25/11/2006
Ano 10 - Número 504

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



NOVA FAMÍLIA

 

Os pais estão sempre preocupados com os estudos dos filhos, desejando que todas as etapas da vida escolar sejam vencidas e consigam aprovação no vestibular para cursar a Universidade. Alguns anos depois, a emoção é grande ao assistirem a formatura dos filhos. Começa a longa caminhada para encontrar o emprego dentro da área que cursaram. Nem sempre conseguem, mas, de qualquer maneira, mão-de-obra qualificada sempre ajuda. Uns estagiam em suas áreas e têm a sorte de se efetivarem nos empregos, outros demoram um pouco mais. Os pais sempre atentos ao desenrolar da vida dos filhos dão-lhes conselhos de como devem se comportar nas empresas, diante dos chefes, relembrando as experiências dos seus longos anos de trabalho.

Outra etapa importante na vida desses filhos logo se apresenta. Moças e rapazes encontram seus pares e resolvem se casar. Os pais ajudam no que podem. A expectativa de encontrar o local para morar, se compra ou aluga, se a festa será num clube ou numa casa de festa, mil coisas para organizar.

As moças recebem de suas mães orientação sobre os novos desafios que irão encontrar e como deverão se portar após o casamento, devendo ser uma boa esposa, respeitar seu marido, seus futuros sogros, levando em conta a diferença de gerações. A família deve ser unida.

Com os rapazes os pais não têm a mesma preocupação. Não os aconselham a serem bons maridos, a respeitarem suas esposas, não sendo estúpidos, não usando de violência física ou verbal para intimidarem a companheira. Alguns, quando se casam continuam jogando o futebol de todos os sábados, não querem nem saber de participar dos afazeres domésticos e a mulher que se vire. Mulher é para isso, cuidar da casa, dos filhos e estar sempre pronta para atender o marido, pensam esses machões. que instalam a ditadura dentro do lar. A esposa não tem o direito de externar sua opinião. Se contraria o machão, coitada dela. O mundo cai sobre sua cabeça.

Quando a família da jovem mulher toma conhecimento dos fatos, costuma fazer de tudo para tentar melhorar o relacionamento do casal. Nessa tentativa, apela para os pais do cônjuge varão, colocando-os a par dos acontecimentos e pedindo-lhes aconselhar o filho a não ser tão agressivo com a esposa.

Geralmente os pais se sentem ofendidos, não querem que as mazelas do filho sejam mostradas e saem com a desculpa de que não costumam se intrometer na briga do casal, demonstrando que falharam na educação do filho, não o ensinaram a lidar respeitosamente com as pessoas, não souberam mostrar-lhes valores familiares que devem existir entre os que resolvem se unir, seja pelo matrimônio ou pela união estável. Brigas são normais entre os casais, mas, até para brigar é preciso ter respeito. Injustiça machuca demais.

Não se trata de intrometimento, mas de zelar por aquele lar que acaba de ser criado e o bom relacionamento do jovem casal será indispensável para que aconteça a reciprocidade no amor, que sejam parceiros na alegria e na dor, que se ajudem mutuamente nas horas difíceis pelas quais todos passarão. Um lar sem união é muito triste.

Em agosto deste ano, o governo sancionou a Lei 11.340 –Lei Maria da Penha, com o objetivo de diminuir o índice de violência contra a mulher. A violência doméstica não é um problema que se esgota na pessoa vitimada, as conseqüências se estendem a toda a família.

Para tratar desse problema criou-se o Centro Integrado de Atendimento às Mulheres – CIAM, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher –DEAM. Começou-se a denunciar os maridos pela violência doméstica, mas, o que se vê é sempre a mesma coisa: os maridos são chamados a Delegacia, muitas o perdoam e retiram a queixa, outras vezes o assunto é encaminhado ao JECRIM, Juizado Especial Criminal, onde o marido interpelado é condenado a pagar uma cesta básica como castigo. É o fim da picada! É incentivo para que o desgraçado continue agredindo sua companheira.

O presidente em campanha eleitoral, falou sobre a Lei Maria da Penha. As mulheres terão mais amparo, os maridos terão de sair de casa e ficarão presos se agredirem suas mulheres. O castigo da cesta básica acabou. Muito bonito em discurso, mas a realidade em nosso país é outra, tudo continua como antes. Uma professora que denunciou seu marido por duas vezes na Delegacia, foi morta na frente da filha de três anos, nada fizeram, não tomaram qualquer providência para inibir o covarde. Outra mulher, após denunciar por várias vezes, que seu marido portava uma arma em casa e que lhe espancava por ciúmes, ameçando-a de morte, constantemente, não obteve o amparo das autoridades que nada fizeram. Não agüentando mais, separou-se dele, este, não aceitou a separação, a mulher tinha mais é que ficar apanhando todos os dias. Assim, o infeliz seqüestrou o ônibus em que a esposa viajava e de revólver em punho, espancou-a violentamente na frente dos demais passageiros, ameaçando-os também.

É preciso que as autoridades tenham compromisso ético e moral, não ocupem apenas cargos, devem desempenhar suas funções com denodo. Quase metade da mão-de-obra brasileira é feminina, dessa metade, quase 20% sofre agressão física e pelas estatísticas, 5% dos problemas de saúde das mulheres entre 15 e 44 anos são atribuídos à violência doméstica. É preciso dar um basta nisso, não adianta Leis Maria da Penha, Gertrudes ou Alice, é preciso cumpri-las rigorosamente, levar a sério o que determinam e colocar na cadeia os covardes agressores.

Os rapazes precisam que seu pai lhe dê exemplos dentro de casa e o chame para conversar quando se prepara para o casamento, pois, muitos se casam sem qualquer noção do que é dividir com outra pessoa a mesma cama, o mesmo teto, e que ao dizer o SIM está selando com a outra pessoa um compromisso de respeito a sua individualidade, de carinho, de amizade, de companheirismo. As controvérsias existirão, mas o amor resistirá às intempéries do viver junto, saindo vencedora a compreensão e o desejo de constituir uma família feliz.



(25 de novembro/2006)
CooJornal no 504


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm