesse trabalhar e
conseguir comprar a tão sonhada casa própria. Conseguimos! Fiquei alegre pela
conquista, mas triste por ter de ir morar longe de você, querida.
A falta que você me faz é tão grande que nem a presença do marido que tanto
amo a pode preencher. Gostaria de tê-la para conversar e abrir meu coração
pedindo-lhe conselhos para assuntos que só as mães sabem opinar com sabedoria.
Queria dizer que continuo lhe amando muito. Todos os dias olho com muito
carinho para a fotografia em que você e papai estão juntos e peço-lhes a
benção. No próximo dia 14 as mães serão homenageadas pelo seu dia. É um dia de
muita tristeza para mim, pois não tenho mais você. Irei ao Jardim da Saudade
levar suas flores, conversaremos e pedirei que me protejas de todos os males e
me dê forças para suportar as ingratidões, pois, como disse o poeta: ser mãe é
padecer no paraíso!
(06 de maio/2006)
CooJornal
no 475