09/09/2006
Ano 10 - Número 493

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



O DIA DA PÁTRIA

 

Não sei se devo dar os parabéns ou os pêsames ao Brasil. Desculpe minha franqueza, mas não costumo mascarar minhas emoções. Ao presenciar tantos desmandos, tantos roubos, tanto desrespeito à Pátria Amada, fico indignada. Sei que a mentira sempre foi a base do sistema político, mas atualmente uma quadrilha se instalou no governo e desviou bilhões do dinheiro público. Os culpados são conhecidos, provas irrefutáveis são mostradas, contas no estrangeiro, mas o governo nega tudo e de tanto repetir mentiras, as torna verdadeiras aos ouvidos do povo. Outros parlamentares, com a maior cara de pau, confessam ter recebido milhões tirados dos cofres públicos, sentem-se vítimas, e no horário eleitoral pedem votos para os filhos como se nada tivesse acontecido. Está tão corriqueiro surrupiar os cofres públicos que o Povo está anestesiado, ninguém pinta mais a cara para sair às ruas protestando. A população ignorante, como prisioneiros, aceita a conduta dos políticos que elegeram. Acreditam que apenas praticaram um deslize, como disse aquele que foi eleito pela massa operária para dirigir a Nação, certos de que teriam um aliado para melhorar um pouco a vida difícil dos cidadãos de bem. Isto não aconteceu, instalou-se aqui o Neocinismo.

A sociedade, apática, aceita passivamente tudo que acontece. Os abaixo da linha de pobreza se alegram com setenta reais que recebem mensalmente para viver por um mês. Até aí encontrou-se desvio. Muitos que recebem esse “auxílio” são parentes e filiados de prefeitos das mais distantes cidades, gente que não precisa, outros, miseráveis, ficam sem nada. É de estarrecer.

Será que somos um povo independente? Somos um Povo democrata? Não acredito, como alguns milhões de brasileiros também não. Citarei alguns exemplos:

- Auto-suficiência em petróleo, pagamos a gasolina mais cara do mundo. Brasileiros indo à Argentina para comprar gasolina pela metade do preço, sofrendo humilhação daquele país que está cobrando aos brasileiros, taxa para entrar, e ainda, seja cobrado a eles o preço bem maior. Independência, vejam só!

- Os jovens de hoje não sabem se terão aposentaria, o governo já se incumbe de traçar para eles dias sombrios, jogando no ar pelo rádio e televisão que não terá dinheiro para custear tais aposentadorias. Por outro lado, o INSS consome grande parte da contribuição de todos os brasileiros pagando polpudos salários aos seus funcionários; mesmo assim, a qualquer hora ou dia, fazem greve por melhoria salarial para dar um péssimo atendimento a quem lhes procura. Para agravar a situação, o arrecadado pela contribuição de todos que trabalham, e que deveria ser, exclusivamente, para pagar aos que se aposentam, parte, é desviada para pagar a dívida externa e tapar buracos financeiros de outras áreas.

- A democracia brasileira é interessante. As leis são feitas somente para o povão. Os que pertencem à classe dominante, jamais vão para a cadeia, quando muito, passam lá alguns dias, só para enganar a sociedade, e logo vão para prisão domiciliar, implicando em gastos que pagamos com nossos impostos. Outros, nem para a cadeia vão, responderão aos erros em liberdade. Leis com braço forte quando se trata de alguém da periferia que vai ao supermercado e furta alguma coisa de valor insignificante. Cadeia nele, as Leis devem ser cumpridas! Quanta hipocrisia nesse Judiciário de muletas que pela lentidão dos trâmites processuais premia os criminosos, principalmente os de colarinho branco. Além disso, também manchou sua integridade moral com alguns Lalaus da vida e liminares que envergonham os brasileiros.

- No País do faz de contas, as forças armadas desfilam com um garbo que dá arrepio, é muito bonito vê-los assim marchando, carregando o Pavilhão Nacional, mas, é tudo teatro. Nossas forças armadas vêm sendo absolutamente esfaceladas, desmontadas, desvalorizadas, e o presidente com sua faixa presidencial, numa figura cômica recebe os cumprimentos, passa em revista a tropa e dá autorização para o início do desfile militar. Quando menina, empunhando minha bandeira verde e amarela, não perdia uma parada, papai e eu vibrávamos com o desfile militar, hoje, o coração aperta, as lágrimas vêm aos olhos e não posso segurá-las ao ouvir o Hino Nacional. Dói demais ver esse Brasil tão rico, desfigurado pelos maus governantes.

- Gritam aos quatro ventos que no nosso País não há discriminação, todos são tratados igualmente pelas autoridades, não é o que se vê. A criminalidade avança a cada dia de mãos dadas com corruptos que lhes dão cobertura e muitas vezes participam de suas atividades intensamente. Há discriminação sim, quando um favelado tem a sua porta arrombada pela polícia que vasculha todos os seus pertences, deixa a porta danificada e ainda some daquele lar pobre, misteriosamente, alguma coisa que, por ínfimo valor que tivesse, para aquele trabalhador que não pode pagar aluguel noutro lugar, era muito valioso. Quando essa mesma polícia chega a bairros nobres, há todo um cuidado em preparar mandados, fazer campana, esperar a hora certa de chegar ao delinqüente, e cobrir sua cabeça para que não seja reconhecido quando exposto aos repórteres dos meios de comunicação. Quando é o povão, o policial até se incumbe de levantar seu queixo para que seja melhor fotografado. Ao doutor, não, ao rico, nada disso, temos que ter cuidado, até que se prove, realmente, se é culpado. Cínicos!

- Quem se importa com os deficientes físicos facilitando seu dia-a-dia, dando-lhes condições de entrar numa condução sem riscos? Um ou outro ônibus lhes proporcionam usá-lo para transporte, a maioria não tem dispositivo para embarcá-los. Assim, centenas deles ficam marginalizados, sem acesso ao trabalho, escola, lazer.

- Os deficientes visuais andam pela cidade tropeçando nas calçadas esburacadas, caindo nos altos e baixos do meio-fio. Portadores de várias síndromes, procurando escola que lhes aceitem e instituições públicas que lhes dêem tratamento adequado, sem muito conseguir.

- O aposentado é discriminado vergonhosamente pelo próprio poder executivo, quando diferencia o percentual de ajuste das aposentadorias dando cinco por cento para uns e dezesseis para outros. Trabalhei durante trinta anos, descontava sobre dez salários mínimos, hoje recebo um pouco mais do que três, e mais alguns anos, se até lá viver, não tenho a certeza de continuar recebendo o que me é de direito.

Exercendo minha cidadania apenas mostro para os leitores o momento que estamos vivendo e, nesta época de eleições, peço que reflitam muito antes de escolher seus candidatos, pois, quer saber o que mais eu desejaria? - que todos os conscientes desta Nação não comparecessem às urnas dando uma boa resposta aos sanguessugas, aos mensalões, aos mensalinhos e aos sem-vergonhas.

Se o Brasil conseguisse acabar com todas as ratazanas que habitam os porões das Instituições, talvez fôssemos uma Nação independente, uma Nação que desse orgulho ao seu Povo. Temos tudo aqui para sermos respeitados, infelizmente, falta vergonha na cara dos que governam este país e um Povo que participe, deixe de ser passivo, grite quando desrespeitado, exija seus direitos, e faça a sua parte para o engrandecimento da Pátria Amada, Idolatrada, Brasil.

 

(09 de setembro/2006)
CooJornal no 493


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm