08/07/2006
Número - 484

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis




 O sonho de Mila

 

Mila, brasileira patriota, cheia de entusiasmo e emoção, quando houve o hino Nacional, chora. Preocupada com o desempenho da Seleção Brasileira fez até promessa para que os jogadores se animassem mais e dessem ao povão a alegria que tanto precisa para esquecer as muitas dificuldades do dia-a-dia.

Levantou cedo, preparou um gostoso café para a família e avisou que o almoço seria depois do jogo do Brasil contra os Ganeses, não queria ninguém com o estômago cheio, correndo o risco de passar mal, preparara um pequeno lanche. Meio-dia, sentaram-se todos em frente à televisão para assistir a Seleção Brasileira jogar seu futebol na Alemanha. Ao ouvir o barulho estridente das cornetas e os fogos a pipocarem, olhou a rua e sorriu para as inúmeras bandeiras que enfeitavam as residências vizinhas. Ao ouvir o Hino Nacional arrepiou-se e não pode conter as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. O sentimento patriótico falou mais alto, era muita emoção. Não podia deixar de fazer parte desse patriotismo que condenava, por apenas aflorar no Brasil, de quatro em quatro anos, justamente durante o futebol da Copa do Mundo.

Vibrou muito com a vitória do Brasil contra os Ganeses e já se preparava para assistir ao embate de Brasil x França. Se perguntava: - será que venceremos a França? e implorava: - meu Deus, ajuda aos brasileiros, temos de ganhar essa Copa! O hexa dará muitas alegrias ao nosso povo carente e o Brasil estará na crista da onda.

Preparou o jantar, conversou com os filhos e o marido sobre a perspectiva da vitória do Brasil sobre a França e depois da novela, fez sua oração e foi dormir. Durante o sono teve um bonito sonho: um gigante adormecido levantou do berço esplêndido e deu a mão à Mila, dizendo-lhe: - Não temas, sou o teu amor, me chamo BRASIL. Vejo como te sentes quando ouves o Hino Nacional. Por me amares tanto, achei que devia conversar contigo e te dizer o quanto constato ser querido pelo meu povo, embora isso aconteça somente de quatro em quatro anos. Vejo crianças, jovens e idosos vestindo a camisa com minhas cores, as cores da bandeira que me representa. Ruas, avenidas, praças, portas e janelas, todas enfeitadas com as cores verde e amarela. Em cada rosto um sorriso de esperança e a quase certeza de que a Seleção Brasileira vencerá cada jogo nos campos da Alemanha e trará a taça.

Diante de todo esse clima festivo, penso, como seria bom se toda essa gente que pendura no carro ou na janela a linda bandeira verde e amarela, que se veste com minhas cores, que junta dinheiro para ir à Alemanha assistir aos jogos, como seria bom se tivessem a mesma vontade de me ajudar a vencer os problemas que me criam.

- Brasil, como isso aconteceria?- muito fácil querida.

- Temos milhões de analfabetos. Se cada um desses cidadãos tão entusiasmados com o futebol se apresentassem como voluntários para alfabetizar uma criança ou um adulto, em pouco tempo não teríamos analfabetos.

- Se cada um que compra a camisa oficial da Seleção, se interessasse em ajudar a uma família paupérrima, oferecendo-lhe uma cesta básica no final do mês, como a fome de meu povo seria minimizada!

- Se usassem esse poder de mobilização entre os vizinhos para, em mutirões, limpar a sujeira que jogam nas ruas, nos rios, lagoas, córregos e canais, o país teria um povo com mais saúde.

- Se discutissem em reuniões a atuação dos políticos, como fazem durante o Futebol, deixariam de votar em corruptos, prestariam mais atenção nos homens que realmente apresentam leis em benefício do povo e não votariam, jamais, naqueles que só sabem criticar e não apresentam suas idéias, seus projetos. Entenderiam que fazer oposição sem vivenciar os problemas é facílimo, o difícil é encontrar solução para eles.

- São alguns pontos que te mostro só para dizer que não posso acreditar nesse patriotismo que só aflora durante a Copa do Mundo.

- Não posso acreditar no patriotismo de quem grita BRASIL! BRASIL! e dá as costas para as crianças e os idosos desamparados, que desperdiça a água que tenho, lavando calçadas, quando sabe que esse tesouro escasseia no planeta. Não acredito no patriotismo de quem grita BRASIL! e solta balões para queimar minhas florestas.

Desculpe o desabafo, Mila, mas sofro em ver desperdiçado todo esse potencial de mobilização que tem o meu povo, mas que não sabe direcioná-lo para o bem comum da Nação. Haverá um dia em que este povo se arrependerá de ter sido tão omisso. Quero te dizer que gostaria de ter milhões de brasileiros com o teu sentimento patriótico, deixe-me te dar um abraço.

Neste momento, Mila acordou. Estava alegre e assustada ao mesmo tempo. Deveria contar o sonho ao marido? – será que ficaria enciumado? – Amava demais esse gigante, foi muito bom encontrá-lo e ouvir seu desabafo.

 

(08 de julho/2006)
CooJornal no 484


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm