Nada acontece por acaso. Vejam vocês que ao ter um problema de saúde, acabei
conhecendo um médico muito humano e carinhoso com seus pacientes, Dr. Ronaldo
Surrage. Ofereci-lhe um exemplar do meu livro VIVÊNCIAS e fiquei sabendo que seu
pai também escrevia. Interessei-me em ler o livro, o médico me disse que na
próxima consulta o traria para mim.
Passado algum tempo, volto à consulta e recebo o livro intitulado DOCES
LEMBRANÇAS e seu autor, Francisco Surrage Sobrinho, noventa anos de
idade. À noite comecei a ler o livro e muitos episódios ali contados, me faziam
voltar ao passado de minhas lutas, sacrifícios e vitórias.
O carinho dedicado à sua falecida esposa, Sra. Cacilda Tristão Surrage e alguns
fatos ocorridos em sua vida, como o incêndio da farmácia que com tanta luta
conseguiu comprar, me emocionaram. Imagino como foi doído para ele ver consumido
pelo fogo toda a luta de uma vida para conseguir o estabelecimento e mantê-lo,
mas, como disse acima, nada acontece por acaso. Neste episódio, Deus mostrou-lhe
o quanto era querido e merecedor da confiança de seus amigos que lhe emprestaram
apoio para continuar no ramo da farmácia. Prático de farmácia é uma profissão
importante nas cidades do interior. Ele fazia remédios que davam certo. As
pessoas o procuravam com as mais variadas doenças para que minimizasse seus
sofrimentos, muitas vezes ele conseguiu curá-las, outras não, dependendo da
gravidade de cada enfermidade.
Começou a trabalhar aos sete anos de idade, as quatorze foi incumbido de
consertar os fios telefônicos da cidade de Divisa-MG, para que a cidade não
ficasse sem comunicação. À tarde, trabalhava nos correios. Por ocasião das
eleições, era o encarregado de levar as urnas eleitorais, tendo como segurança a
acompanhá-lo, um soldado devidamente armado para prevenir qualquer surpresa e,
nesta ocasião, ficava muito prosa e os colegas com muita inveja. Até eu me
sentiria assim, isso é próprio da idade, um menino com tanta responsabilidade e
escoltado por um soldado com fuzil, numa cidade do interior, é para se sentir
muito importante mesmo.
Lembrei-me do meu tempo de criança e dei muitas risadas quando li o episódio dos
marimbondos que lhe morderam quando em Cachoeiro foi ao mato fazer necessidades
fisiológicas. Quando estava agachado com as calças arreadas, alguém jogou uma
pedra na casa de marimbondos e estes, enlouquecidos, tomaram de assalto o seu
bumbum, deixando-o todo inflamado, ficando vários dias sem poder sentar-se.
Lendo e relendo capítulos de “Doces Lembranças” vivi muitas fases da vida de
minha família, gente humilde, mas honrada, trabalhadora, de muita fibra, gente
que não se dobra diante dos obstáculos da vida, vai em frente, luta e consegue.
Finalizando, diz o autor: - “O máximo que pude dar aos filhos foi a riqueza
do estudo e da educação”.
Quero dizer ao autor, Sr. Francisco Surrage, que este tesouro legado aos filhos
é que os fizeram bons filhos, bons amigos e no caso do Dr. Surrage, um médico
muito humano, transmitindo aos seus pacientes, carinho, fé e confiança. Os
valores que o senhor passou aos seus filhos são a maior riqueza que um pai pode
deixar para os filhos. Parabéns pela vida levada a sério com muito trabalho,
respeito e calor humano, tão escassos nos dias de hoje. No dia 15 de julho,
receba um abraço carinhoso pelos noventa anos de vida.
(15 de julho/2006)
CooJornal
no 485