03/06/2006
Número - 479

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



O HOMEM SEM FACE
 

 

A Quinta-feira amanheceu chuvosa. Faz frio. A coluna dói muito, resolvo ficar em casa, melhor ficar de molho. Quando tudo acinzenta e a chuva cai bem fininha, mexe comigo. Fico necessitando de um ombro amigo, tenho lembranças queridas, sinto falta de meus pais, sou assim, não posso mudar, embora tente.

Pedi ao esposo que colocasse um filme no DVD para assistirmos embaixo dos cobertores. Ele riu, nunca sente frio, é nordestino arretado. Ajeitei-me no sofá, coloquei algumas almofadas nas costas e acomodei a coluna que hoje está minha inimiga. O marido acha a fita que a filha nos presenteou, O Homem sem Face, dirigido e protagonizado por Mel Gibson.

É a história de um professor, Justin McLeod, que após ter seu corpo desfigurado num acidente de carro passa a viver na solidão, numa enorme casa localizada em uma ilha, belíssima, na costa do Maine, tendo apenas um cão como companheiro. Tenta conviver com a humilhação e provocação dos vizinhos que não o deixam em paz, sempre fazendo comentários maldosos a seu respeito. Cada um lhe imputava uma falta maior e o chamavam de monstro, tamanha a deformação de seu rosto desfigurado pelo acidente. Para não se encontrar com os vizinhos, fazia suas compras num armazém gerenciado por um casal que mantinha o estabelecimento aberto até mais tarde para atendê-lo sem ninguém por perto. Todos na vizinhança ouviam falar do monstro, as crianças temiam encontrá-lo.

Não tão longe dali, vivia uma família constituída por três adolescentes, irmãos de pais diferentes, duas meninas e um menino, que não se davam bem, e sempre um falando mal do pai do outro. A mãe já procurava alguém para o quarto casamento, sem muito se importar com o sentimento dos filhos. Essa falta da presença de um pai e estrutura familiar gerava muitos conflitos entre as crianças e assim, o menino sonhava em ser admitido na carreira militar, porém, era taxado pela família, de burro, incompetente e isso foi minando o seu ego, sendo reprovado nas provas para o Colégio Naval Americano. Ele sonhava sair daquela casa e ingressar na caserna. Diante de tanta rejeição, resolveu convencer a mãe em refazer as provas. Contrária à idéia, dizia-lhe que não passaria, mais uma vez, era um incapaz.

O menino revoltado, enquanto a mãe fazia compras, vai até o estacionamento, fura o pneu do carro dela. Quando vai saindo, um cão pastor dentro de um carro, estacionado logo atrás, late para ele que se assusta e dá de cara com o “ Monstro “ que a tudo assistia pelo retrovisor.

O adolescente Chuck, este era o seu nome, resolveu espionar a casa na ilha. Depois de muitos desencontros entre eles, começaram a se entender. O menino descobriu que o “Monstro” era professor e mostrou-se interessado em ter aulas com ele, sem que sua família soubesse, e se preparar para a tão sonhada entrada na Academia militar. No professor viu suprida a falta de seu pai, aprendeu com ele disciplina, métodos de estudos e finalmente, incentivo para conseguir seu ideal, aprovação para a Academia.

O segredo de Chuck foi descoberto. Caçadores viram-no com o “Monstro” e a notícia se espalhou, até que o Xerife da cidade interveio e o menino ficou proibido de ver o professor. Mesmo assim, fugia para ver o mestre, que passou três anos na cadeia acusado de ter molestado o aluno que estava em sua companhia e morreu no desastre automobilístico. Ao saber disso o menino questiona o mestre, fica dividido. Quando o professor lhe pergunta se acha que seria capaz de molestar um aluno e se, em algum momento em que permaneceram estudando, lendo poesias, dramatizando obras de Shakspeare, tinha lhe tocado desrespeitosamente, o menino nega e compreende que o professor fala a verdade. O abraça chorando. O professor fica proibido pelas autoridades de ver ou falar com o menino, já que pesa sobre ele a acusação de ter molestado o aluno falecido no acidente. Mais tarde, o garoto se submete à prova e é admitido na Academia Militar. Quando todos comemoram a formatura dos alunos, vê a família que o rotulava de burro, eufórica, alegre. Com os outros colegas joga o quepe para cima, cheio de alegria. Distante, vê alguém de óculos escuros que não pode identificar, mas sente que é o seu amigo professor, felicitando-o, de longe, pelo o que tinha certeza, conseguiria. Acenou muitas vezes para aquele homem sem rosto, entusiasticamente, e recebeu o aceno tão esperado. Tinha certeza, era seu mestre.

Me emocionou a história do menino Chuck. Lembrei-me de meus professores e especialmente da Professora do Admissão, Nancy Oliveira, que chegava mais cedo ao colégio para me ensinar as equações matemáticas tão difíceis de serem aprendidas por mim. Com tanto empenho da professora, dizendo-me que eu era inteligente, capaz de superar as dificuldades escolares, consegui noventa na prova final de matemática e, ao segurar o canudo na formatura do Admissão, me senti realizada, capaz de vencer o mundo, eu consegui! O professor é figura muito importante na vida de toda criança e adolescente e por isso deveria ser mais respeitado, principalmente pelos governos que lhes pagam tão mal.

 

(03 de junho/2006)
CooJornal no 479


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm