15/07/2006
Número - 485

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis




HISTÓRIA DE UMA VIDA

 

Nada acontece por acaso. Vejam vocês que ao ter um problema de saúde, acabei conhecendo um médico muito humano e carinhoso com seus pacientes, Dr. Ronaldo Surrage. Ofereci-lhe um exemplar do meu livro VIVÊNCIAS e fiquei sabendo que seu pai também escrevia. Interessei-me em ler o livro, o médico me disse que na próxima consulta o traria para mim.

Passado algum tempo, volto à consulta e recebo o livro intitulado DOCES LEMBRANÇAS e seu autor, Francisco Surrage Sobrinho, noventa anos de idade. À noite comecei a ler o livro e muitos episódios ali contados, me faziam voltar ao passado de minhas lutas, sacrifícios e vitórias.

O carinho dedicado à sua falecida esposa, Sra. Cacilda Tristão Surrage e alguns fatos ocorridos em sua vida, como o incêndio da farmácia que com tanta luta conseguiu comprar, me emocionaram. Imagino como foi doído para ele ver consumido pelo fogo toda a luta de uma vida para conseguir o estabelecimento e mantê-lo, mas, como disse acima, nada acontece por acaso. Neste episódio, Deus mostrou-lhe o quanto era querido e merecedor da confiança de seus amigos que lhe emprestaram apoio para continuar no ramo da farmácia. Prático de farmácia é uma profissão importante nas cidades do interior. Ele fazia remédios que davam certo. As pessoas o procuravam com as mais variadas doenças para que minimizasse seus sofrimentos, muitas vezes ele conseguiu curá-las, outras não, dependendo da gravidade de cada enfermidade.

Começou a trabalhar aos sete anos de idade, as quatorze foi incumbido de consertar os fios telefônicos da cidade de Divisa-MG, para que a cidade não ficasse sem comunicação. À tarde, trabalhava nos correios. Por ocasião das eleições, era o encarregado de levar as urnas eleitorais, tendo como segurança a acompanhá-lo, um soldado devidamente armado para prevenir qualquer surpresa e, nesta ocasião, ficava muito prosa e os colegas com muita inveja. Até eu me sentiria assim, isso é próprio da idade, um menino com tanta responsabilidade e escoltado por um soldado com fuzil, numa cidade do interior, é para se sentir muito importante mesmo.

Lembrei-me do meu tempo de criança e dei muitas risadas quando li o episódio dos marimbondos que lhe morderam quando em Cachoeiro foi ao mato fazer necessidades fisiológicas. Quando estava agachado com as calças arreadas, alguém jogou uma pedra na casa de marimbondos e estes, enlouquecidos, tomaram de assalto o seu bumbum, deixando-o todo inflamado, ficando vários dias sem poder sentar-se.

Lendo e relendo capítulos de “Doces Lembranças” vivi muitas fases da vida de minha família, gente humilde, mas honrada, trabalhadora, de muita fibra, gente que não se dobra diante dos obstáculos da vida, vai em frente, luta e consegue.

Finalizando, diz o autor: - “O máximo que pude dar aos filhos foi a riqueza do estudo e da educação”.

Quero dizer ao autor, Sr. Francisco Surrage, que este tesouro legado aos filhos é que os fizeram bons filhos, bons amigos e no caso do Dr. Surrage, um médico muito humano, transmitindo aos seus pacientes, carinho, fé e confiança. Os valores que o senhor passou aos seus filhos são a maior riqueza que um pai pode deixar para os filhos. Parabéns pela vida levada a sério com muito trabalho, respeito e calor humano, tão escassos nos dias de hoje. No dia 15 de julho, receba um abraço carinhoso pelos noventa anos de vida.

 

(15 de julho/2006)
CooJornal no 485


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm