04/11/2006
Ano 10 - Número 501

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



ESCORPIÃO

 

Dizem que os nascidos sob a égide deste signo são pessoas de temperamento forte, ciumentas, envolventes e de extrema sexualidade.
Há quarenta e cinco anos, conheci numa quadra de vôlei minha cara metade, nascido em 2 de novembro no Estado de Sergipe, nordestino arretado que adora forró, músicas sertanejas e Vivaldi

Como a maioria dos meninos nordestinos, gostava de olhar os soldados em marcha, acompanhando o compasso dos pés deles, tentando imitá-los. Morava pertinho da família de Lampião e tinha como colega de classe a filha dele, Expedita Ferreira da Silva. Não deixavam a menina em paz, já que seu pai era “famoso” na cidade, sendo caçado pelos soldados da volante. A vida era difícil, sertanejo só se alegrava quando chovia e a seca trazia para a cidade inúmeros retirantes do sertão, pedindo aos moradores da cidade um pouco de farinha e rapadura. Nomízia, sua mãe, sempre arranjava um pouco para os pedintes.

Aos dezessete anos foi para Salvador e agregou-se à Marinha Brasileira, permanecendo lá por dois anos, quando em 1949 veio para o Rio de Janeiro, dando continuidade à carreira militar. Foram trinta e um anos de dedicação exclusiva às forças armadas, desempenhando suas funções com grande espírito patriota.

Acostumado à disciplina da caserna, quando veio para a reserva, ficou por demais decepcionado com tudo que acontecia aqui fora. As pessoas não cumprem o que prometem, não têm palavra, são ardilosas, sem qualquer respeito ao próximo. Até hoje, não conseguiu se enturmar com os civis. A maioria abraça a lei de Gerson , querendo sempre levar vantagem em tudo, não respeitando os demais.

Em casa, é mecânico, pedreiro, ladrilheiro, bombeiro, pintor, piscineiro, jardineiro, conserta tudo, está sempre preocupado em aprender algo mais e não deixa de freqüentar os cursos que são administrados por várias empresas que desejam com esses cursos, divulgar seus produtos de ponta. É uma tranqüilidade ter o marido envolvido com os reparos domésticos, além de economizar no orçamento familiar, tenho a certeza de que o reparo será feito da melhor forma possível e com muita dedicação.

Completando 75 anos, o abraço e me orgulho desse companheirismo de quarenta e cinco anos, relembrando as muitas dificuldades que a vida nos impôs e com união e vontade de vencê-las, superamos todas. Muitos Natais, Ano Novo, aniversários, passei sozinha com os filhos, as viagens eram longas, três a seis meses. Mas, aprendemos com as dificuldades, me virava como podia e nunca faltou nada aos filhos, nem atenção, nem amor, nem disciplina. Hoje, já não cobra tanto dos filhos, deixando que conduzam suas vidas, porque sabe estarem identificados com os valores que lhes foram passados por nós. Enfim, está feliz com a vida, conseguiu educá-los, vê-los formados e para nos distrair e alegrar fomos presenteados com duas netas, Caroline e Luise, dois botões de rosa que embelezam nossas vidas.



(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm