O Rio de Janeiro, inigualável pela natureza exuberante de suas curvas
montanhosas, praias lindíssimas, povo alegre, hospitaleiro, está deixando seus
moradores tristes pelo descaso das autoridades na prevenção da violência que
está alarmante.
Fugindo da violência, Mercedes procurava uma cidade próxima ao Rio para morar.
Visitou a cidade de Maricá e vários condomínios, dentre eles um bem conhecido da
região, muito grande, com setecentas casas e setenta funcionários. Parecia mais
uma empresa, não um condomínio. A natureza caprichou no lugar. Uma lagoa com
espelho d’água inspirador aos poetas, quiosques às margens dela, muito verde e a
fauna com muita variedade, principalmente de pássaros. Lugar perfeito para
morar.
Mudou-se, a casa pequenina, aconchegante, assim diziam quem lhe vinha visitar.
Cuidava com muito esmero do jardim e das árvores frutíferas. Já tinha colhido
frutas de conde e cachos de banana. Muito comunicativa, Mercedes cumprimentava a
quantos via, alguns respondiam, outros faziam de conta que não viam nem ouviam.
Começou a notar que o lugar tão bonito, não era hospitaleiro. Os que nele viviam
não faziam jus a toda exuberância do lugar. Mediam a importância das pessoas
pelo valor do carro, pelo tamanho da casa, pelo cargo que ocupavam. Ao
conhecerem um novo morador perguntavam: o quê ele é?
Mercedes estava decepcionada. Faltou luz geral. Quando voltou a energia, somente
sua casa ficou às escuras. Falou com o vizinho a respeito e ele foi dizendo: a
corrente tem de ser trifásica, para casa tão pequena a AMPLA não coloca
trifásica. O tom dele era de discriminação, como se o vizinho não tivesse o
direito de ter sua energia restaurada porque sua casa, apesar de dois quartos,
sala e cozinha, não tinha um tamanho monstruoso como a dele. Bem mais tarde, a
energia foi restaurada. Mercedes ficou pensativa.
Passadas algumas semanas, um funcionário do condomínio bate no portão. Ao ser
atendido, vai logo dizendo: - recebemos uma denúncia dos vizinhos de que o
senhor tem uma bomba de sucção instalada direto na entrada d’água e assim o
senhor será multado, isso é proibido. O marido de Mercedes ficou indignado.
Jamais cometeria tal infração. Foi até a administração e exigiu do Síndico que
lhe dissesse quem foi o autor de tamanha injúria. O Síndico procurou consertar a
situação, pediu desculpas, mas disse-lhe que trabalhavam sob informação. Vejam
que clima dentro de um condomínio, vizinhos, sem a certeza do que estão dizendo,
denunciando outros para ter a simpatia do síndico.
Mercedes, só agora, compreendia porque o antigo morador sempre lhe perguntava
como ia com os vizinhos, no que respondia estar tudo bem, sem qualquer problema.
Ele devia ter passado por muitos aborrecimentos e queria checar se ela também os
estava tendo.
Algum tempo depois, esperando o ônibus para o Rio, reconhece um contemporâneo
dos bancos escolares. Conversa vai, conversa: - quando entramos nesse
Condomínio, achamos uma coisa, mas quando moramos, vemos que é muito diferente
do que nos parece à primeira vista. Eles também estavam decepcionados. A maioria
dos moradores não sabem que a amizade e o respeito são a maior riqueza que um
homem pode ter. Carrões e palácios não nos acompanham ao túmulo.
(24 de junho/2006)
CooJornal
no 482