07/10/2006
Ano 10 - Número 497

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



CHEGUEI!!!
 

 

Sou Luise Reis Pereira. Nasci no dia12 de setembro de 2006, às 18:59h, numa terça-feira, no Hospital São Lucas de Nova Friburgo. Sou Friburguense. O médico que me ajudou a nascer foi o Dr. Carlos Pecci, parecia meu vovô, muito simpático e competente.

Minha mamãe, Márcia Moreira Reis Pereira estava com uma barriga pra lá de grande, mesmo assim, eu fiquei esprimidinha nos meus cinqüenta centímetros, três quilos, quinhentos e quarenta e cinco gramas. Eu já não via a hora de pular para este mundo.

Papai, Luis Carlos Fernandes Pereira acompanhou mamãe até a sala de cirurgia e colocou aquele uniforme de médico, parecia um deles, mas a máquina filmadora em suas mãos, revelava o papai ansioso, coração disparado, registrando passo a passo o trabalho do Dr. Pecci para a minha chegada. Quando papai avistou minha cabeça nas mãos do Dr. Carlos Pecci, acho que sentiu alguma coisa, pois se encostou na parede da sala e a máquina tremeu.

Do lado de fora aguardavam as vovós Ana e Arlete, o vovô Humberto, muito resfriado e preocupado com a filha, minha mamãe, preferiu ficar na recepção do Hospital.

Mamãe Márcia foi anestesiada e o bisturi começou a trabalhar. Finalmente, Dr.Carlos Pecci me avistando tão apertadinha, tratou logo de introduzir sua mão enluvada e veio me trazendo devagar para fora do útero materno. Quando me vi nas mãos dele, gritei forte, meu pulmão respirou e fui conhecer mamãe. Ela estava feliz, com um sorriso e lágrimas nos olhos ao me ver bem de pertinho. Minha mamãe é bonita, uma morena de cabelos e olhos negros, cheia de muito carinho, olhou-me com ternura e até deu-me um beijinho. Papai tão emocionado não parava de filmar o momento tão sublime de ver sua sementinha brotar. As duas vovós ao ouvirem o meu choro forte, se abraçaram numa grande emoção e disseram: NASCEU!!

Vovó materna, Arlete, apressou-se em noticiar meu nascimento ao vovô Humberto e trazê-lo para o quarto andar onde se situa a maternidade. Ele logo perguntou: - como está a Márcia? –subiram apressados para juntar-se a vovó paterna, Ana, saber o estado de saúde de mamãe e me conhecer.

Me levaram para um banho de água muito quentinha, me aspiraram o nariz, me pesaram, mediram e olharam tudo direitinho, eu nasci perfeitinha, disse Dra. Cláudia Duarte, a pediatra simpática que me cuidou muito bem.

Através do vidro, vovós Ana e Arlete me olhavam e não paravam de sorrir, o vovô Humberto, tão resfriado, coitado, me olhava com carinho e não queria chegar de pertinho, preservando minha saúde de um resfriadinho.

Ainda estavam admirados com o meu tamanho e beleza quando mamãe Márcia veio trazida na maca para o quarto 405. Logo me aprontaram e cheguei bem enrolada pelas mãos da enfermeira Janaína, que antes foi pegar minhas roupinhas. Ao lado de mamãe Márcia, fiquei no meu bercinho e logo chegou papai cheio de carinho.

Daí pra frente, minha moleza acabou, para me alimentar eu teria que sugar o colostro que mamãe me oferecia no seu seio tão quentinho. Confesso que me senti cansada de tanto o peito sugar e muitas vezes gritei, forma de reclamar do esforço que preciso fazer para me alimentar.

Mamãe Márcia preocupada em me alimentar, não sabia o que fazer para o peito eu pegar. As auxiliares de enfermagem vinham para ajudar, eu gritava, empurrava, mas elas sempre pacientes me ensinavam a mamar e mamãe ali, se doando e eu preguiçosa, só queria espernear. Em todas as vezes que as dificuldades surgiam, vovó Arlete corria em busca das enfermeiras que prontamente socorriam, tentando ajudar em tudo que podiam. Ela ficou tão agradecida à equipe de enfermagem que ofereceu a elas um livro de sua autoria e na dedicatória ressaltava o quanto de doação, carinho e paciência é exigido de cada enfermeira no desempenho de sua profissão.

A novidade maior ainda não lhes contei. Nasci no mesmo dia em que minha bisavó nasceu, ela se chama Nomízia, é a mãe do vovô Humberto e fez 93 anos, muito lúcida e esperta.

No dia 12 de setembro de 2006 muitas coisas aconteceram pelo mundo. No Brasil o ano é de eleições para presidente, governadores, deputados estaduais e federais e restam apenas dezenove dias para o pleito. A reeleição é sonhada pelo Presidente Lula, a disputa está acirrada entre ele e Geraldo Alckmim e só se fala em escândalos na base do governo, tudo muito complicado para eu entender. As notícias dos jornais neste dia não são muito boas, mesmo assim, anotei algumas do Jornal O Globo:

- Telecom Itália pode vender TIM no Brasil.
- Uma guerra de marketing marca 11 de setembro, dia do atentado terrorista às Torres Gêmeas dos EE.UU.
- Volks propõe acordo para demissões
- FIFA: Brasil terá de gastar “bilhões” para fazer Copa
- Europa abre 1ª Divisão do Futebol brasileiro
- Wladimir: Rio precisa de um líder político
- Guido Mantega, ministro da Fazenda, aposta na vitória de Lula e está trocando o hotel onde mora pela residência oficial de Ministro da Fazenda
- Tarifa Social, uso eleitoral
- Sérgio Cabral, candidato a governador do Rio de Janeiro, anuncia que, se eleito, vai acabar com Nova Escola criada por Garotinho.
- Acidentes mudam hábitos de jovens. Contam em revista, como mudaram de comportamento após perder cinco amigos no acidente na Lagoa. O que dirigia estava embriagado.
- Coronel Ubiratan Guimarães que chefiou o massacre de 111 presos na Penitenciária do Carandiru, morre com um único tiro, supostamente disparado pela namorada a advogada Carla Cepollina.
- Cômoda cai pela janela e atinge jovem em Botafogo

Que mundo complicado eu entrei. Continuo em dificuldades, o seio de mamãe está pesado e algumas vezes não consigo abocanhar a auréola, quando consigo, me farto. A enfermeira Renata Faria, muito boazinha teve muita paciência comigo e mamãe, mas vou contar o que ela disse para vovó Arlete: - não quero ter filhos, as mães sofrem muito, cuido com muito carinho das crianças que aqui nascem, as ajudo no que está a meu alcance, mas para mim não quero. É muito difícil, os filhos deviam valorizar muito as suas mães.

Finalmente, hoje, 14 de setembro estou indo para casa. Vou conhecer o lar de meus pais. Mamãe anda devagar, está com os pontos recentes e só os retirará quinze dias depois. Vovó Arlete que nos fez companhia no hospital vai conosco para casa. Ela mora em Maricá, ficará dando-nos apoio por uns dias, até que mamãe tire os pontos.

Nossa! Que quarto bonito! Todo decorado em branco e rosa. Meu berço é branquinho, na parede um painel, quadrinhos, cerquinhas com muitos bichinhos e flores, uma ursa bonitinha, um baú para guardar meus brinquedos e um móbile com música. Recebi as visitas de meu vovô paterno Luis e das priminhas Luana e Carol. Ainda aguardo os tios Marcello, Carla e as priminhas Caroline e Mariana. Vou tentar ser boazinha, mamar nas horas certas, dormir à noite e ficar acordada de dia. Se não for assim, papai, mamãe e vovó que me desculpem, estou iniciando a vida.


 

(07 de outubro/2006)
CooJornal no 497


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm