27/05/2006
Número - 478

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



VIVENDO EM CONDOMÍNIO

 

A vida agitada da cidade grande, a violência assolando as famílias em suas casas, nas ruas, na condução, nos bancos, nas praças, nas escolas, enfim, não há mais lugar seguro, aonde estejamos o sobressalto nos acompanha. Morar em casa de frente para a rua é uma temeridade, então, mudamos para prédios, vamos morar em apartamentos. Pensamos estar mais protegidos da bandidagem, temos muitos vizinhos, quatro apartamentos por andar, qualquer coisa seremos socorridos imediatamente, isto é o que pensamos.

A mudança ocorre. Apartamento de três quartos, suíte, varandão, parece o ideal. Ao longe você olha a paisagem e avista a estrada Grajaú-Jacarepaguá, vê o movimento de ônibus e carros trafegando por ali e, de repente, ouve um grande estrondo, chega a machucar o ouvido, você estremece, procura identificar de onde partiu aquela bomba que mais parece o estampido de uma granada e desconfia ter partido do morro que ali se instala. Ouve uma sirene, é a polícia chegando. Pensou que iam parar, averiguar a ocorrência, mas, passaram, já devia ser rotina.

Os problemas condominiais começam a aparecer. A cota, já alta, precisa ser aumentada para fazer jus aos salários e encargos sociais de cinco empregados. Cinco? – para quê tantos? Alguns não abrem mão da portaria 24 h, outros acham necessário ter a segurança de alguém abrindo e fechando o portão da garagem. A reunião acontece e os condôminos presentes não se acertam, falam ao mesmo tempo, querem discutir assuntos que não estão na ordem do dia e a pauta fica prejudicada, já que o presidente da mesa se perde, desejando dar atenção a todos e não sendo respeitado. A noite avança, ninguém se entende, o vizinho reclama do barulho das crianças do andar superior, o pai não gosta, começa a discussão, os ânimos são acalmados por outro vizinho e, finalmente, chegou-se ao valor da cota condominial contestada por muitos, mas aceita pela maioria.

Orçamento cada vez mais apertado sem que se tenha para onde correr. É preciso honrar os compromissos. Contas e mais contas são feitas para se cortar o supérfluo, mas quê supérfluo? Tudo é necessário, só podemos cortar o cinema do final de semana, o teatro, reduzir algumas lâmpadas para diminuir a conta, Internet só aos sábados depois das 14:00h por ser mais barato. Feito todos esses cortes, ao final do mês coçamos a cabeça e verificamos que a conta da luz chegou mais alta, você apagou mais lâmpadas, não adiantou, o telefone aumentou, usar somente aos sábados à tarde a Internet, não deu o resultado esperado, ficou difícil, não tem para onde correr.

Passada a decepção de não ter conseguido reduzir as despesas, duas semanas depois, você abre seu box de correspondência. Lá estão cartas, contas, propagandas e um envelope com o timbre do condomínio. Imediatamente é aberto, trata-se de comunicação do síndico, informando que, devido a alta porcentagem de inadimplentes, e a emergência que a situação requer, será cobrada cota extra para fazer face a obras para conter o vazamento em uma das colunas do prédio.

Passado o susto, você mais uma vez refaz as contas para o final do mês, está difícil encontrar o quê mais cortar para controlar os gastos. O negócio é não ficar contrariado, faz mal à saúde, é pensar que pelo menos estamos em segurança no prédio.

Amanhece, a portaria está tomada por condôminos, não entendo nada, quando vou saindo, o vizinho me pergunta: - a senhora não sabe o que aconteceu? – Não! - Esta madrugada invadiram o prédio, renderam o porteiro e o vigia e fizeram a limpa em dois apartamentos, levando o carro do vizinho do terceiro andar. Não há cidadão que agüente!

 

(27 de maio/2006)
CooJornal no 478


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm