26/08/2006
Ano 10 - Número 491

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



DE-BOCA-EM-BOCA

 

Viajando de Van, algumas vezes por semana, percorrendo o trajeto Maricá-Rio e vice-versa, tenho a oportunidade de ouvir muitas histórias, casos acontecidos na cidade vizinha e comentários que me levam a pensar. Como o veículo tem um espaço físico muito apertado, é impossível deixar de ouvir o que conversam os passageiros.

Desta vez, duas jovens senhoras, aparentando quarenta e poucos anos falam animadas sobre os moradores de sua rua. Pelo que entendi, tratava-se de condomínio com poucas casas, sabiam os nomes de todos os moradores, contei uns vinte nomes diferentes. A viagem de uma hora e meia permite que escutemos assuntos tristes, engraçados, outros enfadonhos, baboseiras de viagem.

Assim, Eunice falava para Débora que é importante o vizinho se relacionar bem com os outros moradores, não o fazendo, fica automaticamente discriminado pelos demais, uma vez que, os comentários correm de boca- em- boca, como sendo ele antipático e anti-social. Falavam do Eustáquio e Luna, moradores novos que apenas cumprimentavam os demais, estavam sempre cuidando dos afazeres e não iam a casa de ninguém, ou mesmo davam uma paradinha no portão para um bate-papo.
Pensei com meus botões: os vizinhos são educados, pior é aquele que você cumprimenta e ele faz de conta que não ouviu. Ser simpático ou não é muito relativo. Cada pessoa tem um comportamento diferenciado do outro. Talvez aqueles novos vizinhos já tenham tido tanta decepção que se fecharam no seu mundo, passam o dia cuidando do jardim, da sua casa e não querem aproximação mais efetiva para não suportarem mais um desapontamento.

Vizinhança hoje em dia está muito difícil. Não interessa às pessoas coisas sérias, se não falam da novela, falam mal de alguém ou especulam a vida que você leva. Outras vezes pedem favores ao vizinho e, simplesmente, depois de servidos, o descartam como qualquer outro objeto, sem a mínima consideração. Para não ter envolvimento com assuntos desagradáveis, muitos procuram se distanciar e viver quase isolados. Isso leva as pessoas a se distanciarem uma das outras, todos precisam de respeito e consideração.

Mamãe nos ensinou, desde crianças, que nunca devíamos perguntar sobre a vida particular de qualquer pessoa. Se contarem, vocês ouçam com atenção, mas, jamais, indaguem algo sobre a vida de alguém, é falta de educação. Isso ficou comigo e até hoje, com quase setenta anos, alguns amigos acham interessante o meu modo de viver, os conheço a tantos anos e nunca lhes perguntei sobre qualquer particularidade de suas vidas. Estendo a mão, tento levantar o astral, mas não pergunto nada e só falo sobre o que me contam. Muitas amigas me fazem suas confidente, por terem a certeza da discrição e também do apoio que precisam sem serem questionadas sobre o que fizeram ou o que estão escondendo. Simplesmente, não interessa se aprofundar na vida alheia, cada um tem seus motivos, suas mágoas, seus segredos, seus temores e é preciso respeitar o lado frágil que cada um temos. 

 

(26 de agosto/2006)
CooJornal no 491


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm