08/03/2008
Ano 11 - Número 571

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis



A SAÚDE

 

Quando jovens não temos muito tempo para pensar na saúde. Uma dor de cabeça de vez em quando, pois se abusa da cerveja, do drink, das noites mal dormidas, mas, tudo é festa. Qualquer distúrbio estomacal, temos vários remédios para curá-lo, a mídia nos enche de informação, é fácil resolver o problema, se não obtiver resultado, procure o médico, diz o anúncio. Abusamos no consumo de enlatados, gorduras saturadas, dos pastéis que são fritados no tacho do asiático da esquina com o mesmo óleo usado pela manhã à noite, acompanhado do caldo de cana moído sem muita higiene.

O tempo passa, amadurecemos, constituímos família e começamos a mudar os hábitos. Tememos morrer mais cedo e deixar os filhos desamparados, há uma preocupação em estar saudável, manter uma vida equilibrada, sonhar em ver os netos.

Já sou vovó e gostaria de pelo menos, assistir ao aniversário de quinze anos das netas. Faço as contas, estarei bem idosa, mas, olho para minha sogra com 94 anos, lúcida, ainda rindo das gracinhas dos filhos dos bisnetos e digo: - como seria bom chegar até lá com saúde, bom humor e esperança em dias melhores. É bom sonhar e desejo esta meta alcançar.

Procuro um médico ortomolecular. Chego ao consultório na Tijuca. Uma aconchegante casa de dois pavimentos, ambiente tranqüilo, atendentes gentis, cafezinho à espera das clientes num canto sobre a mesa. A recepcionista me diz que posso subir, a médica está à minha espera.

Sou recebida pela Dra. Regina Lúcia de Albuquerque, jovem senhora de semblante alegre, olhos brilhantes emoldurados por espessas e bonitas sobrancelhas. Conversamos bastante, pediu-me uma série de exames para que pudesse analisar minhas deficiências orgânicas e a partir daí iniciarmos o tratamento de prevenção.

Como a médica não trabalha com Plano de Saúde, e só o exame de sangue solicitado custava mais de um mil reais, apelei para alguns médicos conveniados que costumo consultar. Não consegui. Me disseram: - para quê tantos itens num exame de sangue? Essa médica está pedindo exames demais.

O cardiologista da família, falecido recentemente, já havia me dito que no café da manhã oferecido aos médicos pelos Planos de Saúde, solicitavam aos mesmos que evitassem pedir muitos exames, principalmente os exames de maior complexidade. Pergunto: - sem conhecer as deficiências orgânicas dos pacientes apontadas pelos exames minuciosos, como os médicos poderão bem medicá-los?

No Brasil a política é tratar e não prevenir as doenças. Como o sistema de saúde está um caos, nem tratamento o povão encontrará, haja vista o que assistimos pelos meios de comunicação. Continuamos a ser iludidos pelos Planos de Saúde, pelo governo e pela mídia. Se não temos o direito de fazer um exame mais complexo para detectar possíveis doenças e tratá-las, como esperar melhor qualidade de vida para os da terceira idade, se a maioria não tem condições de pagar um Plano de Saúde ou um exame de sangue?


(08 de março/2008)
CooJornal no 571


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm