29/07/2006
Número - 487

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis




A NEOVESÍCULA

 

Melissa, jovem de 26 anos, vivia o drama de passar mal toda semana. Chegava ao escritório e já corria para devolver tudo que havia comido. Os meses foram passando, toma um remédio aqui, outro ali, chás de muitas ervas e o problema não foi resolvido. As dores continuavam a atacá-la, o que a levava a pensar que não estava se alimentando adequadamente.
Num Sábado, dia lindo, Melissa começou a passar mal. Desta vez as dores eram terríveis, tão intensas que não a deixavam ficar ereta, andava com dificuldade, toda curvada, segurando o abdômen. Tudo doía, até os pulmões.

Foi levada ao hospital, que a internou imediatamente, submetendo-a ao soro e repouso absoluto, por três dias, com bolsa de gelo sobre o abdômen para que o inchaço melhorasse. Após esse período, Melissa foi submetida ao raio x e em seguida visitada pelo médico que brincando, lhe disse: - a vesícula não está dentro da senhora, a senhora é que está dentro da vesícula, ela está muito grande e cheia de cálculos, teremos de retirá-la.
Feito os exames necessários, a cirurgia foi realizada. Tudo transcorreu dentro dos conformes. Melissa ganhou uma cicatriz de dezoito pontos. Após oito dias de internação, a alta foi concedida e ela voltou para casa, tomando os cuidados necessários para uma boa recuperação.

Quarenta anos depois, tudo parecia ir bem quando Melissa começou a sentir dor abdominal que a incomodava de vez em quando. Resolveu ir ao médico. Pesquisa daqui, pesquisa dali, é solicitada uma ultra-sonografia. Durante o exame o médico lhe perguntou: - essas cicatrizes são relativas a que operações? – Melissa informou que se tratava de três cesarianas e uma vesícula. O médico indagou: - A senhora operou a vesícula? – Sim doutor. – A senhora viu a vesícula? – Não. – Bem, naquele tempo acho que não mostravam ao paciente. - É, eu tenho de lhe dizer uma coisa. Não sei o que lhe tiraram, mas a sua vesícula está aqui e cheia de cálculos. Ela está reduzida, mas está. – Não acredito no que o senhor está me dizendo. O senhor está vendo bem o que a tela do computador está mostrando? - Me desculpe Doutor, mas é que a gente vê pela televisão cada barbaridade, a paciente que tem dois bebês e o médico só vê um, etc.etc. Desculpe. - Essa sua reação é natural, mas tenho vinte dois anos de profissão e certeza do que estou lhe dizendo, a vesícula está aqui.- Obrigada e me desculpe.

No outro dia, Melissa levou o resultado ao médico que solicitou a ultra. Este não ficou satisfeito com as imagens e pediu fosse repetida num laboratório indicado, com aparelho moderno, de ponta, pois queria saber a origem dos cálculos para decidir se deveria operar ou somente tratar.
Feita a nova ultra-sonografia o médico explicou a Melissa o seguinte: - há quarenta anos ela foi operada, realmente, só que o cirurgião deixou um apêndice, um pedacinho, como se fosse um rabinho. Com o tempo, este se desenvolveu e transformou-se numa neovesícula com cálculos no seu interior. Ele achava que precisava operar. Melissa voltou para casa pensando na neovesícula (nova vesícula) e se preparando para mais uma vez retirá-la, esperando que, desta vez, seja extirpada totalmente.
 

(29 de julho/2006)
CooJornal no 487


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm