Mila, brasileira patriota, cheia de entusiasmo e emoção, quando houve o hino
Nacional, chora. Preocupada com o desempenho da Seleção Brasileira fez até
promessa para que os jogadores se animassem mais e dessem ao povão a alegria que
tanto precisa para esquecer as muitas dificuldades do dia-a-dia.
Levantou cedo, preparou um gostoso café para a família e avisou que o almoço
seria depois do jogo do Brasil contra os Ganeses, não queria ninguém com o
estômago cheio, correndo o risco de passar mal, preparara um pequeno lanche.
Meio-dia, sentaram-se todos em frente à televisão para assistir a Seleção
Brasileira jogar seu futebol na Alemanha. Ao ouvir o barulho estridente das
cornetas e os fogos a pipocarem, olhou a rua e sorriu para as inúmeras bandeiras
que enfeitavam as residências vizinhas. Ao ouvir o Hino Nacional arrepiou-se e
não pode conter as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. O sentimento
patriótico falou mais alto, era muita emoção. Não podia deixar de fazer parte
desse patriotismo que condenava, por apenas aflorar no Brasil, de quatro em
quatro anos, justamente durante o futebol da Copa do Mundo.
Vibrou muito com a vitória do Brasil contra os Ganeses e já se preparava para
assistir ao embate de Brasil x França. Se perguntava: - será que venceremos a
França? e implorava: - meu Deus, ajuda aos brasileiros, temos de ganhar essa
Copa! O hexa dará muitas alegrias ao nosso povo carente e o Brasil estará na
crista da onda.
Preparou o jantar, conversou com os filhos e o marido sobre a perspectiva da
vitória do Brasil sobre a França e depois da novela, fez sua oração e foi
dormir. Durante o sono teve um bonito sonho: um gigante adormecido levantou do
berço esplêndido e deu a mão à Mila, dizendo-lhe: - Não temas, sou o teu amor,
me chamo BRASIL. Vejo como te sentes quando ouves o Hino Nacional. Por me amares
tanto, achei que devia conversar contigo e te dizer o quanto constato ser
querido pelo meu povo, embora isso aconteça somente de quatro em quatro anos.
Vejo crianças, jovens e idosos vestindo a camisa com minhas cores, as cores da
bandeira que me representa. Ruas, avenidas, praças, portas e janelas, todas
enfeitadas com as cores verde e amarela. Em cada rosto um sorriso de esperança e
a quase certeza de que a Seleção Brasileira vencerá cada jogo nos campos da
Alemanha e trará a taça.
Diante de todo esse clima festivo, penso, como seria bom se toda essa gente que
pendura no carro ou na janela a linda bandeira verde e amarela, que se veste com
minhas cores, que junta dinheiro para ir à Alemanha assistir aos jogos, como
seria bom se tivessem a mesma vontade de me ajudar a vencer os problemas que me
criam.
- Brasil, como isso aconteceria?- muito fácil querida.
- Temos milhões de analfabetos. Se cada um desses cidadãos tão entusiasmados com
o futebol se apresentassem como voluntários para alfabetizar uma criança ou um
adulto, em pouco tempo não teríamos analfabetos.
- Se cada um que compra a camisa oficial da Seleção, se interessasse em ajudar a
uma família paupérrima, oferecendo-lhe uma cesta básica no final do mês, como a
fome de meu povo seria minimizada!
- Se usassem esse poder de mobilização entre os vizinhos para, em mutirões,
limpar a sujeira que jogam nas ruas, nos rios, lagoas, córregos e canais, o país
teria um povo com mais saúde.
- Se discutissem em reuniões a atuação dos políticos, como fazem durante o
Futebol, deixariam de votar em corruptos, prestariam mais atenção nos homens que
realmente apresentam leis em benefício do povo e não votariam, jamais, naqueles
que só sabem criticar e não apresentam suas idéias, seus projetos. Entenderiam
que fazer oposição sem vivenciar os problemas é facílimo, o difícil é encontrar
solução para eles.
- São alguns pontos que te mostro só para dizer que não posso acreditar nesse
patriotismo que só aflora durante a Copa do Mundo.
- Não posso acreditar no patriotismo de quem grita BRASIL! BRASIL! e dá as
costas para as crianças e os idosos desamparados, que desperdiça a água que
tenho, lavando calçadas, quando sabe que esse tesouro escasseia no planeta. Não
acredito no patriotismo de quem grita BRASIL! e solta balões para queimar minhas
florestas.
Desculpe o desabafo, Mila, mas sofro em ver desperdiçado todo esse potencial de
mobilização que tem o meu povo, mas que não sabe direcioná-lo para o bem comum
da Nação. Haverá um dia em que este povo se arrependerá de ter sido tão omisso.
Quero te dizer que gostaria de ter milhões de brasileiros com o teu sentimento
patriótico, deixe-me te dar um abraço.
Neste momento, Mila acordou. Estava alegre e assustada ao mesmo tempo. Deveria
contar o sonho ao marido? – será que ficaria enciumado? – Amava demais esse
gigante, foi muito bom encontrá-lo e ouvir seu desabafo.
(08 de julho/2006)
CooJornal
no 484