Recordar é viver, já dizia o poeta, há momentos na vida da
gente que relembrados, muitos anos depois, nos trazem grande satisfação, às
vezes emocionando-nos até às lágrimas.
Hoje, dez de novembro o Rio de Janeiro amanheceu triste, muita chuva, o céu
cinzento, as montanhas cobertas pelas nuvens, o frio e o vento nos fazendo
encolher os braços numa tentativa de se aquecer, os transeuntes com seus
guarda-chuvas driblando as poças d’água e o trânsito caótico.
Muito cedo, seis horas da manhã, viajei de Maricá em direção ao Rio. O ar
condicionado do ônibus a todo vapor, uns tossiam, outros se encolhiam e a viagem
prosseguia. Alguém pediu ao motorista para diminuir o ar condicionado, ele fez
de conta que não ouviu e continuou nos dezenove graus. Na ponte Artur da Costa e
Silva, mais conhecida como Ponte Rio-Niterói, procurei o Pão-de-Açúcar, acho
lindíssima a paisagem da Baía de Guanabara vista da Ponte, não o encontrei,
estava coberto pelas densas nuvens, o mar bailava com suas ondas de lá para cá,
sentindo falta do sol que quando o ilumina o faz tão azul.
Cheguei ao laboratório em jejum para a colheita de sangue, após o procedimento,
a fome apertava e me dirigi a Leiteria Mineira. Sempre aconchegante, limpíssima,
garçons educados, gentis, sentei-me numa daquelas mesinhas num canto da parede.
Vendo um senhor rondando o salão, perguntei ao garçom se ele era o dono, no que
me respondeu afirmativamente.
Se aproximou e entabulamos uma conversa agradável em que eu lhe contava as
lembranças queridas que aquele estabelecimento me trazia. Voltava aos anos
cinqüenta e me via ali com meu irmão nos anos dourados de nossa adolescência,
felizes com a liberdade vigiada que papai nos dava. Todos os domingos ganhávamos
de meu pai uma mesada para ir ao cinema e fazer um lanche. O cinema que mais
gostávamos era o CINEAC TRIANON. O Gordo e o Magro nos fazia rir muito, com
Oscarito e Grande Otelo quase chorávamos de tanto gargalhar.. Após o cinema,
entrávamos direto na Leiteria Mineira para saborear o creme com ameixa, de um
paladar sem igual.
Num desses domingos fomos ao Cinema Odeon, na Cinelândia. Antes de entrar,
compramos uns bombons para saborear durante o filme e esquecemos que o dinheiro
que papai nos dava era certinho: do cinema, do bonde e do lanche. Terminado o
filme, saímos faceiros direto para a Leiteria Mineira. Lá chegando, nos sentamos
e pedimos o de sempre, o creme com ameixas. Fomos servidos e no término veio a
conta, ao verificar o dinheiro para pagar, que surpresa desagradável, não
tínhamos o suficiente, gastamos com os bombons. Meu irmão muito sem jeito,
ofereceu o relógio como garantia e no domingo seguinte pagaríamos a conta. O
proprietário foi chamado e nos disse: vocês são fregueses de todos os domingos,
vão para casa e amanhã o seu pai passa aqui e paga a conta. Muito desconsertados
saímos pedindo desculpas. Ao chegar em casa, sem jeito, contamos o ocorrido.
Levamos um bruto sermão de papai que na segunda-feira foi até a Leiteria pagar o
que tínhamos consumido.
Ao ouvirem o meu relato, Srs. Francisco e Gaspar, atuais proprietários,
lembraram-se também do tempo em que a palavra valia mais do que o escrito.
Emocionados, me contaram suas vidas de muito trabalho e dedicação àquele
estabelecimento. De empregados passaram a proprietários pelo esforço, dedicação
e muito amor à casa em que trabalham por cinqüenta e seis anos. Sr. Gaspar me
contava com orgulho dos filhos que formou e da filha que hoje é Desembargadora
no Tribunal de Justiça. Apesar do tempo frio e triste, meu coração encheu-se de
alegria voltando aos anos cinqüenta com as doces lembranças dos momentos alegres
de dois meninos, eu e meu irmão.
(11 de novembro/2006)
CooJornal
no 502