A vida agitada da cidade grande, a violência assolando as famílias em suas
casas, nas ruas, na condução, nos bancos, nas praças, nas escolas, enfim, não há
mais lugar seguro, aonde estejamos o sobressalto nos acompanha. Morar em casa de
frente para a rua é uma temeridade, então, mudamos para prédios, vamos morar em
apartamentos. Pensamos estar mais protegidos da bandidagem, temos muitos
vizinhos, quatro apartamentos por andar, qualquer coisa seremos socorridos
imediatamente, isto é o que pensamos.
A mudança ocorre. Apartamento de três quartos, suíte, varandão, parece o ideal.
Ao longe você olha a paisagem e avista a estrada Grajaú-Jacarepaguá, vê o
movimento de ônibus e carros trafegando por ali e, de repente, ouve um grande
estrondo, chega a machucar o ouvido, você estremece, procura identificar de onde
partiu aquela bomba que mais parece o estampido de uma granada e desconfia ter
partido do morro que ali se instala. Ouve uma sirene, é a polícia chegando.
Pensou que iam parar, averiguar a ocorrência, mas, passaram, já devia ser
rotina.
Os problemas condominiais começam a aparecer. A cota, já alta, precisa ser
aumentada para fazer jus aos salários e encargos sociais de cinco empregados.
Cinco? – para quê tantos? Alguns não abrem mão da portaria 24 h, outros acham
necessário ter a segurança de alguém abrindo e fechando o portão da garagem. A
reunião acontece e os condôminos presentes não se acertam, falam ao mesmo tempo,
querem discutir assuntos que não estão na ordem do dia e a pauta fica
prejudicada, já que o presidente da mesa se perde, desejando dar atenção a todos
e não sendo respeitado. A noite avança, ninguém se entende, o vizinho reclama do
barulho das crianças do andar superior, o pai não gosta, começa a discussão, os
ânimos são acalmados por outro vizinho e, finalmente, chegou-se ao valor da cota
condominial contestada por muitos, mas aceita pela maioria.
Orçamento cada vez mais apertado sem que se tenha para onde correr. É preciso
honrar os compromissos. Contas e mais contas são feitas para se cortar o
supérfluo, mas quê supérfluo? Tudo é necessário, só podemos cortar o cinema do
final de semana, o teatro, reduzir algumas lâmpadas para diminuir a conta,
Internet só aos sábados depois das 14:00h por ser mais barato. Feito todos esses
cortes, ao final do mês coçamos a cabeça e verificamos que a conta da luz chegou
mais alta, você apagou mais lâmpadas, não adiantou, o telefone aumentou, usar
somente aos sábados à tarde a Internet, não deu o resultado esperado, ficou
difícil, não tem para onde correr.
Passada a decepção de não ter conseguido reduzir as despesas, duas semanas
depois, você abre seu box de correspondência. Lá estão cartas, contas,
propagandas e um envelope com o timbre do condomínio. Imediatamente é aberto,
trata-se de comunicação do síndico, informando que, devido a alta porcentagem de
inadimplentes, e a emergência que a situação requer, será cobrada cota extra
para fazer face a obras para conter o vazamento em uma das colunas do prédio.
Passado o susto, você mais uma vez refaz as contas para o final do mês, está
difícil encontrar o quê mais cortar para controlar os gastos. O negócio é não
ficar contrariado, faz mal à saúde, é pensar que pelo menos estamos em segurança
no prédio.
Amanhece, a portaria está tomada por condôminos, não entendo nada, quando vou
saindo, o vizinho me pergunta: - a senhora não sabe o que aconteceu? – Não! -
Esta madrugada invadiram o prédio, renderam o porteiro e o vigia e fizeram a
limpa em dois apartamentos, levando o carro do vizinho do terceiro andar. Não há
cidadão que agüente!
(27 de maio/2006)
CooJornal
no 478