
05/08/2006
Ano 10 - Número 488
ARQUIVO
ARLETE REIS
|
|
Arlete Moreira Reis
A CONSTITUIÇÃO E A PREVIDÊNCIA
|
 |
Na Universidade, cursando Direito, estudei minuciosamente a Constituição
Brasileira. O que mais os professores desejavam era que acreditássemos que no
Brasil todos são iguais perante as Leis. Ressabiados os alunos indagavam aos
mestres como isso era possível se vemos no dia-a-dia, gritante discriminação
entre o direito de um e o direito do outro, dependendo somente do status social
a que o cidadão pertença. Se pobre, a lei pesa com toda a força de sua mão sobre
os ombros do coitado, se de classe abastada, o direito tem mil facetas para
abrandar a pena de quem cometeu algum deslize. A moça rica aguarda em domicílio
o julgamento pelo crime hediondo de ter planejado com o namorado a morte dos
pais. A mulher paupérrima que furtou um shampoo do supermercado está trancafiada
há sete meses. Dá para acreditar na Constituição? – Os professores ficam
aborrecidos quando os alunos questionam essas diferenças, mas, cá pra nós, é
piada de salão essa tal de igualdade.
Depois de trinta anos de trabalho para mulheres e trinta e cinco para os homens,
vem a aposentadoria. Com ela a incerteza da sobrevivência no futuro. O medo
desse futuro se dá por conta do valor das aposentadorias que são pagas aos
segurados da Previdência Social.
Enquanto trabalhavam, muitos descontaram para a Previdência sobre dez salários
mínimos, outros sobre vinte, pensando em ganhar um valor de benefício que
assegurasse a eles uma vida digna. Se descontaram um valor substancial,
receberiam também um valor condizente com o que descontaram nos longos anos de
trabalho.
No governo do Presidente Collor de Melo, a aposentadoria foi desvinculada do
salário mínimo. Não importa se você descontou sobre dez ou vinte salários, o
valor a receber é calculado por um novo índice estabelecido pelo INSS. Daí pra
frente, os aposentados só tiveram prejuízo em seus proventos. A cada ano há o
achatamento do benefício, sem que ninguém enxergue a injustiça que se está
fazendo às pessoas que deram seu sangue ao país por trinta, quarenta anos, e na
velhice¸ precisando comprar remédios, fazer tratamentos alternativos não
encontrados nos hospitais que estão em decadência, vêem seu estado de saúde
piorar por não ter como custear tais tratamentos. O que ganham é muito pouco,
mal dá para comprar remédios, quando têm doenças graves, piora a situação, os
remédios são caríssimos.
Todos os anos, à época dos reajustes das aposentadorias, os idosos têm uma
grande decepção. Este ano, o presidente da República deu 5% sobre o valor das
aposentadorias a quem ganha mais de um salário mínimo, isto é, àqueles que
descontaram para a Previdência sobre vários salários mínimos, e 16% para quem
ganha um salário mínimo, àqueles que descontaram sobre um salário mínimo e
outros que nada descontaram, mas que têm direito por idade ou por trabalhar na
roça. Isso é igualdade social? Todos são iguais perante a Lei? – Será que os
remédios, alimentação, vestimenta, são mais baratos para quem ganhou somente 5%
de reajuste?
Se todos são iguais perante a Lei, porque discriminar os que muito contribuíram
para o engrandecimento deste País? Foram eles que encheram os cofres da
Previdência com suas contribuições sobre vinte ou dez salários mínimos e que na
velhice têm seus vencimentos vergonhosamente furtados pela mesma instituição que
ajudaram a crescer e com esse crescimento, propiciaram aos maus administradores,
saquearem-no.
Os Deputados e Senadores assinaram o reajuste de 16% para todos os aposentados.
O governo diz que vetará porque não pode pagar, quebrará a Previdência, terá que
injetar mais alguns bilhões para honrar os pagamentos e isso não é possível para
o País. – Se todos são iguais perante as Leis, como dar 5% para uns e 16% para
outros da mesma categoria, aposentados. Não dá para aceitar, todos os anos é a
mesma conversa.
Quando interessa, há dinheiro para enviar para Cuba, ajudar o Paraguai, o Haiti,
custear a campanha de reeleição em noventa e oito milhões de reais, comprar
avião de cento e cinqüenta e sete milhões, etc.etc.. Há tanto gasto nesta Nação
do qual não temos conhecimento, que se soubéssemos, ficaríamos estarrecidos. O
que os aposentados deste país estão passando é uma vergonha nacional. Hoje, na
farmácia, encontrei uma senhora que pagava R$450,00 de remédios, recebendo
apenas R$520,00 da Previdência. Conversando com ela, me disse: - trabalhei
durante 32 anos, descontava sobre dez salários mínimos, quando aposentei, recebi
mais ou menos sete salários, hoje recebo um pouco mais de dois salários, se não
fosse os filhos, não teria condições de comprar meus alimentos. É revoltante. Os
aposentados devem se unir e não votar nos seus carrascos.
(05 de agosto/2006)
CooJornal
no 488
Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa
arletemr@ig.com.br http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm
|
|