Viajando de Van, algumas vezes por semana, percorrendo o trajeto Maricá-Rio e
vice-versa, tenho a oportunidade de ouvir muitas histórias, casos acontecidos na
cidade vizinha e comentários que me levam a pensar. Como o veículo tem um espaço
físico muito apertado, é impossível deixar de ouvir o que conversam os
passageiros.
Desta vez, duas jovens senhoras, aparentando quarenta e poucos anos falam
animadas sobre os moradores de sua rua. Pelo que entendi, tratava-se de
condomínio com poucas casas, sabiam os nomes de todos os moradores, contei uns
vinte nomes diferentes. A viagem de uma hora e meia permite que escutemos
assuntos tristes, engraçados, outros enfadonhos, baboseiras de viagem.
Assim, Eunice falava para Débora que é importante o vizinho se relacionar bem
com os outros moradores, não o fazendo, fica automaticamente discriminado pelos
demais, uma vez que, os comentários correm de boca- em- boca, como sendo ele
antipático e anti-social. Falavam do Eustáquio e Luna, moradores novos que
apenas cumprimentavam os demais, estavam sempre cuidando dos afazeres e não iam
a casa de ninguém, ou mesmo davam uma paradinha no portão para um bate-papo.
Pensei com meus botões: os vizinhos são educados, pior é aquele que você
cumprimenta e ele faz de conta que não ouviu. Ser simpático ou não é muito
relativo. Cada pessoa tem um comportamento diferenciado do outro. Talvez aqueles
novos vizinhos já tenham tido tanta decepção que se fecharam no seu mundo,
passam o dia cuidando do jardim, da sua casa e não querem aproximação mais
efetiva para não suportarem mais um desapontamento.
Vizinhança hoje em dia está muito difícil. Não interessa às pessoas coisas
sérias, se não falam da novela, falam mal de alguém ou especulam a vida que você
leva. Outras vezes pedem favores ao vizinho e, simplesmente, depois de servidos,
o descartam como qualquer outro objeto, sem a mínima consideração. Para não ter
envolvimento com assuntos desagradáveis, muitos procuram se distanciar e viver
quase isolados. Isso leva as pessoas a se distanciarem uma das outras, todos
precisam de respeito e consideração.
Mamãe nos ensinou, desde crianças, que nunca devíamos perguntar sobre a vida
particular de qualquer pessoa. Se contarem, vocês ouçam com atenção, mas,
jamais, indaguem algo sobre a vida de alguém, é falta de educação. Isso ficou
comigo e até hoje, com quase setenta anos, alguns amigos acham interessante o
meu modo de viver, os conheço a tantos anos e nunca lhes perguntei sobre
qualquer particularidade de suas vidas. Estendo a mão, tento levantar o astral,
mas não pergunto nada e só falo sobre o que me contam. Muitas amigas me fazem
suas confidente, por terem a certeza da discrição e também do apoio que precisam
sem serem questionadas sobre o que fizeram ou o que estão escondendo.
Simplesmente, não interessa se aprofundar na vida alheia, cada um tem seus
motivos, suas mágoas, seus segredos, seus temores e é preciso respeitar o lado
frágil que cada um temos.
(26 de agosto/2006)
CooJornal
no 491