11/11/2006
Ano 10 - Número 502

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



VELHOS TEMPOS

 

Recordar é viver, já dizia o poeta, há momentos na vida da gente que relembrados, muitos anos depois, nos trazem grande satisfação, às vezes emocionando-nos até às lágrimas.
Hoje, dez de novembro o Rio de Janeiro amanheceu triste, muita chuva, o céu cinzento, as montanhas cobertas pelas nuvens, o frio e o vento nos fazendo encolher os braços numa tentativa de se aquecer, os transeuntes com seus guarda-chuvas driblando as poças d’água e o trânsito caótico.
Muito cedo, seis horas da manhã, viajei de Maricá em direção ao Rio. O ar condicionado do ônibus a todo vapor, uns tossiam, outros se encolhiam e a viagem prosseguia. Alguém pediu ao motorista para diminuir o ar condicionado, ele fez de conta que não ouviu e continuou nos dezenove graus. Na ponte Artur da Costa e Silva, mais conhecida como Ponte Rio-Niterói, procurei o Pão-de-Açúcar, acho lindíssima a paisagem da Baía de Guanabara vista da Ponte, não o encontrei, estava coberto pelas densas nuvens, o mar bailava com suas ondas de lá para cá, sentindo falta do sol que quando o ilumina o faz tão azul.
Cheguei ao laboratório em jejum para a colheita de sangue, após o procedimento, a fome apertava e me dirigi a Leiteria Mineira. Sempre aconchegante, limpíssima, garçons educados, gentis, sentei-me numa daquelas mesinhas num canto da parede. Vendo um senhor rondando o salão, perguntei ao garçom se ele era o dono, no que me respondeu afirmativamente.

Se aproximou e entabulamos uma conversa agradável em que eu lhe contava as lembranças queridas que aquele estabelecimento me trazia. Voltava aos anos cinqüenta e me via ali com meu irmão nos anos dourados de nossa adolescência, felizes com a liberdade vigiada que papai nos dava. Todos os domingos ganhávamos de meu pai uma mesada para ir ao cinema e fazer um lanche. O cinema que mais gostávamos era o CINEAC TRIANON. O Gordo e o Magro nos fazia rir muito, com Oscarito e Grande Otelo quase chorávamos de tanto gargalhar.. Após o cinema, entrávamos direto na Leiteria Mineira para saborear o creme com ameixa, de um paladar sem igual.

Num desses domingos fomos ao Cinema Odeon, na Cinelândia. Antes de entrar, compramos uns bombons para saborear durante o filme e esquecemos que o dinheiro que papai nos dava era certinho: do cinema, do bonde e do lanche. Terminado o filme, saímos faceiros direto para a Leiteria Mineira. Lá chegando, nos sentamos e pedimos o de sempre, o creme com ameixas. Fomos servidos e no término veio a conta, ao verificar o dinheiro para pagar, que surpresa desagradável, não tínhamos o suficiente, gastamos com os bombons. Meu irmão muito sem jeito, ofereceu o relógio como garantia e no domingo seguinte pagaríamos a conta. O proprietário foi chamado e nos disse: vocês são fregueses de todos os domingos, vão para casa e amanhã o seu pai passa aqui e paga a conta. Muito desconsertados saímos pedindo desculpas. Ao chegar em casa, sem jeito, contamos o ocorrido. Levamos um bruto sermão de papai que na segunda-feira foi até a Leiteria pagar o que tínhamos consumido.

Ao ouvirem o meu relato, Srs. Francisco e Gaspar, atuais proprietários, lembraram-se também do tempo em que a palavra valia mais do que o escrito. Emocionados, me contaram suas vidas de muito trabalho e dedicação àquele estabelecimento. De empregados passaram a proprietários pelo esforço, dedicação e muito amor à casa em que trabalham por cinqüenta e seis anos. Sr. Gaspar me contava com orgulho dos filhos que formou e da filha que hoje é Desembargadora no Tribunal de Justiça. Apesar do tempo frio e triste, meu coração encheu-se de alegria voltando aos anos cinqüenta com as doces lembranças dos momentos alegres de dois meninos, eu e meu irmão.




(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm